quarta-feira, julho 31, 2013

Personalidades: Olibio Ferreira da Cunha

Por Daura da Cunha
Data de nascimento: 02 de maio de 1918
Data de falecimento: 03 de junho de 1993

Olíbio Ferreira da Cunha nasceu em Limeira, Distrito de Catuíra, também conhecida como Colônia Militar Santa Tereza,  Município de Bom Retiro, em 02 de maio de 1918. Descendente de portugueses  e alemães, seus pais eram: Valeriano Ferreira da Cunha e de Laura Althoff da Cunha, ele Sub-Delegado da Região e ela do lar. Foi o terceiro filho de nove  irmãos.  Passou sua infância em Limeira. Cursou  o primário na Escola Isolada de Lomba Alta e posteriormente passou a ser auxiliar de ensino na mesma escola.

Aos 18 anos entrou para o exército em Florianópolis onde ficou muito doente, voltando para terminar seus dias em casa. De forma inesperada  conseguiu  curar-se.  Aprendeu a profissão de agrimensor. Casou-se em 24 de  julho de 1943 com Verônica Maria dos Santos, de descendência portuguesa, que passou a chamar-se Verônica dos Santos  Cunha (12.05.1922/20.04.2004).Tiveram nove filhos.
Homem de princípios rígidos na educação de seus filhos, foi  grande incentivador para que os mesmos tivessem uma formação acadêmica.
Na primeira metade da década de 50, José João Campos, residente em Barracão, então presidente do Diretório Distrital de Catuíra,  em uma visita àquela comunidade conheceu Olíbio Ferreira da Cunha, agrimensor, que também possuía o Cartório de Registro Civil local. A partir daí formava-se uma dupla que se mantivera unida em prol da emancipação política de Barracão.
Olíbio foi então contratado para fazer a medição de uma região que pertencia a José João Campos com o objetivo de loteá-la da forma mais correta possível. O preço acertado pelos serviços foi dois lotes urbanos que se localizavam em frente ao que é hoje a Escola de Educação Básica Silva Jardim.
 Após ter sua residência destruída por um incêndio em Lomba Alta, e, acreditando no desenvolvimento de Barracão,  estabeleceu-se  neste local. Foi  um dos primeiros a construir casa nessa parte nova da vila distrital.
Passou o Cartório em  Catuíra, para sua irmã  Erondina Emília Oliveira da Cunha e  reabriu-o mais tarde em Barracão, aproveitando sua experiência nessa área.  Além  disso continuava  com a função de agrimensor.
Sempre fora um autodidata. Gostava muito de ler e mantinha-se permanentemente  informado a respeito de assuntos da atualidade. Tinha um pequeno acervo bibliográfico voltado para: história universal, biografias de escritores renomados, enciclopédias, além de publicações sobre o mundo atual. Gostava de ouvir todas as noites, em seu rádio, o Repórter Esso e a Voz do Brasil - programas que o deixavam informado sobre os acontecimentos no Brasil e no mundo.
Tinha uma postura formal, inclusive na maneira de  vestir-se. Gostava de usar roupas de linho devidamente passadas e engomadas. Valorizava a boa  aparência.  Apesar de parecer  sisudo era bastante comunicativo e se divertia contando longos “causos”, estes, enigmáticos, quanto a sua origem e veracidade.
Participou da história do Município ora como personagem principal, ora como espectador. Mas, muitas vezes,  como colaborador para com o desenvolvimento da cidade que escolheu para viver.
Foi um dos fundadores e presidente da Sociedade Recreativa União Clube, cuja última sede encontra-se ainda hoje na praça principal do município.
Gostava muito de dançar e também de cantar, fez parte do coral da Igreja da cidade por muitos anos. Adorava participar dos bailes e das festas comunitárias. Na época das festas de São João a comunidade divertia-se muito, a dança da quadrilha era muito esperada e ensaiada com  certa antecedência sob o comando dele.  Comandava o "casamento de jeca", que também era muito divertido, com as brincadeiras próprias para o evento.  A encenação era muito hilária, um momento muito agradável e de intenso convívio entre os moradores.
No final da década de 50, Olíbio Ferreira da Cunha, juntamente com outros correligionários, traçaram uma lista de benfeitorias  realizadas para solicitar a elevação da Vila de Barracão á Distrito, que culminou em 24 de outubro de 1957.
Foi figura fundamental na luta pela emancipação política do então distrito de Barracão para Município de Alfredo Wagner, o que ocorreu na década de 60.
 Ainda na década de 60, a fim de ensinar uma profissão a seu filho Altair e mais tarde ao filho Odair, foi efetuar levantamentos  topográficos em Bocaina do Sul-PR  para fins de colonização. Nessa  época o cartório ficou sob a responsabilidade de Adilson Schuveitzer , filho do seu “Talico”, uma vez que seus outros filhos eram menores de idade.
Fez parte da equipe,  junto a políticos e  a comunidade - realizando leilões, festas, bailes e um livro de ouro – que buscou incessantemente angariar recursos, a fim  de que fosse construído o então Hospital e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, entidade fundada em 14 de janeiro de 1959, que teve seu funcionamento, anos mais tarde, em 15 de setembro de 1971. Conseguiu,  inclusive, verbas de uma  entidade filantrópica religiosa sediada na  Alemanha .
Na década de 70, juntamente com políticos locais e outros membros da  comunidade participou de reuniões com autoridades estaduais, a fim de que  a construção  da BR-282 ficasse o mais perto possível dos  Municípios  de Alfredo Wagner, Bom Retiro e  Rancho Queimado, para contribuir a um maior desenvolvimento da região.
Sempre esteve presente nas grandes lutas e reivindicações de Alfredo Wagner, juntamente com outros companheiros. Ao lado desses,  esteve empenhado, sem esmorecimento, no sentido de ver crescer e progredir a sua terra e de seus filhos.
Mudou-se para Florianópolis  em 1971,tornando-se empresário do ramo imobiliário e hoteleiro onde permaneceu até a sua despedida final em 1993.

Correções: Ana Paula Kretzer


segunda-feira, julho 29, 2013

Personalidades: Quiliano e Luzia

Quiliano Heiderscheidt (1920-1996)
Luzia Arminda Heidersheidt (1923 – 2010)
Por Orly Miguel Schweitzer 

Desde os primórdios da civilização se iniciaram as práticas comerciais em todo o mundo. Ninguém conseguia produzir tudo o que necessitava. Então, surgiu a troca, na época designada por “escambo”, palavra que foi substituída por “câmbio”, “permuta” ou “troca”.  Os pastores ou criadores trocavam com os agricultores seus animais ou a sua carne, lã, o couro da sua produção de ovelha, de gado, ou outros, por feijão, arroz, mandioca, trigo... ou de variadas atividades como ferreiro, marceneiro, carpinteiro e tantas outras. Muitas vezes,  com  a troca não era possível igualar os valores e foi então que surgiu o dinheiro, ou seja, a moeda para a  troca.  Passou a existir a compra e a venda.
            E na localidade de Caeté, originada pelo rio do mesmo nome, que pertencia à Vila de Barracão, do Distrito de Catuira, Município de Bom Retiro, hoje Município de Alfredo Wagner, existiu um grande comerciante: QUILIANO HEIDERSCHEIDT,   casado com  LUZIA ARMINDA HEIDERSCHEIDT (1923-2010).  O casal possuía, ali, uma casa comercial, naquela época designada “Venda”, a qual havia comprado do morador Adelino Lickmann.
            Enquanto “dona” Luzia – como era chamada - cuidava da casa, dos filhos e da “venda” o “seu”  Quiliano – assim também tratado -  percorria a região com uma carroça puxada por 6 (seis) cavalos  e adquiria a produção dos agricultores locais: banha de porco, ovos, cera de abelha, queijo, manteiga, charque, farinha de milho,  feijão, arroz, batata e tantos outros produtos,  para revendê-los nos mercados de Lages e Florianópolis, passando também  a fornecer para os batalhões do Exército. De lá trazia tecidos, linhas, botões, calçados, chapéus, ferramentas, sal, pimenta,  farinha de mandioca, cachaça, etc.,  os quais, por sua vez, eram vendidos para a população local.
            Na realidade, ainda se praticava uma espécie de troca, ou seja: durante o ano ele fornecia os produtos de necessidade aos agricultores mediante um crédito que era registrado numa conta-corrente, que na verdade era uma anotação em uma caderneta, com a assinatura do comprador. Por ocasião da colheita ou periodicamente, quando recebia a produção agrícola, tudo também era anotado e se fazia o acerto das contas.
            E o pequeno comércio prosperou. Logo compraram um caminhão, o que era raro naquela época, passando a viajar também para São Paulo  e outras cidades, ampliando assim, a variedade de produtos, como rádios, máquinas de costura, e os novos produtos derivados do plástico, conhecido na época como “matéria plástica”, uma grande novidade.
             Uma curiosidade marcante é que o seu Quiliano apesar de ser um exímio motorista, jamais obteve a sua Carteira de Habilitação. Então, contou com a colaboração de muitos jovens motoristas de caminhão que por lá passaram:  Seus irmãos Waldemar (Quixa) e Roberto, bem como  o  Marquinho, o Nicolau Foster, o Zico Seemann, o  João Valério entre outros.
Mas até chegar a essa fase das suas atividades foram grandes as dificuldades. Quando solteiro ele já praticava essa atividade, com o seu carroção, pela região.  Embora em quantidade reduzida. E foram nessas compras que conheceu a mocinha Luzia, filha do Manoel  Valério e dona Arminda,  agricultores de Santa Bárbara. Ela, desde nova, demonstrou gosto pela produção. Aconselhada pela mãe começou a formar um “enxoval”- na época as moças começavam a bordar toalhas, roupas de camas e outras peças que levariam quando viesse o casamento. Iniciou também uma criação de galinhas, as quais negociava, com o jovem Quiliano, um rapaz alto, forte e bonitão, que tinha até um carroção.
            Desde menina Luzia já fazia as leituras na igreja, por ocasião das missas, ou das “rezas” ou “terços”, assim chamados. Com o tempo e na ausência do padre ou da professora local, ela passou a dirigir essas atividades religiosas, mesmo  ainda menina.
            Os enamorados iniciaram um relacionamento e logo veio o casamento e lá mesmo em Santa Bárbara abriram sua pequena “venda” e começaram a negociar. Ele já tinha a carroça e ela trouxe de casa a sua criação de galinhas e uma cabeça de gado. Como se deduz, “era cara e coragem”.
            Ele já era um grande trabalhador e ela era uma grande empreendedora. Logo venderam sua casa comercial para o Sr. Cláudio Mariotti e mudaram-se para o Caeté, localidade maior, onde compraram a casa comercial do Sr. Adelino Lückmann .
            Dona Luzia, devota a Deus e a Nossa Senhora de Fátima, em certa noite acordou dizendo ao marido que havia sonhado que naquele terreno havia um belo local em que daria para construir uma gruta onde colocariam a imagem da Santa. No outro dia, entraram na mata e realmente encontraram uma bela cascata sobre uma pedra em forma de gruta. E com o tempo construíram a gruta de Caeté. Depois foram sendo construídos a capela, o salão de festas, churrasqueira, e outros espaços onde, até hoje, são celebradas missas, rezas, reuniões e até mesmo cultos de outras religiões cristãs. Hoje o lugar serve como atrativo do turismo religioso, pois é grande o número de pessoas de Florianópolis e região que frequentam as festividades. É com satisfação e saudade que os filhos e netos, ao visitarem o local, sempre repetem a leitura da placa comemorativa que se encontra na Capela da Gruta onde constam os nomes de seus pais, como fundadores da mesma.
            Esta união foi abençoada por muitos filhos: Rufino,  Rainildes, Regina, Rogério, Raini, Ronério, Rudinei e Roney.  Vieram as noras: Zélia, Dirce, Eunice e Tania e os genros Elio, Valdir, Orly e Dirceu. Veio também a felicidade de ganharem  muitos netos(as),  e bisnetos(as); os quais sempre foram  a grande alegria do “Vô”  Quiliano e da “Vó” Luzia.  O mais curioso nessa família é que “o sogro e a sogra” gostavam das noras e dos genros e estes também cultivavam um amor que era reciproco. Tambem eram amados por todos os netos e netas.  Era muito comum a dona Luzia dizer: “Eu tenho uma família de ouro”.
Voltando aos tempos em Caeté é de se ressaltar que, naquela época,  era uma região muito próspera formada pelas localidades de Santa Bárbara, Morro Redondo  e Santo Anjo, cuja estrada seguia para Anitápolis.  Possuía grande quantidade de habitantes dedicados à produção agrícola e pecuária. Com a campanha de colonização do Paraná, o Governo daquele Estado facilitou a aquisição de terras, as quais eram mais produtivas e o futuro era promissor.  Então o êxodo foi grande. Famílias inteiras se organizaram e mudaram para aquele Estado. Os tempos mudaram e a população em Caeté reduziu juntamente com o comércio também.
No lugar existia uma escola onde trabalhava a professora, Sra. Izaura. Quando ela se aposentou, veio uma nova professora, Sra. Ziza Ibagy, porém, eram tão poucos os alunos que a Prefeitura (Bom Retiro) fechou a escola. Então o seu Quiliano, por uns tempos, contratou essa mesma profissional, com o intuito de manter a escola para alguns de seus filhos e alguns vizinhos, já na idade escolar e de outros vizinhos.  Com a saída dessa última educadora houve a tentativa de contratação de outro professor, que não se concretizou. Alguns dos filhos passaram a frequentar a escola no centro de Alfredo Wagner, mas a distância era grande. Outros foram estudar em Bom Retiro, o que também não era fácil naquela época.
Então, dona Luzia, prevendo que os filhos não poderiam ficar sem estudar e com o desejo de mantê-los em casa,   sugeriu ao marido que se  mudassem  dali.
Venderam seu comércio para o Sr. Noé Souza, e mudaram para o centro de Alfredo Wagner onde desenvolveram atividades com serraria, dormitório, açougue e agricultura. De início eram auxiliados pelo filho mais velho, Rufino, o qual, aos 18 anos veio a falecer de maneira trágica, o que causou grande comoção em toda a região e um abalo emocional em toda a família,  que só com o tempo passou a ser suportado porém sempre lamentado.
Já na atividade com açougue, o filho Rogério passou a ser o “braço direito” do pai apesar da tenra idade.  Já por volta dos 10 aos 12 anos, era comum vê-lo, ainda usando calças curtas - moda para as crianças da época – viajar de carona com os caminhões do transporte da madeira, para a região de São Joaquim e Bom Jardim da Serra para fazer pagamentos pela compra de gado. Como não existiam Bancos o dinheiro era levado dentro de um saco de linhagem, comum naqueles tempos.
Os outros filhos freqüentaram o Colégio local e aqueles que quiseram, continuaram os estudos em Florianópolis e São José.
Sem deixar de amar e freqüentar Alfredo Wagner, alguns ainda mantem propriedades na cidade. Atualmente, todos residem ou desenvolvem atividades em Florianópolis, São José e Palhoça.  E como dizia o seu Quiliano, com grande satisfação: “Todos estão bem lá em baixo”.
Nas atividades sociais ele dedicava-se a Política, tendo sido eleito Vereador pelo Município de Bom Retiro. Posteriormente, foi eleito Vice-Prefeito o município, na gestão de Norberto Wagner. Entre os dois sempre houve um ótimo relacionamento político e uma grande amizade entre ambas as famílias, herança que perdura até a atualidade.
A característica política e marcante de seu Quiliano, reforçadas por dona Luzia, era de que em seus chamados, redutos eleitorais, pela amizade que cultivava com os moradores, sabia com precisão os votos que receberia.  Outra característica era o respeito que dedicava e recebia de seus adversários políticos.  Por mais de uma vez recebeu a visita do Sr. Rogério Kretzer, que vinha cumprimentá-lo após uma eleição, mesmo que vencedor ou vencido, quando em posições opostas. E isso concretizava a amizade particular que existia entre eles, tanto que em outras campanhas trabalharam do mesmo lado.
As atividades sociais da dona Luzia foram marcadas por sua frequência nos grupos religiosos, e na ajuda material, espiritual e moral às pessoas que a ela se socorriam em busca de auxílio ou de uma palavra de fé e de esperança. Foi uma grande pregadora do perdão.  Era até motivo de troca de opinião entre os familiares; quando alguns argumentavam o contrário, ela insistia sempre em que o perdão deveria ser dado em qualquer circunstância, mesmo que fosse difícil. 
Era muito comum pessoas virem procurá-la em busca de um apoio moral; muitas vezes por problemas familiares, outras apenas para desabafar eventuais mágoas.   Ela lhes dizia que possuía uma oração muito forte que resolveria aquele problema. Mas na verdade o que ela transmitia, amparada na sua fé em Deus, eram palavras de consolo e um aconselhamento para uma atitude que aquela pessoa deveria tomar para resolver a situação.  Muitas dessas pessoas voltavam depois, para agradecer, porque a situação adversa havia se resolvido. As orações dela somente não fizeram efeito para àqueles que desejava, deixar da bebida alcoólica.
Com as atividades agrícolas existiam muitos mantimentos.  A mesa desse casal estava sempre cheia, graças à Deus, de alimentos e de gente. Quem lá chegasse era sempre convidado por ele a sentar-se à mesa, por mais humilde que fosse a pessoa, notadamente seus empregados ou parceiros rurais. Ela para não ser pega de surpresa e já conhecendo o marido, sempre preparava as refeições em maiores quantidades, pois ele sempre trazia mais alguém para comer, sem se preocupar se haveria comida para todos. “Isso é problema da Luzia”, dizia ele. 
Mas o grande mérito desse casal, além da grande amizade e o respeito que recebiam e retribuíam com toda a sua vizinhança foi a dedicação pelos mais humildes, pelos parentes e pela própria família.
Houve problemas, crises e tristezas.  Muitos superados e outros suportados e confortados pelo amor familiar e pela fé em Deus. O que dava-lhes força e vontade para prosseguir, trabalhar, reagir e começar de novo, era isso: o amor e a fé.   
Mas a grande alegria e felicidade do casal era a sua família. Quando chegavam os Natais e outras festas a casa se enchia e a família toda se reunia. E note-se que não eram poucos. A filharada com seus maridos e esposas e muitos netos, todos dormindo até pelo chão, cantando, conversando, rezando, comendo e sorrindo.  Eram festas lindas! Isso sem contar o rebuliço com a insistência e teimosia do “homem” em carnear um boi às vésperas do Natal, o que se repetia em todos os anos.
O tempo passou, os netos cresceram, já vieram os bisnetos, e, os avós Quiliano e Luzia juntamente com outro filho o Roney, também falecido de maneira trágica e lamentável, já estão com Deus... o que assim se espera e confia!
... e a vida e a nossa história continuam...
É com grande satisfação e muitas de saudades que nós, seus familiares, contamos e ouvimos os relatos sobre suas vidas.
A seguir, o relato pessoas de alguns familiares:
- Do filho Rudinei. Dados históricos:
“QUILIANO HEIDERSCHEIDET, nasceu em Rancho de Táboas, Angelina em 23/06/1920 e faleceu em Alfredo Wagner no dia 27/06/1996. Filho de Henrique Heiderscheidt descendente de Pedro Andreas Heiderscheidt, que chegou ao Brasil em 1863, originário de Luxemburgo, que pertencia para a Alemanha, e de Bertolina Bunn. Sua mãe foi Verônica Franz, descendente de João Franz e Catharina May. Henrique e Verônica mudaram-se para  o Caeté por volta do ano de 1930, juntamente com o irmão Roberto e Amália Franz Heiderscheidt, estes pais de Oscilino e Celio Heiderscheidt.                                                                
– LUZIA ARMINDA HEIDERSCHEIDET, nascida Valério, nasceu em  18/02/1923, Orleans, SC e faleceu no dia 18/02/2010. Filha de Manoel Pedro Valério, descendente de Pedro Valério e Francelina Simas. Sua mãe foi Arminda Leandro Valério, descendente de João Leandro de Moraes e Maria Welter Shimitz.”
- Na segunda história contam que Quiliano e Luzia já casados e com um açougue, num certo dia ao colocar mais um boi na mangueira para a matança, dona  Luzia comentou: “Quiliano este boi está muito magro e assim ele vai dar prejuízo”. Foi quando Quiliano soltou uma frase das mais conhecidas dos antigos do Barracão: “O negócio é carnear Luzia”.

