sexta-feira, dezembro 13, 2019

Quatro meses na Irlanda




Alguns aspectos sobre meus quatro meses aqui na Irlanda:
O tempo está voando;
O inglês já não parece mais um bicho de sete cabeças, tudo vai dar certo;
Já me sinto uma Irlandesa, pois ando na chuva normalmente, sem me preocupar com sombrinha ou se vai molhar meu cabelo;
Descobri o quanto amo meus irmãos, pois choro de saudade deles quase todo dia;
Segundo o aplicativo do meu Iphone já andei 802,5km a pé aqui pela cidade;
Já tivemos nossa primeira nota e eu fiquei bem feliz;
Ainda é bem difícil entender um irlandês – exceto na Universidade – falando inglês;
O Nancy’s é surreal;
Já me sinto uma Irlandesa parte² pois aprendi a gostar de Guinness;
Estou me preparando para morrer de saudades dos meus amigos quando eles forem passar o Natal no Brasil;
Estou arrependida por não ter comprado uma passagem e ido passar o Natal em casa também;
Ainda não andei de bike aqui, então estou completando quatro meses sem pedalar;
Preciso urgentemente encontrar um cabelereiro, minha raiz tem 30cm;
Não vou ganhar nenhum presente de Natal esse ano;
Semana que vem será provavelmente a semana mais solitária da minha vida;
Eu realmente amo Limerick e a maneira como as pessoas são aqui;
Finalizamos nossas aulas de inglês e eu irei morrer de saudades de nossas professoras;
A Gra me pegou no amigo secreto;
Tenho saudades de escrever;
As vezes quando eu ando de carro eu enjoo, acho que ainda não acostumei com a mão inglesa;
Fui ao teatro e tudo estava indo bem, até que eu não entendi uma frase e fiquei boiando no final;
Já participei de um concurso de contos, mas ainda não saiu o resultado;
Meu cachorro nunca me reconhece quando falo com ele por chamada de vídeo;
Sempre que falo com minha vó choro;
Estou com saudades da minha mãe;
Tenho muita saudade dos meus amigos;
Não aguento mais olhar para as minhas roupas, parece que todo dia estou vestindo a mesma coisa;
Acho que o clima da Irlanda acentua minha TPM e eu fico insuportável, sério, nem eu me aguento;
O inverno está começando a mostrar sua cara e estou começando a ficar com medo de janeiro;
Eu vou toda segunda e terça na meditação com a Mamis, desde que cheguei aqui;
O pessoal da cantina da faculdade é muito querido comigo;
To sem criatividade para escrever meus textos mensais;
Beijos

quarta-feira, dezembro 11, 2019

Noruega – Oslo e Dobrak



A ideia de ir para a Noruega surgiu de uma forma meio inusitada:
- “Vamos escolher um país que a gente ainda não foi”.
- “ Isso, vamos pegar uma país nórdico”.
- “Pode ser”.
- “Ok, vamos para a Noruega”
- “Ok!”.
Claro, essa conversa nunca teria existido no Brasil, mas como estamos aqui na Europa, o “Mapa Mundi” parece um cardápio, a gente olha e escolhe qual país quer devorar, então logo que apareceu a oportunidade decidimos embarcar para o país dos vikings!
Tudo o que eu sabia sobre aquele local distante e frio se resumia em: país dos vikings; excelente qualidade de vida; fica na península Escandinava. Ou seja, eu tinha muito para conhecer e aprender por lá.  
A Noruega, pequena e orgulhosa de seu passado viking, criada entre gelo e mar é muito mais do que eu sabia sobre ela. É uma terra maravilhosa e os seus fiordes - golfos estreitos e profundos, delimitados por montanhas - dão um charme à paisagem, que mais parece o cenário de um filme que se passa em um lugar muito distante da nossa realidade.
A capital Oslo, é muito mais do que beleza natural ela é cheia de cultura, museus, parques e a noite se pinta de luzes e cores em seus bares cheios de muita gente bonita e drinks coloridíssimos.
Marcelo, Mari, Felype, Ro – nossa Mamis - e eu, embarcamos para lá dia 24 de outubro e ficamos até dia 28, o que foi o suficiente para conhecer boa parte das atrações de Oslo, fazer um passeio de barco pelos fiordes e ainda conhecer a charmosa cidadezinha de Drobak. O outono e suas cores, deixou tudo ainda mais encantador.
No primeiro dia chegamos a noite e fomos procurar um local para comer, acabamos encontrando o “Oslo streetfood”, um ambiente parecido com os já tradicionais “food parks” brasileiros, só que fechado e construído dentro de uma antiga casa de banho da cidade, a histórica Torggata Bad bem no centro de Oslo. Lá é possível encontrar gastronomia de todos os cantos do mundo, e também é certamente lá que se encontra a mais alta concentração de “homens gatos estilo vikings” da cidade. A única coisa que não foi maravilhosa, foi encarar a triste realidade de cada cerveja custar cerca de 13 euros – melhor nem converter para o real.
O dia 25 foi um dia de intensa caminhada, segundo meu aplicativo do Iphone, andamos 15,5km. Antes de sair para essa caminhada desenfreada, encontramos um local para tomar um super café da manhã... ainda hoje sinto saudades das batatas assadas e do bacon – sim, comi isso todos os dias no café da manhã.
Começamos o tour conhecendo praças e algumas igrejas do centro, seguindo pela movimentada rua Karl Johans Gate a caminho do “Palácio Real de Oslo”. O palácio cujo exterior representa simplicidade e pouca ostentação não deixa em momento algum de ser imponente, garantimos algumas fotos por lá, em meio a uma guerra com minha GoPro.


