terça-feira, março 22, 2016

Trekking Costão do Frade + Calçada de Pedra


Nesse último domingo tive como destino o Morro do Costão do Frade que fica a 1422 metros de altitude, uma imponente “montanha” que fica no limiar da serra e do alto vale catarinense. A subida pode ser realizada pelo Pinguirito – Alfredo Wagner – e também por Bom Retiro, distante 24 km de Alfredo e foi essa a rota escolhida no Trekking organizado por Dario Lins.  Esse é o mesmo morro que em agosto do ano passado, não pude ir com meu grupo por causa de uma pós e lamentava até então.

Nossa aventura começou logo cedinho, Lucas, Juliano, Alexsandra e Emelson vieram de Floripa, me apanharam em Alfredo e juntos seguimos até o portal turístico da cidade de Bom Retiro onde encontramos os outros 60 participantes e de ônibus fomos até a Fazenda da Serrinha, onde tomamos um delicioso café colonial – e onde reencontrei depois de muitos anos minha grande amiga dos tempos da UNIPLAC, Caro, aproveitamos para colocar o papo em dia e de lá seguimos até a Calçada de Pedra.
A Calçada de Pedra era um dos lugares históricos aqui da região que sempre sonhei em conhecer. Ela foi construída em 1792 sob o comando do Capitão Antonio Marques Arzão - o fundador de Bom Retiro e fazia parte da ligação entre Florianópolis e Lages. Pelo que tinha ouvido de pessoas que visitaram o local em anos anteriores até pensei que ela estivesse em pior estado, é bem verdade que o tempo e a falta de manutenção contribuíram para a deterioração do local, mas as marcas desse importante fato histórico ainda permanecem por lá. A calçada foi construída com o intuito de melhorar o tráfego no trajeto, por se tratar de um trecho úmido, de banhado, onde as mulas e carroças atolavam com frequência. A construção da calçada como já mencionei, foi realizada por escravos e ela tem uma extensão de 6km. No local pode-se até mesmo observar de onde algumas pedras foram retiradas – existem algumas rochas imensas de onde foram “cortadas” algumas das pedras que compõe a calçada.
Fato interessante: existe um projeto da UFSC que estuda a possibilidade da comunidade de Soldadinho – situada na cidade de Alfredo Wagner – ter tido origem como um Quilombo, onde os escravos cansados de trabalhar na construção da calçada e em partes da construção da estrada, acabaram fugindo e se estabelecendo no local hoje conhecido como Soldadinho.
Existem várias lendas acerca da Calçada, do Morro do Costão do Frade e também da Rocha em forma de Frade que dá o nome ao morro e até mesmo a uma comunidade da cidade de Bom Retiro. Quem mora pela região certamente já ouviu alguma história sobre os guardados, que seriam “tesouros” escondidos por padres jesuítas e tropeiros, que no intuito de salvar seus pertences valiosos de roubos realizados principalmente pelos índios que habitavam a região, os enterravam e alguns deles eventualmente permaneciam por ali “esquecidos”. Muito se conta sobre pessoas que já encontraram alguns desses guardados, porém não se sabe se se tratam apenas de lendas ou se de fato existiram, mas a verdade é que muitas pessoas ainda nos dias de hoje cavam no local tentando encontrá-los. Até mesmo no alto do morro encontramos vestígios recentes dos buracos cavados em busca desses guardados.
Curiosidade: O morro recebe esse nome por possuir uma pedra que lembra a silhueta de um frade jesuíta, sua formação é de arenito botucatu - uma testemunha da montanha que nos remete a um passado longínquo de mais de 200 milhões de anos quando o que existia era o deserto do continente Gondwana.
Passada a calçada chegamos ao sopé do Morro do Costão do Frade, o topo estava encoberto, mas mesmo assim se mostrava majestoso. Alguns escorregões e muitas risadas marcaram essa etapa, acabei até descobrindo que de fato existem pessoas que leem o meu blog e as visualizações não estão “bugadas” – fiquei super feliz.
Mais ou menos na metade do caminho tive uma queda de pressão, me senti mal, tonta e fraca, tive que parar para descansar duas vezes. Pedi para que meus amigos seguissem, pois além do que eu sentia fisicamente, também me sentia culpada em atrasá-los. Eles seguiram e eu fiquei, foi então que pensei que fosse desmaiar, mas acho que os amendoins fizeram efeito e depois de uns 20 minutos eu estava novinha em folha, e embora fosse a última dos que iriam subir, eu como uma fênix – ahuhuauhauha - segui o meu rumo em busca do cume.
Na subida encontrei Lazinho, um moço que ia saltar de parapente. Demais, fiquei com inveja dele, mas certamente, dessa vez minha vó não me perdoaria! 
Mais ou menos no ponto em que encontrei com o moço do parapente comecei a ouvir os gritos do pessoal que estava mais à frente. Existem duas trilhas que dão acesso ao topo, uma, que é uma subida mais perigosa por entre pedregulhos e onde o mato não havia sido aparado, e a outra onde a subida não deixa de ser forte, porém é mais branda e onde existem algumas cordas para auxiliar. Os gritos vinham da subida mais branda, quatro pessoas foram picadas por marimbondos e as outras que vinham atrás delas estavam se dirigindo até a pior das subidas, a fim de que não fossem as próximas vítimas dos tais marimbondos. Essa subida assustava um pouco, por ser bastante íngreme, estreita e ter peral nos dois lados, mas como eu tinha chegado até ali, não poderia desistir.
Foi sem dúvidas a pior parte para mim, não pela altura, pois não me assusta, mas sim pelo mato, que me cortou inteira, além de ter me dado uma coceira imensa. O menino que estava na minha frente, assim como todos nessa parte, estava com algumas dificuldades, pois o terreno era muito liso e fora os espinhos e os “matos cortantes” não tínhamos onde nos segurar, o jeito foi em um determinado momento colocar meu pé para ajudá-lo a se apoiar, no final, deu tudo certo e eu só caí de “cara” no chão duas vezes.
Quando cheguei ao topo o céu estava bem encoberto, mas passaram-se alguns minutos e as nuvens começaram a se dissipar. