sexta-feira, abril 29, 2016

A maldição da Catuíra

O primeiro vigário da Paróquia Senhor Bom Jesus, instalada em janeiro de 1959, foi o Frei Agatângelo Umbará (que aqui permaneceu entre 1959 e 1961). De jeep, ele atendia as dezenas de capelas vinculadas à Matriz.
Frei Agatângelo, clérigo da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, ficou aqui conhecido como "O Frei Obreiro", porque foi durante o seu breve pastoreio que muitas edificações religiosas foram iniciadas, construídas ou concluídas. Exemplifico com a Casa Paroquial, a Capela de Santa Teresa d'Ávila, em Catuíra, e a Igreja Matriz.
Ele não só incentivava a comunidade a executar essas obras como, literalmente, "punha a mão na massa". Amarrava a batina marrom na cintura e ia ao canteiro de obras trabalhar no que fosse preciso: pá, enxada, picareta, carrinho de mão.
Na época da construção da igreja da Catuíra, era presidente da comissão o senhor Dominico Back. A família Back sempre foi catolicíssima, dotada de devoção inquebrantável e copioso espírito altruísta. Dominico, porém, embora fosse bondoso, justo e honesto, tinha temperamento explosivo. Era daqueles alemães que se excediam no quesito franqueza, sinceridade, tornando-se, muitas vezes, considerado obtuso.
Certa vez, Back e o frade se desentenderam. Não sabemos se a querela estava relacionada à construção da capela ou a outro tema, de repente, banal. O respeito às autoridade eclesiásticas, na época, era um tabu, sobremaneira na Igreja Católica, onde a figura do sacerdote é dotada de grande poder de decisão em sua paróquia. Mas Dominico permanecia firme em seus argumentos, e não estava, absolutamente, propenso a fazer qualquer cessão. Em seu ponto de vista, ele estava certo e o Frei, errado. Sendo um taurino teimoso e opinioso, o frade tampouco estava disposto a se curvar.
A discussão foi se acalorando, a intensidade do som das vozes aumentando, o vocabulário se tornando descortês...
Indignado com o desrespeito e, pior do que isso, a iminente desobediência de seu paroquiano, Frei Agatângelo, irado, virou as costas e pegou sua maleta para ir embora. Enquanto caminhava, vaticinou: "Tudo bem! Mas, a partir de hoje, a Catuíra crescerá igual a cola de cavalo, ou seja, pra baixo!".
Algumas pessoas presenciaram a cena, ficando atônitas, tomadas de pavor. Havia a crença de que praga rogada por padre ou por madrinha era infalível.
Quiçá por coincidência, ou pelo poder de autossugestão do povo - que logo ficou sabendo da praga, ou ainda pela elevada paranormalidade do cura... entretanto, é fato que, a partir daquele dia, a Catuíra foi perdendo gradativamente a importância outrora auferida.
Entre fins dos anos 50 e início dos 60, aquela que foi a primeira colônia militar do estado, a sede da primeira capela católica na diocese, o primeiro distrito do município, com população que chegou a superar dois mil habitantes, caiu em desditoso infortúnio. Passou por dois impasses, e perdeu ambos para o incipiente distrito de Barracão, com população inferior e situação econômica notadamente desfavorável: ser sede da paróquia (1958) e ser sede do município (1961).
Paulatinamente, a pujança dos gloriosos tempos pretéritos deu lugar a uma visível decadência: a delegacia e o cartório foram transferidos para a novel cidade de Alfredo Wagner; as fábricas de rebolo, refrigerantes, balas, e as selarias, sapatarias, atafonas foram fechando; o afamado clube extinguiu-se; a população decresceu...
Seríamos incautos em atribuir o declínio da ex-Colônia Militar de Santa Teresa à suposta maldição do padre. Primeiro, porque não há nenhum elemento histórico que comprove ou rechace sua veracidade. O que aqui descrevi foi extraído unicamente de depoimentos orais que recolhi de antigos moradores ao longo dos anos. Segundo, porque seria uma teoria demasiado simplista responsabilizar duas pessoas pelo retrocesso sofrido por toda uma comunidade. Terceiro, porque é uma história imersa em subjetividade: têm as palavras de um sacerdote tamanho poder de destruição? Logo o Frei Agatângelo, que era amado e respeitado por seus fiéis e até hoje conhecido pelas benesses que legou à posteridade?
Mas, se a hipótese da maldição proceder, faz-se justo que eu instigue esta reflexão: Dominico Back foi das pessoas que mais se dedicou ao progresso da Catuíra. Bem intencionado, íntegro e correto, jamais praticaria qualquer ação visando ao mal da terra à qual adotou como sua. Frei Agatângelo, igualmente, não mensurou esforços para consolidar a fé católica no município. Seria um contrassenso acatar que ele amaldiçoou a mesma comunidade que por tantas vezes abençoou. Ambos eram probos, ambos eram bons. Mas ambos, como humanos, eram passíveis de erros, e se há um erro inegável, é o de abandonar a razão e agir impulsivamente. Quem nunca o cometeu?
Juliano Norberto Wagner
P.S.: Numa próxima oportunidade, elucidarei os motivos racionais, embasados na história, que levaram à vertiginosa queda populacional da Catuíra da década de 1940 para cá.


quarta-feira, abril 27, 2016

Eva Schneider

Você já conheceu uma heroína alfredense?
Alguém que viveu aqui nessas terras no início da colonização... 
Uma menina de 12 anos, forte, destemida, corajosa, aventureira, astuta, solidária que sempre acredita em seus sonhos. Que anda com índios, pelo meio dos animais selvagens, é boa em enigmas, ama ler e está sempre disposta a ajudar ou se aventurar. 
Essa é Eva Schneider e com ela vamos aprender muito sobre nossas histórias e lendas! 
Aguardem, em breve vocês também poderão viver “As aventuras de Eva Schneider”.
Ilustrações: Jana Homma
Edição de imagem: Carlos Roberto Prust


Questões - Histórias em Quadrinhos

  1. O que são HQ’s?
  2. Cite um dos primeiros personagens emquadrinhos criados, que ainda mantém sua fama até os dias de hoje.
  3. Em qual década surgiu o personagemTarzan?
  4. Sob a influência da guerra, qual setornou um tema constante nos quadrinhos? Quais personagens surgiram nesseperíodo?
  5. Como se chama o Oscar dos Quadrinhos?
  6. Qual o maior nome dos quadrinhos noBrasil?
  7. Qual nome é sinônimo de revistas emquadrinhos no Brasil?
  8. Comente sobre a situação atual dosquadrinhos.
  9. Quem foi o criador dos quadrinhos noBrasil, antes mesmo do surgimento dos primeiros personagens no exterior?
  10. Cite algumas histórias em quadrinhos noinício do século XX, no Brasil.
  11. Por quais motivos os quadrinhos chegarama ser proibidos nos Estados Unidos?
  12. Dentre os quadrinhos no Brasil, em suaopinião, quais os personagens de maior destaque?
  13. Dentre os quadrinhos no mundo, em suaopinião, quais os personagens de maior destaque?
  14. Qual seu personagem de quadrinhosfavorito?
  15. Se você fosse um criador de HQs, setivesse que criar uma personagem, qual seria?

sábado, abril 23, 2016

Trilha Soldados


Minha segunda visita aos Soldados não poderia ser mais especial. Fomos brindados por mais um dia atípico de outono, um abril quente, de céu limpo e temperatura agradável.
Os Soldados Sebold vem se tornando uma das principais atrações turísticas de Alfredo Wagner para os apaixonados por ecoturismo. Em rotas realizadas a cavalo, a pé, de bicicleta ou em veículos potentes, todos os caminhos levam a essa bela estrutura geológica que fica no Santo Anjo, comunidade distante cerca de 25 quilômetros do centro de Alfredo.

A região é provida de inúmeras lendas, majestosas esculturas geológicas e cercada pela imponência de montanhas, escarpas e chapadas, além dos cânions e das belas cachoeiras que compõem todo o cenário. Andar por esse local é sem dúvidas um privilégio.
A trilha foi realizada por nosso grupo “Só para os fortes” e foi acima de tudo uma celebração a vida, a amizade e a natureza.