De lá, descemos até a parte mais próxima ao mar, para conhecermos o “Nobel Peace Center”, local onde anualmente é anunciado e entregue o Nobel da paz! O Centro também é uma arena onde a cultura e a política se fundem para promover o envolvimento, o debate e a reflexão sobre temas como guerra, paz e resolução de conflitos. O local estava em reforma, mas mesmo conhecendo o prédio apenas rolou uma certa emoção e já valeu a visita.
Estando naquele ponto é fácil contemplar a vista dos fiordes e sentir o vento gelado que vem do mar. Seguimos pela Orla até a Opera House, que é o centro de artes cênicas mais importantes da Noruega. O grandioso prédio foi inaugurado em 2008 e no mesmo ano ganhou um importante prêmio de arquitetura, é fácil entender o porquê; ele é realmente impressionante e está em harmonia com o cenário dos fiordes. A arquitetura moderna fica evidenciada em cada um de seus aspetos, tanto internos, quando externos. Subimos sua grande rampa e lá de cima, tivemos o sol dando um espetáculo e Oslo se revelando em toda sua plenitude para a gente.

Do Opera House, fizemos uma longa caminhada até o Munch Museet, dedicado ao Edvard Munch, pintor do quadro “O Grito”, que todo mundo que estudou no Silva Jardim conheceu nas aulas de artes. Foi legal ver o quadro de perto e tentar compreendê-lo. São tantas versões para o que ele significa, são tantas suposições e aspirações e... nada ficou mais claro vendo ele de perto, mas foi um prazer poder contemplar a obra de Munch.
No museu vivi uma intensa luta com os seguranças, que estavam preocupados com a distância que eu ficava dos quadros – óbvio, eles não sabem o quanto sou míope e que tenho visão monocular, então precisa ir perto para conseguir enxergar os detalhes. Mas o ápice mesmo foi quando eu fui tirar uma selfie com O Grito e para meu espanto o flash estava acionado. Sério, eu nunca uso flash. O resultado foi uma foto tipo “a vida imitando a arte”.
Edvard Munch é mesmo um gênio, mas preciso dizer que lá eu me apaixonei foi por outro pintor noruegueses, que pintava com tantos detalhes e com tanta realidade, que suas obras pintadas há cerca de 100 anos, parecem fotografias em alta resolução. Amaldus Niesen é seu nome, seu estilo era o naturalista e ele era capaz de eternizar o céu, com toda sua plenitude de luz e cores usando tintas e pincéis. Foi muito bom e inesperado conhecer suas obras.
Mortos de cansaço seguimos para casa, só saindo depois para jantar e dar uma passadinha no Streetfood, é claro. Peixes, especialmente o bacalhau são a base da culinária Norueguesa, mas ficamos mesmo no hamburguês, que tinha o melhor custo benefício para quem estava começando a achar que não era exagero todo aquele papo de ser muito caro viajar para países da escandinava.
No dia seguinte fomos acordados por uma serenata. Isso mesmo, uma serenata!!! Claro que não era para a gente, mas fomos nós que fomos até a janela ver o que estava acontecendo.
Depois do café  - bacon e batata -, pegamos um trem até o Vigelnag Park, recomendação de uma amiga da Mamis. O local é um parque repleto de esculturas, que estão dispostas ao longo de uma avenida com 850 metros de extensão. São no total 212 esculturas, retrando pessoas nuas em tamanho real. O parque pode incomodar algumas pessoas, pois as obras de arte representam a inerência da existência humana, como maternidade, fraternidade, trabalho, ira e sexo.
            A escultura central chama-se “The Monolith” e é composta por uma torre com 14 metros de altura, tendo 121 pessoas esculpidas em um único bloco gigante de granito. Li que as 121 figuras da escultura parecem estar escalando uma sobre a outra em direção ao céu, em uma espécie de metáfora sobre o desejo das pessoas em relação ao divino e ao espiritual.
            Tiramos muitas fotos e fiquei impressionada com a capacidade do artista retratar as expressões e o corpo humano em diversas idades. Algo impressionante, mesmo agora, olhando as fotos.
            Nos aproveitamos da beleza do parque - e do outono, é claro - para tirarmos algumas fotos antes de iniciar nossa saga, passando por diversos museus. Pegamos um ônibus - até hoje estamos tentando entender como fazia para pagar – e fomos até o Viking Ship Museum, um museu fantástico que abriga alguns dos últimos vestígios dos vikings. Lá pode-se encontrar alguns artefatos e até mesmo navios construídos por eles que foram um dos primeiros povos a desbravar o mar.
            Muitos dos artefatos contidos no museu foram encontrados em Oseberg, em 1904, dentro de um navio enterrado – enterrar navios junto com seus donos, guerreiros mortos ou nobres, era uma tradição dos vikinks. Além do próprio navio, construído em 820 D.C. que está exposto no vão central do museu dentro dele foram encontrados quatro trenós elaboradamente decorados, um carrinho de madeira ricamente esculpido em quatro rodas, três camas e vários baús de madeira, ferramentas agrícolas e domésticas. O navio fazia parte de um ritual funerário e dentro dele encontraram os corpos de duas mulheres. Especula-se que se travada do corpo da rainha Åsa, avó do primeiro rei da Noruega e sua escrava. Eu como uma apaixonada por história, fiquei boquiaberta com o passeio.


            Saindo do museu ainda passamos por outros dois museus, Fram Museun, Polarskip Museet, mas nesses entramos apenas na loja de souvenir, estávamos exaustos e não aguentaríamos outra visita.
            No dia seguinte foi a hora do tão aguardado passeio pelos Fiords. Foi mágico! Acredito que no inverno seja ainda mais fantástico, mas confesso que não sei se aguentaria o frio. Acredito que durante a viagem a temperatura estava bem abaixo de zero. Mas a paisagem era tão linda, que não conseguimos entrar, ficamos do lado de fora contemplando-a, com um ar frio, que parecia nos revigorar. Não preciso contar que minha imaginação foi longe e fiquei imaginando como era a vida ali, séculos atrás...
            Quando chegamos do outro lado, pegamos um ônibus – não sei quantas horas levamos – até Drobak que é uma pequena cidade, junto ao mar, típica da Noruega. Demorou para chegar, mas valeu a visita, a cidadezinha era um amor e deu para conhecer um pouco do “interior” do país.
            No outro dia pegamos um trem cedo para retornar para casa.
            Fiquei encantada pela viagem – apesar de provavelmente ter sido o país mais caro que já visitei. Foi uma oportunidade única e passei muitos momentos felizes lá, junto com meus amigos. As fotos são lindas, a paisagem por todos os ângulos era fantástica, mas foi ótimo voltar para casa.