            - Da neta Marianna: “ ... Eu era ainda muito pequena mas lembro um pouco da nossa infância em Alfredo Wagner. Papai Noel na “camoneta” do vô Quiliano... a casa  da vó Luzia, no Natal, sempre com todos da família... colchões um ao lado do outro estendidos pela sala ... historias de terror, da vó, que faziam com que  nenhuma neta quisesse dormir no quarto da frente... o segredinho do vô de ter uma conta no boteco próximo a casa, mas que na verdade era para pegar balas para nós... as orações ... Tudo era simples, mas todos eram felizes.

               -  Da nora Eunice: “Um homem de coração valente, alma pura e braços fortes; planta e colhe sucessos para sempre¨. 
¨Uma mulher de muita fé, otimismo e fibra, planta e colhe alegria e felicidade.
Família Heiderscheidt, demonstração de superação, um ensinamento através do exemplo. 

            - Da neta Elizabeth: "Bons tempos passamos todos juntos naquela garagem. Que na verdade nunca foi uma garagem, ao menos nunca vi qualquer carro parado ali. Naquele mesmo espaço batatas eram descascadas, a árvore de natal era montada, cadeiras eram colocadas em círculo para uma longa prosa, melancias eram partidas. E assim era todo fim de ano. A família toda, um sem fim de crianças, todos reunidos sem qualquer luxo ou interesse. Só mesmo pela festa de juntos estarem. Vô Quiliano e Vó Luzia sem nem mesmo terem a intenção conseguiam e ainda conseguem de alguma forma manter próximas tantas pessoas. Todos da mesma família, mas com vidas corridas, diferentes interesses e valores, diferentes crenças e planos. Hoje em dia, mesmo eles não estando fisicamente presentes, essa bagunça ainda acontece. A diferença é que ela é bem mais organizada! Sorte de quem tem uma família para chamar de sua! A minha tem todos os defeitos que todas as outras também têm. Mas ela tem virtudes incalculáveis. É que ela "é de ouro"." 
Da neta Cleonice: “Vô Quiliano e Vó Luzia: Há pessoas que passam na nossa vida  e outras que ficam para sempre em nossos corações.”
Texto reunido e escrito, com a colaboração dos familiares, pelo genro Orly Miguel Schweitzer. Julho de 2013.

Correções:

Ana Paula Kretzer

Matéria no Diário Catarinense

Riquezas da minha terra aos olhos do coração

Entendo que Alfredo Wagner não está situada apenas entre os limites que definem a serra e o litoral, o município também permite identificar-se nos limites de sua identidade. Convivemos com culturas tão díspares quanto a alemã, a italiana, a gaúcha e a açoriana. Alfredo Wagner não está inteiramente localizada na serra, nem no litoral ou no alto vale e seu clima é um capítulo a parte, pois vivemos invernos de europeus a verões cariocas. A diversidade religiosa é flagrante e ao mesmo tempo harmoniosa. Nosso ambiente natural não é purista - ainda bem! E nossa identidade caracteriza-se por um certo instinto de não-identidade, pela mistura.
O nosso eterno Barracão tem o estranho poder de despertar um sentimento de contemplação poética, de encantar a todos com suas belas paisagens, com suas tradições e com seu povo, que como não poderia deixar de ser, também é algo ímpar.
 Alfredo Wagner, a Terra Querida, como é chamado por muitos tem o poder de deixar no peito dos que daqui já se foram um sentimento de doçura e sensibilidade, misturados com a saudade desta terra que tanto nos cativa.
A cidade permanece em um mundo paralelo, entre o passado e o futuro, beirando o encanto. Mantém trejeitos de cidades do início do século passado, cultiva hábitos como a amizade entre vizinhos e famílias. A comunidade tem raízes profundas neste chão; todo mundo se conhece de longa data e na maioria das vezes se quer bem. Mas o alfredense não fica parado no tempo, somos arrojados e modernos, temos uma educação de qualidade e estamos sempre conectados no futuro além de estarmos a um “pulinho” da capital. Este é mais um paradoxo que torna Alfredo Wagner única em todo o mundo.
Somos a Capital das Nascentes e nossas paisagens são dignas de filmes de aventura. Ainda somos uma jóia bruta incrustrada ao pé da Serra. 
A nossa história é rica, assim como as das mais consagradas nações, nossa cidade também foi erguida por bravos e visionários homens que acreditaram que esta nova terra se tornaria a “sua pátria”, e aqui dispenderam seus esforços fazendo a terra prosperar.