Não vou negar que acordar as 5:30 em pleno feriado não foi um momento mágico, mas certamente valeu a pena. As 6:00 nos reunimos na praça da cidade e seguimos rumo ao Santo Anjo. Antes das 7:00 já estávamos no pé do morro, onde abandonaríamos nossos carros e seguiríamos a pé. Da primeira vez que fui, no ano passado, fui com uns amigos de Troller, então seguimos até bem próximo dos Soldados, mas dessa vez não tínhamos carros apropriados, com exceção do fusca do Moka que foi nosso carro de apoio, que levou nossas bolsas, água, comida e utensílios para o churrasco.

O trajeto somou um total de 20km caminhados, cheios de morros, mas repleto de belas paisagens.
Quando começamos a andar o dia tinha acabado de amanhecer e uma grossa cerração cobria todo o cenário, mas a medidas que o sol ganhava força a paisagem começava a se revelar. Cruzamos rios, passamos pelo meio de bois, caminhamos por campos, por araucárias e à medida que caminhávamos mais se aproximávamos dos Soldados, que em meio àquela paisagem bucólica pareciam nos esperar.
Durante a viagem encontramos outros trilheiros que assim como nós, fotografam e descobriam o lugar.

Fizemos uma parada para o café em meio as araucárias, próximos a casa onde Rose morou quando era criança. O picnic foi animado e foi um dos poucos momentos onde todas as 15 pessoas que participaram da trilha ficaram em silencio. Destaque para os sanduíches de Dona Vera que estavam uma delícia e para a linguiça do Evandro que não poderia deixar de se fazer presente em nossa trilha. Depois de alimentados seguimos viagem, 6km ainda nos separavam de nosso destino.

Moka foi na frente com seu fusca e quando chegamos ao local onde se localiza a queda d’agua imortalizada em inúmeras fotos, o nosso churrasco e acampamento para o almoço já estavam prontos.

Almoçar ali naquele local foi com certeza uma experiência ímpar. Á sombra das árvores que ficam às margens do riacho, com o som dos pássaros e o barulho da queda d’agua, as inúmeras risadas, toda a paisagem que nos cercava com os Soldados ao fundo e parte dos campos dos padres e a carninha assada proporcionaram momentos muito agradáveis. Depois do almoço ainda deitamos na relva e contemplamos a paisagem.
Dali fomos até o pé do morro dos Soldados de onde pudemos apreciar a paisagem ainda mais de perto.
Na volta encontramos uma jararaca no local onde almoçamos, apesar da gente saber o quanto ela é perigosa não conseguimos deixar de perceber sua beleza e por fim admitir que toda a preocupação de dona Valneide fazia sentido.

Durante a trilha encontramos Seu Sebold – dono do terreno onde os Soldados ficam – e ele disse que seu neto poderia voltar conosco e nos guiar por uma rota alternativa que encurtaria um pouco nosso retorno. Essa trilha acabou de mostrando ainda mais bonita do que a de ida. Ela passa por caminhos provavelmente criados pelos animais, que descem e sobem a serra em busca de boas pastagens. No retorno cruzamos o rio 3 vezes. Essas são ás águas de uma das nascentes mais distantes do Rio Itajaí Açu, que nasce naquela região.

Chegamos novamente até os carros por volta das 16:00 horas. Estávamos exaustos, mas ainda fomos até a Gruta do Caeté comemorar o dia maravilhoso que tivemos.
Crédito fotos: Manuella Schutz Mariani




terça-feira, abril 19, 2016

Gruta do Riozinho


No mesmo domingo que visitamos algumas cachoeiras no Pinguirito, Evandro comentou que conhecia um lugar lindo que ficava no Riozinho.
Eu não conhecia a comunidade e pelo que pude perceber é muito bem cuidada, muitas casas mantidas com capricho e as vargens do Riozinho contribuem para deixar o local ainda mais exuberante.
Evandro nos levou até uma gruta que fica no terreno do seu Ivan Andersen. A princípio achávamos que seria mais uma cachoeira e achava difícil que depois da última que tinha visto ainda iria me impressionar, porém, eu não sabia o que me aguardava.

Estacionamos nosso carro, cruzamos o rio e andamos cerca 150m até atingirmos a mata. Daí pela trilha de mais 100m chegamos a gruta.

A gruta é um imenso salão, com 47m de comprimento e em alguns pontos com uma largura de 20,5m.  Usávamos a luz dos celulares e câmeras para explorar o local, podia-se notar pequenas gotinhas de água se acumulando no teto, que quando refletiam a luz brilhavam feito pedras preciosas. Naquela escuridão podíamos ver a “fauna” do lugar, formada por insetos que são acostumados a viver na escuridão. Podíamos perceber que a gruta possuía um sistema de iluminação, porém, procuramos e não conseguimos encontrar nenhum tipo de interruptor.
Além da gruta ainda existe uma cachoeira no local, com 25m de altura - sendo 12m até o nível do abrigo e mais 13m até o fundo do vale – e um altar com a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Evandro nos contou que é comum a gruta atrair visitantes na sexta feira santa. O som da cachoeira contribui para deixar o local ainda mais bonito e enigmático.
Eu estava decidida a voltar e explorar o local com a iluminação, estava fascinada, encantada por ter “descoberto” um lugar como aquele tão pertinho de casa.
Resolvemos voltar para o carro, já que pouco conseguíamos ver, foi quanto Evandro avistou um poste com uma espécie de interruptor, resolvemos testá-lo – ou deixaríamos alguma casa sem luz, ou iluminaríamos a gruta. Retornamos para a gruta e o que já era lindo, ficou ainda melhor com a iluminação.

Com a gruta iluminada, tivemos a real dimensão do local, pudemos ver algumas estalagmites e estalactites – embora se note que imensa maioria delas já tenham desaparecido, provavelmente pela ação do homem.

Sem dúvidas os Xokleng  e outras fases utilizaram este bom e bonito abrigo. Informaram moradores antigos da existência de ossos humanos. Seriam dos Xoklengs? Eles praticavam cremação. Teriam sido os últimos membros da tribo? É possível. Ou seriam ossos de outras tradições ou fases? (2002, Wagner)
Esse trecho pertence ao livro do alfredense Altair Wagner, chamado Alfredo Wagner: Terra, água e índios. No livro também encontrei algumas informações acerca da gruta:


Propriedade: Ivan Andersen
Geologia: arenito – calcário

Latitude: 27o41’618”
Longitude: 49o25’071”
Dimensões: Trata-se de um abrigo com área de 650m2 e com uma cachoeira de 25m, A entrada é de 30m. o piso é praticamente todo plano, com pé direito médio de 2,6m e largura máxima de 20,5m.
O autor também deixa registrado como foi seu primeiro contato com o abrigo dos índios “ Em 1948, quando visitei pela primeira vez, havia lindos estalagmites e estalactites, hoje infelizmente, restam poucos e quebrados. Pelas suas dimensões e características, este sitio merece que se faça sondagens e pesquisas. É muito bonito” (2002, Wagner).

Evandro, Suzanne e eu ainda fizemos um picnic antes de retornar para casa. Durante todo o passeio tivemos uma guia de quatro patas – que pode ser chamada de Caramelo ou Mel. A cachorra nos acompanhou até a gruta, brincou conosco e até mesmo lanchou com a gente. Foi um domingo incrível!

Sem dúvidas é mais um lugar precioso de nossa cidade, que fascina pela natureza, arqueologia e geologia.

segunda-feira, abril 18, 2016

Trekking Cachoeiras do Pinguirito



Enquanto o Brasil fervia por causa da votação na Câmara dos Deputados, tratando do Impeachment da presidente Dilma...
Em hora a natureza, a aventura e as belezas naturais de Alfredo Wagner nós falamos SIM a um passeio pelas cachoeiras do Pinguirito.
Visitamos duas cachoeiras que ficam na propriedade da Senhora Angelina Oliveira. Há alguns meses um grupo de pessoas aqui de Alfredo foi passar um domingo em uma dessas cachoeiras, postaram fotos no face e desde então não consegui tirar da cabeça a ideia de conhece-la. Eu não sabia direito onde ficava, se os proprietários permitiam a visita e nem se eu conseguiria chegar até lá. Aos poucos essas dúvidas foram se esclarecendo e me faltava apenas companheiros para seguir a trilhar, então por acaso comentei com a Su e ela como também queria conhecer o lugar se empolgou bastante.

