quinta-feira, janeiro 28, 2016

Machu Picchu - Mochilão América do Sul




Ao subir Machu Picchu que significa em quéchua “velha montanha”, é difícil não ficar perplexo com o maior sítio arqueológico da América Latina. Machu Picchu surpreende não só pela sua grandeza, mas por permitir que o viajante entre no mundo de magia desta avançada civilização. Com razão a “cidade perdida dos Incas”, erguida no século 15, é a principal atração peruana. 

Sua localização estratégica, isolada e misteriosa faz de Machu Picchu um dos lugares mais enigmáticos do mundo. A principal pergunta é: como e para que os incas construíram 40 hectares de templos, terraços agrícolas e casa em um terreno acidentado a 2.380 metros de altitude? Tudo isso cercado pelo Rio Urubamba, o que aumenta o grau de sacrifício para o transporte das rochas.
A finalidade de construir a cidade nas alturas ainda é um mistério. São várias as hipóteses, a mais aceita é que a cidade sagrada funcionava como um centro administrativo do império inca, de onde ele supervisionava a economia das regiões conquistadas e que serviria de refúgio em caso de algum ataque. No local só viviam os incas mais cultos e só os alunos mais prodígios de todo o império Inca tinham a oportunidade de lá estudar. 

Como não há registro da cidade pelos espanhóis, especula-se que Machu Picchu tenha caído no esquecimento após a decadência do Império Inca. Mesmo antes da chegada dos conquistadores, poucos sabiam da existência da cidade sagrada, apenas a nobreza e as acllas - em quéchua aqllasqa ou "escolhida", eram mulheres de beleza singular. Eram escolhidas em vários lugares do Império para servir ao Inca ou ao deus-Sol - que tampouco conseguiam chegar ao local.

O sitio arqueológico permaneceu no anonimato até 1911, quando, guiado por um menino de 10 anos, o historiador americano Hiram Bingham encontrou as ruinas. Totalmente coberta pelo mato e deteriorada pela ação do tempo, Machu Picchu ainda preservava intacta a base de sua arquitetura e algumas peças arqueológicas, que foram levadas pelo americano.
Machu Picchu sempre foi um sonho para mim, culpa de meu pai, que me ensinou a assistir aqueles filmes de aventuras, de civilizações antigas, tipo Indiana Jones.

As 3 da manhã sai do hotel e já na van fiz amizade com outra Tamara, essa do equador, que aparentemente faria a viagem comigo. Eu estava muito cansada do dia anterior e tentei dormir durante o trajeto até Ollantaytambo – tentei pronunciar o nome dessa cidade durante toda a viagem, por fim consegui “oiotaintambo” – de lá pegamos o trem da PeruRail.
O trem é puro chame. Tem janelas panorâmicas nas laterais e no teto, para ver as árvores. Neste pedado do mundo, floresta amazônica e Andes se tocam e criam uma paisagem estonteante. A floresta de altitude é rica, úmida e misteriosa. O barulho do trem ajuda a dar um tom de aventura e eu estava vivendo um sonho.

Ao chegarmos em Águas Calientes, Tamara foi mandada para outro lado, ela seguiria com outro guia e eu cai no grupo de Felipe o único brasileiro com quem conversei durante a viagem – mas eu também não ficaria no grupo dele – subimos até a entrada de Machu Picchu na mesma van, mas ao chegar lá em cima um outro guia gritava freneticamente meu nome, fui falar com ele e ele disse que provavelmente ocorreu um erro e eu estava com dois guias, mas deveria ficar no grupo dele pois ele estava com meu almoço. Enfim, nem Tamara, nem Felipe, eu estava em um grupo cheio de pessoas da terceira idade e duas famílias numerosas, para mim, um bom grupo.
Nosso guia se chamava Carlos e suas explicação foram ótimas.

Logo na primeira parada, meu coração quase para também, era a visão da realização de um sonho. Logo nesse primeiro terreno alto, com a cidade sagrada aos meus pés e a Huayna Picchu ao fundo, a cidade em ruínas parecia uma ilustração das enciclopédias da minha infância.
Passamos pela parte agrícola, pela parte urbana, por templos, por construções imponentes, rochas polidas e perfeitamente encaixadas uma na outra, tudo era tão perfeito, tão lindo, tão cheio de significado.

Meu pau de selfie e a câmera frontal do meu celular tiveram muito trabalho. Uma das piores partes de fazer uma viagem sozinha é não ter quem tire suas fotos. Eu no início tinha muita vergonha de pedir aos outros para tirarem fotos de mim, mas depois resolvi colocar a vergonha de lado e pedia em todas as línguas que conheço – poucas, admito – e quando não conseguia através das palavras, usava os gestos.

