segunda-feira, julho 29, 2013

Personalidades: Quiliano e Luzia

Quiliano Heiderscheidt (1920-1996)
Luzia Arminda Heidersheidt (1923 – 2010)
Por Orly Miguel Schweitzer 

Desde os primórdios da civilização se iniciaram as práticas comerciais em todo o mundo. Ninguém conseguia produzir tudo o que necessitava. Então, surgiu a troca, na época designada por “escambo”, palavra que foi substituída por “câmbio”, “permuta” ou “troca”.  Os pastores ou criadores trocavam com os agricultores seus animais ou a sua carne, lã, o couro da sua produção de ovelha, de gado, ou outros, por feijão, arroz, mandioca, trigo... ou de variadas atividades como ferreiro, marceneiro, carpinteiro e tantas outras. Muitas vezes,  com  a troca não era possível igualar os valores e foi então que surgiu o dinheiro, ou seja, a moeda para a  troca.  Passou a existir a compra e a venda.
            E na localidade de Caeté, originada pelo rio do mesmo nome, que pertencia à Vila de Barracão, do Distrito de Catuira, Município de Bom Retiro, hoje Município de Alfredo Wagner, existiu um grande comerciante: QUILIANO HEIDERSCHEIDT,   casado com  LUZIA ARMINDA HEIDERSCHEIDT (1923-2010).  O casal possuía, ali, uma casa comercial, naquela época designada “Venda”, a qual havia comprado do morador Adelino Lickmann.
            Enquanto “dona” Luzia – como era chamada - cuidava da casa, dos filhos e da “venda” o “seu”  Quiliano – assim também tratado -  percorria a região com uma carroça puxada por 6 (seis) cavalos  e adquiria a produção dos agricultores locais: banha de porco, ovos, cera de abelha, queijo, manteiga, charque, farinha de milho,  feijão, arroz, batata e tantos outros produtos,  para revendê-los nos mercados de Lages e Florianópolis, passando também  a fornecer para os batalhões do Exército. De lá trazia tecidos, linhas, botões, calçados, chapéus, ferramentas, sal, pimenta,  farinha de mandioca, cachaça, etc.,  os quais, por sua vez, eram vendidos para a população local.
            Na realidade, ainda se praticava uma espécie de troca, ou seja: durante o ano ele fornecia os produtos de necessidade aos agricultores mediante um crédito que era registrado numa conta-corrente, que na verdade era uma anotação em uma caderneta, com a assinatura do comprador. Por ocasião da colheita ou periodicamente, quando recebia a produção agrícola, tudo também era anotado e se fazia o acerto das contas.
            E o pequeno comércio prosperou. Logo compraram um caminhão, o que era raro naquela época, passando a viajar também para São Paulo  e outras cidades, ampliando assim, a variedade de produtos, como rádios, máquinas de costura, e os novos produtos derivados do plástico, conhecido na época como “matéria plástica”, uma grande novidade.
             Uma curiosidade marcante é que o seu Quiliano apesar de ser um exímio motorista, jamais obteve a sua Carteira de Habilitação. Então, contou com a colaboração de muitos jovens motoristas de caminhão que por lá passaram:  Seus irmãos Waldemar (Quixa) e Roberto, bem como  o  Marquinho, o Nicolau Foster, o Zico Seemann, o  João Valério entre outros.
Mas até chegar a essa fase das suas atividades foram grandes as dificuldades. Quando solteiro ele já praticava essa atividade, com o seu carroção, pela região.  Embora em quantidade reduzida. E foram nessas compras que conheceu a mocinha Luzia, filha do Manoel  Valério e dona Arminda,  agricultores de Santa Bárbara. Ela, desde nova, demonstrou gosto pela produção. Aconselhada pela mãe começou a formar um “enxoval”- na época as moças começavam a bordar toalhas, roupas de camas e outras peças que levariam quando viesse o casamento. Iniciou também uma criação de galinhas, as quais negociava, com o jovem Quiliano, um rapaz alto, forte e bonitão, que tinha até um carroção.
            Desde menina Luzia já fazia as leituras na igreja, por ocasião das missas, ou das “rezas” ou “terços”, assim chamados. Com o tempo e na ausência do padre ou da professora local, ela passou a dirigir essas atividades religiosas, mesmo  ainda menina.
            Os enamorados iniciaram um relacionamento e logo veio o casamento e lá mesmo em Santa Bárbara abriram sua pequena “venda” e começaram a negociar. Ele já tinha a carroça e ela trouxe de casa a sua criação de galinhas e uma cabeça de gado. Como se deduz, “era cara e coragem”.
            Ele já era um grande trabalhador e ela era uma grande empreendedora. Logo venderam sua casa comercial para o Sr. Cláudio Mariotti e mudaram-se para o Caeté, localidade maior, onde compraram a casa comercial do Sr. Adelino Lückmann .