Eu e a Suzanne ano passado tivemos a super ideia de fazer vários trekkings por Alfredo Wagner e mapear tudo, mostrando o quanto nossa cidade é bela, porém, depois do primeiro trekking a ideia perdeu força, mas não tinha morrido ainda e agora que o fusca turbinado do Evandro virou realidade, nosso “projeto” pode ter melhores dias.

Saímos de casa no início da tarde, rumo ao Pinguirito – distante cerca de 17 km do centro de Alfredo Wagner. Já no Pinguirito fomos até o sítio dos Oliveira, onde sabíamos que encontraríamos a cachoeira e já havíamos conversado com dois filhos de dona Angelina para pedir autorização.
Ao chegar, Evandro já colocou o fusca para mostrar ao que veio, atravessando o rio com ele. Quando passamos pelo rio algumas crianças gritavam eufóricas, achando um máximo aquele carro passando pelo meio da água  - ainda não sabíamos, mas no meio delas estavam nossas guias. Su as chamou e pediu informações de como fazer para chegar até a cachoeira, que até então pensávamos ser apenas uma. Elas prontamente se ofereceram para nos levar até lá e se mostraram muito simpáticas.

Na descida ficamos sabendo que aquela cachoeira, que tínhamos avistado quando estávamos com o fusca, não era a maior de todas e confesso que depois de ouvir isso achei que o lugar não fosse aquilo tudo, mas bastou contemplar a queda d’agua para mudar de opinião. O local é cheio de lajes e forma várias quedas, formando uma espécie de cascata, as águas são clarinhas e o dia estava perfeito para o passeio. Era impossível não sentir muita vontade de se banhar naquelas águas, mas resistimos. Até então eu não queria nem molhar minha bota e para isso contamos com a engenhosidade de Evandro que com ajuda de uma tábua construiu uma ponte, para que fossemos até o meio do rio.

Dali pedimos informações de como faríamos para chegar na cachoeira maior e por sorte a mãe de Janaina permitiu que ela nos acompanhasse.
Primeiro andamos pelo meio dos pinheiros em um cenário bem de filme americano, depois começamos a descer o barranco e ao chegarmos, nos deparamos com aquela que sem dúvidas é uma das mais belas quedas d’agua de nosso município.
A cachoeira tem cerca de 30 metros de altura e diferente da maioria das cachoeiras ela tem lajes no chão, então, é possível ficar de pé exatamente onde a água cai. Como já mencionei, não tínhamos planos de nos molhar, mas ao chegarmos, não pensamos duas vezes, “nos metemos” debaixo da queda e a sensação foi inexplicável.
Demos a volta na cachoeira e fomos para trás da cortina d’agua, onde a formação rochosa é parecida com uma gruta. Mais beleza. No local ainda tem um tronco de árvore fossilizado, que mais parece uma pedra imensa.
Ficamos algum tempo por lá, desfrutando daquela paz, celebrando a vida em comunhão com a natureza e agradecendo em silencio por ter a oportunidade de conhecer lugares como aquele.
A paz é tão grande que é impossível não sentir a presença de Deus. Eu sei, eu sei, ninguém gosta de discursos religiosos, nem eu, mas diante de toda aquela beleza e daquela paz é impossível não pensar que exista algo superior, algo maior que nós.



sexta-feira, abril 15, 2016

Trilha Lagoinha do Leste


A última trilha realizada pelo grupo “Só para os fortes” teve como destino a Lagoinha do Leste.
A trilha é uma das mais bonitas da capital, um paraíso que fica espremida entre dois costões que entram no oceano, formando uma enseada. A praia ainda preserva as características de quando os primeiros imigrantes aportaram nestas terras. Ela começa em meio a Mata Atlântica e garante a sensação de se estar voltando no tempo. A praia tem a companhia de uma lagoa. De águas quentes e escuras, a lagoa se esconde atrás da restinga e é essa lagoa que dá nome ao lugar.

Pode-se se chegar até a praia de barco ou por trilhas que criadas a séculos. A trilha pode ser realizada partindo do Matadeiro ou pelo Pântano do Sul – que foi a opção que escolhemos. A extensão é de aproximadamente 6 km – segundo o strava - e realizamos o trajeto em cerca de uma hora. 

A Lagoinha, como é carinhosamente chamada pelos manézinhos, impressiona seus visitantes com sua beleza, seu ar selvagem e seus mistérios. Toda aquela região da ilha de Florianópolis é cercada por lendas e mistérios que remetem ao início da colonização açoriana e os antigos moradores da região contam muitas histórias bem no estilo Frankilin Cascaes. Dizem que a praia de vez em quando é frequentada por bruxas para  realizarem seus rituais. Segundo as mesmas lendas isso acontece a séculos.

Os moradores antigos contam a lenda de que “a Bruxa Conceição encontrou o Índio Peri por acaso em meio à mata e se apaixonaram, começaram a se encontrar escondidos, pelas trilhas da Lagoinha do Leste, pois nem as outras bruxas nem a tribo de Peri permitiriam um Índio e uma bruxa juntos. Infelizmente uma bruxa os viu juntos e contou as outras que, como punição, transformaram Peri em uma lagoa. Conceição ficou muito triste e não parava de chorar, até que suas lágrimas encheram a lagoa, e por isso ela é salobra”

Como sempre nossas trilhas são cheias de boas risadas e muitas histórias para contar. Durante todo o trajeto lamentamos a ausência de Dona Valneide e planejamos muitas formas de penaliza-la, porém, nosso amor foi maior e resolvemos apenas aceitar a preterição . Aliás, os assuntos giraram entre muitos temas, envolvendo pontes, Titicaca, caca, meias, Sônia Bridi, combinamos mais cerca de 20 trilhas e entre mais conha e menos cunha  acho que rolou um empate. Tempo voou e quando percebemos já estávamos no paraíso.

Quando chegamos fomos logo “montar acampamento” e comer, pois estávamos famintos. Como não poderia faltar, tínhamos a linguiça do Evandro  para nos alimentar e dessa vez ainda rolou até uma disputa para ver qual era a melhor, a do Evandro ou a do Mercado Limeira, que dizem por aí que é o melhor mercado da Trindade. Merchandising.
O mar como já era de se supor é bravo e precisa ter coragem para entrar nele, coisa que naquele momento eu não tive.

Estávamos na dúvida quanto a subir ou não até a Coroa. Que segundo o Guia Florianópolis “No topo do Mirante do Morro da Coroa, há uma formação de pedras que lembram os vértices de uma coroa. Lá, se pode curtir a visão do paraíso da Lagoinha do Leste.Para chegar até a coroa, deve-se pegar uma trilha que começa costeando o morro e tem caráter fácil. Depois de algum tempo de caminhada, a trilha passa a ser muito íngrime, sendo necessário escalar em alguns pontos.” Acabamos não subindo por estarmos sem água, mas ainda quero voltar até lá.

Um dos pontos altos do passeio foi quando atravessamos toda a enseada - cerca de 1,5 km - e fomos até o Rio, na verdade a Lagoinha. As águas como já citei acima são calmas e escuras, e a temperatura é super agradável, deu para curtir, nadar e relaxar um pouco. Depois resolvemos subir em uma duna na outra margem do rio e lá de cima tivemos uma vista incrível do lugar, bem diferente da vista comum, fotografada de cima da Coroa. Valeu a pena.
O dia estava quente, mas não aquele calor avassalador, tivemos sorte. Como não íamos subir até a Coroa resolvemos voltar e surpreendentemente a trilha parecia ter triplicado de tamanho e eu secretamente agradeci por não ter subido mais aquele morro – no caso o da coroa.
Na volta regisrtamos mais alguns tombos e rimos muito de Wadinho, de suas piadas e de seu Rexona vencido.

