quinta-feira, junho 23, 2016

Eva Schneider em: O Terrível Martinho Bugreiro


                No verão era muito quente na nova casa de Eva, então às vezes, para se refrescar a menina se jogava no rio. E foi em um desses banhos que uma coisa diferente aconteceu. Primeiro ela viu algo se mexendo no meio do mato, mas não conseguiu identificar se era um animal; depois de outro mergulho ela notou dois pequenos olhinhos observando-a do meio das flores de caeté. Ela ficou muito assustada e saiu correndo para dentro de casa. Sua tia Matilda logo foi procurar saber o que deixou a menina assustada daquele jeito.
Quando Eva contou o que tinha visto, a tia disse:
- Ah isso só pode ser bugre minha filha. Melhor você não voltar lá.
Eva não sabia o que era um bugre e Matilda voltou para cozinha antes dela ter tempo de perguntar-lhe do que se tratava.
Correu para o quarto e foi procurar nos seus livros. Folheou diversos sem encontrar o significava. Já estava quase desistindo quando encontrou a resposta em um almanaque que havia sido distribuído na colônia há algum tempo.
Bugres eram índios, pessoas que habitavam aquelas terras antes dos colonos chegarem ali. O almanaque dizia que eles atacavam os colonos, que faziam flechas com pontas de pedras, que viviam da caça, da coleta de frutos e da pesca. Tinha até um retrato: tinham a pele mais escura, e os cabelos pretos e lisos. Eva foi dormir intrigada.
No dia seguinte, ela mal podia esperar a hora de ajudar a tia a tirar a mesa do café para correr até o rio. Levou consigo o chapéu de seu pai e, em uma bolsa uma calça que tinha feito há algum tempo, pois não gostava de andar de saia no mato. Trocou a roupa e guardou a sacola, para depois trocar novamente antes de voltar para casa.
Ela já estava escondida no mato há quase uma hora, quando ouviu passos, vindos mais ou menos da direção de onde tinha visto os olhinhos no dia anterior. Os passos foram ficando mais audíveis. O som competia com o das batidas fortes de seu coração acelerado. Foi quando uma mão se colocou levemente em seu ombro. Seu coração quase parou por um momento. Em um segundo se fez muitas perguntas:
-          Quem seria?
-          Sua tia teria a pego de calça no meio do mato?
-          Seria um bugre?
Quando ela se voltou para trás viu uma menina, de cabelos lisos e escuros, de pele da cor de pinhão, seminua e que colocava o dedo indicador em frente a boca, pedindo que Eva ficasse em silêncio.
-          Meu Deus! Era um bugre!
Eva viu nos olhos da menina que não precisava sentir medo. A garotinha parecia mais assustada do que ela mesma. Em seguida, um menino menor que a menina, saiu do meio do mato, onde os dois pareciam estar escondidos. A menina puxou Eva pedindo para que ela se abaixasse e os três ficaram ali, acocorados e em silêncio, até que um disparo de arma de fogo foi ouvido. Eva tremia e os dois indiozinhos começaram a chorar.
O menino levantou a cabeça e com um gesto chamou a menina. Eva não conseguiu identificar para onde eles estavam olhando e então percebeu que eles voltaram para o meio do mato. Ela ainda permaneceu alguns instantes ali, ainda sem entender o que acabara de acontecer. Foi então que se deu conta de que o tiro também poderia ter sido ouvido na casa dos tios e se apressou em apanhar a saia e retornar.
Ao chegar em casa seus tios estavam à sua procura e correram ao seu encontro ao avistá-la. Tia Matilde disse que Martinho Bugreiro estava por perto:
- Ele anda pelo meio do mato caçando os terríveis bugres.
Nesse momento tudo ficou claro na cabeça de Eva. Os índios estavam fugindo dele, o bugreiro, é claro! Ele estava caçando-os.
No dia seguinte, Eva foi novamente para o local do encontro, ficou lá por horas, mas as crianças não apareceram.
No domingo, como de costume, ela e os tios foram para a missa na igreja na Vila do Barracão. Lá o assunto era um só: todos falavam sobre as proezas de Martinho Bugreiro.
O frei daquela igreja era muito amigo de Albert e Matilda, tinha um carinho especial por Eva e sempre que a via na missa, ia conversar com a menina.
E ela logo foi perguntando quem era esse tal de Martinho Bugreiro, caçador de índios.
O frei explicou que Martinho era um homem pago pelo governo para matar os bugres que perturbavam e até mesmo matavam os colonos. Eva não entendia como poderia parecer certo para o governador, pagar alguém para matar os donos da terra, mas aparentemente todos os outros achavam isso correto.
Na saída da missa ela ouviu de seu Mathias, o dono da venda, uma história contada de uma forma bem dramática:
- O ataque aos índios pelo bando de Martinho segue sempre o mesmo ritual. Os bugreiros perseguem o grupo a que desejam dar cabo e depois de encontrá-lo, ficam acantonados durante horas, sem conversar ou fumar, esperando o melhor momento para surpreender os índios em um ataque fulminante. Esse momento, é normalmente, quando o dia está para nascer. Enquanto os bugres estão entregues ao sono mais pesado, é que se dá o assalto.
Eva se aproximou para ouvir melhor o que seu Mathias falava.
- Primeiro cortam as cordas dos arcos, depois iniciam a matança. Acordados a tiros e a golpe de facão, os índios não têm qualquer chance de defesa. Os bugreiros costumam dizer que cortar carne de bugre é igual a cortar bananeira, pois ambas são bem macias. Após matar todos os homens adultos, prendem e levam para a capital as mulheres e crianças. Antes disso Martinho ainda corta as orelhas dos mortos, e as coloca dentro de um pacote de couro com sal e leva ao governo para dar provas do trabalho feito e receber a recompensa.
Eva terminou de ouvir a história com os olhos arregalados. E concluiu que, Martinho Bugreiro era um homem terrível!
Ao voltar para casa passou a tarde toda perto do rio, esperando encontrar os bugrinhos. Só retornou quando a noite já estava caindo; eles não apareceram. Então depois de jantar ela foi para o quarto. A noite estava bem clara, da janela ela podia ver a lua cheia, muito bonita no céu.
Todos costumam dormir com a janela aberta nas noites quentes do verão e, para se proteger dos mosquitos, em toda cama tinha um mosquiteiro, e era através dele que Eva observava a lua e tentava imaginar onde seus amigos poderiam estar. Adormeceu.
No meio da noite ela foi acordada por um “psiu, psiu”. Abriu os olhos, mas não conseguiu ver nada. Já estava quase adormecendo novamente quando olhou para a janela e percebeu a silhueta da indiazinha que lhe fez sinal com a mão, chamando-a para a rua. Calçou os tamancos, pegou o chapéu e, de camisolão branco, pulou a janela e se colocou ao lado da menina.
A indiazinha puxou Eva pela mão, que a princípio ficou tensa e não andou, porém logo depois, aquilo dentro dela que sempre pedia por aventura fez com que suas pernas se movessem acompanhando os passos apressados atrás da menina.
Eva não conseguia entender o que a menina falava, aquilo não era alemão, nem português, e achou que poderia ser tupi. Lembrou que no almanaque dizia que os índios também tinham línguas próprias e uma delas era o tupi. Quando Eva se deu conta elas já estavam no meio da mata fechada e a índia fez um sinal para que parassem e mandou observar uma espécie de clareira. Ali havia uma fogueira, alguns homens bebendo e em um canto amarrado, reconheceu o indiozinho que tinha visto junto com a menina no rio, e ficou perplexa.
Os olhos da menina estavam cheios de lágrimas e Eva, mesmo sem saber uma palavra sequer em tupi, usou um gesto que pode ser compreendido em todas as línguas: Abraçou a nova amiga! E, mesmo sabendo que não seria compreendida, disse: “Tudo vai ficar bem”.
Eva então teve ideia de usar a mesma tática dos bugreiros, para salvar o menino. Ela pretendia ficar, então, escondida até que eles pegarem no sono, para depois atacar. Mas, como uma menina de doze anos e uma indiazinha, sozinhas, iriam atacar um bando de oito homens malvados e armados? Ela pensou em chamar o tio para ajudar, mas certamente ele nunca viria.
Eva observou tudo. Viu algumas armas em um canto. Mas no entanto ela não sabia atirar e jamais teria coragem de fazê-lo. Viu também um saco com pólvora perto das armas e teve uma ideia. Com sinais pediu ajuda para a indiazinha e a menina sorrateiramente se arrastou e trouxe o saco de pólvora.
Aguardaram até que todos dormissem, o que demorou a acontecer, pois ficaram por muito tempo bebendo vinho e pinga. Eva tirou seu chapéu e deixou escondidinho atrás de uma pedra. A primeira coisa a fazer seria soltar o menino e sair em disparada para casa, imaginava a pequena aventureira.
Assim que o bando adormeceu as meninas foram pé ante pé sem fazer barulho até onde estava o menino e cortaram, as cordas que o prendiam. Quando os três estavam saindo um galho se quebrou sob seus pés e o ruído acordou um dos homens de Martinho. Eva olhou para os lados e já não viu mais os índios. Agora sozinha precisava colocar em prática a segunda parte do seu plano. Em uma fração de segundos pegou um punhado de pólvora e jogou na fogueira; provocando uma série de explosões, faíscas e muita fumaça. O barulho acordou os homens que ficaram desnorteados. sem dar tempo deles se recuperarem, Eva jogou mais  dois punhados de pólvora no meio da fogueira e atirou o saco, bem próximo do fogo. Enquanto corria por trás da nuvem de fumaça, tropeçou em uma sacola de couro com um cheiro muito ruim e percebeu que deveria ser o saco onde Martinho guardava as orelhas dos índios para pedir o pagamento junto ao governo. A menina não pensou duas vezes e carregou a sacola consigo, apanhou o chapéu e correu para casa. Já longe da clareira ainda ouviu uma grande explosão, que só poderia ter sido provocada quando o fogo atingiu o resto da pólvora. No meio do caminho encontrou os dois indiozinhos e os três seguiram juntos até a casa de Eva. Chegando lá, escondeu a sacola na rua e pretendia levar os índios para dentro de casa, porém foi surpreendida por sua tia na janela de seu quarto. Quando os índios avistaram a tia, correram para se esconder.
Matilda estava com cara de poucos amigos e olhando para Eva falou:
- O que você aprontou?
A menina não vacilou e contou toda a história. A cada palavra, a tia ficava mais pálida, não acreditando na loucura que menina fez ao se aproximar de assassinos como aqueles. No final Eva implorou para que sua tia aceitasse que os indiozinhos ficassem com eles, pelo menos por aquela noite. A tia falou que era cristã e que apenas por aquela noite acolheria as crianças, mas antes, teriam que dar fim na sacola de couro de Martinho.
Eva chamou os indiozinhos, que foram até ela cheios de receio, a tia olhou escabreada, mas teve seu coração amolecido quando o garotinho agarrou sua perna e deu um suspiro.
Pegaram então uma enxada e foram enterrar a sacola. Não abriram para ver quantos pares de orelha estavam lá dentro, mas os indiozinhos choravam, pois, certamente boa parte de sua família foi dizimada pelos bugreiros.
O dia seguinte, nem bem tinha amanhecido e o tio Albert, que dormiu como uma pedra enquanto tudo aquilo acontecia, já estava a caminho da vila, para comprar mantimentos que faltavam em casa. Quando retornou, contou que no Barracão só se falava em uma coisa: O bando de Martinho Bugreiro saiu da cidade apressado no meio da noite. Diziam que um fantasma envolto em nuvens negras do mal, invadiu o acampamento e lutou com Martinho, roubou seu saco de orelhas e desapareceu no breu da mata.
Ao ouvir a história a tia e a sobrinha apenas se entreolharam e disfarçaram a risada. Matilda se levantou pegou o marido pela mão e disse que precisava conversar com ele, abriu a porta da dispensa e chamou:
- Ceci! Sabú! Venham aqui.
E lá de dentro saíram os dois indiozinhos, Albert, levou um susto e com os olhos procurou pela espingarda. Antes que ele pudesse fazer qualquer movimento, Matilda o segurou forte e disse firmemente:
- Eles são irmãos e vão morar aqui, não têm mais família e como uma cristã eu não posso deixar duas crianças viverem sozinhas no meio da mata.
Eva não conseguia conter a alegria. Albert até tentou falar alguma coisa, mas viu nos olhos da mulher; que ela estava decidida. Se até agora nunca na vida ele conseguiu tirar alguma ideia da cabeça dela, não seria dessa vez.
Sabú correu para o colo de Matilda, Ceci e Eva se abraçaram. Albert apenas enrolou o bigode e viu em cima de uma cadeira a camisola branca de Eva, toda suja de carvão e parecendo meio chamuscada.  Em um tom meio irônico disse:
- Eva, espero que você não tenha nada a ver com a história do fantasma que botou o bando de Matinho para correr.











10 comentários:

  1. 1 Nicolly: As palavras que Eva conhecia era, arara, tucano, perereca, jabuti, pipoca, mandioca, abacaxi, jararaca, tatu, sagui...

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  2. 2 Nicolly: O nome dos amigos índios de Eva eram Ceci e Sabú.

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  3. 3 Nicolly: Eva conheceu, cachoeiras, imensos morros, campos, tocas, cavernas, as flores mais bonitas do Barracão.

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  4. 4 Nicolly: Bom no século XVII muitos jesuítas andavam por esses campos, transitando entre a serra e o Litoral com alguns "tesouros" consigo: ouro, prata, objetos preciosos... Muitas vezes, eles eram encurralados por saqueadores ou até mesmo por alguns brugres e para não perder seu tesouro acabavam o enterrando, para tentar salvá-lo e resgatá-lo mais tarde. Acontece que as vezes essas pessoas perdiam a vida e nunca conseguiam pegar de volta os seus tesouros das profundezas da terra, então anos mais tardes esses mesmos tesouros são encontrados por pessoas comuns, que acabavam assim fazendo com que outras pessoas também procurem por essas riqueza deixada pelos padres, como são chamados pelo povo.

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  5. 5 Nicolly: Quando os 3 rios se encontram , onde os rios se juntam e siga o rio Caeté sem se preocupar com os afluentes.

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  6. 6 Nicolly: Pois era o caminho para sua casa. Eles precisariam esperar até dia seguinte para terem tempo de chegar até o local.

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  7. 7 Nicolly: não pode ser abraçado o pinheiro.

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  8. 8 Nicolly: Estava escrito "fonte".

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  9. 9 Nicolly: É um macaco.

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  10. 10 Nicolly: O dinheiro foi utilizado para reconstruir a escola e o restante investido em remédios para atender os doentes que, muitas vezes, procuravam a igreja por ainda não existirem postos médicos na vila.A bíblia e o cálice, Eva deu de presente ao Frei sabendo o quanto significariam para ele.

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