Reconhecer-se um verdadeiro cidadão alfredense requer não apenas ocupar seu espaço físico, é preciso também cultivar a necessidade que todo ser humano tem de sentir-se em casa, de encontrar em cada pedaço de sua terra um vestígio do seu lar; é levar e manter no coração um sentimento de orgulho, orgulho este construído pela miscigenação de todos aqueles que um dia aqui passaram e deixaram sua marca. 

Ps: Parte do texto foi inspirado em um texto de Valdir da Cunha.

terça-feira, julho 23, 2013

Neve em Alfredo Wagner

O efeito que a neve causa em qualquer pessoa é surreal, já sei... você deve estar pensando “O efeito é um só, um frio de lascar, pés encarangados e o corpo todo congelado”, mas não estou falando desse efeito. Eu me refiro a magia contida nos flocos de neve!
No dia 22 de julho os Alfredenses puderam prestigiar esse fenômeno. A neve caiu aos montes em vários pontos do município, deixando nossas paisagens ainda mais exuberantes e nosso povo feito crianças pelos campos de nossa cidade. Não há quem não se encante com o cair dos flocos de neve e com o chão se tornando branquinho pouco a pouco.
Vivemos ontem um dia histórico, nossa geração teve a oportunidade de viver as histórias de frio que nossos avós nos contavam. Neves, árvores cobertas de gelo, campos cobertos por um branco sem fim agora fazem parte de nossas lembranças e seremos nós que contaremos no futuro sobre uma noite em que Alfredo Wagner teve neve em abundância. 

Fotos encontradas nas redes sociais - ocorrência de neve em diversos pontos de Alfredo Wagner. 




segunda-feira, julho 22, 2013

Personalidades: Altair Schweitzer - Seu Talico

Por: Orly Miguel Schweitzer

Data de nascimento: 05 de abril de 1917
Data de falecimento: 2006

            Quem residiu ou passou em Alfredo Wagner entre os idos de 1930  até os primeiros anos deste século, provavelmente conheceu o “Seu Talico”.  Uma pessoa de bem com a vida, de bem com a família e de bem com as pessoas que conhecia.
            Onde ele estivesse estaria também a alegria e o bom humor: quer por suas brincadeiras, quer por uma animada música que comandava com sua gaita de boca. Ele mesmo transportava, em seu Corcel 1977, todos os instrumentos do seu conjunto musical,  composto por uma caixa de som para a gaita de boca, um pandeiro, um chocalho e um tamborim. Os músicos ele arranjava na hora. Quem quisesse poderia acompanhá-lo pois não precisava saber “tocar”, e aí a festa ficava boa.
            Outra característica do “Seu Talico” era a facilidade e a rapidez que comprava a carne, preparava e servia o churrasco a um convidado, sempre acompanhado de uma (s) boa(s) cervejinha(s). O interessante é que não gostava de cerveja gelada e então tinha sempre a sua fora do gelo. Como gostava de pregar peças aos amigos, enchia-lhes os copos com a cerveja quente. Eles só se apercebiam da brincadeira após haver ingerido a metade do líquido bem quentinho e então já reclamavam: “Seu Talico, seu .... (censurado).
            E foi assim que passou sua vida, de bem com a vida, porém,  sem deixar de lado as suas obrigações, as suas responsabilidades e a cidadania.
            Altair Schweitzer, o “Seu Talico”  nasceu aqui mesmo, em Alfredo Wagner no tempo do antigo Barracão, em 1918. Filho de Alberto e Tercília Schweitzer, juntamente com mais 08 (oito) irmãos,  todos netos do lendário Jacó Schweitzer,  descendente dos  imigrantes Alemães em Santa Catarina, o qual aos 102 anos de idade abriu o baile, no Teatro Carlos Gomes, nas comemorações do primeiro centenário de Blumenau.
            Na juventude iniciou um relacionamento com uma filha do “Dôia” – Rodolfo Schmidt – “que não concordava” com o namoro.  Mas Julita (1919-2004) a pretendente ficou doente e o namoro foi permitido. O problema contava ela, era que ele morava no bairro Barracão e ela no Sombrio, hoje o centro da cidade. E entre um e o outro dos bairros, existia o antigo cemitério da cidade – hoje  pátio da Igreja Católica -  e a tal da “bica d’água”, lugares freqüentados por “parenças”,  “assombrações” e “almas penadas”. Então, o Talico arrajava, não se sabe de quem, um revólver calibre 22 e ia namorar. Passar pelo cemitério era difícil, mas conseguia. Certa vez na “bica d’água” , naquela escuridão da noite, eis que apareceu-lhe um vulto branco, mas ele não se intimidou: desferiu dois tiros e saiu correndo. Chegou ofegante na casa da namorada dizendo que havia “matado o fantasma”.  Então, com seus cunhados Teobaldo e Altino,  foram ver o que era. Lá chegando, encontraram uma folha de papel com a estampa da Revista: “O Cruzeiro”.
            O casamento foi realizado em 1940e o casal foi abençoado com cinco filhos: Adilson, Adair, Altair Rogério (Tampa),    Orly e Schirley. Estes, por sua vez, vieram a casar-se, respectivamente, com: Evelize, filha da Júlia do Jango Schweitzer;  Waldete, filha do Adelar Lehmkuhl; Loudes, filha do José Rocha; Regina, filha do Quiliano Heiderscheidt e Elito, filho do Audelino Klauberg.
E vieram muitos netos e bisnetos.
            Em seguida ao casamento, Talico e Julita com o primeiro filho nos braços foram residir em Lages onde, no bairro Ponte Alta, abriram um pequeno comércio que não prosperou. Voltaram para Barracão trazendo a mudança em um carroção.  Passou a exercer a antiga atividade de sapateiro e também gerenciava um “Salão de Baile” na propriedade que comprara do sogro, a qual sempre lhes serviu de moradia.
            A atividade do  Salão de Baile era muito intensa ao ponto de manter, em certa época, dois músicos que ali residiam, sendo um com acordeom e o outro com pandeiro. Foi daí que surgiu a inspiração do Tampa (Altair Rogério) que veio a se tornar um exímio acordeonista,  conhecido como um grande “gaiteiro”.
            Posteriormente,  abriram o “Bar e Café do Talico”  que servia, também, de Rodoviária. E ali, eram servidos os melhores doces e pastéis da região que levavam a perícia da “Dona Julita”.   Eram dotados de espírito de modernidade e auxiliados por amigos – Sr. Schäffer, da Laminadora e Sr. Izidoro Chequetto -  instalaram água encanada no bar e na residência.  Isso aumentou a clientela que transitava entre Florianópolis – Lages e Rio do Sul. A caixa d’água era mantida cheia por bomba manual.  Depois, veio a “geladeira” onde se fabricavam saborosos sorvetes, picolés,  capilé gelado, salada de frutas  e sem faltar a cervejinha e refrigerantes gelados – coisas que ali não existiam naquela época.  Como não existia eletricidade a geladeira funcionava com motor estacionário à gasolina.
             Seu Talico sempre se fazia respeitar como cidadão, era pai de família e tinha grande participação religiosa. Por longa data exerceu a atividade de Juiz de Paz, na qual, além de realizar casamentos e outras funções próprias desse encargo, exercia atribuições conciliatórias  sendo constantemente solicitado para resolver questões de família entre vizinhança e outras. Dotado de sua capacidade para discernir o que era de direito e com imparcialidade, quase sempre conseguia celebrar um  acordo onde as duas partes envolvidas sentiam-se satisfeitas e lhe agradeciam.
            E nessa tarefa surgiam casos pitorescos. Contava ele, que certa vez recebeu uma queixa de uma senhora reclamando do marido que chegava embriagado, tirava-a da cama e lhe batia sem qualquer motivo, salvo a bebedeira. Então perguntou a ela se tinha uma vassoura em casa: recebendo a resposta afirmativa, disse-lhe para que exercesse o direito da legítima defesa.
- O que é isso seu Talico?
- Quando a senhora ouvir que seu marido está chegando embriagado e ameaçando lhe espancar, esconda-se atrás da porta e desfira-lhe uma vassourada.
            Foi dito e feito. Alguns dias depois, chegou o dito marido com uma das orelhas manchada de sangue, perguntando:
- Seu Talico, é verdade que o senhor mandou a minha mulher bater em mim?  E este então voltou com outra pergunta:
- É verdade que você, por várias vezes, já espancou sua mulher?
- O Senhor sabe como é. A gente bebe um pouco demais e perde a cabeça.
            Então veio a “sentença”: “Você saia daqui e vá limpar logo essa orelha senão vou chamar o Murilo – Delegado – para te prender. E se eu souber que você voltou a bater na tua mulher vou te mandar para o Dr. Promotor e o Dr. Juiz  em Bom Retiro.”
            A notícia é de que o casal viveu feliz para sempre.
            Esse senso de justiça e honestidade era reconhecido pelo Poder Judiciário, tanto que chegou a exercer a função de Juiz de Direito da Comarca de Bom Retiro, por ocasião das férias do Juiz Titular, o que era permitido na época.
            Por ocasião da Sessão Solene da Assembleia Legislativa em comemoração pela passagem dos 180 anos da Imigração Alemã em Santa Catarina  foi homenageado, representando a família, com a seguinte placa comemorativa: “ Homenagem da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina à família SCHWEITZER de ALFREDO WAGNER, pela importância histórica dos seus antepassados imigrantes no desenvolvimento do território Catarinense. Florianópolis, agosto de 2004.”

            Mas o “Seu Talico”, também, levou uma rasteira na política. Ferrenho partidário da antiga UDN, e muito antes da emancipação política do, então, Barracão, candidatou-se a vereador pelo Município de Bom Retiro. Era voz corrente: “O Talico já está eleito.” Ele então se deixou influenciar ao ponto de permitir que seus fiéis eleitores votassem em outros candidatos da sua sigla partidária, pois acreditava ter votos de sobra. Então veio a surpresa e a decepção: não se elegeu.

            O tempo passou, veio a aposentadoria, venderam o Bar e o seu Talico e a dona Julita passaram a se dedicarem aos filhos e filha, noras, genro e principalmente aos netos, netas e bisnetos, e todos por sua vez, os amavam muito.   Sempre rodeados de amigos e parentes recebiam o carinho e a amizade de todos. Nas épocas de Natal e fim de ano, a casa se enchia. Vinham todos e as festas eram muito boas.

            É com grata satisfação e saudosa memória quando seus filhos e demais descendentes ouvem, de netos, de amigos e conhecidos, palavras de elogio ao casal, como a seguir:
Icaroti dos Santos: “Senhor Talico, pessoa que merece sempre ser lembrada, pela amizade e principalmente pela alegria que em qualquer situação transmitia.”

Ronério Heiderscheidt: “ O seu Talico  através do seu estilo próprio e inconfundível,  sustentado pela sua simpatia e felicidade, deixou-nos o legado de como podemos viver pregando a justiça e a paz.”

Sílvio Valério: “No Bar, com sorveteria  e o salão de sinuca do seu TALICO, era o ponto de encontro dos amigos e conhecidos de Alfredo  Wagner, desde adolescentes aos mais idosos; onde se deliciava   o  inesquecível  pastel da dona Julita, picolés e sorvetes.
A galeria de fotos na parede do bar, das estrelas da seleção escrete de ouro campeãs das copas de 1958 e 1962,  do Botafogo  e do Figueirense , do qual foi cônsul honorário em Alfredo  Wagner.  Quando não havia aula a garotada ia para lá com seus trocados para um picolé e uma espiada na sinuca. E nos conhecia a todos, alguns pelo nome, pelo derivativo  de nossos pais e  muitos pelo apelido. Permitia que brincássemos na sinuca sem pagamento do tempo de jogo. Quando o barulho mais parecia um bando de tirivas na bagueira, ele dizia bem alto: “bom dia Delegado Murilo”E  era só taco de sinuca jogado em cima da mesa, caindo no chão, uns corriam para porta dos fundos, outros pulavam as janelas, e alguns não tão ágeis escondiam-se de baixo da mesa ou atrás da porta. Depois ele voltava a dizer: “o homem já foi embora”. E todos voltavam à brincadeira da sinuca  um tanto assustados, e sem saber que fora um belo blefe, do Seu TALICO, que na sua virtude genética da calma, paciência e espírito gozador se desmanchava em sorrisos, às  nossas custas e a do Murilo que estava na delegacia.
Seu TALICO onde estiveres, muito obrigado por nos permitir que após mais de 45 anos, ainda possamos a ter  essas outras belas lembranças.” 

Rudiney Heiderscheidt: “Quando eu ia lhes vender pão de casa passava pelo lado e oferecia diretamente para a dona Julita, pois sempre ganhava um pastelzinho. E ela comprava um pão para a casa e outro para distribuir para as crianças da “beira”, que viriam lhe pedir.”

Alessandra Schweitzer (neta): “Foi dessa forma de viver com simplicidade, tranquilidade, amor pela vida e muita alegria que o vô Talico e a vó Julita conquistaram a todos.”

Jacques Roberto Schweitzer (neto): “Vô Talico, uma pessoa tranquila que gostava muito de estar entre os amigos e familiares, trazendo sempre muita alegria e diversão. Foi sempre um agregador, proporcionando muita união e felicidade entre nossas famílias, e um grande companheiro da nossa querida vó Julita, que esteve sempre presente nos momentos bons e nos mais difíceis de suas vidas.”

Maria Helena Schweitzer (neta): “O vô Talico e a vó Julita foram para todos nós um exemplo de vida a ser seguido, pois com seu jeito de ser nos ensinaram a honestidade, a verdade, o carinho, o amor e os cuidados com os outros e também a alegria e o valor da vida em família. O vô com sua gaita de boca sempre formava uma cantoria e a vó com seus doces maravilhosos nos esperando quando vínhamos visitá-los. O barulhinho das colherinhas nas xícaras logo cedo, quando ainda dormíamos, sendo preparado o café da manhã, nunca esqueço. Era seu carinho para conosco. Temos tantas histórias boas para relembrar que só nos deixam saudades. Somos eternamente gratos por termos tido a graça de tê-los como nossos queridos e amados avós. Saudades sempre!” 

Micheli Klauberg Faustino (neta): “Escrever sobre o vô Talico e a vó Julita é falar sobre "o amor"; o quanto eles expressaram este sentimento nas suas atitudes do cotidiano... um amor cuidado quando tinham todos a sua volta e acolhiam com tanto carinho; um amor família que buscava união e conciliação diante das dificuldades; um amor justiça! quando necessário, LIMITE e determinação... um amor natureza que proporcionou a tantas pessoas uma vivência na chácara... onde tudo acontecia, as brincadeiras, as conversas, a musica, a liberdade... o cultivo das plantas, das flores, das frutas... tantas vidas crescendo... um amor sabedoria... que revelou a sinceridade e simplicidade como sentimentos marcantes... que para ser feliz não precisa ter, mas ser!
Só tenho a agradecer aos meus avós pelos bons sentimentos plantados no meu e em muitos corações... é muito bom ter atitudes que me recordam deles e então percebo que herdei a maior de todas as riquezas "o AMOR". Como dizia a vó Julita: obrigada e tudo de bom.”

            E assim se passaram os 85 anos da Dona Julita e os 88 anos do Seu Talico. Uma vida bem vivida. Possivelmente, quando chegaram diante Deus, cada um tenha dito: “Eis-me aqui Senhor. Eu vivi com alegria. Espero ser recebido(a)  em vossa casa.”

Em julho/2013.
Orly Miguel Schweitzer




Os portais

Sou uma maníaca por viagens. Mas sem dúvidas o que menos gosto são as horas perdidas em aeroportos, rodoviárias e afins. Acho que se perde muito tempo nesses locais, mas como isso acaba sendo inevitável eu tento tirar o melhor proveito disso tudo.
Já passei horas no Hercílio Luz – aeroporto de Florianópolis – e tenho histórias memoráveis sob aquele teto.
Certa vez conheci uma senhora que morava em aeroportos, isso mesmo, bem no estilo de Viktor Navorski – Tom Hanks, no filme The Terminal. A senhora passa a vida pregando a palavra de Deus pelos aeroportos do Brasil – aos berros diga-se de passagem – e durante essa “pregação” ela mora nos aeroportos. A senhora já deve ter cerca de 70 anos, e acorda cedinho para cumprir sua missão. Confesso que na ocasião em que a encontrei fiquei com vontade de sentar perto dela, na esperança de que ela me oferecesse um pedaço de seu cobertor, já que naquela noite seríamos companheiras de hospedagem, pois eu também dormiria por ali.
Nas madrugadas pelo Hercílio Luz, sempre busco refúgio na Casa do Pão de Queijo. Além de sempre me espantar com o preço do sanduiche – e mesmo assim comer, pois é uma das poucas opções para lanches durante a madrugada – eu ainda posso matar tempo, me envolvendo com a vida dos empregados, que aproveitando o baixo movimento colocam o papo em dia. É de morrer de rir, já ouvi desde dicas para conquistas até escolha de repertório para cantar na igreja. Uma vez eu tive que me segurar pra não dar “pitaco” e falar para o moço desistir da tal guria do Ribeirão e partir para outra.
Minhas experiências em aeroportos vão além do Hercílio Luz. Já passei algumas noites desconfortáveis nos aeroportos do Rio, e é incrível como nesses momentos perde-se qualquer frescura. Quando o cansaço bate deita-se no chão, dorme-se de boca aberta e até mesmo um grupo de pessoas cabeludas e mal cheirosas se transformam em segurança, para que perto delas possamos nos acomodar e junto de nossas bagagens passar a noite.
Vários sentimentos tomam conta de nossos corpos nesses espaços; ás vezes estamos ansiosos por pousar em um destino que tanto esperamos, outras vezes comovidos com a mãe que tem um inglês pior que o seu e está implorando por ajuda para preencher a papelada da imigração, enquanto o filho, bebê de colo veste apenas uma roupa super fina e está prestes a sair da calefação e enfrentar um frio de 10 graus negativos. Outras vezes o sentimento é de vergonha, ou porque você está com a meia amarela que ganhou de sua avó em um feriado e tem que tirar o sapato para passar pela máquina de raio-x e todo mundo na fila – menos você – faz o estilo de quem passa finais de semana em NY fazendo compras. O sentimento é de vergonha também quando o avião está apenas esperando você para partir, as comissárias de bordo estão querendo comer seu fígado e você consegue cair duas vezes na subida da escada que leva até a aeronave, ou quando pegou um super engarrafamento na ponte Rio- Niterói causado por um acidente e a moça do guichê entende que o acidente tinha sido com você e todos ficam muito preocupados e complacentes e você usando seu lado ardiloso não desmente, tirando proveito da situação.  Existe também a euforia de quando a recepção de seu voo é feita por um grupo de dançarinos de frevo e em segundos você já está contagiado pelo clima de alegria da cidade.
Aeroportos são a maior mistura, na mesma sala você encontra mulheres elegantes, ricas e cheirosas que estão indo passar o reveillon em Paris e também o senhor que juntou todas as economias para visitar a mãe que está doente e vive no interior de Pernambuco mas recebeu um telefonema já na sala de embarque dizendo que a mãe não conseguiu esperar por sua chegada.
Aeroportos são chegadas e partidas, despedidas e reencontros. São os portais para o novo mundo prontinho para ser desvendado por viajantes aventureiros. Apesar de eu gostar deles, não consigo ficar longe desses portais. 

sexta-feira, julho 19, 2013

Entrevista - Rádio Sintonia

Entrevista sobre o projeto Conhecendo Alfredo Wagner para a rádio Sintonia.

quarta-feira, julho 17, 2013

Alfredo Wagner conta com um candidato a Santo

Segundo relatos da região, conta-se que o longínquo ano de 1893, um grupo de soldados, fugidos da Revolução Federalista, atravessou a pé nossa região, certamente com destino a Lages. Porém o inverno fez daquela viagem um inferno: tempestades, neve, fome, falta de abrigo e caminhos incertos foram algumas das dificuldades encontradas por eles.
Infelizmente na escuridão de uma das noites, cruzando a frígida Chapada das Demoras, um deles, debilitado e doente, perdeu-se do grupo, sendo encontrado morto no dia seguinte.       Ali mesmo no local, sob um grosso pinheiro, os colegas o sepultaram.
Com o passar do tempo e aumento do tráfego de tropeiros por aquela região, a simples cruzinha colada no local, passou a ser referência para os viajantes, que paravam, acendiam avelas, rezavam pela alma do desconhecido e pediam-lhe graças. Criou-se então certa devoção àquele jazigo, principalmente quando o novo dono daquelas terras, desinformado, ateou fogo na mata, queimando toda a vegetação. De maneira inexplicável, a cruz de madeira resistiu as chamas.
Construiu-se. Dessa forma, na década de 1950, no local, um túmulo até hoje muito visitado. O lugar passou a ser um centro de peregrinação de romeiros que garantem ter alcançado graças do Soldado Desconhecido. Comprovando assim seus milagres.

O poder das redes sociais


O papel das redes sociais na sociedade atual está cada vez mais em evidencia, ainda mais diante dos recentes protestos que ocorreram em todo o Brasil e tiveram as redes sociais como ponto de encontro e organização das manifestações.
Sempre recebi com um certo ceticismo os relatos de que as redes sociais haviam permitido as grandes manifestações populares no exterior – como as manifestações realizadas no Egito no ano de 2011 que tinha como principal objetivo por fim no regime do ditador Hosni Mubarak.  Apesar disso, sempre imaginei que elas tinham sido um fator importante nestas mobilizações. Agora o Brasil se inflama e pude constatar que essas redes têm muito mais importância do eu imaginava, aparecendo como canal de comunicação entre centenas de milhares de brasileiros que saem às ruas e de milhões que acompanham estes movimentos.
Rede social é uma estrutura social composta por pessoas ou organizações, conectadas por um ou vários tipos de relações, que partilham valores e objetivos comuns. Uma das características fundamentais na definição das redes é a sua abertura e porosidade, possibilitando relacionamentos horizontais e não hierárquicos entre os participantes.
As redes sociais online podem operar em diferentes níveis, como, por exemplo, redes de relacionamentos (Facebook, Orkut, MySpace, Twitter,Badoo), redes profissionais (LinkedIn), redes comunitárias (redes sociais em bairros ou cidades), redes políticas, dentre outras, e permitem analisar a forma como as organizações desenvolvem a sua atividade, como os indivíduos alcançam os seus objetivos ou medir o capital social – o valor que os indivíduos obtêm da rede social.
A dita nova geração de internautas cresceu acompanhando a evolução e a revolução que as redes sociais trouxeram a sociedade. As mudanças vão além do rompimento de fronteiras territoriais. Na antiga rede social mais popular do país, o Orkut, muitos dos jovens que hoje integram a sociedade aprenderam a argumentar e a escrever, em fóruns e debates nas antigas comunidades. Sim, aprende-se a escrever o fazendo e também exercitando a pratica de leitura, e se fazia muito uso desses dois recursos diante da forma de comunicação utilizada na rede.
Outra ferramenta que ajudou a moldar os jovens foram os blogs. Com eles os internautas aprenderam a dar sua opinião sobre diversos temas, se expressarem e a pesquisarem sobre temas de interesse próprio. O ganho que as redes sociais trouxeram aos internautas foram imensos.
Um ponto em comum dentre os diversos tipos de rede social é o compartilhamento de informações, conhecimentos, interesses e esforços em busca de objetivos comuns. A intensificação da formação das redes sociais, nesse sentido, reflete um processo de fortalecimento da Sociedade Civil, em um contexto de maior participação democrática e mobilização social.

