sábado, dezembro 31, 2016

Retrospectiva - Já vai tarde 2016


Foi um ano difícil, de mais perdas do que ganhos.
Perdi o emprego que amava;
Perdi para a vida alguns grandes amigos/irmãos;
Perdi a ilusão do amor;
Perdi a minha essência, muitas vezes me apagando para me tornar alguém que não sou e evitar conflitos;
Perdi direitos;
Acho que perdi meu HD;
Perdemos todos com essa palhaçada política;
O inter do meu pai caiu;
O avião da Chapecoense também e eu chorei muito;
O que ganhei?
Bom, além da chance de tentar algo melhor ano que vem ao lado de quem amo...
Tive a chance de conhecer mais alguns pedacinhos da América do Sul;
Fiz meu primeiro mochilão;
Pedalei por boa parte de Alfredo Wagner;
Em meu primeiro ano como ciclista pedalei 1.000km;
Vivi para ver uma olimpíada no Rio e até segurei a tocha;
Minha vó continua com saúde e nos encantando;
Criei a Eva Schneider;
Finalmente conheci Machu Picchu;
Passei muito frio em La Paz e descobri que altitude não me afeta;
Vencemos a eleição municipal e minhas convicções políticas foram depositadas em um vereador que foi eleito;
Meu livro será mesmo lançado; (Dessa vez ele sai)
Meu blog tem 5 vezes mais acessos diários do que ano passado;
Amadureci a duras penas, acho que estou mais forte, mas foi um ano muito sofrido.
Me despeço de 2016 e acho que não sentirei saudades desses 365 dias que na maioria das vezes foram cruéis.
Tenho certeza que 2017 será meu ano!
A gente levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, buscando realizar nossos sonhos, buscando ser feliz e ver quem a gente ama também sorrindo!
O que é ruim ficará hoje  no passado, junto com esse ano que se finda!
Venha 2017 e tenho certeza que seremos muito felizes juntos!
Feliz ano novo!