Foi um passeio muito divertido e a noite na casa de Valdete ainda conversamos muito e comemos centenas de ostras.
Nossa próxima trilha já está marcada, será no que se tornou o mais novo cartão postal de Alfredo Wagner, Soldados Sebold! 



segunda-feira, abril 04, 2016

Aos meus, com amor.

Durante nossa última viagem até Garopaba, lançamos entre o grupo o desafio de cada um criar um conto que se passasse na cidade e que de alguma forma fosse inspirado no que vivemos lá. O resultado to disponibilizando aqui para todos lerem. 
Bom, acho que o meu texto não se encaixa no gênero conto, é muito curto para um romance. mas pode ser que seja uma novela... leia e me digam do que se trata... de qualquer forma, to com ele cumpro o desafio! 



A década de 80 estava quase acabando, e pela primeira vez estariam todos juntos novamente, em Garopaba. Os encontros aconteciam sempre perto do dia 31 de março, não para comemorar, mas sim para lembrar-se de uma data que mudou a vida deles para sempre. Já haviam se passado vários anos desde o final daquele período de trevas, mas as marcas daquele tempo ainda iam passar muitos anos no corpo e na mente daquelas pessoas. Outros encontros haviam ocorrido nos mais diversos lugares, a maioria deles em São Paulo, cidade onde muitos dos amigos foram viver após o final da ditadura. Mas esse, por insistência de Téo, aconteceria em Garopaba cidade onde eles passaram grande parte da juventude.
Lenita jamais esquecera o que a ditadura fez com sua vida. Tinha se tornado uma pessoa amarga, difícil de conversar, alguns diziam que aqueles anos haviam petrificado seu coração. Ela teve uma filha no último ano da faculdade, mas não quis casar com o namorado, pois não o amava; sua filha se chama Simone e desde pequena está sendo criada pelo avô materno, um general do exército brasileiro.
Isabel já estava na cidade, resolveu ir alguns dias antes com seu marido Armando e se hospedaram em um spa na Encantada, que, apesar de não ter o luxo dos locais em que ela costuma frequentar, tinha agradado até mesmo Armando. Ela passaria 3 dias com o marido e depois ele voltaria para São Paulo, onde tem uma empreiteira e ela ficará para passar a semana junto com os outros.
Lenita esteve um pouco tensa nos últimos dias, não costuma receber visitas. A bem da verdade anda isolada. Aguenta as pontas em um trabalho que usa bem menos do que ela tem a oferecer: se limita a escrever pequenas notícias e notas de funeral e isso a frustra, pois ela parece estar presa para sempre às amarras invisíveis que aqueles anos deixaram em sua vida. Desde que se exilou na Rússia, sem poder levar sua filha, sua vida parece que perdeu o sentido, e foi para tentar reverter essa situação que seus amigos, principalmente Téo, insistiram tanto para que esse encontro acontecesse em Garopaba.
                Ainda não eram 10 horas da manhã quando Carmen estaciona seu Jeep em frente à casa de Lenita e buzina até que ela saia para recebê-la. É um abraço longo, daqueles em que as almas também se encontram. Carmen se afasta, segura Lenita pelos braços e percebe o quanto sua amiga mudou desde o último encontro: ela parece ter envelhecido dez ou anos ou mais e nem de longe lembra aquela garota idealista que conheceu na faculdade de jornalismo, cheia de ideais e que queria mudar o mundo.
                Carmen também não era a mesma. Talvez ela tenha sido a mais sortuda de toda a turma, não precisou sair do país, foi presa uma vez, mas era amiga de um dos militares e foi solta após apenas uma noite e, mesmo nessa noite, o tumulto era tanto que ela tinha achado que a esqueceram em um canto da cela. Ela podia ser grata por tudo isso, mas na verdade se sente devedora; não acha justo que os outros tenham pagado preços tão altos por uma conquista que hoje ela usufrui, mas parece que a vida resolveu “compensá-la”: viveu um casamento de aparências com um homem que não amava e um triângulo amoroso com o amor da sua vida, que já a levou ao fundo do poço algumas vezes, mas que a faz suspirar todas as noites lembrando-se daqueles beijos.
                Ela só concordou em vir quando soube que Álvaro não poderia participar, pois estava viajando a Angra dos Reis com sua esposa e filho. Este seria o terceiro encontro em que ele não se fazia presente; isso de certo modo aliviava a alma de Carmen, pois ela sabia que o melhor para se manter afastada de Álvaro era não o ver, mas por outro lado isso a matava por dentro, pois sem ser nesses encontros ela nunca teria a chance de encontrá-lo novamente.
                Ainda da rua elas ouviram o toque do telefone. Era Isabel, dizendo que Armando partiria às 11:30, e ela pegaria uma carona com ele até o Centro Histórico. Pediu para suas amigas a apanhassem lá. Lenita não quis saber o motivo de Armando ter antecipado sua partida, mas ficou feliz em ter Isabel por perto mais cedo. Ninguém gostava muito de Armando.
Elas apanharam Isabel em frente às escadarias da Igreja e foi impossível não se lembrarem de todas as vezes que se reuniram ali e riram copiosamente. Podia ser com coisas bobas, uma história contada por Lenita que quase sempre envolvia vinho ou alguma coisa engraçada sobre algo vivido por Isabel e Lenita em Porto Alegre, as piadas de Álvaro, o sorriso tímido de Daniel, as tardes cantando e tocando violão, aquela discussão ridícula de Álvaro e Téo por ciúme de Carmen e após Téo ter chutado o violão de Daniel e Álvaro ter quebrado a garrafa de vinho no muro, todos começaram a rir e os dois se abraçaram em um misto de vergonha e alivio. Eram tantas lembranças que as três quase nem se falaram no caminho até a casa.
Seriam as três mais uma vez passando a tarde juntas. Apesar de mais de 15 anos já terem se passado e elas estarem transformadas, será que elas ainda eram aquelas mesmas 3 garotas cheias de planos para o futuro? Estavam ali as 3, se olhando como se o tempo não tivesse passado, como se soubessem o que as outras estavam pensando. Mas na verdade não sabiam mais. Isabel foi a primeira a falar: contou da briga terrível que teve com Armando e praticamente o mandou embora. Lenita disse ser o certo a se fazer e disse nunca pensar que a amiga fosse se vender por dinheiro. Nisso, Isabel levantou-se indignada, esbravejando falando não ser esse o caso; pegou sua bolsa, mas antes de sair Lenita a segurou pelo braço e pediu desculpas. Carmen ficou meio sem entender o porquê dá exaltação, mas, para evitar ficar nesse assunto, resolveu oferecer um vinho chileno que tinha na mala. As serviu e logo os ânimos ficaram mais amenos e a tensão presente na sala foi diminuindo. Após o vinho chileno, outro foi aberto e na metade daquela garrafa as 3 já estavam rindo das coisas que Carmen contava. E rindo delas também relembrando da vez em uma reunião que após 3 garrafas de vinho Lenita tinha chorado compulsivamente pela queda do muro de Berlim naquela sala.
Da primeira vez que Carmen e Álvaro ficaram juntos, ela havia contado no dia seguinte também naquela sala. Foi em uma virada do ano; eles costumavam se reunir e desfrutar da paz de Garopaba para fazer uma virada com flores na cabeça, pés descalços e cheia de amor. Regina, esposa de Álvaro e Guto, o marido de Carmem, também estavam ali, mas o que Álvaro e Carmen sentiam já não cabia mais dentro deles. Quando Carmen foi até dentro da casa apanhar uma travessa com saladas que havia sido esquecida, Álvaro a seguiu e, sem falar nada, a tomou em seus braços e ali mesmo, encostados em uma das paredes da cozinha eles entraram na maior cilada de suas vidas. Parece que daquele momento em diante eles estariam para sempre entrelaçados e condenados a estarem ora vivendo e morrendo por amor. Carmen voltou sem a salada e com o cabelo bagunçado, ninguém percebeu nada, mas ela não pôde segurar e mal acordaram no dia seguinte e ela confidenciou tudo as suas amigas, mas as duas não se mostraram surpresas. Desde quando Lenita apresentou o amigo que tinha conhecido em Coimbra em um curso de Direitos Humanos todos sentiam que a ligação entre ele e Carmen era um pouco diferente, inclusive Guto, que apesar de não amar profundamente Carmen, morria de ciúmes.
Às 18 horas elas saíram para encontrar Daniel na rodoviária. Ele se queixou de não ter como ir até Garopaba e, após muitas conversas, aceitou os amigos pagarem a passagem de ônibus até a cidade. Daniel poderia ser o melhor sucedido de todos, era o mais talentoso, seu primeiro romance é aclamado até hoje, mas o desaparecimento de sua mulher o fez ter um bloqueio criativo. Ele não fotografa, não escreve mais, nem toca seu violão. Mas ao descer do ônibus ele parecia estar melhor do que da última vez. Já em casa, ele até mesmo sorriu ao ver uma fotografia tirada por ele mesmo, na qual todos pulavam com o mar de fundo.
Eles estavam sentados com o rádio ligado, quando ouviram a buzina do carro do Téo e, ao saírem, perceberam que ele não estava sozinho. Ao lado dele estava Álvaro, com o cabelo preso e um sorriso tímido nos lábios. Enquanto Carmen tentava controlar suas emoções, os outros saíram para recepcioná-los.
Téo era a alegria em pessoa; os risos antes escassos e quase raros se tornaram constantes quando ele chegou. Quando ele entrou encontrou Carmen encostada no sofá, com um riso meio acanhado, ele a abraçou e disse esperar dela que gostasse da surpresa. Álvaro veio em seguida, a abraçou e timidamente disse achar que ia chover em breve.
Téo mal colocou as malas para dentro e já foi procurar algo na geladeira a fim de preparar um jantar. Parecia loucura, mas ele inventou de fazer pizza e assar na churrasqueira! Ligou o som e, ao ritmo de Chico Buarque, todos começaram a se organizar para fazer a massa e os molhos.
Por volta das quatro da manhã Lenita, Álvaro e Téo haviam colocado as redes na garagem e conversavam. Lenita fala mal de Armando e lamenta por Isabel estar com um burguês que passava as férias na Flórida. Téo diz que, apesar de também não concordar com o estilo de vida do marido da amiga, preferia não julgá-lo e achava do fato de Isabel estar com o mesmo por causa da segurança passada por ele, não apenas financeira, mas também afetiva. Álvaro estava quase dormindo e só despertou quando deixou cair um pouco do vinho que tomava em seu peito e decidiu que iria subir para dormir. Junto com ele os outros dois amigos também subiram.


2º Dia

Isabel saiu para correr na praia logo cedo, levava dentro de seu walkman uma fita da Elis Regina e quase teve de parar sua corrida para chorar quando tocou “Atrás da Porta”. Por mais que a vida ao lado de Armando fosse maravilhosa, ela sabia não ser aquilo o desejado para sua vida; sempre quis suspirar de amor, mas não foi forte o suficiente para lutar pelo dela.
Na casa Carmen e Álvaro haviam se encontrado na porta de um dos banheiros e ela havia se arrepiado pelo simples fato de encostar seu braço no dorso de Álvaro. Ela não o olhou nos olhos, apenas pediu desculpas e, meio desconcertada, desceu as escadas e foi até a cozinha. Lenita e Téo já tinham colocado o café na mesa e animados contaram sobre o programa da tarde. Queriam ir até a Câmara Municipal, para ver a quantas andava o tombamento do Casarão Amarelo - uma casa que a princípio pertencia a família de Téo e tinham doado à prefeitura, na época quando o tio de Téo foi prefeito e seu pai se mudou com a família para a capital paulista -  para dar andamento ao projeto de criação da biblioteca municipal que Téo estava disposto a criar na cidade e para onde pretendia transferir todo o seu acervo pessoal. Depois da Câmara, iriam até a paróquia se colocar à disposição para ajudar na quermesse que aconteceria no próximo domingo. Álvaro torceu a cara para ideia, pois nunca foi muito chegado a padres, porém Lenita insistiu que seria bom eles irem e isso não teria nada a ver com religião.
Carmen recém tinha colocado café em sua xícara quando todos foram surpreendidos por um acorde de violão vindo do andar de cima: pareciam os acordes de “Something”, dos Beatles, que era uma das músicas preferidas de Daniel; eles quase não acreditaram no que estavam ouvindo, mas logo após os primeiros acordes ouviram um barulho semelhante ao de um violão sendo jogado no chão.
Daniel desceu as escadas, não deu bom dia a ninguém e o clima estranho só foi quebrado por Isabel chegando da rua e contando ter sido atacada por um cachorro maluco que, não satisfeito em derrubá-la, ainda subiu em cima dela, como se ela fosse uma cachorra. Ela estava toda suja, descabelada e rindo descontroladamente, contando a cena. Até Daniel riu dela contando o ocorrido e todos ficaram aliviados por verem Daniel se divertindo, pois o som do violão batendo contra o chão tinha deixado os presentes ali muito tensos.
Enquanto Téo, Lenita e Álvaro entraram na Câmara, Isabel resolveu ir até a loja de artesanatos. Carmen e Daniel ficaram na praça. Quando Carmen tirou a câmara da bolsa e começou a fotografar alguns barcos na beira do mar, Daniel levantou e foi observar. Carmen ofereceu a câmera para ele também tirar uma foto, mas houve uma recusa; porém, quando ela pediu dicas de fotometria sobre aquele modelo de câmera, ele pegou o objeto de suas mãos e começou a falar como deveria ser feito, ao mesmo tempo em que tirava algumas fotos. Isabel chegou nesse momento e se manteve em silêncio ao lado de Carmen, que, com o sorriso nos lábios observava o amigo. Daniel sentou em um banco e, sem falar uma palavra, entregou a câmera à Carmen. Apesar do silêncio, ele estava com um olhar de satisfação. Todos em silencio contemplavam o movimento da praça quando os outros voltaram.
Subiram a escada da Igreja Matriz, como já tinham feito tantas outras vezes antes e foram procurar o padre. Ficou combinado no dia seguinte eles ajudarem a fazer as bandeirinhas e a enfeitar o largo da Matriz bem como a pracinha, junto com a comunidade.
Téo estava insatisfeito com a burocracia de tombamento do Casarão Amarelo e não entendia a demora e falta de prioridade que a construção da biblioteca demandava. Os recursos que viriam da prefeitura eram mínimos, mesmo assim a burocracia adiava seu sonho.
Como a noite já havia chegado, resolveram ir até o Bar do Pola, um velho amigo dos tempos da juventude. Quem estava tocando o bar agora era seu filho Geraldo, e ele contou aos amigos que o pai estava na capital e só retornaria no final de semana. Pola estava junto com Caio – um outro amigo escritor que vivia em Porto Alegre – e Téo, quando eles foram torturados até perto da morte na prainha de pescadores. Logo depois disso, Téo viajou para Europa e depois passou 5 anos morando em Israel, onde conheceu Maria, que todos apostavam ser sua futura esposa, porém repentinamente ele voltou ao Brasil e começou a investir em obras sociais.
                No bar do Pola eles saborearam a receita da casa, camarão na moranga, e na volta para casa, Álvaro tenta emprestar seu casaco para Carmen se proteger do frio, mas ela recusa. Ao chegar a casa, Isabel se tranca em um dos quartos do andar inferior e então se ouve o nome de Armando em meio aos berros.
                Mais uma noite estrelada em Garopaba.