Ainda sem saber direito aonde é que essa manifestação vai terminar, consigo prever que o povo brasileiro possa também usar dessa consciência para outros fins. Na ciência especificamente, as redes sociais tem sido usadas como “crowdfunding”, para gerar suporte financeiro a determinado projeto ou mesmo para engajar o público na geração de dados científicos. Projetos populares incluem o uso de uma pequena parcela da memória de computadores pessoais na busca de vida extraterrestre pela NASA e jogos online cujos participantes auxiliam na modelagem tridimensional de proteínas de interesse humano.

sábado, julho 13, 2013

Personalidade: José de Campos

Por: Carol Pereira
        Giovana Truppel
        Celita Irene Campos Angeloni

Data de nascimento: 23 de setembro de 1918.
Data de falecimento: 26 de agosto de 2006.

José de Campos amou a cidade de Alfredo Wagner-SC como um pai ama seu filho.
Homem honesto, empreendedor e, acima de tudo, com o olhar voltado para o futuro, foi por isso um visionário. Foi o maior benfeitor da nossa cidade. Entre suas ações, idealizou e foi o responsável pelo projeto de urbanização das ruas centrais tais como são hoje, e pela doação de inúmeros terrenos em área nobre da cidade.
José de Campos, também conhecido como “Seu Zé Campo”, filho de João Alexandre de Campos e Benta Emília Vieira de Campos, nasceu no dia 23 de setembro de 1918 em uma pequena comunidade agrícola, chamada Canto do Rio Gaspar, no interior de Vargem Grande, hoje distrito de Águas Mornas-SC. Nessa comunidade, ele passou sua infância e adolescência, frequentando a igreja e a catequese com devoção.
Na escola, por ser um garoto muito interessado e inteligente, conseguiu concluir todo o curso primário em apenas um ano. Como a vida era difícil, foi preciso que José parasse de frequentar a escola para ajudar os pais no serviço diário da roça. Mas, apesar de todas as dificuldades, não deixou de estudar. E, com a ajuda das três tias religiosas, irmãs de seu pai, ele conseguiu, através de correspondências que ele enviava a elas, completar os estudos do ginásio (correspondentes aos da 5ª a 8ª séries).
Foi também nessa comunidade que José frequentou suas primeiras festas e teve  namoradas. Como era de costume, o namoro da época era associado ao tempo e ao espaço: poucos domingos (de um a três domingos para decidir se o namoro era sério) e o caminho percorrido até a casa da namorada. Foi assim até que José conheceu Maria Zita Kuhnen, com quem se casou em 26 de junho de 1943. O casal morou com os pais de José por alguns meses. Em 1944, José foi à procura de um local adequado para a instalação de uma casa comercial que estivesse dentro do seu orçamento.
Estabeleceu-se, então, em Alfredo Wagner, em fevereiro de 1944, alugando de um morador o ponto comercial que desejava; e de outro, comprou o estoque de um comércio. Essa negociação custou caro, levando mais de três anos de trabalho: vendendo tecidos, ferragens e alimentos.  Trabalhou muito, junto com sua esposa, inclusive aos domingos, até que conseguiu pagar os empréstimos que fez para pagar o ponto, o estoque da loja e a aquisição de sua primeira casa. Essa casa (antiga pousada) ficava na Rua do Comércio, a principal da cidade, servia para sua residência e também para o ponto comercial, em cuja fachada havia a placa: “Casa Comercial José de Campos”.
Daquele momento em diante, os seus negócios começaram a prosperar e, no ano de 1953, José realizou outro bom negócio: trocou seu estabelecimento comercial e moradia por um caminhão e uma casa com grande extensão de terra próximo ao rio Caeté - com pasto, pomar, área para cultivar hortaliças e criar animais- aproximadamente 100.000 m², hoje centro da cidade.