quinta-feira, dezembro 22, 2016

Eva Schneider em: A erva rejeitada por Deus



Sabú respirava com muita dificuldade, uma respiração fraca. Hanahira disse:
- Vocês precisam partir agora, a erva deve ser colhida antes do primeiro raio de sol.
 Albert disse:
- Mas que diabo de erva é essa? Onde que a gente vai encontrar isso? Deus não a quer? Se não quer essa erva é porque ela não deve prestar.
Eva pegou na mão do tio e o acalentou:
- Se acalme tio.
Virou para a bruxa e disse:
- Hanahira, nos explique o que devemos fazer.
Hanahira disse:
- Pois bem, essa erva é uma planta que nasce apenas em terrenos de grande altitude, ela é fácil de reconhecer, tem as folhas largas e dá uma flor grande, alaranjada com detalhes em roxo. Existem poucos pés dessa planta e todos eles estão no mesmo lugar, o alto da Pedra Branca. - Ela fala isso e aponta pela janela. A noite de lua permite que eles possam ver do que se trata o local.
- Minha nossa senhora e como você espera que eu suba lá? Voando, não sou um passarinho! - Diz Albert.
Hanahira disse:
- Existe uma trilha, vocês sobem pelo meio das árvores, deve demorar umas duas horas para subir. Mas o mais importante é: ao encontrarem a planta, vocês devem ir até a ponta do penhasco e jogá-la para baixo. Quando Deus recusar um desses galhos o arremessando para cima novamente vocês terão encontrado a erva certa, que salvará o pequeno Sabú.
Eva olhou para o tio e disse:
- Vamos?
Tio Albert olhou para Sabú, torceu os bigodes e fez que sim com a cabeça. Hanahira foi com eles até um pedaço, indicando a trilha que deveriam tomar até o topo da Pedra Branca. Como a noite era de lua cheia eles conseguiam enxergar sem maiores dificuldades. Eva tirou do bolso uma bússola e a bruxa mostrou qual a direção e deu todas as informações necessárias, explicando tudo com detalhes, qual direção eles deveriam tomar depois de atingirem o topo.
Albert não era um homem atlético, era trabalhador; para andar não era o mais rápido dos seres humanos. Ele tinha dificuldades para acompanhar o passo de Eva e vez ou outra era obrigado a parar para tomar novo fôlego e tentar continuar. Mais ou menos pelo meio da subida ele foi obrigado a se sentar.
- Minha filha, acho que meu coração vai saltar pela boca. - Ele se abaixou e ficou pálido, como se fosse desmaiar.
- Tio, tio, se acalme, acho que é melhor você esperar aqui.
Ele a olhou e disse:
- Jamais, eu preciso ir com você.
Eva retrucou:
- Mas assim vamos demorar a vida toda, fora que o senhor pode ter um ataque do coração, não tá acostumado a todo esse esforço físico.
Ele tentou levantar, mas não conseguiu, Eva foi ao seu encontro, lhe deu um beijo e disse:
- Eu já volto tio. - E seguiu a trilha.
Ela continuou a subida naquele ritmo incansável. Ao chegar no topo foi seguindo as indicações de Hanahira. Chegou no local chamado de Facão, uma estreita passarela com cerca de 3 metros de largura, com perau para os dois lados. O céu estava muito estrelado, podia-se ver longe e Eva pensou que talvez tivesse sido melhor que a visão estivesse menor, para ela não ver todo aquele perigo que estava correndo. Ventava bastante, Eva respirou fundo e pensou em Sabú, ela precisava ir. Apesar do medo, era lindo passar por ali.
Após passar o Facão ela continuou seguindo as indicações da bruxa, andou, andou, vez ou outra se assustava com as sobras das árvores ou com algum barulho estranho que ouvia, ela tinha medo de leões baios, apesar de pensar que Katse sempre estaria por perto para lhe proteger. Quando Eva pensava estar perdida, se deparou com um enorme penhasco, exatamente como a bruxa havia explicado.
Finalmente Eva sentou e comeu um pedaço de pão, toda aquela subida tinha a deixado faminta e para falar a verdade ela se sentia bem cansada, mas sabia que não podia perder tempo, a vida de Sabú dependia dela.
Ela começou a procurar a planta. Viu dezenas de tipo de mato, mas nenhum deles com a bendita flor laranja com roxo. Mesmo não encontrando nada, não desistiu de procurar, até quando avistou no fundo de um valo a plantinha, que batia precisamente com a descrição que a bruxa havia lhe passado. Ela apanhou alguns galinhos e voltou para a beira do penhasco, para fazer aquilo que a bruxa havia mandado.
Jogou o primeiro galho e caiu, jogou o segundo e ele caiu novamente, o mesmo aconteceu com todos os galhinhos que ela jogou. O que ela estava fazendo de errado?
Ela se afastou e com o olhar procurou novamente pelo local de onde deveria jogar. A bruxa havia dito que que seria um pouco antes de uma ponta de pedra. Analisando bem, poderia ser em outro lugar, alguns metros para a frente de onde Eva estava. Ela retornou ao local onde encontrou a planta, colheu mais alguns galhos e voltou para tentar novamente.
O mesmo aconteceu, todos os galhos cairam. Aparentemente Deus estava com vontade de ficar com todos aqueles galhinhos. Eva sentou e começou a chorar, ela tinha subido até ali, encontrado a planta e agora não conseguia encontrar o galho adequado, era muito injusto.
Foi até o valo e colheu todos os galhos restantes da planta, estava decidida a tentar mais algumas vezes, porém se não desse ela levaria a planta mesmo assim, poderia ajudar em algo.
Mais algumas tentativas falharam, até que Eva sentiu a brisa mudar e resolveu que tentaria pelo menos mais uma vez.
Ela colocou todas as suas esperanças naquele ramo de mato, pensou em todas as risadas que já deu ao lado de Sabú, em todas as aventuras que já viveram juntos, pensou na tia Matilda que amou o menino desde a primeira vez que o viu e jogou o galho, ele caiu, mas como em um passe de mágica ele foi devolvido. Subiu mais alto do que a cabeça de Eva e depois caiu aos seus pés. Eva nem conseguia acreditar, teria sido mesmo Deus que ouvindo o pedido de seu coração devolveu aquele pedaço de mato? Ela não precisava de nenhuma explicação, a única coisa que queria era correr para casa para poder salvar Sabú. Antes de ir ainda jogou os dois últimos galhos da planta que para a sua surpresa também retornaram.
Assim que começou o caminho de volta o sol começou a nascer e Eva corria para chegar na velha cabana da bruxa o quanto antes.
Correu pelo alto dos campos, pelo meio das toiceiras que teimavam em engolir seus pés, levou alguns tombos, arranhou o rosto e os braços em espinhos e galhos secos, mas não desgrudava da bolsa que continha a única esperança de ter Sabú de volta.
Após passar pelo facão encontrou Tio Albert, que estava subindo.
- Tio, eu encontrei a planta e Deus a devolveu, podemos salvar Sabú!
Albertt gritou:
- Filha, corra o mais rápido que puder, eu vou descer logo atrás de você.
Eva desceu todo o morro sem parar de correr, no final as unhas de seus pés sangravam, de tanto serem forçadas contra a ponta de seus tamancos. Ao chegar lá embaixo ela pegou um dos cavalos e saiu a galope em direção a cabana da bruxa.
Ceci e Hanahira estavam esperando Eva na janela e assim que a avistaram foram encontrá-la.
- Trouxe a planta? - Indagou Hanahira.
Eva abriu a sacola e disse:
- Espero que seja essa.
Hanahira pegou a planta e examinou, ao final ela disse: 
- É bem essa, espero que não seja tarde demais.
Ela foi até o fogão onde já existia um caldeirão com água quente, amassou a planta, dentro de uma “cumbuca” de madeira até a planta ficar parecida com uma pasta, colocou um pouco de água fervente, botou uma tampa e disse que iria deixar curtir um pouco. Depois ela pegou mais algumas folhas da planta, misturou com outras ervas e colocou dentro de algo parecido com um turíbulo das igrejas, a mistura de ervas gerou uma fumaça com um cheiro estranho. Ela foi até as prateleiras e pegou uma série de potes, com óleos, unguentos, misturas com as mais variadas cores e aromas.
Ela pediu para que as duas meninas saíssem de dentro da casa, Ceci relutou, mas Eva a pegou pelo braço e a convenceu a sair, dizendo que elas precisam confiar em Hanahira.
Assim que elas saíram começaram a ouvir uma cantoria dentro da casa, uma espécie de reza cantada da qual não conseguiam entender muitas palavras.
Hanahira passou óleos pelo corpo de Sabú, fez uma compressa com algumas ervas, incluindo a erva que Eva trouxe do alto da Pedra Branca e a colocou na testa e no local onde a cobra o picou.
Ela tirou a tampa da cumbuca e com a ajuda de um pano, coou a água que havia colocado na papa feita pelas folhas da planta socadas. Ela fez Sabú engolir essa água e depois, trocou a parte de cima do turíbulo, colocando uma tampa com um único ofício e por ali ela sugava a fumaça pela boca, abria a boca de Sabú e passava a fumaça para a boca dele. Nesse momento ele abriu os olhos e tossiu, fechou novamente e ela começou uma série de rituais, que envolviam reza, mais fumaça e doses do remédio feito a partir da planta. Após um tempo Sabú vomitou e voltou a dormir.
Hanahira saiu do quarto, fechou a porta e disse:
- Temos que esperar 3 dias, se ele não melhorar, podemos dar o caso como perdido, mas acredito que dará tudo certo, ele parece ser forte.
Umas duas horas depois apontou Tio Albert pela estrada. Ele parecia ter sido atropelado por um cavalo xucro, estava todo estropiado, sujo, com as roupas rasgadas. Assim que chegou pediu notícias de Sabú e ficou um pouco decepcionado ao saber que ainda tinha que esperar. Mal teve tempo de “apiar” do seu cavalo ouviu os gritos de Matilda chegando.
- Minha nossa senhora, onde está o meu menino? - Ela estava aos prantos, Albert a abraçou e pediu para que ela tivesse calma.
Na noite do primeiro dia Sabú teve um sono perturbado, parecia que estava tendo alucinações, falava, gritava durante o sono.
No segundo dia todos ainda estavam na casa de Hanahira, que aos poucos foi ganhando a confiança de Albert e Matilda.
Ela contou que o povo tem muito preconceito, chamavam ela de bruxa, mas na verdade ela era apenas uma pessoa que acreditava na força da natureza e em algo que talvez as pessoas não conseguissem ver, mas que era uma espécie de energia que se usada de forma positiva só fazia o bem as pessoas. Ela conhecia muitos remédios indígenas, conhecia muito sobre ervas, chás, sabia preparar remédios, sabia tratar de qualquer doença, ela brincava dizendo que se parecia muito mais com um médico do que com uma bruxa, mas já estava acostumada a ser chamada de bruxa, ser mal vista pela sociedade e a ter que viver um pouco escondida para ter paz.
O terceiro dia já estava quase terminando quando o frei chegou até a casa de Hanahira. Ele veio com Albert que tinha ido até o Barracão ver como estava o sítio e também resolver algumas pendências. Ao chegar o frei cumprimentou Hanahira como se fossem antigos conhecidos e pediu para ver Sabú. O indiozinho estava pálido, parecia que nem existia mais sangue correndo pelas suas veias, o frei teve medo do pior acontecer em pouco tempo.
Enquanto o frei consolada Matilda, Ceci caiu em prantos e Hanahira a abraçou. Albert torceu os bigodes e Eva não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo mais uma vez em sua vida e foi então que ouviram uma voz fraca vir de dentro da casa.
- Mutter[1]?
 Matilda deu um salto para dentro da casa e abraçou Sabú chorando e dizendo:
- Estou aqui meu filho, a mamãe está aqui!
Sabú nunca tinha chamado Matilda de mãe, mas esse era o amor que os dois sentiam um pelo outro, de mãe e filho.
Todos foram até o quarto para ver Sabú. Ele ainda estava muito fraco, mas iria sobreviver.
Tio Albert e tia Matilda não sabiam o que fazer para agradecer Hanahira, que não queria nada em troca, nem dinheiro, nem comida. Ela disse que já tinha tudo que precisa para viver. Eles agradeceram mais algumas vezes.
Ela se despediu de Ceci e depois abraçou Eva dizendo:
- Você salvou a vida de seu amigo, teve a coragem de enfrentar a noite sozinha e não desistiu antes de cumprir seu objetivo, continue assim. Eu me enganei, quem teve o prazer de te conhecer fui eu, minha brava Eva.
O frei apenas abanou a mão de longe para Hanahira e Eva percebeu que existia alguma história entre os dois, mas agora não era hora de perguntar sobre isso e sim hora de voltar para casa, para Sabú se recuperar logo!






[1] Palavra em alemão que significa mãe.

terça-feira, dezembro 20, 2016

Personagens - Eva Schneider



Eva Schneider – Eva chegou ao Brasil com 12 anos. Filha de Esther e Friedrich, perdeu a mãe em seu nascimento e seu pai pouco antes de vir para o Brasil. Nasceu em Heidelberg, na Alemanha, mas agora vive com seus tios no Caeté, Barracão. Adora se aventurar, ler, cavalgar, conhecer coisas novas e desvendar enigmas e mistérios.  Tem um coração puro e justo. Embora ainda morra de saudade do pai ela já não consegue imaginar sua vida sem a família que se formou nessa nova terra. Ama os tios, Sabú e Ceci, o Frei, seu cavalo Artigas, seu amigo Katze e sua ave Bijuca. Escreve todas as suas aventuras em um livro em branco com capa marrom que ganhou de seu pai e sonha em dia ser como ele.



Ceci – Vivia com sua tribo na mata, nas proximidades do Caeté, mas sua aldeia foi dizimada pelo terrível Martin Bugreiro. Foi salva por Eva e desde então a considera sua irmã. Ama bordar com tia Matilde, mas nunca nega entrar em uma aventura com sua melhor amiga Eva e seu irmão Sabú. Não leva muito jeito para cavalgar, mas para andar pelo meio do mato não existe ninguém melhor que ela, conhece todos os animais pelas pegadas, todas as frutas e plantas, além de conhecer todos os pássaros apenas pelo seu canto. Aprendeu a falar em português e alemão com Eva e em retribuição ensinou o tupi-guarani para a amiga. Ceci tem a mesma idade de Eva, 12 anos. 




Sabú – O pequeno Sabú tinha apenas 6 anos quando perdeu a família e toda sua tribo em um ataque do terrível Martin Bugreiro, os únicos sobreviventes do ataque foram ele e a irmã Ceci. Desde então ele vive com os tios de Eva. Tem uma forte ligação com Matilde e até mesmo a chama de mãe, o que da primeira vez emocionou muito a alemã. Aprendeu a cavalgar, é um excelente nadador e um grande companheiro para aventuras. É também muito amado por Albert que tenta lhe ensinar de tudo um pouco, o considera um grande companheiro.




Tia Matilde – Matilde Bunn Scheaffer, casada com Albert é uma mulher de fibra. É muito religiosa, tem um coração enorme. Se considera mãe de quatro filhos, August – seu filho mais velho já casado – Eva, Ceci e Sabú, menino com quem tem uma forte relação e também o responsável pelo amolecimento de seu coração. Ser mãe dessas três crianças nem sempre é um trabalho fácil. É o braço direito do marido e é quem ensina tudo a seus pequenos. Muito preocupada com as suas crianças, quer sempre o melhor para elas, cozinha muito bem, gosta de bordar e costurar. 





Tio Albert – Albert Scheaffer é o irmão de Esther, a mãe que Eva nem chegou a conhecer. Já morava no Brasil há mais de 10 anos quando Eva veio viver com ele e a esposa. Não é homem de muitas palavras, mas é muito paciente e observador. Ele está sempre por perto, enrolando os bigodes e analisando o que está acontecendo. É um ótimo tio e tem um imenso amor por Eva, Ceci e Sabú. Gosta de colocar todos em seu carroção e passear. Como passatempo ele também constrói brinquedos de madeira para as crianças. 





Frei – Magnus La Fontana. Foi o primeiro amigo que Eva conheceu ao chegar ao Barracão. É um homem bom, muito inteligente, conhece todo mundo e sempre acreditou em Eva. É muito amigo dos tios da menina e por isso para Eva é como se ele fizesse parte de sua família também. Parece ter algum tipo de parentesco com Hanahira, uma curandeira da cidade, mas evita tocar no assunto. 








segunda-feira, dezembro 19, 2016

Eva Schneider em: a cobra e a bruxa


Finalmente o Tio Albert concordou em levar novamente Eva, Ceci e Sabú até a Lomba Alta. Desde o incidente com os saqueadores de tropeiros e Katze ele estava receoso de pegar novamente aquela estrada, mas as crianças estavam insistindo muito, pois, Ceci e Sabú queriam mostrar a Eva uma gruta maravilhosa.
Dessa vez não encontraram nenhum perigo no caminho, eles subiram o vale do rio Águas Frias, se encantaram com as paisagens e à medida que subiam se deparavam com uma serra e várias outras montanhas nos mais diversos formatos que deixavam o lugar esplendoroso.
A tal gruta ficava perto da serraria do seu Althoff. Lugar esse onde a serra funcionava com a ajuda de uma imensa roda d’água. A serraria era exatamente o local onde Albert iria para comprar algumas madeiras para realizar obras no sítio. As crianças pediram permissão e foram conhecer o local. Logo que chegou Eva ficou fascinada. Era um lugar maravilhoso, uma caverna aberta na lateral e com uma grande queda d’água ao fundo. Ceci e Sabú contaram que aquela gruta era usada como um refúgio por seus antepassados, contaram que ali existia uma concentração de energia especial para seu povo, mas que agora, como eles quase já não tinham mais povo, o lugar estava quase sempre vazio. Ficaram mais algum tempo desfrutando a paz do local. O silêncio, quebrado apenas pelo barulho da queda d’água.
Ao subirem conversaram com seu Althoff que contou que o lugar é conhecido como a Gruta do Poço Certo e que ele e outros moradores da região também gostavam de descer e refletir, é um local onde se pode ficar mais perto de Deus, disse o senhor.
Na volta eles pararam na casa de um amigo de seu tio Albert, o nome dele era Alfredo Henrique Wagner e ele tinha sido um dos fundadores daquela vila, junto com Jacob Schweitzer, seu concunhado, e Guilherme Althoff. Eles fundaram a vila em virtude da mudança do traçado da estrada Lages/Florianópolis em 1904. Antes a estrada passava por dentro da Colônia Militar Santa Tereza, mas agora passava pela Água Fria, enfraquecendo o comércio na Colônia Militar, ocasionando a mudança de muitos moradores.
Alfredo Wagner era um homem sábio e que gostava de conversar. Morava em uma casa muito bonita e com um jardim cuidado com todo o capricho, por dona Júlia, sua esposa. Alfredo Wagner conversou com Albert sobre como apostava na prosperidade daquele lugar e também de outras vilas como a Colônia Militar de Santa Tereza, o Barracão, Barra da Jararaca e o Quebra Dentes. Disse que achava que um dia todas essas vilas que ficavam mais para baixo na serra, deveriam se unir e formar uma grande cidade, que seria melhor para todo o povo, pois assim sendo uma cidade independente eles teriam recursos para crescer, mas que isso ainda era coisa para o futuro. Eva gostou dele, acreditava nas mesmas ideias que aquele homem e não conseguia parar de olhar para ele com admiração. Eles foram convidados para o almoço e Albert não teve como negar. Todos comentavam que Alfredo Wagner e sua esposa Júlia recebiam muito bem os convidados em sua casa, não importava se era rico, pobre, uma pessoa importante ou um andarilho, eram todos tratados da mesma forma. Júlia até aproveitou que Ceci estava em sua casa para dar umas dicas sobre bordado, e Ceci sempre estava disposta a aprender um ponto novo.
Albert trocou algumas sacas de farinha de mandioca por farinha de milho e se apressou, pois queria passar na Pedra Branca para comprar feijão, antes de retornar para casa. Todos subiram no carroção e seguiram.
Em uma certa altura eles ouvem um barulho e sentem um tranco, em seguida Albert para a carroça, desce e vai ver o que aconteceu. A roda tinha quebrado o eixo, devido a uma pedra. Albert tentou consertar, mas não tinha as ferramentas necessárias. Resolveu então pegar o cavalo e ir atrás de alguém para ajudar. Antes de sair faz mil recomendações as crianças, para que elas não saíssem dali, para que não se metessem em encrencas e que Ceci e Sabú não deveriam ir atrás das ideias de Eva.
As crianças ficaram sentadas no carroção até que Albert desapareceu em uma das curvas da estrada. Assim que ele desapareceu elas levantam e começam a brincar, primeira de pega-pega, depois de esconde-esconde, acharam uma canoa de folhas de coqueiro e a usam para descer o pasto e tempo foi passando e nada de Albert reaparecer. Sabú começou a dizer que estava com fome e Ceci e Eva concordam, eles também queriam comer algo. Ceci deu ideia de irem procurar algumas frutas no mato para comerem e todos acharam uma boa ideia e seguiram a indiazinha.
Ao chegar no meio do mato eles não encontram nada e resolvem se separar para serem mais rápidos e encontrarem algo para comer antes da chuva cair, pois o tempo estava fechando.
Assim que se dividiram a trovoada começou a roncar e o céu outrora azulzinho começou a ganhar um tom roxo e a luz do dia começou a sumir.
Eva encontrou um pé de araçá e colheu o máximo de frutinhas que conseguiu, colocando tudo dentro de sua blusa. Começaram a cair as primeiras gotas de chuva e como ela não avistava ninguém resolveu ir para carroção pois certamente eles deveriam estar por lá.
Ao chegar viu Ceci com as mãos cheias de cortiças e elas esperavam ansiosas para ver o que Sabú traria.
Sabú ainda estava no meio do mato e não havia encontrado nada, ele avistou algumas goiabas, mas para chegar até elas teria que passar por um terreno pedregoso e com mato, mas mesmo assim foi. Ele estava com pressa e não prestou muito atenção no caminho. Acabou pisando ao lado de uma pedra, porém naquela pedra dormia uma cascavel que, sem piedade, picou a perna de Sabú. Assim que sentiu a picada, Sabú caiu e deu um forte berro, que foi escutado da carroça.
A cobra fugiu e Sabú com muita dificuldade conseguiu ficar de pé novamente. A chuva começou a cair, ventava muito, o vento assoviava entre as árvores, era uma chuva grossa, gelada e que fazia com que Sabú não conseguisse enxergar muito a sua frente. Ele caminhava meio sem rumo, sabia o que uma picada daquela cobra fazia com os homens, em sua tribo era muito difícil que alguém sobrevivesse, por isso desde pequenos eles eram ensinados a ter cuidado com esse tipo de bicho, porém, hoje ele esqueceu desse ensinamento e acabou por descuido cometendo esse erro.
Sabú parecia estar caminhando em círculos, estava desorientado, não apenas pela baixa visibilidade, mas também pelo veneno, que já estava começando a fazer efeito. Ele começou a andar em um lugar com poucas árvores e achou que estava conseguindo avistar a carroça. Pensou em gritar, mas estava sem forças, foi quando sentiu seu corpo cair em um buraco imenso no meio do nada.
Após ouvir o grito que parecia ser de Sabú as meninas começaram a ficar preocupadas, não sabiam bem o que poderia ter acontecido e não conseguiam ver muito em meio a todo aquele aguaceiro. Depois de uns 15 minutos a chuva começou a diminuir e elas resolveram sair atrás de Sabú, gritando o nome dele. Foram por todos os lugares que tinham ido antes; aumentaram o percurso caminhado mas nada do menino aparecer. Foi quando olharam em direção a carroça e viram que já não estavam mais sozinhas. Existia uma mulher muito estranha, montada em um cavalo negro e também vestida toda de preto.
Eva meio receosa se aproximou da estranha figura e foi logo se apresentando:
- Olá, sou Eva Schneider, meu tio foi buscar ajuda para arrumar o eixo da roda da nossa carroça. Essa é Ceci e eu e ela estamos procurando Sabú, que se perdeu pelo mato antes dessa tempestade.
A mulher apenas deu de ombros e continuou olhando para o meio do mato. Eva indagou:
- Quem é a senhora? Você pode nos ajudar.
A misteriosa mulher respondeu:
- Bem se vê que você não me conhece, senão nem estaria falando comigo... sou uma curandeira aqui da região, o povo me chama de bruxa por causa de minhas garrafadas e minhas rezas, tem gente que tem medo de mim.
Eva a encarou e disse:
- Eu não tenho medo da senhora, tenho razão para isso?
A bruxa encarou Eva de volta e disse:
- Por enquanto não! Meu nome é Hanahira e o prazer é todo de vocês.
Eva e Ceci se olharam um pouco desconfiadas e pediram ajuda a senhora:
- Por favor, estamos desesperadas, Sabú sabe andar pelo mato, não costuma se perder. Hanahira disse que o lugar é cheio de esconderijos, impossíveis de ver com olhos destreinados.
As meninas disseram que já andaram por tudo e não existia nenhum sinal do menino.
Hanahira disse:
- Se ele não tá em cima da terra, só pode estar debaixo dela.
Eva ficou intrigada:
- Ele estaria morto a 7 palmos do chão?
Ela pediu explicação e Hanahira disse:
- Nessa região existem muitas tocas de índios, mas não índios como essa menina – apontando para Ceci – foram índios que viveram antes dessa tribo, tinham tradições diferentes, esses eram da Tradição Taquara e devido ao frio costumavam construir suas casas embaixo da terra, as cobrindo e deixando um pequeno espaço entre a cobertura e o chão para que a luz e o ar pudessem entrar. Esses abrigos eram grandes, cabiam vários índios. Ele pode ter caído dentro de um deles. A sorte de vocês é que sei onde ficam alguns.
As três saíram pelo mato.
A bruxa abaixou na primeira toca, pedindo para que as meninas ajudassem a retirar as folhagens que estavam cobrindo a entrada para que o interior pudesse se iluminar. Nada de Sabú nessa primeira tentativa. Andam mais um pouco e encontram uma segunda toca, essa com a boca já sem as folhagens, as chances de Sabú estar ali eram imensas.
Logo que Hanahira colocou a cabeça para ver melhor, já avistou Sabú, quase sem vida dentro do buraco. Eva saltou para dentro do buraco e tentou reanimar o menino.
Hanahira disse para Eva parar e ajudar ela a erguê-lo. Ao tirarem o menino do buraco Hanahina o examinou e não demorou a perceber que ele havia sido picado por uma cobra.
Ela disse:
- Valha-me Deus, o menino foi picado por uma Jararaca, a ferida está feia, preciso chupar o veneno dela.
Ela mal terminou de falar e aparentemente mordeu a perna de Sabú no exato lugar onde existia a ferida deixada pela cobra. As meninas olharam arregaladas, só mesmo uma bruxa para chupar o veneno de uma cobra.
Hanahira ao terminar cuspiu o veneno, mas disse:
- Precisamos ser rápidas, eu preciso dar a ele um dos meus remédios para tentarmos salvá-lo.
Ceci começou a chorar, mas Eva a pegou pela mão, enquanto a bruxa pegou Sabú no colo e correram para o carroção.
Ao chegar ao carroção Tio Albert já estava batendo o pé, procurando pelas crianças enquanto o ferreiro observava o que podia fazer pela roda da carroça.
Ao avistar a bruxa vindo junto com as crianças, carregando Sabú no colo, Albert pegou a espingarda e apontou para Hanahira, enquanto falava:
- Que diabos você fez com ele, sua bruxa dos infernos?
Eva se colocou na frente de Hanahira e começou a explicar:
- Tio, tio, por favor, ela só tá tentando ajudar, ele foi picado por uma cobra, ela ajudou a encontrá-lo e depois tentou sugar o veneno com a própria boca.
Albertt abaixou a arma e pegou Sabú no colo, ele começou a chorar.
 - Meu filhinho, o que aconteceu com você, minha nossa senhora, o que eu faço?
 Hanahira colocou a mão no braço de Albertt e disse:
- Se você quer ter alguma chance de salvar o menino precisamos correr, pois o veneno não demorará a chegar ao coração, minha cabana fica perto e podemos tentar salvá-lo.
Vendo a hesitação de Albert o ferreiro disse:
- Albert, vá com ela, o único homem que vi sobreviver depois de ser picado por uma jararaca foi tratado pela bruxa, se tem alguém que pode te ajudar é essa mulher.
O ferreiro se ofereceu para levar as meninas em sua aranha enquanto Albert com Sabú no colo e Hanahira seguiam na frente, em suas montarias, para ganhar tempo. 
Ceci chorava compulsivamente, dizendo que a culpa era sua, afinal foi ela quem deu a ideias de irem procurar as frutas no meio do mato. Eva tentou consolar a amiga, segurando em suas mãos. Eva também estava morrendo de medo de perder seu grande amigo, praticamente seu irmão mais novo.
O ferreiro levou as duas até a cabana, mas disse que iria voltar dali. Não tinha coragem de entrar na casa daquela bruxa.
Ao entrarem Sabú estava deitado, pelado em cima de uma mesa, enquanto Hanahira, passava em cima dele um galho molhado, que vez ou outra ela colocava dentro de um recipiente de onde saia uma fumaça com cheiro estranho.
As duas estavam muito assustadas, Albertt olhava tudo com atenção e não conseguia conter as lágrimas.
Hanahira disse:
A única forma de curar a criança é fazendo ele beber da erva que Deus rejeita.
Todos se olharam, enquanto Sabú dá um suspiro profundo e aparentemente derradeiro.