Lhamas, la embaixo no vale o Rio Urubamba, o céu azul – e no aplicativo do celular marcando tempestade – eu estava em uma das sete maravilhas do mundo moderno, pisando em um chão sagrado, passeando pelas mesmas rochas que guardam séculos de história, eu estava em êxtase.
Nossa última parada com o guia foi em uma espécie de escola de astronomia. O bloco de granito tinha os pontos cardeais e o desenho do Cruzeiro do Sul. Um relógio solar marca a passagem das estacoes, e o mais incrível: um observatório no qual se enxergam as estrelas ao olhar para baixo! São pequenos tanques de água esculpidos na pedra escura e protegidos do vento por grossas paredes de pedra: assim, a água não é perturbada, fica um espelho refletindo o céu.

Após a visita guiada tínhamos um tempo que por nossa conta poderíamos explorar a cidade. O meu guia me passou um mapa do local onde ficava o restaurante que eu poderia comer – o mapa é um desastre – e recomendou que eu fosse até a casa do guardião, que fica no ponto mais alto de Machu Picchu e é o local onde as melhores fotos são tiradas e que também fosse até a Puerta del Sol, um tempo que fica no alto da montanha Machu Picchu.

Segui até a casa do guardião e de fato é de onde se tem a melhor vista. Já que essa dica foi tão boa, porque não subir até a Puerta del Sol – por causa da altitude? Por não ter água? Por você não perceber mas suas pernas já estarem super doloridas? Por você não ter o ticket de descida de van e ter que andar 7 km a pé para chegar ao restaurante? Por já serem quase duas da tarde e você não ter almoçado nem tomado café da manhã? Por ser uma subida? Por estar um calor escaldante? Por você estar fraca por causa da doença da primeira e semana e já ter perdido mais de 5 kg?... ... .... – não consegui pensar em nenhuma razão para não ir.

Ao chegar mais ou menos na metade do caminho eu estava morrendo. Poucas vezes na vida me senti tão cansada, tão dolorida e tão sem forças. Sentei em algumas pedras e estava disposta a voltar, mas daí pensei: Quando voltaria aqui? Quanto terei essa oportunidade novamente? ... tomei um folego, sequei o suor e resolvi continuar. Cheguei a Puerta del Sol – colocando os bofes para fora e acho que era perceptível pois todos que me encontravam na trilha me incentivavam, dizendo que faltava pouco e me desejando força.

A vista é linda lá de cima e tinha que ser, para valer o esforço. Voltar foi bem menos tenso, mas igualmente cansativo.
Quando cheguei na estação das vans, corri para comprar uma coca e comer o resto de uma Pringles que eu tinha na mochila. Eu estava muito cansada, mas nem sabia que o pior ainda estava por vir.
A descida é tensa, é por meio a pedras, no começo tudo bem, mas depois os joelhos começam a doer e o peso da minha mochila também começava a me dar dor nas costas. Para refrescar começou a chover na metade da descida e quando terminei a trilha pelo meio da floresta, descobri que ainda tinha alguns quilômetros para caminhar pela estrada, as margens do Urubamaba. Foram os 7 km mais longos da minha vida. Minha vontade era sentar e chorar. Para completar o ceviche e a carne de porco do jantar da noite anterior começaram a entrar em conflito dentro do meu estomago e eu suava frio e me arrepiava, precisava chegar logo ao restaurante e algo me dizia que eu teria dificuldade com aquele mapa.

Eu estava ensopada de suor quando finalmente cheguei ao centro de Águas Calientes, pedi informação para achar o restaurante e enquanto eles falavam eu me arrepiava e tentava me concentrar no que eles diziam, eu pensei que fosse morrer. Ao chegar no restaurante – sim, essa parte eu deveria pular, e vou pular, esqueçam que eu comentei aqui que tive que ir primeiro ao banheiro, esqueçam – almocei, usei a internet e por não ter mais nada para fazer fui sentar na praça. Chegando lá fui obrigada a tirar os sapatos – depois que fiz isso percebi que mais umas cinco pessoas ao meu redor fizeram o mesmo – minhas pernas estavam moídas, era muita dor para duas pernas só.

O retorno de trem foi tranquilo – apesar de meus 3 companheiros serem grandes alemães de meia idade que não falavam nem inglês, nem espanhol e que ocupavam todos os espaços para colocar as pernas enormes, me fazendo ficar com as pernas para o corredor e nossa comunicação era baseada em sorrisos e caretas.

Nem no trem, nem na van consegui dormir – apesar de estar muito cansada e de ter acordado as 3 da manhã – tamanha minha excitação.

Ao retornar a Cusco comprei uma InKa Cola e um salgadinho – muito bom, tipo cheetos – e antes de dormir ainda revi as fotos, para ver se realmente tinha sido verdade.
No dia seguinte eu pegaria um avião de Cusco pra Lima.

Antes de sair meu celular parou de funcionar e eu fiquei com a pulga atrás da orelha por pensar que talvez eu tivesse perdido todas as minhas fotos de Machu Picchu.

Para conferir o destino anterior clique aqui!
Para conferir o próximo destino clique aqui!

6 comentários: