terça-feira, fevereiro 02, 2016

Salar de Uyuni - Mochilão América do Sul

Uyuni




Como uma natureza morta aos pés dos andes, incrível e surreal encontra-se Uyuni, no sudoeste da Bolívia, a cidade fui fundada por conta de uma estação ferroviária, no final do século XIX, mas com o declínio da atividade ferroviária ela mais parecia uma cidade morta, parada no tempo, até cerca de duas décadas atrás quando o turismo começou a ser explorado e deu nova vida a cidade. Todos os anos cerca de 80 mil pessoas visitam Uyuni, a imensa maioria desses visitantes buscam conhecer o Salar de Uyuni. O maior deserto de Sal do mundo que fica a uma altitude de 3.600 metros e era exatamente esse deserto que estávamos buscando na cidade.

Descemos meio desnorteadas em Uyuni - depois das 9 horas de viagem - e pegamos um táxi até  nosso hostel, que tínhamos reservado, mas ao chegarmos descobrimos que nossa reserva estava de pé somente até as 12 horas, depois disso teríamos que reservar novamente, enfim, antes de fazermos um escândalo saímos em busca de um novo hostel – Hostel Piedra Blanca, nunca reservem – encontramos alguns metros à frente o hostel 6 de fevereiro, com água caliente, Wifi e um quarto para duas pessoas. Foi como um sonho. Deixamos nossas coisas e fomos encontrar algum lugar para comer. Denise comeu um prato típico da Bolívia e eu um  caldo de frango, que me fez um bem danado.

Quando retornamos ao hostel decidimos que não faríamos o tour no dia seguinte, que esperaríamos mais um dia para eu ver se me recuperava ou se voltava para casa.
No dia seguinte decidi que minha viagem acabaria em La Paz, que de lá eu pegaria um avião para o Brasil, mas que faríamos o tour de 3 dias pelo salar. Aproveitamos o dia livre para descansar e conhecer um pouco da cidade. Avisei a todos que eu voltaria para casa, compramos nosso pacote para o salar – pagamos 700 bolivianos ou 100 dólares -, tentei cancelar minhas passagens, tudo sem sucesso e ao tentar encontrar passagens para o Brasil nos deparamos com preços absurdos, tipo 4.600 e 3.800 reais, antes de dormir decidi que eu iria para o Peru, afinal, lá eu tinha todas as passagens já compradas e por fim, eu já estava me sentindo mais forte – quem não gostou nada da notícia foi minha mãe, que já me esperava para a próxima segunda.

No dia seguinte acordei curada – não sei se por estar completando 8 dias que tomei a vacina ou se pelo valor das passagens de volta ao Brasil. Comi um omelete de verduras e seguimos até a agencia que nos levaria ao salar.
Ainda na agencia conhecemos Pamela e Rodrigo, Chilenos com os quais tivemos grande afinidade durante o tour, além deles três bolivianos completavam o carro.
Seguimos em 7 mais o motorista, senhor Melardo. O tour inicia com um passeio até o cemitério de trens. Os trens são os mesmo do início das atividades ferroviárias em Uyuni, do final do século XIX, eles foram abandonados nesse local quando os novos motores a disel foram lançados. Consumidos pelo óxido eles rendem belas fotos e o cemitério se transformou em uma grande atração turística, parada obrigatória para os tours que partem de uyuni. Sacamos algumas fotos e fomos até um vilarejo com muito artesanato, aproveitei para comprar um suéter andino, para se por acaso fizesse frio, apesar de ser verão.

A próxima parada foi em uma parte do Salar, a mais clarinha dele, para tirarmos aquelas fotos típicas, pulando, dentro de objetos ou sendo atacado por animais pitorescos. De lá seguimos até o hotel de Sal onde o seu Melardo nos serviu o almoço – de alguma maneira o motorista lembrava meu pai, não sei se pela simplicidade ou pelo porte físico, enfim, simpatizei com ele logo de cara. Gente, eu estava no paraíso, fazia dias que eu não comia tão bem, era uma comida simples e gelada, mas comi com muito gosto e ali vi que de fato eu me recuperaria.

Dali seguimos até a Ilha do Pescados, ou Incahuassi, Casa dos Incas, como os habitantes locais a chamam. Parece filme de ficção: uma ilha no meio do deserto, como se fosse em um mar. E já foi. Há 40 mil anos o Salar ficava no fundo de um mar interno que cobria uma superfície muito maior. Esse mar secou e o sal ficou depositado lá. Sob nossos pés, cem metros de camadas de águas e de sal sobrepostas. A ilha era uma elevação no fundo desse mar extinto. Um pedaço de chão com ambiente único. Só aqui cresce um cacto gigante, muito parecido com o da Baixa Califórnia no México. Esse cacto cresce um centímetro por ano. Andar por lá é passear entre algumas das criaturas mais velhas do planeta. Apesar da ilha ter o nome de Casa dos Incas, é lugar de cerimonias dos aimarás. Todos os anos eles vão até o ponto mais alto da ilha, em meio a essa aridez, e entregam oferendas a Pachamama, a Mãe Terra, Deus da fertilidade.  Na ilha existe um mirante, no alto de um morro imenso para subir por meio as pedras, lá de cima tinha-se uma vista linda de todo o salar. Denise teve alguns problemas com a altitude, mas valeu a pena. Na volta paramos para uma coca e um cerveja -  ambas quentes – e voltamos ao nosso carro para seguir até o nosso hotel de sal.

Ao chegar ao hotel, o lugar assustava um pouco, parecia super precário e frio, mas ao entrar ele tinha lá os seus encantos. Nos acomodamos e em companhia de Pamela e Rodrigo fomos dar uma volta, descobrimos que ela também é professora e ele é sociólogo, ambos muito inteligentes o que nos rendeu boas conversas sobre políticas públicas, educação e economia. Ao retornarmos, fomos jantar – muita comida, e na Bolívia sempre com uma entrada, alguma sopa. No banho que teria que durar apenas 5 minutos, como lavei o cabelo e demorei mais do que o pré-estabelecido levei um mega esporro da dona do hotel, mas como não entendi metade dos gritos, não dei muita bola. Carregamos nossos celulares e ficamos mais um pouco de papo, confraternizando também com os outro 3 bolivianos – uma médica e dois estudantes. Fomos dormir cedo e foi uma noite tranquila.
Cedinho nos preparamos para sair, seria o dia das Lagunas a Verde, Colorada, Honda, Hedionda e mais algumas delas. Passamos também por uma zona de vulcões, um deles ativo o Ollague - que tem 5.865 metros e sua última erupção foi há cerca de 150 anos, de longe dava para ver a fumaça que saía de sua imensa cratera. Sem dúvidas foi uma visão muito interessante. Bom, não preciso nem dizer que no meio do deserto também não tem banheiros, não é mesmo?

Mais uma vez o almoço estava muito bom e dessa vez tivemos a companhia de um lobo, que estava aguardando acabarmos para ver se sobrava algo para ele. A tarde fomos conhecer a floresta de pedra. Lá o efeito da lava solidificada e dos ventos formou peculiares estruturas rochosas, a mais famosa delas é a Árvore de Pedra, porém estava um frio tremendo e ventava muito, descemos, mas logo retornamos a nosso carro.

Nossa segunda noite dormindo no deserto seria em um hotel mais modesto que o do primeiro dia e sem água quente, ou seja, ou tomávamos um banho meio de gato, pegando água com garradas Pet, ou dormíamos sem tomar banho, optamos pela primeira opção. Dessa vez confraternizamos também com o pessoal do outro carro, da nossa mesma agencia, que eram todos do Chile. Eles falavam muitas piadas e usavam gírias, muitas vezes era difícil entender o que falavam e eu e Denise entendemos um pouco como Tesoun se sentia quando nos reuníamos no Splendido e ficávamos falando sem parar. Frase da noite “Concha de tu Madre”! Foi nesse dia que Rodrigo – nosso amigo chileno – perguntou se existia alguém no Brasil que não sabia sambar... sinto que o decepcionei falando que ele estava cara a cara com uma dessas pessoas... EU. 
A noite Denise atendendo aos apelos frenéticos sambou ao som de um coral formado por nossas vozes e levou nossos Hermanos a loucura, pois aparentemente todos são fascinados pelo samba brasileiro. Fomos dormir cedo pois no outro dia sairíamos cedo, as 4 da manhã para ver os gêiseres. A noite foi extremamente fria.

No outro dia quando levantamos a temperatura havia despencado, estávamos com cerca de -6 graus. Nossa primeira parada foi para ver os gêiseres e é algo realmente incrível – não tem como não lembrar das aulas do Regi – e apesar da temperatura, valia a pena passar frio para contempla-los. Depois dos gêiseres seguimos para as águas termais, porém como estava fazendo muito frio ninguém teve coragem de tirar toda a roupa para colocar uma roupa de banho, abamos nem entrando. Nosso almoço foi em um vilarejo chamado Malku Villa Mar, um lugar muito simples com um riacho lindo e uma criação de lhamas, um lugar que retratava muito bem o cenário andino. Foi nesse almoço que descobrimos que o senhor Helardo só comia se sobrasse alguma coisa do nosso almoço, foi muito triste, pois não sabíamos se tinha sobrado alguma coisa nos dias anterior, então tratamos de fazer sobrar nesse dia e até levamos a comida e o refrigerante no carro para ele, já que ele não aceitou o convite para comer conosco.
Para a tarde deveríamos fazer o caminho do volta para Uyuni, um caminho longo e com apenas uma parada no deserto de Dali. Um lugar com muitas pedras, dispostas surrealmente.

Ao chegarmos em Uyuni tratamos de encontrar um lugar para tomar banho, depois comemos em nosso restaurante favorito – um bem no calçadão central, com um wifi muito boa.

De ônibus seguimos para La Paz, foi uma noite ótima – sem ironia.

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3 comentários:

  1. Seus textos são deliciosos... parece que a gente está junto viajando com vocês. Poucos escritores conseguem transmitir esta sensação na escrita. Parabéns.

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  2. Olá! Pode passar o nome da agencia que contratou para o tour? Qual foi a cotação que você pegou (quanto tá valendo 1 real)? E esse restaurante? Pode passar o nome?

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  3. A gente realizou o passeio com a Sandra Tour - recomendo. Um real comprava 1,80 bolivianos e o restaurante eu não lembro o nome, mas ficava na avenida Arce que é uma especie de calçadão, ao lado de uma lojinha onde vende uma monte de produtos pra mochileiros...

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