quarta-feira, dezembro 07, 2016

Eva Schneider em: O reencontro



Meados[1] de setembro e Eva acordou com os berros de tia Matilda:
- O que foi tia?
Quando Eva olhou para as mãos de tia Matilda viu que ela segurava uma carta com um selo da Alemanha.
-Tia Matilda quem mandou esta carta?
Sua tia muito emocionada com lágrimas nos olhos disse:
- É do seu pai! Ele mandou essa carta para avisar que ele está vindo nos visitar!
Eva não conseguia conter toda a alegria que está sentindo com essa notícia, a saudade que ela sentia de seu pai lhe doia muito, lhe ver seria como um sonho! E ela saiu gritando pela casa:
- Ceci, Sabú!
- O que foi Eva?
- Meu pai está vindo nos visitar! – Contou Eva, não conseguindo esconder a euforia.
- Que legal, quando ele chega? – Perguntam os amigos.
- Não sei, a emoção foi tanta que até esqueci de perguntar.
Quando Eva foi perguntar para Tia Matilda, ela ouviu um bater na porta, quando ela abriu, por um instante pensou que já fosse seu pai e se decepcionou, ao abrir e ver que era o frei, a procura de seu Tio Albert.
- Eva seu tio está?
- Sim vou...
- Que cara triste é essa minha filha? – Indagou o frei.
- É que eu estava esperando outra pessoa.
- Uhum e eu posso saber quem Eva?
- Ah, claro frei, eu estava esperando meu pai!
O frei achou um pouco estranha a resposta de Eva e falou:
- Eva querida seu pai está na Alemanha!
- Não frei, ele está vindo me visitar aqui no Barracão!
O frei, sem entender pediu para que Eva chamasse seu tio.
- Sim, vou chamá-lo
Depois de chamá-lo e de perguntar à tia Matilda quando seu pai ia chegar, Eva saiu para avisar a Ceci e Sabú que seu pai chegaria dentro de uma semana, a bordo do navio Gavião Marinho.

Enquanto isso a bordo do Gavião Marinho, a poucos kms da costa catarinense...

- Senhor Schneider, como vai?
- Muito bem Capitã Carolaine. Estou indo ver minha filha.
- Nossa, e faz tempo que você não a vê?
- Sim, faz quase um ano que ela veio morar na casa de seus tios.

A conversa foi interrompida pelo barulho de uma explosão vinda das caldeiras do navio. Um marujo correu até ao convés e anunciou para a Capitã.
- Capitã Carolaine, o navio faz água, creio que afundaremos!
- Mas como isso, o que foi que aconteceu?
- Também não sabemos, mas uma das caldeiras explodiu, temos homens mortos.
Friedrich e Carolaine desceram para ver o que poderiam fazer, realmente não existia solução, o navio estava com um rombo no casco, afundaria.
- Meu Deus, ainda estamos a muitos quilômetros da costa e não teremos botes para todos. Disse a capitã em um tom de preocupação – e anunciou.
- Mantenham a calma e preparem os botes marujos, é hora de abandonar o navio.
Um princípio de tumulto começou, as pessoas gritavam desesperadas, crianças choravam, todos estavam muito assustados, a maioria nem ouviu as ordens da Capitã. Um passageiro anunciou:
- Existem apenas 10 botes, como que todos irão conseguir sair! Salve-se quem puder! – E saiu correndo em direção a um dos botes.
O pai de Eva que estava muito nervoso, pegou uma pistola e deu alguns tiros para cima, para que todos se acalmassem. Ele estava com medo de não sobreviver antes de ver Eva. Quando ganhou a atenção dos outros passageiro disse:
- Mulheres e crianças primeiro!
O barco que trazia os passageiros do porto de Santos até Santa Catarina tinha cerca de 150 passageiros, nos botes apenas 100 conseguiram sair do navio, os outros se jogaram ao mar e tentaram alcançar a costa a nado.
O mar estava muito revoltado, alguns botes viraram e foram em direções diferentes.
O pai de Eva nadou para sobreviver e acordou em uma praia deserta, junto com alguns sobreviventes e também alguns corpos.

