segunda-feira, abril 13, 2020

8 meses - Saudade daquilo que a gente não viveu


Nunca esperei completar meus 8 meses em Limerick nessa situação, isolados, repartidos, desolados...
O Neymar estava certo, “saudades daquilo que a gente não viveu”, foram tantos planos, tanto da nossa amada Irlanda que deixamos para conhecer depois e depois os planos mudaram e as possibilidades escorreram por nosso dedos.
Realmente, somos meros peões nesse jogo, essa foi a maior prova. Simplesmente não tivemos escolha e sabemos que tudo foi conduzido para que nós ficássemos seguros à salvo.
                Agora vejo o tempo correr através da janela do meu quarto. As árvores que já vi com os galhos secos, outras vezes cobertas de neve, hoje começam a florescer, deixando tudo ainda mais bonito.
O céu de Limerick, que sempre me encantou, nessa primavera trocou o cinza dos dias chuvosos por um azul sem igual, com dias ensolarados e finais de tarde igualmente “gorgeous”.
Nesse último mês, sem a Universidade, sem a biblioteca, a academia, sem o Dolans para ouvir música Irlandesa e o Nancy’s para ver os Irlandeses nossos dias parecem durar uma eternidade. Temos muito o que estudar, mas é impossível ficar o tempo todo na frente do P.C. e para não pirarmos, temos recomendações de tentar espairecer… tenho caminhado. Nessas caminhadas tenho conhecido uma Limerick diferente, talvez até diria mais rural e cada canto dessa cidade me encanta. Nesses passeios surgiu até a inspiração para um romance.
Limerick será cenário do meu próximo livro, meu primeiro romance, tenho noção de que não sou nenhum Frank McCourt que conseguiu mostrar Limerick para o mundo inteiro quando escreveu Angela's Ashes, mas essa cidade que tão bem me acolheu me inspira tanto, que não posso deixar de aproveitar isso.
Ah Limerick, nós ainda temos muito para viver juntas!

segunda-feira, março 30, 2020

33


Eu gosto tanto de fazer aniversário que eu mesma venho me desejar parabéns! =)
Três sempre foi o meu número da sorte, então o que posso esperar para esse novo ciclo que está chegando é sorte em dobro, afinal 33.
Esse é o primeiro ano que passo o meu aniversário longe de Alfredo. Sem comemorar com minha família, com meus amigos, sem receber inúmeros beijos e abraços e o carinho que eu amo tanto sentir nesse dia.
Quem me conhece sabe o quanto eu gosto de fazer aniversário e o quanto essas demonstrações de carinho e afeto são importantes para mim. Eu sei que será um dia difícil, mas sei que irei rir e me emocionar na frente do computador ou celular algumas vezes, sentindo o amor através das palavras de quem tá longe.
Quando eu fiz aniversário ano passado e me auto-desejei muita felicidade eu não sabia o que estava por vir e não posso reclamar de nada, esse foi um ciclo muito generoso para mim. Conheci muita gente inspiradora, lugares onde sempre sonhei estar, mudei de continente e acredito até que tenha reencontrado locais e pessoas de outras vidas. Certamente eu sou uma outra Carol, tudo o que vi e vivi enquanto tinha 32 anos me modificou completamente.
Foi um dos melhores anos da minha vida. Foi cheio de desafios, onde eu precisei ter muita coragem para deixar minha zona de conforto e tudo o que me era familiar para crescer, para viver algo completamente diferente e novo. O novo sempre assusta, mas é transformador.
Hoje, transformada, entro nos 33 anos. Me sinto velha, bem velha, mas foram esses anos vividos, todas essas experiências que fizeram de mim quem sou hoje. Acredito que eu ainda precise evoluir muito, aprender muita coisa, me tornar alguém melhor em muitos sentidos, mas estou no caminho e gosto de quem eu sou.
Bom, sempre que eu escrevo um recado de aniversário eu desejo um monte de coisas bem clichês no final, então, no meu recado de aniversário eu não poderia fugir desse padrão!
Não vou desejar muitas coisas, apenas que quem eu amo tenha saúde para que eu continue recebendo amor, que eu aprenda com meus erros e que essa minha nova idade seja repleta de sorrisos, de aprendizado e de muito amor, pois no final de tudo, só o que importa são os laços que criamos e os afetos que conquistamos durante nossa jornada.

domingo, março 29, 2020

Limerick e meu coração partido

Ilustração: Janaína Andrade 

“As cidades estão desertas como nunca estiveram
Todos tem medo do que está pelo ar
Os planos que nós tínhamos foram por água abaixo
Nossa vidas estão adiadas
Mas eu sei que no fim tudo ficará bem”

Duas semanas atrás tudo isso que estamos vivendo hoje parecia com o enredo de um filme, um filme que eu não nem teria vontade de assistir.
Estávamos cheios de planos, terminando as observações com nossos supervisores, íamos conhecer mais algumas escolas, as aulas estavam cada vez mais interessantes...
Os planos para a páscoa começavam a tomar forma, tínhamos tanto da Irlanda e da Europa que ainda precisávamos conhecer. E eu estava animada para escolher o que comeria para comemorar meu aniversário, pois foi me dado o direito de escolher o cardápio.
Em quinze dias todos os planos mudaram, tudo ficou diferente por aqui. Agora nosso maior companheiro é o silêncio do Courtbrack, o silêncio que grita o medo de nossos corações, corações que agora estão partidos.
Partidos como esse ano que foi interrompido;
Partidos pelo medo de pegar o vírus ou ver quem amamos doente;
Pelo eco dos corredores vazios;
Pela perspectiva de passar o meu aniversário sozinha;
Pela falta de abraços, beijos, risadas e leveza;
Partido pela falta de tudo que era familiar.
Da pra sentir falta até do tumulto da cozinha na hora da janta, de passar pela sala desviando dos nossos Irishs e do barulho deles chegando a noite, mas a falta que mais sinto, são dos meus colegas que voltaram para o Brasil e deixaram o bloco F vazio.
O vazio do F17 me deixou órfã, sem minha “mamis”, orientadora, maga dos signos, companheira de Guinness, a pessoa que mais me passava segurança e para quem eu enviava memes e vídeos e sabia se eram engraçados ou não quando ouvia a risada dela, sim as paredes aqui são finas.
O F20 me faz falta toda hora, perdi minha companheira de todos os jantares, de todas aulas, de muitas conversas, postergação, de receber conselhos e dos melhores almoços de domingo.
Não ouço mais os funks do F14, nem posso abrir a porta para a sua moradora entrar no F18, sentar no chão e ouvir as histórias que eu tenho para contar, ou contar as histórias dela, certamente a melhor companhia para qualquer pub da cidade.
Saudades de babar pelas comidas do F3 e do F19, de ouvir as longas e divertidas histórias do F2; deixar o F1 apavorado falando sobre as novelas que eu cresci assistindo; do som do violão tocado pelo F4 e que agora está mudo em meu quarto. Saudade de todos os Fs que se foram. Vocês fazem muita falta!
O Corona não levou apenas meus amigos e mudou meus planos, ele também interrompeu uma outra história linda, que estava começando e que desejo que tenha força para resistir a esse vírus.
Em mim, o principal sintoma do Corona é meu coração partido. Partido pela falta, pela saudade, pelo desespero e aflição de não saber como será o amanhã de quem eu amo.
Eu espero que quando isso tudo passar, a gente finalmente possa voltar a sorrir!

sexta-feira, março 27, 2020

15º DIA DE QUARENTENA


Estou entrando em meu 15º dia de quarentena e acho que já estou bem afetada.
Eu morava em um lugar com outras 97 pessoas, uma acomodação estudantil da Mary Immaculate College, mas hoje estou vivendo aqui apenas com mais 6 pessoas, e estamos tentando nos manter isoladas uma das outras. Me mudei provisoriamente para um novo quarto, em um corredor só para mim. - Sim, eu tenho medo de ir ao banheiro à noite, é óbvio.
Divido boa parte dos meus dias entre ler os artigos da pós-graduação e passar raiva na frente do computador lendo os absurdos e asneiras ditos por um certo político e propagado por outras tantas pessoas, que ainda não entenderam que se voltarmos para a rua agora, em duas semanas seremos obrigados a ficar em casa e ainda estaremos chorando pelos nossos entes queridos mortos. 
Nesse período de quarentena fico também tentando não começar a escrever um novo livro, pois seria um caminho sem volta e eu preciso estudar.
Como tenho muito tempo livre fico também fazendo uma profunda análise para entender qual é a de São Pedro ou a de Saint Patrick que resolveram que não vai mais chover na Irlanda. Sério, a única certeza que eu tinha aqui era a de que iria chover, em algum momento do dia iria chover… mas hoje… até essa certeza me foi tirada e eu que estava tão saudosa do sol, agora que ele está aqui comigo, posso vê-lo apenas pela janela. Fico fazendo tudo isso tomando chá, já que estou há 8 dias sem beber coca-cola. 
A primavera chegou no hemisfério norte, mas com ela não vieram apenas flores, veio também o vírus… vírus que levou para outros continentes boa parte das pessoas que eu amava aqui. Vírus que está começando a me deixar apavorada. Apavorada por pensar que nós brasileiros estamos entrando nessa terrível tempestade com alguém tão despreparado guiando nosso barco. 
Essa constatação me faz lembrar que na última semana o presidente aqui da Irlanda fez um pronunciamento, que mais parecia uma luz, parecia um abraço para quem estava desesperado, ele afirmou que o estado - como todo estado tem a obrigação de fazer - fará sua função, a de ajudar seu povo perante a crise e finalizou o discurso com a frase: “Vamos ficar juntos como uma nação, mas separados uns dos outros” e era esse o discurso que todo líder responsável deveria estar adotando.
Como eu já disse, a primavera chegou... mas parece que estamos no outono, com tudo morrendo e uma tristeza misturada com melancolia pairando no ar. 

FIQUE EM CASA


Eu estou começando a ficar DESESPERADA aqui.
Aqui na EUROPA a ordem é ficar em casa para tentar diminuir a velocidade do avanço do vírus. O que se vê são os GOVERNOS incentivando e auxiliando para que isso aconteça, pois é a única coisa a se fazer, INFELIZMENTE.
Enquanto isso no BRAZIL algumas pessoas simplesmente não acreditam nisso e dessa forma colocam ainda mais gente em risco. Isso é muita IRRESPONSABILIDADE.
Essa gripezinha não é um problema, pois só morrem idosos, né?
Eu não quero que meus IDOSOS morram. Eu não quero banalizar a VIDA deles como se não tivessem nenhum VALOR. Eu não quero que a gente chore a morte de nossos AVÓS como se fosse algo normal, quando a gente pode sim fazer algo para defende-los. Não só eles, pois acreditem JOVEM também morrem. Mesmo os que tem histórico de ATLETA. Mais de 20 MIL VIDAS já foram perdidas e esse é apenas o COMEÇO!
Me desculpem se não estou pensando em dinheiro, na economia ou no RAIO que o parta, eu estou pensando em vidas. E são vidas que devem importar, se você não pensa assim, volte 3 casas nesse jogo, pois você está fazendo isso errado. ERRADO. Vidas importam mais do que dinheiro.
O mundo inteiro irá sofrer essa crise, INEVITAVELMENTE.   
Não desejo isso, mas como será quando essa gente que se apegou a ideia de “defender a economia” estiver chorando no velório de seus entes queridos? Desculpe, vocês não terão direito de se ARREPENDER.
A situação é muito séria e infelizmente irá piorar rápido no Brasil. Faça o que todo o mundo está fazendo FIQUE EM CASA!
FIQUE EM CASA POR FAVOR.

quarta-feira, março 18, 2020

Uma pandemia chegou junto com meus sete meses na Irlanda



Eu estar na Europa nesse momento certamente deixa muita gente preocupada.
Na última sexta-feira todas as escolas e universidades da Irlanda fecharam as portas e não se sabe quando irão reabrir. Nesse mesmo dia as pessoas foram aos mercados e esvaziaram as prateleiras. Estima-se que mais de 60% da população da Irlanda contraia o vírus! 
O vírus veio para marcar profundamente minha estadia por aqui. 
Ver como os Irlandeses estão lidando com a pandemia é inspirador. O senso de responsabilidade coletiva é muito mais presente aqui do que no Brasil. Várias ações estão sendo desenvolvidas para tentar conter o avanço da doença. 
Os PUBs estão fechando - dizem que até então, apenas Deus teria esse poder - os irlandeses estão fechando pubs, cafés, restaurantes... Os comerciantes estão perdendo dinheiro, mas eles estão fazendo isso para que o corona não ceife ainda mais vidas. Isso é pensar nos outros e eu estou tendo uma aula sobre isso estando aqui durante esse período.
É egoísmo meu falar que o Corona ta fazendo um estrago na minha vida, quando sei que ele ta afetando de maneira muito pior a vida de tantos outros, mas à partir de amanhã o vírus dará uma nova cara a minha estadia aqui na Irlanda.
Eu pensei que o cancelamento das comemorações de San Patrick’s day, que contei os dias e sonhei muito em ver, seria a pior coisa que aconteceria, mas estava redondamente enganada. 
Muitos de meus colegas, a minha família Irlandesa, eles estão voltando para o Brasil. SIM, VOLTANDO PARA O BRASIL! O curso irá continuar online pelo menos pelo resto do semestre... tenho certeza de que ainda voltarei a ver alguns, mas tudo o que vivemos aqui no Courtbrack começa a ficar no passado. Não to sabendo lidar com essa nostalgia que já se tornou minha maior companheira, mas isso será assunto para outro texto.
A previsão é que os aeroportos fechem em breve e existem rumores de que os mercados e lojas também irão fechar nos próximos dias. A quarentena por aqui está sendo levada a sério e me irrita muito quando vejo alguns brasileiros postando que “é só uma gripe”, “não faz mal, não to no grupo de risco”, “isso é invenção da mídia”, “vou aproveitar as férias/quarentena para viajar” isso tudo é uma mistura de falta de informação, com egoísmo e a inexistência de bom senso. Essa pandemia é real e ainda vai matar muito mais gente e isso é terrível, precisa ser encarado como tal. O que estou vivendo aqui é completamente inédito para mim, parece coisa que acontecem nos filmes, estou ansiosa e um pouco assustada, mas me sinto segura.
 Certamente não era assim que eu esperava escrever meu texto de sete meses na Irlanda, um mês em que tantas coisas lindas aconteceram em minha vida, um mês tão especial, que infelizmente se transformou em um período em que tenho que me despedir de muitos de meus amigos e infelizmente ter a certeza de que nada será como antes. 

Estando sete meses aqui não acho precipitado dizer que nunca mais conseguirei tirar a Irlanda da minha vida. Eu amo a Irlanda, mas definitivamente odeio o Corona virus!  

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

Seis meses em Limerick!


Quem diria, completei seis meses longe da minha casa no Brasil. Seis meses em Limerick, esse lugar que desde de que coloquei os pés aqui pela primeira vez, em 2018, senti como se também fosse meu lar. 
Nunca me imaginei vivendo longe de Alfredo, longe do Brasil, mas hoje não consigo mais imaginar minha vida sem Limerick. Li no twitter: "I don't see my life without Limerick" e me identifiquei na hora. Eu sinto como se sempre tivesse aguardando o momento de vir para cá, de “voltar” para essa cidade que de forma inexplicável sempre fez parte da minha vida e que agora tendo vindo para cá, nunca mais serei a mesma. 
Nesse meio ano por aqui, já aprendi muito e não estou falando apenas da vida acadêmica, estou falando também de aprender mais sobre mim mesma. Aprendi a me ver com outros olhos, observar melhor minhas falhas e saber do que sou capaz. Aprendi muito sobre os outros também, o quanto eles podem ser generosos, amorosos, acolhedores e até mesmo invejosos e mesquinhos. Mas o fato é: se eu for colocar em uma balança tudo de bom e ruim que vivi aqui até agora, as coisas boas são infinitamente maiores do que as ruins e isso me deixa muito feliz. Ontem uma amiga me falou “tu tá numa fase muito boa da vida né?” e a resposta é: Estou! A irlanda tem sido muito boa para mim e é por isso que quando não estou aqui, já sinto saudades.
Durante esses seis meses, tive férias e fiquei quase um mês longe de Limerick, a saudade foi grande, mas quando aterrissei no aeroporto de Dublin, meu coração já começou a se sentir em paz, pois aqui me sinto acolhida, em casa.
Para mim o povo da irlanda é o mais querido de toda a Europa! Não conheço outra gente tão amigável, solícita e encantadora. É sério! Tem muito europeu que vive de fato o “eurocentrismo” e acha que é melhor do que qualquer um, principalmente melhores do que nós da América do Sul, mas aqui na Irlanda nunca senti isso, muito pelo contrário, só tenho a agradecer a maneira como os irlandeses tratam a mim e aos meus colegas. E como já falei em outro desses meus textos, apesar de todas as diferenças vejo muitas semelhanças entre irlandeses e brasileiros. 
Acho que Limerick também gosta da gente e quis comemorar nossos seis meses aqui, nos dando um presente. Neve! A neve que tivemos, não pode ser chamada de nevasca, mas os flocos que caíam já foram o suficiente para fazer a alegria dos brasileiros. É incrível, todo mundo volta a ser criança: guerra de bolas de neve, tentativas de construir bonecos, anjos, rodopios e muitos suspiros de emoção são encontrados nessas ocasiões. Não tem nevasca, mas tem avalanche de novos stories, todo mundo quer registrar de todas as maneiras possíveis esses momentos de profunda alegria. Não poderíamos ter recebido um presente melhor! 
Para finalizar, a palavra por esses seis meses continua sendo gratidão! Gratidão é o que sinto todo dia por ter tido a oportunidade de estar aqui. Oportunidade de estudar na Mary Immaculate College e de ter conhecido tanta gente incrível e inspiradora - meu colegas e professores. Gratidão e alegria pelas pequenas coisas, como poder escolher entre as centenas de pubs o local para tomar uma Guinness, ver o pôr-do-sol pintando as águas do Shannon,  passear pelo Milk Market e sentir todos os seus aromas ou poder ir ao Nancy’s e sempre viver o que chamamos de experiência antropológica. 
Gratidão por terem me permitido viver Limerick!

sábado, fevereiro 08, 2020

Mas é uma Praga!


       
 Eu estava viajando já há algum tempo e a República Tcheca era meu último destino, finalmente eu estava chegando ao meu 30º país visitado e quando falei pra minha mãe que estava indo para Praga ela disse: “Tchecoslováquia” e caiu na gargalhada. 
Quanta maturidade!
Ela me contou a história de quando ouviu esse nome pela primeira vez em uma aula de geografia e a turma toda achou muito peculiar e caiu em um riso sem fim. Estamos falando de um tempo longínquo em que Alfredo Wagner não era ainda nem cortada pela BR282 e eles estavam estudando sobre o socialismo que ainda estava presente em boa parte da Europa. Pelo visto ela ainda acha graça no nome, mas lá se vão mais de 30 anos. O socialismo caiu e a Tchecoslováquia deixou de existir, dando lugar a República Tcheca e a Eslováquia, mas aparentemente o que não mudou foi a atração que Praga provoca nas pessoas.
Provavelmente isso se trata de regionalismo, mas para mim quando alguém te chama de praga ou solta uma frase tipo, “Mas tu és uma praga”, boa coisa não é de se esperar. Eu tinha a impressão de que praga era sempre uma coisa ruim, as pragas nas plantações, as sete pragas do Egito, até que conheci “a cidade das 100 cúpulas” de perto e mudei completamente de ideia.
A cidade pulsa, se move, é cheia de cultura, de esculturas, possui uma arquitetura que mistura o moderno e o clássico e uma história longa e interessantíssima. Aparentemente tirada de um cenário de conto de fadas, a capital da República Checa é bem real e aguarda a sua visita.
Como disse Franz Kafka, um de seus mais ilustres filhos, Praga “não nos deixa ir embora, esta velha tem garras”.
Cheguei em Praga, capital da República Tcheca no final de janeiro. Tinha o frio como maior companheiro da viagem, mas a cidade logo me aqueceu. Tenho a impressão que poderia passar meses por lá, sem me cansar e me encantando cada dia mais. Acho que nosso santo bateu e aparentemente a cidade vem batendo o santo com o dos visitantes desde a idade média, pois são de lá alguns dos primeiros registros de pessoas que caíram de amores pela cidade.
Sem dúvidas, ela não pode ficar fora do roteiro de ninguém que planeja uma viagem por essa parte leste da Europa. É difícil definir o que mais me atraiu na cidade, mas acho que foi uma mistura de tudo. O charme das ruas históricas, as esculturas que enchem as ruas de arte, tudo lá é tão vivido, que tem até tem um prédio dançante!
A ponte Carlo com suas dezenas de esculturas, o Castelo - maior do mundo -, o antigo cemitério judaico, o relógio astronômico, os palácios, torres, igrejas, sinagogas, as cúpulas que hoje já são bem mais de 500 e Kafka, espalhado por todos os lugares. Há pelo menos três monumentos dedicados ao autor, mas o mais curioso deles é um busto de 11 metros composto de 42 camadas que se movem. Desta forma, pode ver o rosto do Kafka em várias posições. Para mim se permitem o trocadilho, é a perfeita metamorfose. 
Praga é para todos os gostos. E daqui para a frente, quando me chamarem de Praga, tomarei como um elogio!

terça-feira, janeiro 28, 2020

Os mistérios de Stonehenge



Stonehenge é um daqueles lugares que sempre sonhei em conhecer. Daqueles que me faziam querer pegar meu chapéu de Indiana Jones, colocar na cabeça e explorar. Junto com as ruínas da cidade perdida dos Incas, Macchu Picchu, o Coliseu, o que restou da cidade de Pompéia e as Pirâmides do Egito - que ainda não tive a oportunidade de conhecer - Stonehenge figurava no meu top 5 de locais históricos que eu mais queria conhecer em todo o mundo.


As tais pedras enigmáticas, provavelmente já estiveram na proteção de tela de muita gente que usava o Windows XP e o mistério em torno delas transpassa vários séculos. Hoje em dia, depois de muitos estudos arqueológicos realizados, algumas respostas já foram encontradas, mas muita coisa ainda permanece em meio a brumas desconhecidas.
O monumento pré-histórico, construído a mais de 5 mil anos, fica na Inglaterra. Estudos apontam que as chamadas “Pedras Azuis” pesando 4 toneladas cada, que compõe o círculo interno foram retiradas do País de Gales, assim como as pedras do círculo externo, ainda maiores, com cerca de 25 toneladas cada uma.
A questão é saber como os construtores neolíticos, usando apenas ferramentas de pedra, madeira e ossos, esculpiram os pilares de pedra de Stonehenge das colinas do oeste do País de Gales e como os transportaram mais de 230 quilômetros para a planície de Salisbury, onde se encontram. E mais, pesquisas recentes apontam que as pedras maiores, já fariam parte de um grande círculo de pedras no País de Gales, mas o monumento foi desmontado e reconstruído no país vizinho.
Então uma das maiores questões ainda sem respostas a respeito do círculo: Por que razão as pedras precisaram vir de tão longe? Geralmente pedras da região eram utilizadas para construção de círculos semelhantes. O que essas pedras têm de tão especial?
Outra questão importante diz respeito a maneira como essas pedras foram transportadas. Existem várias teorias que tratam sobre isso. Algumas pessoas até mesmo acreditam que Merlin, o mais poderoso Druida de todos os tempos, teria as transportado pelo poder da magia e tem também quem acredite - céticos rsrs - em algo bem mais sem graça:  que elas teriam sido arrastadas por toda essas distância, ou até mesmo transportadas por jangadas, durante parte do percurso.
Mas afinal de contas, por qual motivo elas foram construídas?
Elas serviam para recolher os dados a respeito do movimento de corpos celestiais. Além de regular o ciclo agrícola, é claro, existiam também as funções religiosas, dos celtas.
Em Stonehenge o principal eixo das pedras se alinha ao eixo do solstício. No dia mais longo do ano, solstício do verão, o sol nasce a nordeste e no solstício do inverno, o sol se põe no vão entre as duas composições de três pedras mais altas, uma delas atualmente tombada.
Hoje em dia os visitantes não podem ir até o interior do círculo e tocarem nas pedras, exceto em pelo menos duas ocasiões do ano, o solstício de Verão e o de Inverno. Acredita-se que nesses dias os celtas realizavam grande rituais no interior dos círculos. Hoje em dia nessas ocasiões o visitante entra às 19h e deve sair até às 7h, os visitantes costumam tocar as pedras, abraçá-las, fazem orações, cantam, tocam gaita de fole... Também nessas ocasiões grupos vestidos nas roupas tradicionais celtas e com flores na cabeça cantando músicas antigas, representando os druidas. Tudo bem estilo Outlander.
Infelizmente eu visitei o monumento exatamente uma semana depois do Solstício de Inverno e não tive oportunidade de experienciar isso, mas acho que ainda não desisti da idade.


Os mistérios de Stonehenge


quarta-feira, janeiro 22, 2020

Reino Unido e Leste Europeu



Cheguei ao final de mais uma viagem. Dessa vez não retornei para o Brasil e sim para a Irlanda e confesso, que o sentimento de voltar para cá encheu meu coração de paz e tranquilidade - por mais que isso deixei minha mãe brava, eu realmente amo Limerick.

Então vamos aos fatos:

Cheguei ao meu 30º país nessa viagem - quando eu chegar ao 50º quero escrever um livro; 
Passei 22 dias viajando;
Visitei 8 países, 7 deles pela primeira vez - Foram eles: Escócia, País de Gales, Inglaterra, Polônia, Hungria, Eslováquia, Áustria e República Tcheca; 
Estive em 13 cidades diferentes;
Andei 319 km a pé - sério, assim não tem bota que resista;
Conheci Stonehenge e Auschwitz, lugares que sempre sonhei em conhecer - impossível para quem ama história não querer conhecer esses lugares;
Vi muita neve - mas infelizmente ainda não realizei meu sonho de ver um monte dela caindo;
Passei muito frio; 
O Natal foi o melhor que eu poderia ter - estando longe de casa;
Não gostei de Vienna - não sei explicar direito porque, me pareceu “too much” e no meu ponto de vista, tudo que é demais estraga;
Me apaixonei completamente pela Escócia;
Vi o Arco Íris mais lindo da minha vida nessa viagem;
Descobri que tenho uma forte conexão com Edimburgo - fico me perguntando quantas vidas meu espírito já viveu, pois também acho que em passado distante vivi por lá;
Fiquei encantada com Budapeste - a vista da cidade do alto do Fisherman's Bastion, parece uma pintura, um quadro, parece qualquer coisa, menos real;
Bratistalava me surpreendeu, “CoNhEçO FaZ PoUcO TeMpO mAs JaH CoNsIdErO PaKas”, eu quase nem nunca tinha ouvido falar da cidade, mas bastou um passeio por suas antigas ruas para eu me envolver;
Comi muitos wraps do MC Donalds;
Conheci um bar super alternativo na Hungria; 
Vi gente entrando em um lago praticamente congelado na Krakow no dia 1º de janeiro - temperatura de -2, ideal para um mergulho;
Conheci muitos castelos em País de Gales;
Naveguei pelo Lago Ness - e não vi o monstro;
Me perdi dentro de um cemitério - no breu da noite;
Quase esquiei - mas acho que perdi o fôlego juvenil e só pensava que eu podia me machucar e não ia voltar para o Brasil tão cedo, então desisti da ideia;
Vi e vivi muita coisa linda que ficaram para sempre guardadas na minha memória, coração e se tudo der certo, nas próximas postagens! 


#rumoaos50 30/50

Roque: Mais um jovem anônimo que morreu na Segunda Grande Guerra? Não!



Estima-se que até quarenta e sete milhões de pessoas tenham morrido durante a Segunda Grande Guerra. Com certeza é uma página terrível de nossa recente história. Como sabemos não houve combate dentro do território brasileiro, mas o Brasil participou da guerra enviando cerca de 25 mil soldados – os pracinhas - para lutarem ao lado dos aliados norte-americanos contra efetivos de soldados alemães, em território italiano.
Desses 25 mil soldados, 443 morreram durante os combates, entre os mortos, o nosso Roque.


Os pracinhas mortos foram enterrados no cemitério da cidade de Pistoia, na região da Toscana, na Itália e as famílias brasileiras foram avisadas por meio de telegramas e posteriormente recebiam uma medalha de honra.
A história do Roque – Pedro Laurindo Filho -  podia nunca ter sido conhecida, ele poderia apenas figurar como mais um soldado do interior de Santa Catarina que encontrou seu fim em um lugar frio e distante de casa. Ele poderia ser só a história que os filhos da Dona Anna e do Seu Juquinha ouviram muitas vezes enquanto eram crianças:

“Minha mãe Anna ainda mocinha morava em Major Gercino.
Ela tinha uma tia analfabeta chamada Gina e um primo chamado Pedro Laurindo Filho. Para tristeza de toda a família o Pedro, para nós Roque, semianalfabeto foi convocado para lutar na Segunda Guerra mundial. Sem outra saída ele se apresentou com apenas 23 anos.
Ele era apenas um agricultor jovem e apaixonado.
Pois bem, o Roque foi pra Itália e na primeira batalha já perdeu sua vida.
Meu avô materno único que sabia ler, recebeu o telegrama e uma medalha agradecendo com pesar e alertando a família que o Roque morreu como um verdadeiro herói brasileiro. Meu avô chorava muito e teve que ler o telegrama para cunhada, mãe do Roque, tia Gina.” (Valda da Cunha Fujii)

Como uma mãe poderia aceitar que um filho morrera lutando em uma guerra que não era dele? A família inteira ficou muito abalada por essa tragédia.
O pobre Roque nem sabia direito pelo que estava lutando. Não tinha razões para matar os alemães, mas estava lá segurando uma arma, no lugar de sua enxada. Ele seria mais um jovem brasileiro que morrerá aos 23 anos de forma anônima na Itália?
Esse seria o final da história do Roque, mas ela ganhou um novo capítulo ano passando quando uma outra filha da Dona Anna e do Seu Juquinha, a Valdete da Cunha, encontrou a parte que faltava na história do primo.
Ela encontrou em um livro “Notas de um Expedicionário Médico” de Alípio Corrêa Netto, alguns relatos de médicos que trabalharam na Itália e lá estava registrado o último suspiro do primo.
“No dia 04/12/1944 ocorreram dois acontecimentos que marcaram esta data: um é triste e o outro auspicioso.
O primeiro está ligado ao rapazola operado anteontem. Já perfeita­mente bem, sem temperatura pouco elevada, respiração tranquila, embora queixoso de muita dor. Pela manhã sentiu ansiedade respiratória. O enfer­meiro nada nos comunicou, uma vez que eram bons o pulso e a pressão arterial. Ao passarmos pela enfermaria, antes mesmo de ir ao refeitório para a primeira refeição, notamos a dispneia do nosso ferido; preocupamo-nos, corremos para providenciar a aspiração traqueal, por parecer-nos certo que o sangue coagulado nos seus brônquios o sufocaria rapidamente. Não houve mais tempo num minuto morria, sereno, suavemente, conservan­do ainda a fisionomia inocente e meiga de um meninão em repouso. Pedro Laurindo Filho deu sua vida em defesa de um ideal, as suas feições pare­ciam indiferentes ao supremo sacrifício. O herói tombou desconhecido, o esquecimento pesará sobre seu túmulo.
Um soldado é nada quando a inconformidade leva os povos às lutas fratricidas, mas muitos corações enlutaram-se bem longe da cena dramática e as lágrimas correram também em silêncio.
O outro caso foi o reverso da medalha.”
O outro caso que o livro conta, trata de um soldado que chegou lá sem vida, mas como por um milagre, após já ter recebido atestado de óbito voltou a viver.
Dois casos completamente opostos. A família do soldado americano vibraria, mas a família Laurindo ficaria com uma ferida aberta e demoraria 75 longos anos para saber como de fato terminou a vida de Roque.  
Hoje os restos mortais de Roque encontram-se enterrado no Cemitério dedicado aos heróis da Guerra no Rio de Janeiro e a família Cunha continua indo lá. Para orar pelo primo que nunca conheceram, mas que sempre fez parte de sua vida, através da triste história do menino do interior que morreu lutando em uma guerra que não era dele, contada por Dona Anna e que hoje pode ser conhecida por todos.
“Não era pra ele ter morrido, já havia sido medicado e passava bem”.



segunda-feira, janeiro 20, 2020

Harry Potter, Edimburgo e o Cemitério


Eu ainda tinha algumas horas na cidade antes de embarcar para Londres, então resolvi conhecer um pouco dos lugares que inspiraram a autora de Harry Potter. Talvez nem todos saibam, mas em 1993 J.K. Rowling se mudou para Edimburgo. As vielas medievais, cafés e até em um cemitério da cidade inspiraram Rowling e a fizeram colocar em prática a produção dos livros da saga que a tornaria uma das escritoras mais conhecidas do mundo e exemplo para qualquer aspirante a escritora como eu.
Ela escreveu dois dos livros em Edimburgo... o primeiro “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, escrito em uma época da vida onde ela estava passando por muitas dificuldades, mas estava com a cabeça cheia de ideias e encontrou na cidade inspiração e o sossego para começar a escrever... Como todos sabem o sucesso apareceu e para finalizar a saga do bruxinho mais conhecido do mundo ela resolveu voltar para Edimburgo e foi lá que ela escreveu parte do livro “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, mas dessa vez, já com dinheiro, sucesso e fama, ela se hospedou no Balmoral, um ícone da cidade – que ficava bem em frente ao hostel onde fiquei hospedada. (Sim, é claro que eu sempre quis ser igual a J.K. Rowling, mas confundiram meu pedido e eu acabei ficando igual a ela apenas na parte de viver a vida com muitas dificuldades... e garanto para vocês, não está fácil...).


Vamos lá, vamos conhecer alguns dos pontos que precisam ser visitados pelos fãs de Harry e Rowling:
- Diago Alley
- George Heriot’s School
- The Elephant House
- Cemitério Greyfriars Kirkyard
Então, com meu Google Maps em mãos, parti em busca desses locais.
Diagon Alley e lojas de magia - Topar o Diagon Alley (Beco Diagonal), na Old Town, é uma experiência que impressiona, justamente pela semelhança da realidade com a ficção. O Beco Diagonal foi inspirado na Victoria Street, que é uma rua charmosa de Edimburgo. No dia anterior tínhamos tentado encontrar ela, mas não tivemos muito sucesso, porém dessa vez cheguei por outro caminho e não precisei nem conferir no Google Maps para ter certeza de que estava lá. A semelhança era reveladora.



De lá segui para George Heriot's School fundada em 1628. O lugar é conhecido como inspiração para a escola de bruxaria Hogwarts. Embora Rowling nunca tenha confirmado que se baseou nela, as semelhanças são enormes. Vão desde as torres da arquitetura medieval até o sistema de ensino. O método de incentivo aos alunos da escola de Edimburgo funciona exatamente como o de Hogwarts. Todos os anos, turmas de cores diferentes acumulam pontos, como acontece com Grifinória, Corvinal, Lufa-Lufa e Sonserina.

Next Stop: The Elephant House, local onde ela muitas vezes se sentou para escrever o primeiro dos livros. Dizem que ela se sentava em uma mesa com vista para o Castelo de Edimburgo e o cemitério de Greyfriars. O Castelo é uma obra impressionante e com certeza inspiradora... O The Elephant House é um local super concorrido, as pessoas querem sempre se sentar na mesma mesa que autora se sentava - eu fico só imaginando quando a Eva for super conhecida, o pessoal se matando para se sentar na mesma mesa onde eu me sentava no Prazer na Gula. =P
No meu roteiro agora chegava a vez do Cemitério Greyfriars Kirkyard, que data do século 16, Rowling tirou alguns nomes de personagens dos livros. Um passeio bem exótico é caminhar entre os túmulos para descobrir onde está cada nome. Lá você vai encontrar a lápide "daquele que não deve ser nomeado".
Uma pessoa chamada Tom Riddle, nome de Lord Voldemort, está enterrada lá. Também é possível topar com os nomes de Elizabeth Moodie (inspiração para Mad-Eye Moody) e William McGonagall, que deu a ideia de nome para a professora Minerva McGonagall. Eu achava que seria uma visita interessante, mas já estava noite então era um local que eu não tinha a menor intenção de conhecer. Me daria por satisfeita com uma foto tirada do portão.
Eu tava seguindo as direções do Google, tentando achar o cemitério, mas estava olhando para a lua que estava linda aquele dia, foi então que percebi que não ouvia mais o barulho das ruas, olhei para a frente e eu estava no meio do cemitério. Olhei para meu celular e nele dizia que ainda faltavam 100 metros. Oh não! 
Eu não sou a Eva Schneider e nem de longe tenho a coragem dela. Minhas pernas congelaram. Como eu tinha ido parar ali, no breu na noite?
As árvores lindas iluminadas pela lua, passaram a projetar assustadoras sombras, com galhos parecidos dedos magrelos, tentando me apanhar. Aqueles túmulos me encarando. Até meu cabelo que mexeu por causa do vento me assustou. Minha vontade era sair correndo, mas minhas pernas estavam imóveis. Mas, como que eu, a pessoa por trás das ações da Eva, não teria coragem para ficar ali? Respirei fundo e fiquei. Deus sabe que sempre tive mais medo de mortos do que de vivos – sim, sem razão nenhuma, eu sei – então ficar ali não foi fácil, porém valeu a pena, restou uma boa história para contar e eu conheci outro dos locais que inspiram nossa amada Rowling.
Ps: Créditos ao @iam.andrerocha pelas fotos das lápides, as minhas não ficaram boas! 
Eu estava satisfeita, decidi sair do cemitério – antes de trombar com alguma alma penada voltar para o hostel.
É isso, um pouquinho de Harry Potter em Edimburgo!  

quarta-feira, janeiro 08, 2020

Auschwitz - A dor de visitar o campo



Visitar Auschwitz foi, sem dúvidas, uma das experiências mais marcantes de minha vida. É claro que eu já tinha ouvido muitas histórias sobre o local, mas estar lá é completamente diferente.
Eu poderia escrever muito sobre o tema, o Holocausto sempre me despertou muito interesse e já estudei muito sobre o genocídio, já chorei muito debruçada em cima de livros, em uma tentativa inútil de entender como tudo isso foi possível de acontecer. Mas o texto de hoje não é uma aula de história, são apenas algumas reflexões sobre o que meus olhos viram.
Quando a gente dá um rosto para cada um daqueles números é impossível segurar o choro e a tristeza.
Auschwitz é imenso. Muito maior do que o centro da cidade onde nasci no Brasil, nesse campo de concentração, que era o maior dos nazistas, morriam mais de 10 mil pessoas por dia.
Cada uma dessas mortes está impregnada na energia que o lugar carrega.
Andar por Auschwitz acompanhada apenas pelo som dos passos dos outros visitantes é angustiante. Ninguém conversa, ninguém sorri, pois lá não existem motivos para isso.
Minha visita começou pelo campo Auschwitz 2, onde ficava a área destinada a mulheres e também às crianças. Sim, crianças, que na maioria das vezes já iam direto para as câmaras de gás. No pavilhão destinado a elas, uma pintura na parede para amenizar a dor. Amenizar a dor? Como se isso fosse possível. Diminuir a dor por terem suas famílias e vidas destruídas sem motivo algum?
No dia em que visitei o complexo, o termômetro marcava cerca de 1 grau, meu corpo protegido por quatro camadas de roupa ainda sentia frio. Dava para imaginar como se sentiam os prisioneiros com seus corpos fracos e frágeis vestindo apenas uma roupa feita por um frágil tecido. Os lagos congelados do local guardam as cinzas dos que não resistiram ao frio, a fome, às doenças ou morreram cruelmente dentro das câmaras de gás.
Indo para o Auschwitz 1 o coração que já estava apertado se juntou a um embrulho no estômago e ao sentimento de vergonha, por pensar que hoje ainda tem gente que usa uma suástica no braço, tendo orgulho de algo tão grotesco quanto o que aconteceu com essas pobres pessoas.
Nessa parte da visita é que de fato os números ganham faces, estampadas nas paredes e corredores.
Nessa parte da visita é que entramos em uma sala com mais de duas toneladas de cabelo humano, cortada da cabeça das mulheres mortas nas câmaras de gás e que depois eram vendidos para indústrias alemãs.
Nessa parte da visita é que nos deparamos com milhares de pares de sapatos esperando por seus donos.
Nessa parte da visita é que foi impossível para mim segurar as lágrimas.
No canto de uma das vitrinas me deparei com um par de sapato amarrados pelos cadarços. Seu dono na esperança de reencontrá-los amarrou um pé no outro com esmero, para que ele não estivesse misturado aos outros na sua volta.
Ele nunca voltou.
Meio milhão deles não voltaram para pegar seus sapatos.
Meio milhão que se juntou com os outros 5,5 milhões de judeus que morreram nesse período da história. Uma história tão atual que ainda pode ser contada por quem a viveu de perto.
Estar dentro de uma câmara de gás, mesmo que desativada também é uma experiência angustiante. Quanto sofrimento aquelas paredes testemunharam. Eles pensavam que estavam indo apenas para um banho, mas encontravam a morte vinda pelo Zyklon B que saía do teto e matava todos em poucos minutos. “A solução final para o problema judaico”.
A malas de Esther, Ruth, Erna, Marie, Jacob, Alan e tantos outros ainda estão lá, em uma espera eterna por seus donos. E nós ainda estamos aqui, esperando que essas histórias sirvam de exemplos para que atrocidades como essas nunca voltem a acontecer. Mas aparentemente o ser humano cegado por seu ego nunca aprende.