quinta-feira, fevereiro 13, 2020

Seis meses em Limerick!


Quem diria, completei seis meses longe da minha casa no Brasil. Seis meses em Limerick, esse lugar que desde de que coloquei os pés aqui pela primeira vez, em 2018, senti como se também fosse meu lar. 
Nunca me imaginei vivendo longe de Alfredo, longe do Brasil, mas hoje não consigo mais imaginar minha vida sem Limerick. Li no twitter: "I don't see my life without Limerick" e me identifiquei na hora. Eu sinto como se sempre tivesse aguardando o momento de vir para cá, de “voltar” para essa cidade que de forma inexplicável sempre fez parte da minha vida e que agora tendo vindo para cá, nunca mais serei a mesma. 
Nesse meio ano por aqui, já aprendi muito e não estou falando apenas da vida acadêmica, estou falando também de aprender mais sobre mim mesma. Aprendi a me ver com outros olhos, observar melhor minhas falhas e saber do que sou capaz. Aprendi muito sobre os outros também, o quanto eles podem ser generosos, amorosos, acolhedores e até mesmo invejosos e mesquinhos. Mas o fato é: se eu for colocar em uma balança tudo de bom e ruim que vivi aqui até agora, as coisas boas são infinitamente maiores do que as ruins e isso me deixa muito feliz. Ontem uma amiga me falou “tu tá numa fase muito boa da vida né?” e a resposta é: Estou! A irlanda tem sido muito boa para mim e é por isso que quando não estou aqui, já sinto saudades.
Durante esses seis meses, tive férias e fiquei quase um mês longe de Limerick, a saudade foi grande, mas quando aterrissei no aeroporto de Dublin, meu coração já começou a se sentir em paz, pois aqui me sinto acolhida, em casa.
Para mim o povo da irlanda é o mais querido de toda a Europa! Não conheço outra gente tão amigável, solícita e encantadora. É sério! Tem muito europeu que vive de fato o “eurocentrismo” e acha que é melhor do que qualquer um, principalmente melhores do que nós da América do Sul, mas aqui na Irlanda nunca senti isso, muito pelo contrário, só tenho a agradecer a maneira como os irlandeses tratam a mim e aos meus colegas. E como já falei em outro desses meus textos, apesar de todas as diferenças vejo muitas semelhanças entre irlandeses e brasileiros. 
Acho que Limerick também gosta da gente e quis comemorar nossos seis meses aqui, nos dando um presente. Neve! A neve que tivemos, não pode ser chamada de nevasca, mas os flocos que caíam já foram o suficiente para fazer a alegria dos brasileiros. É incrível, todo mundo volta a ser criança: guerra de bolas de neve, tentativas de construir bonecos, anjos, rodopios e muitos suspiros de emoção são encontrados nessas ocasiões. Não tem nevasca, mas tem avalanche de novos stories, todo mundo quer registrar de todas as maneiras possíveis esses momentos de profunda alegria. Não poderíamos ter recebido um presente melhor! 
Para finalizar, a palavra por esses seis meses continua sendo gratidão! Gratidão é o que sinto todo dia por ter tido a oportunidade de estar aqui. Oportunidade de estudar na Mary Immaculate College e de ter conhecido tanta gente incrível e inspiradora - meu colegas e professores. Gratidão e alegria pelas pequenas coisas, como poder escolher entre as centenas de pubs o local para tomar uma Guinness, ver o pôr-do-sol pintando as águas do Shannon,  passear pelo Milk Market e sentir todos os seus aromas ou poder ir ao Nancy’s e sempre viver o que chamamos de experiência antropológica. 
Gratidão por terem me permitido viver Limerick!

sábado, fevereiro 08, 2020

Mas é uma Praga!


       
 Eu estava viajando já há algum tempo e a República Tcheca era meu último destino, finalmente eu estava chegando ao meu 30º país visitado e quando falei pra minha mãe que estava indo para Praga ela disse: “Tchecoslováquia” e caiu na gargalhada. 
Quanta maturidade!
Ela me contou a história de quando ouviu esse nome pela primeira vez em uma aula de geografia e a turma toda achou muito peculiar e caiu em um riso sem fim. Estamos falando de um tempo longínquo em que Alfredo Wagner não era ainda nem cortada pela BR282 e eles estavam estudando sobre o socialismo que ainda estava presente em boa parte da Europa. Pelo visto ela ainda acha graça no nome, mas lá se vão mais de 30 anos. O socialismo caiu e a Tchecoslováquia deixou de existir, dando lugar a República Tcheca e a Eslováquia, mas aparentemente o que não mudou foi a atração que Praga provoca nas pessoas.
Provavelmente isso se trata de regionalismo, mas para mim quando alguém te chama de praga ou solta uma frase tipo, “Mas tu és uma praga”, boa coisa não é de se esperar. Eu tinha a impressão de que praga era sempre uma coisa ruim, as pragas nas plantações, as sete pragas do Egito, até que conheci “a cidade das 100 cúpulas” de perto e mudei completamente de ideia.
A cidade pulsa, se move, é cheia de cultura, de esculturas, possui uma arquitetura que mistura o moderno e o clássico e uma história longa e interessantíssima. Aparentemente tirada de um cenário de conto de fadas, a capital da República Checa é bem real e aguarda a sua visita.
Como disse Franz Kafka, um de seus mais ilustres filhos, Praga “não nos deixa ir embora, esta velha tem garras”.
Cheguei em Praga, capital da República Tcheca no final de janeiro. Tinha o frio como maior companheiro da viagem, mas a cidade logo me aqueceu. Tenho a impressão que poderia passar meses por lá, sem me cansar e me encantando cada dia mais. Acho que nosso santo bateu e aparentemente a cidade vem batendo o santo com o dos visitantes desde a idade média, pois são de lá alguns dos primeiros registros de pessoas que caíram de amores pela cidade.
Sem dúvidas, ela não pode ficar fora do roteiro de ninguém que planeja uma viagem por essa parte leste da Europa. É difícil definir o que mais me atraiu na cidade, mas acho que foi uma mistura de tudo. O charme das ruas históricas, as esculturas que enchem as ruas de arte, tudo lá é tão vivido, que tem até tem um prédio dançante!
A ponte Carlo com suas dezenas de esculturas, o Castelo - maior do mundo -, o antigo cemitério judaico, o relógio astronômico, os palácios, torres, igrejas, sinagogas, as cúpulas que hoje já são bem mais de 500 e Kafka, espalhado por todos os lugares. Há pelo menos três monumentos dedicados ao autor, mas o mais curioso deles é um busto de 11 metros composto de 42 camadas que se movem. Desta forma, pode ver o rosto do Kafka em várias posições. Para mim se permitem o trocadilho, é a perfeita metamorfose. 
Praga é para todos os gostos. E daqui para a frente, quando me chamarem de Praga, tomarei como um elogio!

terça-feira, janeiro 28, 2020

Os mistérios de Stonehenge



Stonehenge é um daqueles lugares que sempre sonhei em conhecer. Daqueles que me faziam querer pegar meu chapéu de Indiana Jones, colocar na cabeça e explorar. Junto com as ruínas da cidade perdida dos Incas, Macchu Picchu, o Coliseu, o que restou da cidade de Pompéia e as Pirâmides do Egito - que ainda não tive a oportunidade de conhecer - Stonehenge figurava no meu top 5 de locais históricos que eu mais queria conhecer em todo o mundo.


As tais pedras enigmáticas, provavelmente já estiveram na proteção de tela de muita gente que usava o Windows XP e o mistério em torno delas transpassa vários séculos. Hoje em dia, depois de muitos estudos arqueológicos realizados, algumas respostas já foram encontradas, mas muita coisa ainda permanece em meio a brumas desconhecidas.
O monumento pré-histórico, construído a mais de 5 mil anos, fica na Inglaterra. Estudos apontam que as chamadas “Pedras Azuis” pesando 4 toneladas cada, que compõe o círculo interno foram retiradas do País de Gales, assim como as pedras do círculo externo, ainda maiores, com cerca de 25 toneladas cada uma.
A questão é saber como os construtores neolíticos, usando apenas ferramentas de pedra, madeira e ossos, esculpiram os pilares de pedra de Stonehenge das colinas do oeste do País de Gales e como os transportaram mais de 230 quilômetros para a planície de Salisbury, onde se encontram. E mais, pesquisas recentes apontam que as pedras maiores, já fariam parte de um grande círculo de pedras no País de Gales, mas o monumento foi desmontado e reconstruído no país vizinho.
Então uma das maiores questões ainda sem respostas a respeito do círculo: Por que razão as pedras precisaram vir de tão longe? Geralmente pedras da região eram utilizadas para construção de círculos semelhantes. O que essas pedras têm de tão especial?
Outra questão importante diz respeito a maneira como essas pedras foram transportadas. Existem várias teorias que tratam sobre isso. Algumas pessoas até mesmo acreditam que Merlin, o mais poderoso Druida de todos os tempos, teria as transportado pelo poder da magia e tem também quem acredite - céticos rsrs - em algo bem mais sem graça:  que elas teriam sido arrastadas por toda essas distância, ou até mesmo transportadas por jangadas, durante parte do percurso.
Mas afinal de contas, por qual motivo elas foram construídas?
Elas serviam para recolher os dados a respeito do movimento de corpos celestiais. Além de regular o ciclo agrícola, é claro, existiam também as funções religiosas, dos celtas.
Em Stonehenge o principal eixo das pedras se alinha ao eixo do solstício. No dia mais longo do ano, solstício do verão, o sol nasce a nordeste e no solstício do inverno, o sol se põe no vão entre as duas composições de três pedras mais altas, uma delas atualmente tombada.
Hoje em dia os visitantes não podem ir até o interior do círculo e tocarem nas pedras, exceto em pelo menos duas ocasiões do ano, o solstício de Verão e o de Inverno. Acredita-se que nesses dias os celtas realizavam grande rituais no interior dos círculos. Hoje em dia nessas ocasiões o visitante entra às 19h e deve sair até às 7h, os visitantes costumam tocar as pedras, abraçá-las, fazem orações, cantam, tocam gaita de fole... Também nessas ocasiões grupos vestidos nas roupas tradicionais celtas e com flores na cabeça cantando músicas antigas, representando os druidas. Tudo bem estilo Outlander.
Infelizmente eu visitei o monumento exatamente uma semana depois do Solstício de Inverno e não tive oportunidade de experienciar isso, mas acho que ainda não desisti da idade.


Os mistérios de Stonehenge


quarta-feira, janeiro 22, 2020

Reino Unido e Leste Europeu



Cheguei ao final de mais uma viagem. Dessa vez não retornei para o Brasil e sim para a Irlanda e confesso, que o sentimento de voltar para cá encheu meu coração de paz e tranquilidade - por mais que isso deixei minha mãe brava, eu realmente amo Limerick.

Então vamos aos fatos:

Cheguei ao meu 30º país nessa viagem - quando eu chegar ao 50º quero escrever um livro; 
Passei 22 dias viajando;
Visitei 8 países, 7 deles pela primeira vez - Foram eles: Escócia, País de Gales, Inglaterra, Polônia, Hungria, Eslováquia, Áustria e República Tcheca; 
Estive em 13 cidades diferentes;
Andei 319 km a pé - sério, assim não tem bota que resista;
Conheci Stonehenge e Auschwitz, lugares que sempre sonhei em conhecer - impossível para quem ama história não querer conhecer esses lugares;
Vi muita neve - mas infelizmente ainda não realizei meu sonho de ver um monte dela caindo;
Passei muito frio; 
O Natal foi o melhor que eu poderia ter - estando longe de casa;
Não gostei de Vienna - não sei explicar direito porque, me pareceu “too much” e no meu ponto de vista, tudo que é demais estraga;
Me apaixonei completamente pela Escócia;
Vi o Arco Íris mais lindo da minha vida nessa viagem;
Descobri que tenho uma forte conexão com Edimburgo - fico me perguntando quantas vidas meu espírito já viveu, pois também acho que em passado distante vivi por lá;
Fiquei encantada com Budapeste - a vista da cidade do alto do Fisherman's Bastion, parece uma pintura, um quadro, parece qualquer coisa, menos real;
Bratistalava me surpreendeu, “CoNhEçO FaZ PoUcO TeMpO mAs JaH CoNsIdErO PaKas”, eu quase nem nunca tinha ouvido falar da cidade, mas bastou um passeio por suas antigas ruas para eu me envolver;
Comi muitos wraps do MC Donalds;
Conheci um bar super alternativo na Hungria; 
Vi gente entrando em um lago praticamente congelado na Krakow no dia 1º de janeiro - temperatura de -2, ideal para um mergulho;
Conheci muitos castelos em País de Gales;
Naveguei pelo Lago Ness - e não vi o monstro;
Me perdi dentro de um cemitério - no breu da noite;
Quase esquiei - mas acho que perdi o fôlego juvenil e só pensava que eu podia me machucar e não ia voltar para o Brasil tão cedo, então desisti da ideia;
Vi e vivi muita coisa linda que ficaram para sempre guardadas na minha memória, coração e se tudo der certo, nas próximas postagens! 


#rumoaos50 30/50

Roque: Mais um jovem anônimo que morreu na Segunda Grande Guerra? Não!



Estima-se que até quarenta e sete milhões de pessoas tenham morrido durante a Segunda Grande Guerra. Com certeza é uma página terrível de nossa recente história. Como sabemos não houve combate dentro do território brasileiro, mas o Brasil participou da guerra enviando cerca de 25 mil soldados – os pracinhas - para lutarem ao lado dos aliados norte-americanos contra efetivos de soldados alemães, em território italiano.
Desses 25 mil soldados, 443 morreram durante os combates, entre os mortos, o nosso Roque.


Os pracinhas mortos foram enterrados no cemitério da cidade de Pistoia, na região da Toscana, na Itália e as famílias brasileiras foram avisadas por meio de telegramas e posteriormente recebiam uma medalha de honra.
A história do Roque – Pedro Laurindo Filho -  podia nunca ter sido conhecida, ele poderia apenas figurar como mais um soldado do interior de Santa Catarina que encontrou seu fim em um lugar frio e distante de casa. Ele poderia ser só a história que os filhos da Dona Anna e do Seu Juquinha ouviram muitas vezes enquanto eram crianças:

“Minha mãe Anna ainda mocinha morava em Major Gercino.
Ela tinha uma tia analfabeta chamada Gina e um primo chamado Pedro Laurindo Filho. Para tristeza de toda a família o Pedro, para nós Roque, semianalfabeto foi convocado para lutar na Segunda Guerra mundial. Sem outra saída ele se apresentou com apenas 23 anos.
Ele era apenas um agricultor jovem e apaixonado.
Pois bem, o Roque foi pra Itália e na primeira batalha já perdeu sua vida.
Meu avô materno único que sabia ler, recebeu o telegrama e uma medalha agradecendo com pesar e alertando a família que o Roque morreu como um verdadeiro herói brasileiro. Meu avô chorava muito e teve que ler o telegrama para cunhada, mãe do Roque, tia Gina.” (Valda da Cunha Fujii)

Como uma mãe poderia aceitar que um filho morrera lutando em uma guerra que não era dele? A família inteira ficou muito abalada por essa tragédia.
O pobre Roque nem sabia direito pelo que estava lutando. Não tinha razões para matar os alemães, mas estava lá segurando uma arma, no lugar de sua enxada. Ele seria mais um jovem brasileiro que morrerá aos 23 anos de forma anônima na Itália?
Esse seria o final da história do Roque, mas ela ganhou um novo capítulo ano passando quando uma outra filha da Dona Anna e do Seu Juquinha, a Valdete da Cunha, encontrou a parte que faltava na história do primo.
Ela encontrou em um livro “Notas de um Expedicionário Médico” de Alípio Corrêa Netto, alguns relatos de médicos que trabalharam na Itália e lá estava registrado o último suspiro do primo.
“No dia 04/12/1944 ocorreram dois acontecimentos que marcaram esta data: um é triste e o outro auspicioso.
O primeiro está ligado ao rapazola operado anteontem. Já perfeita­mente bem, sem temperatura pouco elevada, respiração tranquila, embora queixoso de muita dor. Pela manhã sentiu ansiedade respiratória. O enfer­meiro nada nos comunicou, uma vez que eram bons o pulso e a pressão arterial. Ao passarmos pela enfermaria, antes mesmo de ir ao refeitório para a primeira refeição, notamos a dispneia do nosso ferido; preocupamo-nos, corremos para providenciar a aspiração traqueal, por parecer-nos certo que o sangue coagulado nos seus brônquios o sufocaria rapidamente. Não houve mais tempo num minuto morria, sereno, suavemente, conservan­do ainda a fisionomia inocente e meiga de um meninão em repouso. Pedro Laurindo Filho deu sua vida em defesa de um ideal, as suas feições pare­ciam indiferentes ao supremo sacrifício. O herói tombou desconhecido, o esquecimento pesará sobre seu túmulo.
Um soldado é nada quando a inconformidade leva os povos às lutas fratricidas, mas muitos corações enlutaram-se bem longe da cena dramática e as lágrimas correram também em silêncio.
O outro caso foi o reverso da medalha.”
O outro caso que o livro conta, trata de um soldado que chegou lá sem vida, mas como por um milagre, após já ter recebido atestado de óbito voltou a viver.
Dois casos completamente opostos. A família do soldado americano vibraria, mas a família Laurindo ficaria com uma ferida aberta e demoraria 75 longos anos para saber como de fato terminou a vida de Roque.  
Hoje os restos mortais de Roque encontram-se enterrado no Cemitério dedicado aos heróis da Guerra no Rio de Janeiro e a família Cunha continua indo lá. Para orar pelo primo que nunca conheceram, mas que sempre fez parte de sua vida, através da triste história do menino do interior que morreu lutando em uma guerra que não era dele, contada por Dona Anna e que hoje pode ser conhecida por todos.
“Não era pra ele ter morrido, já havia sido medicado e passava bem”.



segunda-feira, janeiro 20, 2020

Harry Potter, Edimburgo e o Cemitério


Eu ainda tinha algumas horas na cidade antes de embarcar para Londres, então resolvi conhecer um pouco dos lugares que inspiraram a autora de Harry Potter. Talvez nem todos saibam, mas em 1993 J.K. Rowling se mudou para Edimburgo. As vielas medievais, cafés e até em um cemitério da cidade inspiraram Rowling e a fizeram colocar em prática a produção dos livros da saga que a tornaria uma das escritoras mais conhecidas do mundo e exemplo para qualquer aspirante a escritora como eu.
Ela escreveu dois dos livros em Edimburgo... o primeiro “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, escrito em uma época da vida onde ela estava passando por muitas dificuldades, mas estava com a cabeça cheia de ideias e encontrou na cidade inspiração e o sossego para começar a escrever... Como todos sabem o sucesso apareceu e para finalizar a saga do bruxinho mais conhecido do mundo ela resolveu voltar para Edimburgo e foi lá que ela escreveu parte do livro “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, mas dessa vez, já com dinheiro, sucesso e fama, ela se hospedou no Balmoral, um ícone da cidade – que ficava bem em frente ao hostel onde fiquei hospedada. (Sim, é claro que eu sempre quis ser igual a J.K. Rowling, mas confundiram meu pedido e eu acabei ficando igual a ela apenas na parte de viver a vida com muitas dificuldades... e garanto para vocês, não está fácil...).


Vamos lá, vamos conhecer alguns dos pontos que precisam ser visitados pelos fãs de Harry e Rowling:
- Diago Alley
- George Heriot’s School
- The Elephant House
- Cemitério Greyfriars Kirkyard
Então, com meu Google Maps em mãos, parti em busca desses locais.
Diagon Alley e lojas de magia - Topar o Diagon Alley (Beco Diagonal), na Old Town, é uma experiência que impressiona, justamente pela semelhança da realidade com a ficção. O Beco Diagonal foi inspirado na Victoria Street, que é uma rua charmosa de Edimburgo. No dia anterior tínhamos tentado encontrar ela, mas não tivemos muito sucesso, porém dessa vez cheguei por outro caminho e não precisei nem conferir no Google Maps para ter certeza de que estava lá. A semelhança era reveladora.



De lá segui para George Heriot's School fundada em 1628. O lugar é conhecido como inspiração para a escola de bruxaria Hogwarts. Embora Rowling nunca tenha confirmado que se baseou nela, as semelhanças são enormes. Vão desde as torres da arquitetura medieval até o sistema de ensino. O método de incentivo aos alunos da escola de Edimburgo funciona exatamente como o de Hogwarts. Todos os anos, turmas de cores diferentes acumulam pontos, como acontece com Grifinória, Corvinal, Lufa-Lufa e Sonserina.

Next Stop: The Elephant House, local onde ela muitas vezes se sentou para escrever o primeiro dos livros. Dizem que ela se sentava em uma mesa com vista para o Castelo de Edimburgo e o cemitério de Greyfriars. O Castelo é uma obra impressionante e com certeza inspiradora... O The Elephant House é um local super concorrido, as pessoas querem sempre se sentar na mesma mesa que autora se sentava - eu fico só imaginando quando a Eva for super conhecida, o pessoal se matando para se sentar na mesma mesa onde eu me sentava no Prazer na Gula. =P
No meu roteiro agora chegava a vez do Cemitério Greyfriars Kirkyard, que data do século 16, Rowling tirou alguns nomes de personagens dos livros. Um passeio bem exótico é caminhar entre os túmulos para descobrir onde está cada nome. Lá você vai encontrar a lápide "daquele que não deve ser nomeado".
Uma pessoa chamada Tom Riddle, nome de Lord Voldemort, está enterrada lá. Também é possível topar com os nomes de Elizabeth Moodie (inspiração para Mad-Eye Moody) e William McGonagall, que deu a ideia de nome para a professora Minerva McGonagall. Eu achava que seria uma visita interessante, mas já estava noite então era um local que eu não tinha a menor intenção de conhecer. Me daria por satisfeita com uma foto tirada do portão.
Eu tava seguindo as direções do Google, tentando achar o cemitério, mas estava olhando para a lua que estava linda aquele dia, foi então que percebi que não ouvia mais o barulho das ruas, olhei para a frente e eu estava no meio do cemitério. Olhei para meu celular e nele dizia que ainda faltavam 100 metros. Oh não! 
Eu não sou a Eva Schneider e nem de longe tenho a coragem dela. Minhas pernas congelaram. Como eu tinha ido parar ali, no breu na noite?
As árvores lindas iluminadas pela lua, passaram a projetar assustadoras sombras, com galhos parecidos dedos magrelos, tentando me apanhar. Aqueles túmulos me encarando. Até meu cabelo que mexeu por causa do vento me assustou. Minha vontade era sair correndo, mas minhas pernas estavam imóveis. Mas, como que eu, a pessoa por trás das ações da Eva, não teria coragem para ficar ali? Respirei fundo e fiquei. Deus sabe que sempre tive mais medo de mortos do que de vivos – sim, sem razão nenhuma, eu sei – então ficar ali não foi fácil, porém valeu a pena, restou uma boa história para contar e eu conheci outro dos locais que inspiram nossa amada Rowling.
Ps: Créditos ao @iam.andrerocha pelas fotos das lápides, as minhas não ficaram boas! 
Eu estava satisfeita, decidi sair do cemitério – antes de trombar com alguma alma penada voltar para o hostel.
É isso, um pouquinho de Harry Potter em Edimburgo!  