3º Dia

                Lenita acorda cedo e, antes dos outros acordarem, desce, abre o armário debaixo da escada e dele retira um álbum de fotos. As fotos são de Simone, chamada assim em homenagem à Simone Beauvoir. Sua filha tem 16 anos e ela não sabe ao certo os gostos da menina, como se veste, as músicas que ela escuta ou os livros que lê. A menina vive em Porto Alegre com os avós, e Lenita, desde sua volta do exilio na Rússia está vivendo em Santa Catarina, dividindo sua vida entre Florianópolis e Garopaba. Ela viu a filha apenas 6 vezes, quando conseguiu burlar a marcação cerrada de seu pai. Lembra com detalhes de cada uma dessas 6 vezes e chora ao ver as fotos desses encontros. Se sente fraca por viver essa situação, mas também sabe de tudo que o pai é capaz, e não quer expor Simone nem sua mãe às loucuras daquele velho sádico. O General Altamir foi o principal envolvido no episódio em que espancaram Daniel, Caio e Pola e também existe uma suspeita de que ele esteve por trás do sumiço da mulher de Daniel, sendo também conivente até mesmo com as torturas e estupros que sua filha sofreu no quartel por ele comandado.
                Lenita enxuga as lágrimas ao ouvir passos descendo a escada. É Daniel, ele lhe pergunta se o estúdio ainda está funcionando no quartinho dos fundos. Ela lhe reponde que não o utiliza há anos, mas que acredita que, depois de uma boa limpeza e organização, ele ainda deva servir para alguma coisa. Daniel passará então toda a manhã enfiado no quartinho, enquanto Álvaro e Isabel vão até o centro para acertar algumas coisas no banco e também no correio.
                Carmen está escrevendo um conto, mas não anda muito inspirada nos últimos dias. Certamente é a presença de Álvaro, que lhe tira completamente do plumo. É um eterno querer e não querer; ela se sente em um poema de Camões, com um fogo a lhe queimar por dentro e com a consciência lhe mandando manter a distância.
                Téo abre o armário da escada em busca de um chapéu, e os álbuns vistos por Lenita mais cedo acabam caindo; ao apanhá-los, Téo percebe que Lenita o observa de longe e pode sentir o peso em seu coração. Ele coloca os álbuns novamente no armário e, sem dar muitas explicações, pega uma das bicicletas e também sai de casa.
                Carmen e Lenita preparam o almoço. Um escondidinho de frango. Lenita passou por uma fase vegetariana, mas agora voltou a comer carne, para alegria de Carmen que tinha apenas na memória o sabor do escondidinho de frango da amiga. Era uma tradição: sempre que eles se reuniam na casa de praia de Garopaba o cardápio tinha que ter escondidinho.  Perto da hora do almoço todos chegaram, almoçaram e por volta das 14:00 foram para a praça, com exceção de Daniel, pois queria terminar de organizar o estúdio.
                Como era plena terça feira não tinha ninguém para ajudar na confecção das bandeirinhas, apenas eles e o padre. Para facilitar a produção eles se dividiram em duplas e não por acaso a dupla de Álvaro foi o pároco. Álvaro nunca acreditou em religião alguma, mas sua grande antipatia mesmo sempre foi com a católica. Para deixar tudo ainda mais divertido, o padre resolveu que converteria Álvaro, e no final da tarde Álvaro só não saiu no tapa com o padre em respeito aos seus 80 anos e praticamente teve que dizer que acreditava na Santíssima Trindade para poder ir embora. Saiu falando que não ajudaria mais em nada e todos ficaram rindo por horas daquela situação.
                A tarde rendeu, eles terminaram de colar todas as bandeirinhas recortadas para a festa e ainda conseguiram adiantar alguma coisa das lâmpadas que também seriam usadas.
               

4º dia

Um diluvio caía sobre Garopaba, parecia que iria chover mesmo os 85 milímetros da previsão do tempo. No café da manhã Isabel recebe um telefonema de Armando, cobrando pelo fato dela não estar dando atenção e sendo assim ele estaria pegando o primeiro avião para a cidade mais próxima de Garopaba a fim de encontrá-la. Não aguentando e se sentindo sufocada, ela explode e, antes de desligar o telefone na cara dele, berra pedindo o divórcio. Isabel corre para o andar de cima. Lenita para consolar a amiga.
Álvaro fala que também está pensando em se separar, e Carmen quase se afoga com o café, rindo e afirmando que essa seria a 20ª vez que ele falava isso. Porém, ele afirma que dessa vez é diferente. Carmen se irrita, joga o pedaço de pão que estava segurando na mesa e grita que, se quando ele jurava ter a amado não se separou, também não seria dessa vez. Ela também sai correndo em direção ao andar superior.
Daniel, ouvindo tudo do quartinho, apenas vem até a cozinha e diz que as mulheres dessa casa devem estar malucas. Os três se olham e começam a rir sem entender muito o ocorrido, apenas cogitando a possibilidade de serem os hormônios.
Carmen se tranca em um quarto e chora até o meio da tarde. Lenita apenas deita ao lado de Isabel e segura sua mão; as duas passam horas ali em silêncio de mãos dadas. Elas são assim desde sempre, desde a infância e esse simples gesto é tudo que elas precisam em momentos assim.
Quando Carmen desce não encontra ninguém em casa, apenas escuta um barulho que supõe ser Daniel no estúdio. Em cima da mesinha da sala, ela vai apanhar seu livro e dentro encontra um bilhete escrito: “Você está equivocada, eu não te amava, no passado... eu ainda te amo e sempre vou te amar” o bilhete não estava assinado, mas ela sabia de quem era. Ao ler aquilo, ela rasga o bilhete e volta correndo para o quarto. Tranca a porta e joga os pedaços de papel em cima da cama, tentando reconstruir o bilhetinho, e se pega rindo de felicidade lendo as palavras escritas.
Os outros tinham ido ao mercado e, quando Carmen ouve o barulho das vozes, então desce. Finalmente a chuva tinha aliviado e eles chegam contando a água tinha entrado em algumas lojas no centro. Téo e Álvaro vão preparar um risoto.
Lenita, Isabel e Carmen se sentam na sala e Isabel faz a maior cerimonia para mostrar seu manuscrito: um livro de crônicas sobre uma viagem feita pela Europa com Armando. Carmen percebe em Lenita algumas ressalvas quando Isabel conta sobre o que o livro se trata, mas também percebe a alegria da amiga ao ver o teor das crônicas. Um material excelente, retratando uma Europa muito diferente da Europa burguesa esperada de se encontrar em uma viagem com Armando; são crônicas fortes sobre temas políticos e antropológicos de uma Europa menos superficial do que a geralmente os turistas costumam conhecer.  
Antes do jantar, Daniel programa a câmera para tirar uma foto dos amigos todos juntos, e após o delicioso jantar eles se reúnem na sala para ler mais algumas crônicas do livro de Isabel.


5º Dia

                Téo percebe o fato de Daniel nem ter deitado em sua cama, e desce para ver o se algo aconteceu com o amigo. Ele o encontra no estúdio, em meio a dezenas de fotos. Daniel conta que, quando estava arrumando o estúdio, encontrou dois rolos de filme ainda não revelados, e começa a mostrar as fotos. Um é de uma viagem feita por eles para a Guarda do Embaú, uma praia pequena perto dali, e eles não compreendem como aquele filme passou tanto sem ser revelado. Daniel estava com Marta, sua eterna namorada e as fotos revelam pores do sol, banhos de mar e até mesmo olhares entre Carmen e Álvaro, que naquela época nem tinham nada. Eles acamparam e foi como uma volta ao tempo rever aquelas imagens. Fotos das barracas, do preparo das comidas: eles até lembraram-se do quanto Guto reclamava da falta de conforto. O outro filme tem imagens de uma virada do ano, onde estão todos de branco, reunidos ali naquela mesma casa. Notam também tem uma foto linda de Carmen, onde ela está com um sorriso de orelha a orelha e o cabelo um tanto quanto bagunçado.
                Téo convida Daniel para ir até dar uma volta de carro com ele, diz estar preparando uma surpresa para Lenita. Daniel aceita, mas antes coloca em cima da mesa da cozinha a foto que tirou no dia anterior e com um bilhete do lado escrito por ele:

“Nós mantemos este amor numa fotografia
Onde nossos olhos nunca fecham
Nossos corações nunca se partem
Onde o tempo estará congelado para sempre
Daniel”

                Ao encontrarem a fotografia e o bilhete, os outros se emocionam. Desde o sumiço de Marta, Daniel não tinha escrito nenhuma palavra além do seu nome em documentos. Foi como se ele tivesse quebrado essa barreira e de alguma maneira ter encontrado forças para voltar a viver. Em cima da mesa também tinha uma mensagem de Téo: “Voltamos para o café da manhã de amanhã”. Todos ficaram sem entender nada.
                Após o almoço foram para a igreja no Jeep de Carmen e, quando estavam chegando no Centro Histórico, escutaram os gritos de um homem: “O pneu está no chão!” Sem entender muito a expressão, Carmen seguiu e, quando estacionou em frente à igreja, percebeu que seu pneu esquerdo dianteiro estava furado. Ela teria de encontrar uma borracharia, pois seu step também não estava em condições de rodar. Lenita, Isabel e Álvaro desceram e na última hora Álvaro se ofereceu para acompanhar Carmen, que em um impulso respondeu: “por favor”; ele deu um pulo para dentro do Jeep enquanto Lenita e Isabel trocaram olhares como premeditando o que poderia acontecer.
                Lenita e Isabel subiram a escadaria e juntaram-se a cerca de outras 30 pessoas que estavam a mil com os preparativos para festa. Lenita estava se sentindo muito perturbada com a presença de Laerte, irmão de Cabo Lazaro, o homem que a estuprou e torturou durante 4 dias seguidos enquanto ela foi presa. Até hoje ela não entendia como seu pai tinha permitido que um de seus homens a tratasse assim. Quando ele esbravejou e disse do fato dela não ser mais sua filha, nem nos piores cenários ela imaginou ele chegar a esse ponto. Ela ainda lembra-se dos gritos de sua mãe entrando no quartel e exigindo que sua soltura, recorda-se também do estouro causado pela mão de seu pai na cara de sua mãe, quando ele mandou que ela saísse, pois senão seria pior.
Lenita se isola em um canto e começa a tremer, lembrando das cenas que ela mais gostaria de esquecer. Isabel percebendo a agonia da amiga, a toma pelo braço e sai caminhando com destino a Prainha, um lugar sossegado onde ela poderia acalmar a amiga.
                Carmen está encostada do lado de fora da borracharia, enquanto Álvaro conversa com o borracheiro e pede para ele arrumar o step também, o moço comenta que pode demorar um pouco e fala que eles podem sair e dar uma volta para depois apanhar o carro. Álvaro chama Carmen para lhe acompanhar até um posto telefônico, de onde ele precisava fazer uma ligação para o seu jornal.  
                Álvaro é editor chefe de um grande jornal paulista, nunca consegue sair da cidade, por isso a surpresa quando ele apareceu acompanhando Téo. Ele perdeu um pouco das características que fizeram com que Carmen se apaixonasse por ele, mas ela ainda o ama. Quando Álvaro desligou o telefone disse a Carmen que precisava voltar para São Paulo ainda naquele dia; Carmen um pouco desapontada concordou. Mas pensou: “O que estava acontecendo? Marcam um encontro e dois somem deixando um bilhete e o outro vai voltar para casa antes do grande dia?”. Ela não argumenta e aceita levá-lo até em casa a fim de ele apanhar as malas.
                Ele sobe para buscar suas coisas e quando volta, ela está segurando um álbum de fotos, ele senta ao seu lado e começa a observar as imagens também. São fotos de um aniversário de Isabel. Dois meses depois da virada em que eles iniciaram seu romance. Em todas as fotos eles estão lado a lado e acompanhados. Em uma foto aparece Álvaro segurando o rosto de Carmen e lhe dando um beijo, posando para fotos. Ao ver essa imagem, Carmen vira o rosto para o lado e olha dentro dos olhos de Álvaro. Olhos claros, de um azul que se mistura com pequenos pinguinhos amarelos, formando quase um verde. Olhos que ela já decorou, que já a devoraram, que ela viu de perto tantas vezes, arregrados, ou pequeninos nos momentos de prazer. Quando ela sentiu o olhar dele penetrando em seu olhar, foi como se o corpo todo estivesse envolto em uma onda de calor que começava dentro dela. Ele continuou a encarando e disse “Se você quiser eu posso ficar”. Ela manteve o olhar e disse com uma firmeza que poucas vezes ela teve nessa relação “Fique”.
                Ela mal tinha terminado de falar quando sentiu os braços dele ao redor de seu corpo e um beijo lhe tomando os lábios. O cheiro dos cabelos dele a deixava em transe e naquele momento ela era completamente dele. Os dois se beijaram no sofá e horas depois ainda estavam ali, nus, abraçados e em silêncio apenas sentindo o prazer de sentir o calor do corpo um do outro. Sabendo que só estão completos quando estão juntos, é de lamentar por todo o tempo perdido pelas pequenas coisas do cotidiano.
                Enquanto Carmen e Álvaro se amavam na sala, Lenita e Isabel tinham voltado para a igreja e ajudavam na organização da quermesse. Isabel estava até mesmo na cozinha ajudando a preparar os doces, enquanto Lenita estava ajudando a pendurar a bandeirinhas que eles tinham feito no outro dia.
                Enquanto sobem a escadaria da igreja, Álvaro segura na mão de Carmen e ela meio sem entender o encara, e ele diz: “Eu não quero mais esconder o nosso amor”. Ao chegarem tanto Lenita quanto Isabel sorriem quando os veem; Carmen não consegue disfarçar a felicidade que está sentindo. Já era quase 22 horas quando eles chegam em casa.
                Preparam uma massa, sem muito requinte apenas para se alimentarem. Lenita vai até o armário debaixo da escada e volta com uma pasta. Isabel ilumina o olhar quando percebe que é uma pasta com o mapa astral de todos. Lenita apesar de sempre comentar que não acreditava em astronomia, sempre fazia o mapa de todo mundo e eles se divertiam fazendo as mais variadas combinações. O cruzamento de mapas com maior compatibilidade era de Lenita e Isabel, e apesar de a vida toda mostrar que mapa estava certo, Lenita seguia dizendo que não acreditava nessas coisas.
                O mapa de Álvaro e Carmen dizia que os dois dariam certo e que as coisas sempre eram a ferro e fogo: “Este encontro é poderoso e pode causar estragos” Embora os astros tenham acertado e de fato esse encontro tenha sido em alguns momentos destruidor, todos tem certeza de que eles cometeriam esse mesmo erro dezenas de vezes.
                Carmen e Álvaro colocaram colchões e dormiram na sala aquela noite, enquanto as duas subiram para também dormir.

6º dia – 31 de março

                Era 9 horas quando escutaram o barulho da buzina do carro de Téo. Isabel não entende quando vê uma moça saindo do carro, mas quando olhou para trás e viu Lenita chorando e se segurando na mesa para não cair e entendeu que só poderia ser Simone. Carmen e Álvaro estavam nas escadas e puderam ver o abraço entre mãe e filha pela janela.
                Téo tinha telefonado para Dona Ana, mãe de Lenita e arquitetado todo o encontro. Avó e neta mentiram que a menina tinha uma viagem de estudos para o Rio de Janeiro. O avô anda fraco, parece que o peso das maldades cometidas no passado finalmente está afetando seu corpo, não questionou muito, apenas assinou uma autorização falsa e autorizou a esposa a dar um dinheiro para as despesas da menina. Dona Ana a levou a Téo, que dirigiu a noite toda trazendo Simone até sua mãe.
                Por um momento Lenita não sabe sobre o que conversar com a filha, mas a menina é comunicativa e tira a mochila das costas e fala: “tem uma coisa que quero te mostrar”. Ela abaixa a blusa e logo abaixo da nuca está tatuada a frase “On ne naît pas femme: on le devient”. Lenita não consegue conter a emoção e as duas choram abraçadas ao lado do carro de Téo.
                Lenita, Isabel e Simone sobem. A mãe sugere que a menina durma um pouco, pois virou a noite na estrada, mas ela diz que precisa só de um banho. Simone fica deslumbrada com as saias longas de sua mãe, roupas que há anos estavam no armário de um dos quartos de hóspedes. Simone fica linda com as roupas de Lenita. A menina vê um disco da Rita Lee e as 3 ficam no quarto falando sobre música.
                Carmen encontra Téo na sala e fala o quando foi nobre esse seu ato e fala sobre como Lenita se iluminou com a presença da filha. Téo diz que é o mínimo que ele pode fazer, além de Lenita ter sido sua amiga por anos ela ainda conseguiu o libertar da prisão e acabou pagando um preço muito alto por sua atitude.               
                Eram quase 15 horas quando todos almoçaram. Simone pega o violão velho que dias atrás havia sido jogado no chão por Daniel e tenta tocar “Mania de você”, da Rita, mas ela ainda não toca muito bem, pois seu avô a proibiu de fazer aulas de violão.                                            
                Daniel se levanta, pega o violão de Simone, toca “Mania de você” e todos voltam a ouvir aquela linda voz, há muito calada pela dor. Eles perdem a noção do tempo ouvindo Daniel tocar e Simone cantar. A menina tinha uma voz linda e deixou sua mãe muito orgulhosa.  
                Ao chegarem na quermesse encontram Pola, que logo que os avista. Ele vem com os braços abertos ao encontro deles. As quermesses em Garopaba são sempre pontos de encontro de velhos amigos, pois pessoas que já não vivem mais na cidade sempre encontram um jeitinho de voltarem pra Garopaba e participar da tradicional festa.
                Haviam muitas barraquinhas nessa quermesse: de jogos, comidas típicas, venda de artesanatos e apresentações. Uma banda da cidade ia tocar e quando tocou “Alegria, Alegria” de Caetano, foi como se um hino começasse a tocar, todos os amigos, incluindo Pola e Simone se abraçaram e começaram a cantar a plenos pulmões “Em caras de presidentes, em grandes beijos de amor, em dentes, pernas, bandeiras, bomba e Brigitte Bardot. O sol nas bancas de revista, me enche de alegria e preguiça...Quem lê tanta notícia... eu vou!”
                O momento foi eternizado por Daniel, em uma foto que anos depois ainda encheria o coração deles de amor.

7º Dia

Foi um lindo almoço de domingo. Depois do almoço alguns começaram a organizar suas coisas. Daniel levaria Simone para casa e depois iria com o carro de Téo para São Paulo. Álvaro e Téo voltaria na segunda de avião e Carmen iria para uma cidade no início da Serra Catarinense – ela não sabia, mas seria lá que ela escreveria o seu melhor romance.
Isabel não iria embora. Ela estava disposta a se separar de Armando e ficar ali mesmo, vivendo com Lenita, até mesmo já havia pedido a seu advogado que entrasse com os papéis do divórcio.
Simone disse que o sonho da vida dela é viver com sua mãe e que só não ficaria ali por não querer abandonar sua avó, mas que assim que completasse a maior idade se mudaria pra Garopaba. Ninguém queria ser trágico, mas Simone sabia que isso iria acontecer bem antes dos 18 anos, seu avô não duraria mais muito tempo; porém pensar no quanto seria feliz no dia em que ele morresse não parecia o correto para ela, então ela evitava contar os dias para isso ocorrer.
Antes de Daniel sair, ele desce com um caderno na mão e anuncia a todos que aquelas são as primeiras suas páginas do melhor livro que ele irá escrever, sendo o título Aos meus, com amor.
Após a saída de Daniel e Simone, o restante da turma vai para praia, levando vinho e violão, e embora não toquem tão bem quanto Daniel, Álvaro e Téo consigam tirar algum som. Eles fazem uma fogueira e ficam cantando, bebendo e celebrando a vida. Álvaro e Carmem ficam abraçados, ouvindo as canções que embalaram suas vidas. Isabel e Lenita se olham, como se soubessem que estão para começar um momento que adiaram por uma eternidade.
Téo pára de tocar o violão, tira toda a sua roupa e vai em direção ao mar. Grita “Venham meus queridos, venham lavar suas almas, se purificar e se preparar para essa nova vida que acabamos de construir!”. E todos fazem o mesmo. Os cinco mergulham no mar, iluminado apenas pela lua, que se mostra gigante no céu.


Segunda-feira
No dia seguinte Carmen parte, mas antes de sair tem a certeza de que realmente terá Álvaro para sempre em seu retorno. Ele diz que a ama e é com ela que ele irá ficar, e ela não precisa de mais nada. Carmen conhece Álvaro, conhece o tom de sua voz e a verdade existente em seus olhos. Ela tem certeza de que se reencontraram para viver o sonhado em São Paulo.
Antes de partir Téo vai até o cartório e na volta deixa um envelope, que só deve ser aberto no dia 1º de julho, dia que ficou combinado um encontro surpresa na casa de Daniel, para todos juntos comemorarem o aniversário do amigo.

....

O tempo passou. Um mês depois o pai de Lenita morreu e a mãe chamou Lenita e Isabel para viver com elas na capital gaúcha. Lenita não consegue abrir mão da vida em Garopaba, mas passa semanas em Porto Alegre, outras na velha casa. A vida para ela está muito mais leve. Começou a trabalhar como colunista política em uma grande rede de jornais rio-grandense e está ajudando Isabel com a publicação de suas crônicas de viagens sobre a Europa.
Carmen e Álvaro foram viajar, passaram um mês com uma Kombi alugada andando pela América Latina. Algumas pessoas acharam loucura, mas para eles foi uma das melhores experiências de suas vidas. Carmen e Álvaro pensam em ter um filho em breve, mas antes querem viajar até a Patagônia. Pela primeira vez Álvaro está usando os privilégios de ser chefe e pretendem usar bem o tempo livre, pois conseguem ajustar seus horários para passar mais tempo viajando com Carmen.
Daniel está finalizando seu livro; ele ainda não mostrou a ninguém, mas sua antiga editora já fechou o contrato para lançamento; afinal, Daniel é uma mina de ouro.

1º de Julho

Só falta Téo chegar, mas ele manda apenas um mensageiro.
A mensagem diz apenas: “Abra o envelope de Garopaba”.
No envelope existe uma série de escrituras e contratos, todas elas devidamente preenchidas e nominais, passando cada uma de suas propriedades e ações aos seus amigos. Ninguém entende nada.
Dentro do envelope existe também uma carta.

“Meus Queridos;

Dessa vez aposto que consegui surpreender mesmo vocês!
Não preciso de muito para viver;
Se eu tiver amor, eu sei já serei feliz... por isso deixo esses presentes, para que depois que eu me for algo de bom ainda possa ser feito com o que eu deixei.
Eu não tenho uma bola de cristal, mas tenho certeza que o nosso último encontro mudou nossas vidas para sempre.
O que nos faltava era amor.
Amor de mãe e filha;
Amor próprio;
Amor de homem e mulher;
Amor fraterno;
Nunca mais esqueçam disso, do amor, vivam esses amores por mim, celebrem a vida a cada amanhecer por mim.
Nunca deixem de lutar e nunca esqueçam o que passamos, mas também nunca deixem que a dor apague a alegria de viver.
Eu gostaria de ficar, mas infelizmente tenho de partir, ainda não sei bem para onde, venho adiando essa partida há quase 5 ano: foram longos tratamentos, muitos remédios, mas agora parece que fui vencido e não tenho mais como ficar aqui com vocês.
O meu legado são os meus amigos, são vocês.
Eu quero seguir vivendo dentro de vocês.... dentro de suas memórias e corações.
Com amor, Téo.”


                Ninguém sabia, mas Téo estava muito doente. Quem contou meses mais tarde foi Maria, sua antiga namorada de Israel. Téo simplesmente desapareceu, talvez tenha morrido... pensam os mais esperançosos. O fato é que Téo estava certo e o encontro de Garopaba mudou o rumo de suas vidas.
                A ditadura tinha matado o amor de dentro de alguns deles, mas a vida sem amor se torna impossível de viver... e em Garopaba eles lembraram disso.


1º semestre de 2016

Isabel lê um livro preguiçosamente em um dos sofás da biblioteca municipal Téo Albuquerque, em Garopaba. Lenita organiza alguns papeis.  
A campainha toca, é um homem com um envelope.
Lenita abre o envelope e tira de dentro tem uma folha A4 com uma frase manuscrita:
“Não vai ter golpe”
Era a letra de Téo.

Baseado na obra de ficção “Queridos Amigos” e em fatos reais ocorrido em “Garopaba Parte IV”