            Dona Luzia, devota a Deus e a Nossa Senhora de Fátima, em certa noite acordou dizendo ao marido que havia sonhado que naquele terreno havia um belo local em que daria para construir uma gruta onde colocariam a imagem da Santa. No outro dia, entraram na mata e realmente encontraram uma bela cascata sobre uma pedra em forma de gruta. E com o tempo construíram a gruta de Caeté. Depois foram sendo construídos a capela, o salão de festas, churrasqueira, e outros espaços onde, até hoje, são celebradas missas, rezas, reuniões e até mesmo cultos de outras religiões cristãs. Hoje o lugar serve como atrativo do turismo religioso, pois é grande o número de pessoas de Florianópolis e região que frequentam as festividades. É com satisfação e saudade que os filhos e netos, ao visitarem o local, sempre repetem a leitura da placa comemorativa que se encontra na Capela da Gruta onde constam os nomes de seus pais, como fundadores da mesma.
            Esta união foi abençoada por muitos filhos: Rufino,  Rainildes, Regina, Rogério, Raini, Ronério, Rudinei e Roney.  Vieram as noras: Zélia, Dirce, Eunice e Tania e os genros Elio, Valdir, Orly e Dirceu. Veio também a felicidade de ganharem  muitos netos(as),  e bisnetos(as); os quais sempre foram  a grande alegria do “Vô”  Quiliano e da “Vó” Luzia.  O mais curioso nessa família é que “o sogro e a sogra” gostavam das noras e dos genros e estes também cultivavam um amor que era reciproco. Tambem eram amados por todos os netos e netas.  Era muito comum a dona Luzia dizer: “Eu tenho uma família de ouro”.
Voltando aos tempos em Caeté é de se ressaltar que, naquela época,  era uma região muito próspera formada pelas localidades de Santa Bárbara, Morro Redondo  e Santo Anjo, cuja estrada seguia para Anitápolis.  Possuía grande quantidade de habitantes dedicados à produção agrícola e pecuária. Com a campanha de colonização do Paraná, o Governo daquele Estado facilitou a aquisição de terras, as quais eram mais produtivas e o futuro era promissor.  Então o êxodo foi grande. Famílias inteiras se organizaram e mudaram para aquele Estado. Os tempos mudaram e a população em Caeté reduziu juntamente com o comércio também.
No lugar existia uma escola onde trabalhava a professora, Sra. Izaura. Quando ela se aposentou, veio uma nova professora, Sra. Ziza Ibagy, porém, eram tão poucos os alunos que a Prefeitura (Bom Retiro) fechou a escola. Então o seu Quiliano, por uns tempos, contratou essa mesma profissional, com o intuito de manter a escola para alguns de seus filhos e alguns vizinhos, já na idade escolar e de outros vizinhos.  Com a saída dessa última educadora houve a tentativa de contratação de outro professor, que não se concretizou. Alguns dos filhos passaram a frequentar a escola no centro de Alfredo Wagner, mas a distância era grande. Outros foram estudar em Bom Retiro, o que também não era fácil naquela época.
Então, dona Luzia, prevendo que os filhos não poderiam ficar sem estudar e com o desejo de mantê-los em casa,   sugeriu ao marido que se  mudassem  dali.
Venderam seu comércio para o Sr. Noé Souza, e mudaram para o centro de Alfredo Wagner onde desenvolveram atividades com serraria, dormitório, açougue e agricultura. De início eram auxiliados pelo filho mais velho, Rufino, o qual, aos 18 anos veio a falecer de maneira trágica, o que causou grande comoção em toda a região e um abalo emocional em toda a família,  que só com o tempo passou a ser suportado porém sempre lamentado.
Já na atividade com açougue, o filho Rogério passou a ser o “braço direito” do pai apesar da tenra idade.  Já por volta dos 10 aos 12 anos, era comum vê-lo, ainda usando calças curtas - moda para as crianças da época – viajar de carona com os caminhões do transporte da madeira, para a região de São Joaquim e Bom Jardim da Serra para fazer pagamentos pela compra de gado. Como não existiam Bancos o dinheiro era levado dentro de um saco de linhagem, comum naqueles tempos.
Os outros filhos freqüentaram o Colégio local e aqueles que quiseram, continuaram os estudos em Florianópolis e São José.
Sem deixar de amar e freqüentar Alfredo Wagner, alguns ainda mantem propriedades na cidade. Atualmente, todos residem ou desenvolvem atividades em Florianópolis, São José e Palhoça.  E como dizia o seu Quiliano, com grande satisfação: “Todos estão bem lá em baixo”.
Nas atividades sociais ele dedicava-se a Política, tendo sido eleito Vereador pelo Município de Bom Retiro. Posteriormente, foi eleito Vice-Prefeito o município, na gestão de Norberto Wagner. Entre os dois sempre houve um ótimo relacionamento político e uma grande amizade entre ambas as famílias, herança que perdura até a atualidade.