Quando estávamos finalmente de volta a Irlanda, quase chegando em casa e vimos as placas anunciando que estávamos perto de Limerick, foi a primeira vez que pensei “Graças a Deus, estou voltando para casa”, pensando nessa cidade como meu lar.

quinta-feira, dezembro 05, 2019

Gender, sex and Feminist Pedagogy



The classes on October 15th and 16th were delivered by lecturer Tereza Mytakol on Feminist Pedagogy: From Theory to Practice.
The classes were very pertinent and provoked several reflections and repercussions in our group. It started with the teacher asking us about some aspects of our careers, for example: if we had regrets; what we were proud of and what we would like to change in Brazil education system. We found that most of us were proud and satisfied with the profession we chose for our lives.
The second round of questions gave us some idea of ​​what was coming next. They referred to whether in our opinion there was any difference between biological sex and gender. As a teacher I think this should be very clear in our heads. We should understand that one's sex is usually linked to a biological issue, how a person was born, the structure of their body, and gender refers to cultural, social and cultural issues.  We debated it in our group, even from the point of view of individual soul, how someone sees themselves in the world. It bothered me a lot to know that some of my colleagues fail to realize that there is a big difference between sex and gender.
Later in class, we began to analyze the gender and our experiences and our challenges in dealing with it. This is a very pertinent topic today worldwide. At this point in the class, the conversation was about sexism, gender prejudice, and also prejudice against those who have their gender different from their biological sex. Perhaps this discussion was one of the most disturbing moments of our entire stay here in Ireland. The speech of some colleagues bothered me to the point of crying with sadness. Their speech not only posited feminism as an exaggeration, an unnecessary struggle but also said that prejudice did not exist.
As a white, straight, cis person and from a privileged social class, I cannot say that prejudice does not exist just because I did not experience it. Prejudice exists and it has been killing daily in Brazil. One of my colleagues who mentioned the fact that he does not think there is prejudice against homosexuals lives in a Brazilian state where statistics show the highest number of homo related homicides in Brazil.
According to G1, an important news channel in Brazil, a homosexual is killed every 23 hours in our country. This piece of news is from last May. The same sad situation happens when I analyze some figures from in my state, Santa Catarina. According to data from the SSP (Public Security Secretariat), the number of femicides - cases in which victims were killed for being women - continues to grow. The reported cases increased from 25 between January 1st and September 2nd 2018, to 38 in the same period this year – a 52% increase.
Educators cannot just close their eyes to this situation. Naturally, this is not a simple matter to work on and it will depend greatly on the age and social context of each class, but ignoring these problems would not be a good thing if we wish to transform our reality. Therefore, these questions should be present in the hidden curriculum of the school and should be included as transversal themes.
To better address these issues we can use in our classes the themes presented in Feminist Pedagogy: From Theory to Practice. It could be a moment against actions that reproduce racism, gender prejudice and to be more focused on class consciousness. It is a practice that opposes the male, white and straight pattern.
We left the room and the discussion continued in our WhatsApp group. On the one hand, 90% of the class-conscious people who may see that we live in a world full of prejudice and injustice and it's up to us to fight it. On the other hand, there are those who think that feminine is an exaggeration and we are living in a world where prejudice is only opportunistic media.
Our second day of lecturer with Tereza we acquired much knowledge as well. We developed some projects to work in the classroom to try to teach our students all of the above questions discussed. But there is a question that is not silent within me: could some of my colleagues learn something about…?
This classes show how much these issues are necessary and pertinent to our background. If according to praxis, reflection generates reaction, surely we learned a lot in these two classes.


domingo, novembro 10, 2019

Limerick e o tempo




Lendo o título e conhecendo o clima da Irlanda você pode pensar que meu texto seja sobre dias chuvosos e nublados, mas não, ele não é sobre isso, não apenas sobre isso.
Meu texto é sobre a relatividade do tempo. É sobre o quanto ele pode voar e sobre o quanto ele pode demorar para passar. É sobre sentir saudade do que ainda não viveu, é se sentir saudosa pelo que não irá mais voltar a acontecer e por tudo que já ficou para trás. É sobre querer que o tempo passe rápido, mas torcer para que ele passe lentamente para dar tempo de aproveitar tudo.
Mas, meu texto poderia também ser sobre o tempo, clima por aqui... o tempo aqui em Limerick quase sempre é chuvoso e úmido, mas ao que estou vivendo cabe mais uma analogia com dias ensolarados e cheios de luz. Estou sendo muito feliz por aqui e continuo agradecendo por essa oportunidade.
Quanto aos dias nublados... infelizmente esses também existem. Tem dias que a saudade me deixa sem ar e minha única vontade é pegar um avião para casa. Teve também uns dias ainda mais nebulosos onde me questionei muito sobre o que estava fazendo aqui. Acho que a decepção e o sentimento vil da traição e deslealdade contribuíram para isso, mas como dizem, depois da tempestade vem sempre a bonança. O tic tac do tempo, mais uma vez colocou tudo em seu lugar.
O tempo que pode ser medido de tantas formas está somando três meses desde minha chegada aqui. E esse mesmo incalculável e indomável tempo já me transformou em uma Carol completamente diferente da pessoa que desembarcou aqui no início de agosto.
Três meses na Irlanda! <3 o:p="">


terça-feira, outubro 29, 2019

Eva Schneider em: O mistério da bica d'água


Eva Schneider em:
O MisTÉRio da Bica d
Água

Fazia duas semanas que Ceci havia optado por ficar na tribo de Pequi. Matilda chorara por três dias sem parar. Albert não se conformava, queria ir até a tribo e pegar a “filhinha”. O frei precisou intervir e alertar que isso seria muito perigoso. Eva e Sabu se culpavam, pois achavam que deveriam ter insistido, não permitindo que a menina ficasse lá.
A família não era mais a mesma sem a indiazinha. Para Eva, nada tinha graça, pois Ceci fazia falta em tudo. Sabu se via abandonado e quase não conversava com ninguém. O menino ia ficar doente. Bijuca, sentindo a tristeza de todos, também voava cabisbaixa, triste, desanimada.
Preocupado com a situação das crianças, o frei convidou-as para passarem uns dias na casa paroquial com ele. A escola do Barracão ficava próximo à igreja, então o frei falaria com a professora para que os dois assistissem algumas aulas, se distraíssem e tivessem contato com outras crianças.
Para espanto do frei, Eva e Sabu não se empolgaram como de costume diante do convite. Mas mesmo assim, concordando que poderia ser bom, Matilda e Albert permitiram que eles fossem com o frei para ficarem lá por alguns dias. Bijuca ficou no sítio e Albert se comprometeu a cuidar bem da ave.
No primeiro dia eles foram até a escola pela manhã e brincaram com as outras crianças na hora do intervalo. Sabu era muito bom jogando quilicas e ganhou muitas delas dos seus colegas. Algumas meninas vieram conversar com Eva, mas não adiantava, nenhuma era tão legal quanto Ceci.
Sabu fez um amigo e o apresentou. Ele se chamava Pedro e morava ali por perto. O pai de Pedro tinha uma charqueada[1] que ficava ali pertinho da escola, assim como a casa do menino. Muito falador, Pedro contou para Sabu que era um caçador de fantasmas e que desvendava mistérios. Ouvindo isso, é claro que Eva ficou interessada e quis saber das aventuras do menino. Ele disse que às vezes ia até o cemitério à noite e já tinha visto coisas que “até Deus duvida”. E que, apesar de ser muito corajoso, o único lugar que ele não se atrevia a ir à noite era até a tal da bica d’água, que ficava ali pelo Sombrio.
Eles passaram a tarde inteira brincando juntos. A mãe de Pedro era uma grande amiga do frei e sabia o que havia acontecido com Ceci. Tentando ajudar as crianças a se distrair, convidou-as para passarem a noite na casa dela e assim eles poderiam brincar até mais tarde.
A casa de Pedro ficava próximo à bica. A noite, Eva olhou pela janela e disse:
– Eu não tenho medo de ir até lá.
Pedro duvidou de Eva e provocou-a dizendo que à meia-noite ela teria que provar. Ela topou na hora, Sabu se animou e Pedro, para não passar por medroso, disse que se eles realmente fossem, iria também.
Não havia água encanada na comunidade do Sombrio. Todos pegavam a água que escorria pelo paredão de pedra e formava uma pequena fonte. Este era o lugar conhecido como bica d’água, que muitos acreditavam ser mal-assombrado[2].
Era uma noite sem lua, muito escura, fazia calor e, devido à estiagem, a água escorria devagar. Era apenas um fio.
Quem assombrava e assustava os moradores, diziam, era o cão encantado, o cão fantasma. Anoitecia, e as mulheres fugiam da tarefa de pegar água. Comentavam que enquanto esperavam para encher o segundo balde na bica, o cão aparecia e bebia toda a água do primeiro.
As crianças chegaram à bica e ficaram à espreita por bastante tempo, mas nada aconteceu. Eva, entediada e achando que aquilo tudo era uma grande bobeira, falou em tom de gozação:
– Ó cão maldito, te invoco! Venha até a bica.
– Você é louca? O que tá fazendo?
– Ora, ora, vamos para casa. Não tem nada por aqui.

