segunda-feira, julho 22, 2013

Os portais

Sou uma maníaca por viagens. Mas sem dúvidas o que menos gosto são as horas perdidas em aeroportos, rodoviárias e afins. Acho que se perde muito tempo nesses locais, mas como isso acaba sendo inevitável eu tento tirar o melhor proveito disso tudo.
Já passei horas no Hercílio Luz – aeroporto de Florianópolis – e tenho histórias memoráveis sob aquele teto.
Certa vez conheci uma senhora que morava em aeroportos, isso mesmo, bem no estilo de Viktor Navorski – Tom Hanks, no filme The Terminal. A senhora passa a vida pregando a palavra de Deus pelos aeroportos do Brasil – aos berros diga-se de passagem – e durante essa “pregação” ela mora nos aeroportos. A senhora já deve ter cerca de 70 anos, e acorda cedinho para cumprir sua missão. Confesso que na ocasião em que a encontrei fiquei com vontade de sentar perto dela, na esperança de que ela me oferecesse um pedaço de seu cobertor, já que naquela noite seríamos companheiras de hospedagem, pois eu também dormiria por ali.
Nas madrugadas pelo Hercílio Luz, sempre busco refúgio na Casa do Pão de Queijo. Além de sempre me espantar com o preço do sanduiche – e mesmo assim comer, pois é uma das poucas opções para lanches durante a madrugada – eu ainda posso matar tempo, me envolvendo com a vida dos empregados, que aproveitando o baixo movimento colocam o papo em dia. É de morrer de rir, já ouvi desde dicas para conquistas até escolha de repertório para cantar na igreja. Uma vez eu tive que me segurar pra não dar “pitaco” e falar para o moço desistir da tal guria do Ribeirão e partir para outra.
Minhas experiências em aeroportos vão além do Hercílio Luz. Já passei algumas noites desconfortáveis nos aeroportos do Rio, e é incrível como nesses momentos perde-se qualquer frescura. Quando o cansaço bate deita-se no chão, dorme-se de boca aberta e até mesmo um grupo de pessoas cabeludas e mal cheirosas se transformam em segurança, para que perto delas possamos nos acomodar e junto de nossas bagagens passar a noite.
Vários sentimentos tomam conta de nossos corpos nesses espaços; ás vezes estamos ansiosos por pousar em um destino que tanto esperamos, outras vezes comovidos com a mãe que tem um inglês pior que o seu e está implorando por ajuda para preencher a papelada da imigração, enquanto o filho, bebê de colo veste apenas uma roupa super fina e está prestes a sair da calefação e enfrentar um frio de 10 graus negativos. Outras vezes o sentimento é de vergonha, ou porque você está com a meia amarela que ganhou de sua avó em um feriado e tem que tirar o sapato para passar pela máquina de raio-x e todo mundo na fila – menos você – faz o estilo de quem passa finais de semana em NY fazendo compras. O sentimento é de vergonha também quando o avião está apenas esperando você para partir, as comissárias de bordo estão querendo comer seu fígado e você consegue cair duas vezes na subida da escada que leva até a aeronave, ou quando pegou um super engarrafamento na ponte Rio- Niterói causado por um acidente e a moça do guichê entende que o acidente tinha sido com você e todos ficam muito preocupados e complacentes e você usando seu lado ardiloso não desmente, tirando proveito da situação.  Existe também a euforia de quando a recepção de seu voo é feita por um grupo de dançarinos de frevo e em segundos você já está contagiado pelo clima de alegria da cidade.
Aeroportos são a maior mistura, na mesma sala você encontra mulheres elegantes, ricas e cheirosas que estão indo passar o reveillon em Paris e também o senhor que juntou todas as economias para visitar a mãe que está doente e vive no interior de Pernambuco mas recebeu um telefonema já na sala de embarque dizendo que a mãe não conseguiu esperar por sua chegada.
Aeroportos são chegadas e partidas, despedidas e reencontros. São os portais para o novo mundo prontinho para ser desvendado por viajantes aventureiros. Apesar de eu gostar deles, não consigo ficar longe desses portais. 

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