A característica política e marcante de seu Quiliano, reforçadas por dona Luzia, era de que em seus chamados, redutos eleitorais, pela amizade que cultivava com os moradores, sabia com precisão os votos que receberia.  Outra característica era o respeito que dedicava e recebia de seus adversários políticos.  Por mais de uma vez recebeu a visita do Sr. Rogério Kretzer, que vinha cumprimentá-lo após uma eleição, mesmo que vencedor ou vencido, quando em posições opostas. E isso concretizava a amizade particular que existia entre eles, tanto que em outras campanhas trabalharam do mesmo lado.
As atividades sociais da dona Luzia foram marcadas por sua frequência nos grupos religiosos, e na ajuda material, espiritual e moral às pessoas que a ela se socorriam em busca de auxílio ou de uma palavra de fé e de esperança. Foi uma grande pregadora do perdão.  Era até motivo de troca de opinião entre os familiares; quando alguns argumentavam o contrário, ela insistia sempre em que o perdão deveria ser dado em qualquer circunstância, mesmo que fosse difícil. 
Era muito comum pessoas virem procurá-la em busca de um apoio moral; muitas vezes por problemas familiares, outras apenas para desabafar eventuais mágoas.   Ela lhes dizia que possuía uma oração muito forte que resolveria aquele problema. Mas na verdade o que ela transmitia, amparada na sua fé em Deus, eram palavras de consolo e um aconselhamento para uma atitude que aquela pessoa deveria tomar para resolver a situação.  Muitas dessas pessoas voltavam depois, para agradecer, porque a situação adversa havia se resolvido. As orações dela somente não fizeram efeito para àqueles que desejava, deixar da bebida alcoólica.
Com as atividades agrícolas existiam muitos mantimentos.  A mesa desse casal estava sempre cheia, graças à Deus, de alimentos e de gente. Quem lá chegasse era sempre convidado por ele a sentar-se à mesa, por mais humilde que fosse a pessoa, notadamente seus empregados ou parceiros rurais. Ela para não ser pega de surpresa e já conhecendo o marido, sempre preparava as refeições em maiores quantidades, pois ele sempre trazia mais alguém para comer, sem se preocupar se haveria comida para todos. “Isso é problema da Luzia”, dizia ele. 
Mas o grande mérito desse casal, além da grande amizade e o respeito que recebiam e retribuíam com toda a sua vizinhança foi a dedicação pelos mais humildes, pelos parentes e pela própria família.
Houve problemas, crises e tristezas.  Muitos superados e outros suportados e confortados pelo amor familiar e pela fé em Deus. O que dava-lhes força e vontade para prosseguir, trabalhar, reagir e começar de novo, era isso: o amor e a fé.   
Mas a grande alegria e felicidade do casal era a sua família. Quando chegavam os Natais e outras festas a casa se enchia e a família toda se reunia. E note-se que não eram poucos. A filharada com seus maridos e esposas e muitos netos, todos dormindo até pelo chão, cantando, conversando, rezando, comendo e sorrindo.  Eram festas lindas! Isso sem contar o rebuliço com a insistência e teimosia do “homem” em carnear um boi às vésperas do Natal, o que se repetia em todos os anos.
O tempo passou, os netos cresceram, já vieram os bisnetos, e, os avós Quiliano e Luzia juntamente com outro filho o Roney, também falecido de maneira trágica e lamentável, já estão com Deus... o que assim se espera e confia!
... e a vida e a nossa história continuam...
É com grande satisfação e muitas de saudades que nós, seus familiares, contamos e ouvimos os relatos sobre suas vidas.
A seguir, o relato pessoas de alguns familiares:
- Do filho Rudinei. Dados históricos:
“QUILIANO HEIDERSCHEIDET, nasceu em Rancho de Táboas, Angelina em 23/06/1920 e faleceu em Alfredo Wagner no dia 27/06/1996. Filho de Henrique Heiderscheidt descendente de Pedro Andreas Heiderscheidt, que chegou ao Brasil em 1863, originário de Luxemburgo, que pertencia para a Alemanha, e de Bertolina Bunn. Sua mãe foi Verônica Franz, descendente de João Franz e Catharina May. Henrique e Verônica mudaram-se para  o Caeté por volta do ano de 1930, juntamente com o irmão Roberto e Amália Franz Heiderscheidt, estes pais de Oscilino e Celio Heiderscheidt.                                                                
– LUZIA ARMINDA HEIDERSCHEIDET, nascida Valério, nasceu em  18/02/1923, Orleans, SC e faleceu no dia 18/02/2010. Filha de Manoel Pedro Valério, descendente de Pedro Valério e Francelina Simas. Sua mãe foi Arminda Leandro Valério, descendente de João Leandro de Moraes e Maria Welter Shimitz.”
- Na segunda história contam que Quiliano e Luzia já casados e com um açougue, num certo dia ao colocar mais um boi na mangueira para a matança, dona  Luzia comentou: “Quiliano este boi está muito magro e assim ele vai dar prejuízo”. Foi quando Quiliano soltou uma frase das mais conhecidas dos antigos do Barracão: “O negócio é carnear Luzia”.

            - Da neta Marianna: “ ... Eu era ainda muito pequena mas lembro um pouco da nossa infância em Alfredo Wagner. Papai Noel na “camoneta” do vô Quiliano... a casa  da vó Luzia, no Natal, sempre com todos da família... colchões um ao lado do outro estendidos pela sala ... historias de terror, da vó, que faziam com que  nenhuma neta quisesse dormir no quarto da frente... o segredinho do vô de ter uma conta no boteco próximo a casa, mas que na verdade era para pegar balas para nós... as orações ... Tudo era simples, mas todos eram felizes.

               -  Da nora Eunice: “Um homem de coração valente, alma pura e braços fortes; planta e colhe sucessos para sempre¨. 
¨Uma mulher de muita fé, otimismo e fibra, planta e colhe alegria e felicidade.
Família Heiderscheidt, demonstração de superação, um ensinamento através do exemplo. 

            - Da neta Elizabeth: "Bons tempos passamos todos juntos naquela garagem. Que na verdade nunca foi uma garagem, ao menos nunca vi qualquer carro parado ali. Naquele mesmo espaço batatas eram descascadas, a árvore de natal era montada, cadeiras eram colocadas em círculo para uma longa prosa, melancias eram partidas. E assim era todo fim de ano. A família toda, um sem fim de crianças, todos reunidos sem qualquer luxo ou interesse. Só mesmo pela festa de juntos estarem. Vô Quiliano e Vó Luzia sem nem mesmo terem a intenção conseguiam e ainda conseguem de alguma forma manter próximas tantas pessoas. Todos da mesma família, mas com vidas corridas, diferentes interesses e valores, diferentes crenças e planos. Hoje em dia, mesmo eles não estando fisicamente presentes, essa bagunça ainda acontece. A diferença é que ela é bem mais organizada! Sorte de quem tem uma família para chamar de sua! A minha tem todos os defeitos que todas as outras também têm. Mas ela tem virtudes incalculáveis. É que ela "é de ouro"." 
Da neta Cleonice: “Vô Quiliano e Vó Luzia: Há pessoas que passam na nossa vida  e outras que ficam para sempre em nossos corações.”
Texto reunido e escrito, com a colaboração dos familiares, pelo genro Orly Miguel Schweitzer. Julho de 2013.

Correções:

Ana Paula Kretzer

3 comentários:

  1. textos estão cada vez mais comoventes e mostrando a todos a importância de resguardarmos nossa história comum. um belo projeto.
    parabéns ao pirão e demais envolvidos pelo carinho com que tratam nossas memórias.
    valdir cunha

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  2. Saudades da Tia Luzia! Minha mãe, Verginea, é irmã dela.
    Belo registro que ajuda a manter vivas as lembranças de pessoas tão brilhantes.

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  3. Li com prazer a história da vossa família, Orly e Regina, velhos vizinhos e amigos da época de Trombudo Central. Saudades. Dario

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