Logo que colocaram os pés na estrada, deram de cara com um bicho preto, grande, com chiado na respiração, parecendo cansado. Seria um cachorro? Ficaram em dúvida. O animal passou a segui-los. Eva parou, pegou um torrão de barro da beira do caminho e jogou, bem de perto, no bicho. Para seu espanto o torrão não atingiu o bicho, que continuava a segui-los. Pedro, com medo, benzeu-se e rezou. Os três caminhavam, ele caminhava; eles paravam, ele parava. Não sabiam o que fazer. De repente, sem mais nem menos, o bicho passou para a frente das crianças e entrou em uma roça de milho recém-colhida.
Assim que o cachorro virou as costas elas correram desesperadas para casa, trancaram todas as portas e se jogaram na cama. Era uma casa grande, por isso a mãe de Pedro tinha colocado cada criança em um quarto.
Devia ser umas três horas da madrugada quando Sabu bateu à porta de Eva dizendo que não conseguia dormir porque ouvia um barulho forte, vindo do sótão, e que queria dormir na cama com ela.
Pela manhã, no café, todos ainda estavam muito assustados com o que haviam passado na madrugada. Eva perguntou a Pedro por que ele tinha retirado o quadro que estava pendurado no quarto, perto da porta. O menino disse que nunca houve quadro algum por ali.
Eva perguntou a Sabu se ele havia visto o retrato, e ele também disse que não. Entre surpresa e amedrontada, Eva contou o que aconteceu:
– De madrugada, quando Sabu veio para a minha cama, acordei e vi o quadro na parede. Era uma pintura bem grande de um homem aparentando uns quarenta anos, cabelos e bigodes avermelhados, chapéu-panamá na cabeça, com um colete marrom de onde pendia uma corrente de ouro atravessando o peito de bolso a bolso, dando a entender que era um relógio. Ele estava sentado e ao seu lado havia um enorme cachorro preto.
Pedro disse que nunca tinha existido nenhum quadro daquele tipo em sua casa.
            Intrigada, Eva procurou então dois moradores mais antigos, seu Jorge Franz e seu João Zilli, com o propósito de obter informações sobre a bica e sobre outros estranhos acontecimentos na vila. Ela precisava de respostas, pois tinha certeza do que havia visto.
            Os homens disseram que nessa casa, onde morava a família de Pedro, tempos atrás funcionava uma pousada para os viajantes. E justo nessa casa foi morto um hóspede, homem bem-apessoado e aparentemente rico. Depois de morto e roubado, esconderam o corpo. Foi na época da construção da ponte de madeira Emílio Kuntze. Investigadores contratados pelos familiares trouxeram um retrato para mostrar ao povo e conseguir algumas informações.
Eva perguntou se eles lembravam como era o homem.
            – Eu não lembro muito, pois já faz bastante tempo. Mas recordo de ser um sujeito robusto, ruivo e com barba.
Disse seu Jorge Franz.
            A descrição batia exatamente com o homem no quadro que ela tinha visto na noite anterior.
            Os dois continuaram a contar que, como muitos hóspedes saíam antes do amanhecer, os donos da pousada não sabiam o que dizer a respeito do desaparecimento do sujeito. Ninguém da comunidade sabia de nada. E o caso ficou por isso mesmo.
            Os homens também relataram a Eva que antigamente naquela bica d’água havia um banhado onde as pessoas atolavam os pés quando iam buscar água. Quando estavam fazendo a vala para secar o banhado encontraram um esqueleto, cujo vestuário era de boa qualidade. Tinha um casaco de couro e um chapéu-panamá, o que mostrava ter sido um homem de posses.
            Eva não precisava ouvir mais nada, já sabia o que estava acontecendo.
            Não existia coincidência nenhuma. O homem encontrado na bica era o mesmo do retrato que havia aparecido para Eva na casa de Pedro. E o cachorro que eles haviam encontrado na bica d’água só poderia ser o que aparecia com o homem no retrato. Meu Deus, eles tinham mesmo visto um fantasma!
            Eva contou tudo aos outros e eles concordaram com ela. Ela achou tudo aquilo muito estranho. O cachorro não era mal, mas o que ele queria? Ele não era uma ameaça.
            A menina ficou um tempão matutando, matutando, enquanto Pedro e Sabu se distraíam jogando quilicas, já que era sábado e não havia aula.
            De repente Eva levantou-se e disse:
            – Já sei. O Cachorro está querendo nos mostrar algo. Temos que voltar lá hoje à noite.
            – Você tá maluca? Se a gente já sabe que ele é um fantasma, para que voltar lá?   Perguntou Sabu, incrédulo com a proposta da amiga.
            – Você é doida, Eva? E vai que dessa vez ele nos ataca?
Rebateu Pedro.
            – Se ele nos atacar, a gente corre ué!
Disse a menina.
            – Não, eu não vou. Não adianta nem insistir.
Falou Pedro.
           
Eva não perdoou e disse esbravejando:
– Nossa! Não era você o caçador de fantasmas? O aventureiro do cemitério? Acho que você é um cagão, Pedro, e se você não for vamos sozinhos.
           
Sabu sabia o que isso significava. Ele sabia que pela reação da menina não teria saída. Teria que a acompanhá-la até a bica, pois quando ela colocava algo na cabeça era muito difícil conseguir tirar.
           
Vendo que Pedro não teria coragem de acompanhá-los a menina disse:
            – Vamos embora Sabu, não quero mais brincar com meninos sem palavra, que mentem que são caçadores de fantasmas mas têm medo de um cachorrinho.

Eva estava sendo cruel, pois na verdade não se tratava de um cachorrinho e sim de um imenso cachorro fantasma.
            Pedro ainda tentou argumentar, mas Eva deu as costas, pegou suas coisas e voltou para a igreja. Ela e Sabu combinaram que perto da meia-noite sairiam para ir até a bica. Tinham que sair de casa sem que o frei percebesse. Mas não teriam problemas quanto a isso, já que ele tinha um sono pesado.
            A noite estava muito escura e não existia uma viva alma pela rua. Sabu segurava uma vela para iluminar o caminho sem muitas casas da igreja até a bica. Em uma curva escura, pulou algo do mato.
            – Achei que vocês não vinham!
            – Peeeeeeeeeeeeedro! Quer me matar do coração?
Falou Eva, se recompondo do susto.
            – Ué, não é você a menina corajosa que não gosta de andar com cagões? Está com medo?
            – Ahh! É diferente!
            – Bom, vamos pegar o fantasma?
            Pedro tinha repensado e resolveu que ajudaria a descobrir qual o mistério da bica.
            Chegando no local Sabu disse:
            – E agora, a gente faz o quê?
            Eva respondeu:
            – Nós esperamos! Ele há de vir.
            O tempo passou e nada do animal aparecer. A bem da verdade Eva estava começando a suspeitar que o bicho não viria. Foi quando começou a baixar uma densa neblina. O silêncio imperava e, ao longe, começaram a ouvir um chiado de respiração e um vulto apareceu na bruma. Era ele, era o cachorro do retrato!
            Eva ficou imóvel, tentando controlar seu medo e não correr. Pedro puxou um crucifixo e um rosário do bolso e começou a rezar a Salve Rainha. Sabu, branco de medo, manteve-se estático mas pronto para correr a qualquer instante.
            O bicho continuou vindo em direção aos amigos, passo por passo, até se colocar bem na frente de Eva, que gaguejando falou:
            – O ooi, tuuuuu tu-tu-tu-tu-tu tudo bem? O que vo vo-vo-vo-cê você quer com a gente?
            O bicho olhou fixo para os olhos da menina e quando ela fixou o olhar nos olhos do animal viu labaredas de fogo no lugar das pupilas. Virou estátua. O animal, calmamente, deu as costas e seguiu para a roça de milho. Os três se entreolharam. O cão parou, olhou para os três e adentrou no milharal.
            – Acho que ele quer que a gente o siga.
Disse Sabu.
           