- Enquanto isso no Barracão...

A semana em que o pai de Eva chegaria chegou, porém não existiam notícias dele. Preocupado, já que fazia mais de duas semanas que esperavam por Friedrich, Albert pediu para alguns amigos que eram tropeiros para que procurasse notícias dele na capital.
Tio Albert encontrou os amigos na hospedaria, alguns tropeiros comentando sobre um barco chamado Gavião, que teria naufragado em Florianópolis, o barco trazia alguns alemães, que tinham descido no porto de Santos. Tio Albert ficou ressabiado. A data batia com o dia previsto para a chegada do cunhado e o nome bem poderia ser o mesmo.
Ele comentou com Matilda e a mulher começou a chorar. Eles chamaram Eva.
- Eva, minha querida. Talvez tenhamos uma notícia um pouco triste para lhe dar. A demora de seu pai pode ter uma justificativa, um navio provavelmente o dele, naufragou e há notícias de que muitas pessoas morreram.
Eva chorando caiu no chão, se afogando em lágrimas, se levantou e correu para seu quarto. Ceci e Sabú que chegaram naquele instante falaram para tio Albert que iria ter uma tempestade naquela noite.

Friedrich estava vivo, vindo para o Barracão, porém estava um pouco perdido, não sabia se faltava muito para chegar mas acreditava que sim, mas como a tempestade parecia ser terrível ele tentou encontrar um abrigo até que ela se acalmasse. No meio da chuva, o pai de Eva avistou que estava sendo observado por umas pessoas estranhas, com a pele mais morena, que só poderiam ser os nativos, ele tentou conversar, mas os índios lhe apontavam flechas e ameaçavam dispará-las.
Friedrich saiu correndo pela mata, correu muito, com os índios em seu encalço, ele era ágil e correu pelo meio das árvores, mas ele rolou de uma ribanceira, depois da queda sentiu muita dor na perna e resolveu que  ficaria escondido atrás de uma pedra, pois achava que aqueles índios tinham cara de poucos amigos.
Ele colocou a mão por dentro do casaco e encontrou a pistola, a mesma que usou no navio para chamar a atenção do povo, mas ele não queria usá-la contra aqueles índios, que estavam apenas defendendo o seu território.
Fazia frio naquela noite, a chuva caia forte e a perna de Friedrich estava sangrando. Quando ele percebeu que não havia sinal dos índios ele teve a ideia de usar a arma para chamar a atenção de alguém que tivesse passando, pois acreditava estar perto do Barracão e uns tiros poderiam chamar a atenção de alguém. Ele atirou, esperou algum tempo, atirou novamente e estava disposto a fazer isso até suas balas acabarem, por mais que isso também pudesse chamar a atenção dos índios.

Eva que ainda estava acordada ouviu um barulho de tiro, ela imaginou que ninguém estaria caçando naquela chuva e correu para avisar seu tio. Ele também achou que ninguém estaria caçando e resolveu verificar o que poderia ser. Então Eva, pegou Artigas e saiu em disparada, enquanto seu tio pegava também um cavalo. Eles cavalgavam seguindo os barulhos de tiros até que o barulho ficou muito próximo, vindo de trás de uma árvore.  Eva olhou atentamente, e reconheceu, era seu pai, ela nem estava acreditando. O seu abraço era o maior do mundo e dentro dele parecia que nada de ruim pudesse acontecer! Eva chorava e seu pai também.
- O que aconteceu? – Perguntou Eva.
- Minha viagem foi um tanto quanto tumultuada, meu barco naufragou, perdi meus pertence, vim sozinho para o Barracão pegando algumas caronas ou caminhando, fui atacado por índios, mas por fim cheguei até aqui. Que saudades de você meu amor! – Ele diz pegando Eva no colo.
Eles vão para casa.
Em casa ele conversou com a filha e disse que tinha planos para voltarem para Alemanha e retomarem sua vida por lá. Eva o observou meio sem entender e sem saber se era isso realmente que ela queria.
De repente ela acordou: Estava toda suada e um pouco desnorteada. Ainda não sabendo o que responder ao pai, não se dando conta de que nada daquilo era real.
Ela refletiu e percebeu que amava viver no Barracão e também ficou muito feliz, pois agora tinha uma lembrança recente do abraço de seu pai, mesmo que tenha sido apenas em um sonho.











[1] O texto é baseado no texto produzido pela Raíssa Dias Popenga que tinha como título: ”O imprevisto do Navio” nas aulas do projeto “As Aventuras de Eva Schneider” aplicado aos alunos das séries iniciais no ano de 2016 na Escola de Educação Básica Silva Jardim pela professora: Carol Pereira.