quarta-feira, janeiro 08, 2020

Auschwitz - A dor de visitar o campo



Visitar Auschwitz foi, sem dúvidas, uma das experiências mais marcantes de minha vida. É claro que eu já tinha ouvido muitas histórias sobre o local, mas estar lá é completamente diferente.
Eu poderia escrever muito sobre o tema, o Holocausto sempre me despertou muito interesse e já estudei muito sobre o genocídio, já chorei muito debruçada em cima de livros, em uma tentativa inútil de entender como tudo isso foi possível de acontecer. Mas o texto de hoje não é uma aula de história, são apenas algumas reflexões sobre o que meus olhos viram.
Quando a gente dá um rosto para cada um daqueles números é impossível segurar o choro e a tristeza.
Auschwitz é imenso. Muito maior do que o centro da cidade onde nasci no Brasil, nesse campo de concentração, que era o maior dos nazistas, morriam mais de 10 mil pessoas por dia.
Cada uma dessas mortes está impregnada na energia que o lugar carrega.
Andar por Auschwitz acompanhada apenas pelo som dos passos dos outros visitantes é angustiante. Ninguém conversa, ninguém sorri, pois lá não existem motivos para isso.
Minha visita começou pelo campo Auschwitz 2, onde ficava a área destinada a mulheres e também às crianças. Sim, crianças, que na maioria das vezes já iam direto para as câmaras de gás. No pavilhão destinado a elas, uma pintura na parede para amenizar a dor. Amenizar a dor? Como se isso fosse possível. Diminuir a dor por terem suas famílias e vidas destruídas sem motivo algum?
No dia em que visitei o complexo, o termômetro marcava cerca de 1 grau, meu corpo protegido por quatro camadas de roupa ainda sentia frio. Dava para imaginar como se sentiam os prisioneiros com seus corpos fracos e frágeis vestindo apenas uma roupa feita por um frágil tecido. Os lagos congelados do local guardam as cinzas dos que não resistiram ao frio, a fome, às doenças ou morreram cruelmente dentro das câmaras de gás.
Indo para o Auschwitz 1 o coração que já estava apertado se juntou a um embrulho no estômago e ao sentimento de vergonha, por pensar que hoje ainda tem gente que usa uma suástica no braço, tendo orgulho de algo tão grotesco quanto o que aconteceu com essas pobres pessoas.
Nessa parte da visita é que de fato os números ganham faces, estampadas nas paredes e corredores.
Nessa parte da visita é que entramos em uma sala com mais de duas toneladas de cabelo humano, cortada da cabeça das mulheres mortas nas câmaras de gás e que depois eram vendidos para indústrias alemãs.
Nessa parte da visita é que nos deparamos com milhares de pares de sapatos esperando por seus donos.
Nessa parte da visita é que foi impossível para mim segurar as lágrimas.
No canto de uma das vitrinas me deparei com um par de sapato amarrados pelos cadarços. Seu dono na esperança de reencontrá-los amarrou um pé no outro com esmero, para que ele não estivesse misturado aos outros na sua volta.
Ele nunca voltou.
Meio milhão deles não voltaram para pegar seus sapatos.
Meio milhão que se juntou com os outros 5,5 milhões de judeus que morreram nesse período da história. Uma história tão atual que ainda pode ser contada por quem a viveu de perto.
Estar dentro de uma câmara de gás, mesmo que desativada também é uma experiência angustiante. Quanto sofrimento aquelas paredes testemunharam. Eles pensavam que estavam indo apenas para um banho, mas encontravam a morte vinda pelo Zyklon B que saía do teto e matava todos em poucos minutos. “A solução final para o problema judaico”.
A malas de Esther, Ruth, Erna, Marie, Jacob, Alan e tantos outros ainda estão lá, em uma espera eterna por seus donos. E nós ainda estamos aqui, esperando que essas histórias sirvam de exemplos para que atrocidades como essas nunca voltem a acontecer. Mas aparentemente o ser humano cegado por seu ego nunca aprende.