    Acreditando no desenvolvimento de Alfredo Wagner, e demonstrando amor pela terra que escolheu para viver, ele idealizou o traçado das principais ruas e fez o loteamento de sua imensa propriedade em 116 lotes urbanos.
Na área mais importante de suas terras, fez doação de terrenos para: a construção do Colégio Silva Jardim, a Praça, a construção do Clube Social “Sociedade Recreativa União Clube” e as ruas - Rua Anitápolis, Rua Hercílio Luz, Rua Joé de Anchieta, Rua Arthêmio Rosa Farias, Rua Rui Barbosa, Rua 25 de Maio, Rua São João, Rua Florêncio Abreu e Rua Major Pedro Borges (ao todo, nove ruas).
Também indenizou em dinheiro, ou em troca de terrenos, aos proprietários cujos terrenos ou casas localizavam-se sobre o traçado das ruas. Foram indenizados: Jorge Fernandes, Pedro Quintino, João Aleixo, Quintino da Rosa (conforme suas memórias manuscritas, com as fac-símiles em  ANGELONI , 2007, p.145 e 146).
José também participou da equipe que idealizou e planejou essas construções; porém, as ruas ele realizou tudo sozinho (planejou, contratou topógrafo, contratou maquinista, contratou caçambas com macadame). Doou à cidade as ruas prontas para o trânsito.
Morando ainda próximo ao rio, começou a planejar e a construir a casa dos seus sonhos, na parte mais central das suas terras. Na segunda metade do ano de 1958, realizou a mudança para o sobrado com sua família. As linhas retas do sobrado marcavam o estilo moderno, prático e arrojado que, com localização privilegiada, passou a ser uma atração local, (a primeira com energia elétrica, com banheira e vaso sanitário). A família morou na casa por cerca de dez anos. A prefeitura municipal comprou a casa no ano de 1968. A construção existe até hoje e é usada atualmente como sede da Secretaria da Agricultura do município.
Nesta época, José também era dono do cinema da cidade. O cine Marajó ficava na Rua Hercílio Luz – onde hoje se localiza a igreja evangélica – e era um dos principais pontos de lazer para a comunidade. Foi ali que muitos namoros começaram. Além de exibir filmes, José também alugava o local para festas e confraternizações.
Morou em Alfredo Wagner durante trinta anos, com muita dedicação ao comércio local, à comunidade e às pessoas carentes. Aos pedintes, era rotina doar comidas, roupas e calçados. Todos os dias José e Maria Zita reservavam parte da refeição e uma sacada de frutas do pomar para distribuir aos necessitados. Eram pessoas do Caeté, da beira do rio, ciganos, andarilhos. Mais tarde, depois de aposentados, o casal passou a destinar parte do salário para a compra de dez cestas básicas mensais distribuídas entre os mais pobres da comunidade.
 José exerceu por vários anos a função de juiz de paz, a qual consistia em dar assistência às pessoas, conciliando-as diante dos conflitos existenciais. Ao saber de alguém com problema emocional, como depressão ou desânimo, José ia conversar incentivando a pessoa a enxergar a solução, a ver o seu problema do ponto de vista mais racional. Com isso, diminuía o sofrimento daquela pessoa que passava a ajudar-se, contornando a situação com relativa brevidade.
Com o tempo, essa prática foi-se incorporando aos costumes da cidade. E, de vez em quando, José era chamado a orientar quem dele precisasse. Atendeu José não só brigas de casais, mas de pais e filhos, de empregados e patrões, de vizinhos, de jovens, de namorados. E foram diversos casos: vinganças, brigas, tentativas de suicídio, ameaças, calúnias, a dor de perder um ente querido, namoradas grávidas abandonadas pelo namorado, entre outros. Interessava-se. Indagava os motivos de cada lado. “O namorado abandonou a moça  grávida? Onde ele está? Por que não quer mais a namorada?” José queria saber. Queria ajudar. Ia atrás do moço, às vezes até em outra cidade. Encontrava o namorado. Conversava. Convencia a respeito da responsabilidade para com o futuro das duas pessoas: a jovem e a criança que estava para nascer. Dizia que tinha que honrar o compromisso de ter iniciado uma família. A criança que estava para nascer precisava ter o pai ao seu lado.  E José conseguia.
Traçando objetivos cristãos, conseguia ser ouvido. Com bondade, com jeito, com carinho pelo ser humano, como quem só estivesse conversando. José convencia. Era uma figura que inspirava confiança.
José valorizava muito especialmente os estudos. E por valorizar os estudos, José incentivava sempre os filhos a gostarem. Considerava o caminho mais acertado para a garantia de uma vida melhor. Com os filhos estudados, percebia-se em José e Maria Zita, uma grande alegria por terem realizado esse sonho. José costumava dizer: ”Os estudos são a melhor herança”. Seus filhos se formaram em Odontologia, Letras, Pedagogia, Administração, Enfermagem. José preocupava-se com a falta de estudos de ensino médio na cidade. E, por isso, muitas vezes, procurava os pais desses jovens para incentivá-los a deixar os filhos estudarem fora da cidade. E até hoje pessoas reconhecem que tiveram a continuação dos estudos graças à motivação dada por José de Campos, que não tinha os olhos voltados só para a sua família, mas para os outros também. Por tudo isso pode-se dizer que expressam principalmente seus valores: o amor à família, o amor ao trabalho, o  amor ao próximo, e  em especial o amor aos pobres.       
Disposição era o que não lhe faltava nas áreas: política, pessoal e social.
Na área política, foi presidente do diretório da UDN do distrito de Catuíra, vereador, presidente da ARENA, duas vezes candidato à prefeitura ( sem sucesso).Participou da equipe que idealizou e planejou as construções importantes da cidade: Colégio Silva Jardim, Clube União, Casa Paroquial, Igreja, Hospital, Usina de Energia Elétrica. Junto dessa equipe também batalhou para a instalação de Paróquia da Igreja Católica e a elevação da Vila a Distrito e, por fim, a Município.
Na área pessoal, teve várias profissões: foi agricultor, boleeiro de carruagem, barbeiro, fotógrafo, pintor de paredes, transportador, dentista prático e protético, corretor de imóveis, farmacêutico e comerciante. Realizou-se em muitas áreas, sendo um empreendedor por vocação.
Na área social, durante sua trajetória, José teve suas ações sempre voltadas para o bem do próximo. Praticava a caridade diariamente com os menos favorecidos, fornecendo-lhes roupas, alimentos, remédios, e outras diversas ajudas, conforme a necessidade, fazendo inclusive doações de terras às pessoas carentes. Incentivava a todos o valor dos estudos. Muitos se admiravam dos seus esforços para os estudos dos filhos e dos incentivos para os outros jovens da cidade. A caridade, a bondade, a honestidade e a sabedoria foram as suas maiores qualidades. Participou da organização social da cidade, sendo ora Presidente da Sociedade União Clube, ora Presidente do time de futebol, o Sociedade Esportiva União Futebol Clube, ora fazendo parte como conselheiro da administração do Hospital e Maternidade, ora servindo de Juiz de paz.
 Era simples, mas de personalidade forte. Lia muito e estava sempre bem informado: um homem sábio, apesar do pouco estudo. Ele esforçava-se para saber além do que aprendeu na escola, quer pela leitura de jornais, revistas, e livros; quer pelo rádio e televisão.
Mesmo tendo passado por grandes dificuldades financeiras, José não perdeu a fé. Continuou firme em sua devoção católica, esperançoso de dias melhores. O que de fato conseguiu, por crer na benção de Deus, e por ser homem de pensar positivo. Pessoa de fé, testemunhou com ações, durante toda a vida, o seu amor a Deus e ao próximo. Tanto a família, quanto os que o conheceram , reconhecem nele um líder comunitário.       
Depois do golpe militar de 1964, houve uma crise econômica no país. E José, como dependia do comércio, sentiu grandes dificuldades. Começou a fazer empréstimos e, com os juros altos, foi enredando-se, complicando-se com dívidas  e inflação. O estoque ficou parado e as contas vinham para serem pagas. Também aconteceu de vender fiado, porque acreditava nas pessoas, via nelas o que via em si mesmo, não via maldade, não sabia dizer “Não”. Pediu concordata em 1967, levando dois penosos anos para pagar a todos . E ao grande  amigo Adelino Luckmann, seu maior credor, conseguiu saldar a dívida no decorrer de três anos adiante.
José criou até mesmo um estilo próprio: o costume de usar óculos escuros em lugares ao ar livre, um pequeno detalhe que o diferenciava da maioria.
Em 20 de fevereiro de 1974, mudou-se para a cidade vizinha, Bom Retiro - SC, por problemas políticos e financeiros.   Perdeu tudo. Recomeçou em Bom Retiro. Nessa nova terra, sentia a saudade do querido “Barracão”. E, sempre que podia, vinha dar um passeio em Alfredo Wagner-SC. Ficava feliz, e até emocionado! Podia-se perceber nele um amor muito grande pela cidade onde viveu os melhores anos de sua vida.
José obteve na cidade que o acolheu as condições necessárias para refazer sua vida. Solidificou-se de novo no comércio, reergueu-se, construiu nova morada. Suas virtudes e suas boas ações foram-se somando no decorrer de toda a sua vida, formando uma estrutura sólida, capaz de ajudá-lo nos reveses da vida, dando-lhe confiança para a superação dos problemas.
 Foi em Bom Retiro - SC que José passou por um enorme sofrimento, pois  perdeu seu grande amor: Maria Zita, mãe de seus dez filhos, em 19 de novembro de 1989, vítima de enfarte.
Depois de algum tempo, decidiu casar novamente, pois sentia o peso da solidão. Diante disso, os filhos aceitaram a decisão do pai, e ele se casou no dia 21 de setembro de 1991, com Maria Dolores Martendal. Os dois passaram a morar em Bom Retiro, por aproximadamente sete anos. Como a nova esposa não se adaptou às baixas temperaturas da região, mudaram-se para Santo Amaro da Imperatriz-SC.
José morou em Águas Mornas-SC ( Vargem  Grande) por vinte e cinco anos; em Alfredo Wagner-SC por trinta anos;  em Bom Retiro-SC por vinte e três anos; e em Santo Amaro da Imperatriz-SC por quase nove anos.
Estando acometido por uma pneumonia dupla e enfisema pulmonar crônico, José de Campos faleceu às vinte e uma horas e vinte minutos do dia 26 de agosto de 2006, aos 88 anos de idade, no SOS-Cárdio, em Florianópolis.
O legado pessoal que José de Campos deixou impresso mais profundamente foi a prática da caridade. Percebia-se que mesmo passando por dificuldades financeiras, ainda dava de si com generosidade e, por isso, foi um homem abençoado que deixou preciosas lições. Sabia realizar sua caridade de modo natural e espontâneo, não esperando nada em troca.
Além de contribuições à sociedade alfredense, deixou, também, admiração pelos exemplos de honestidade e de generosidade. José de Campos viveu com dignidade, combateu o bom combate, sendo um guerreiro diante dos sofrimentos advindos principalmente da política e das dificuldades financeiras. Enfrentou humilhações e incompreensões sem desanimar, porque era um homem de fé e sua força estava em Deus.
José de Campos foi um homem à frente do seu tempo, tanto nas ideias, quanto nas ações de progresso. José de Campos foi um farol a iluminar o futuro da cidade de Alfredo Wagner.
Biografia baseada na obra: Angeloni, Celita Irene Campos. José de Campos – Uma história para           Contar. Florianópolis: Ed. Secco, 2007.              
            

"José de Campos foi um farol...."

"Valeu a pena?
Tudo vale a pena,
Se a alma não é pequena."
(Fernando pessoa)