O bicho atravessou a roça, parou na margem do rio e começou a cavar. Mas a terra não saía quando ele passava as patas. Ele era um fantasma.
            Bastou um olhar de Eva para que Pedro se aproximasse do cão e começasse a cavar com as mãos no lugar indicado pelo bicho. Eva e Sabu fizeram o mesmo. O cão se sentou e aguardou.
            Cavaram, cavaram e Eva tinha medo do que poderiam encontrar. Temia acharem um corpo enterrado ali.
            O buraco já estava fundo quando algo enroscou no dedo de Eva. Era uma espécie de corrente. A menina a puxou e percebeu se tratar de um relógio de bolso. “Meu Deus, era o relógio do retrato”. O cachorro abanou o rabo. Ela limpou o relógio, que parecia ser mesmo de ouro. Estava bastante sujo, mas usando a blusa Eva limpou-o e leu na parte de trás a frase: “Pertencente à família Limenkhul”.
            – O que faremos com ele?
Perguntou Sabu.
           
Eva olhou para o cachorro esperando que ele desse a resposta. O bicho saiu caminhando, olhou para trás e esperou que os três o seguissem. Caminharam até a casa do delegado, que a esta hora com certeza dormia.
Eva disse:
            – Entendi! Você quer que a gente entregue o relógio para o delegado e que ele seja entregue para a família? É isso?
            O cachorro deu dois latidos altos e abanou o rabo. Eva respondeu:
            – Tá certo, você tem minha palavra que amanhã, ao raiar do dia, entregaremos o relógio ao delegado e ele irá devolvê-lo aos Limenkhul.
            O cão encarou Eva com seus olhos de fogo, virou as costas e sumiu na neblina.
            Os três marcaram de se encontrar logo cedinho e contarem a história ao delegado. O homem a princípio não acreditou muito, mas, ao ver o relógio, se rendeu, boquiaberto. Ele disse que a família do senhor Januário Limenkhul – que era como se chamava o homem do quadro – continuava vindo pelo menos duas vezes por ano para a cidade em busca de notícias. Esse era um relógio muito valioso para a família, estava com eles há gerações e certamente ficariam muito felizes por tê-lo de volta. Quanto ao cachorro o delegado nada sabia, pois o cão não veio com Januário para o Barração. Mas soube que assim que o dono desapareceu ele morreu de tristeza. Ficou espantado ao perceber que o cachorro, mesmo depois de morto, havia encontrado seu dono. Agradeceu às três crianças dando-lhes parabéns. Disse que deixaria o caso em segredo para que as pessoas não ficassem com ainda mais medo de andar pelas ruas durante a noite.
            Já era hora de ir embora! Contaram tudo ao frei, que, como não acreditava em assombrações e sem o relógio como prova, não colocou muita fé nas crianças.
            Sabu e Eva se despediram de Pedro e ficaram felizes por terem encontrado um novo amigo.
            Frei pegou a carroça para levá-los de volta para casa. No portão já estavam Albert, Matilda e Bijuca esperando pelos três. Eles já saltaram da carroça por ali mesmo e todos se abraçaram com carinho.
            Sabu chamou atenção para uma carroça que estava vindo pela estrada. Eva se esforçou para reconhecer quem era e, à medida que a carroça se aproximava, reconheceu o filho de Heide guiando os cavalos e na parte de trás estava Heide com alguém parecendo doente, deitado em seu colo...


[1] Local onde os animais eram abatidos, espécie de açougue.
[2] A história da bica d’água foi baseada em textos contidos no livro “José de Campos – Uma história para contar”, escrito por Celita Irene Campos Angeloni.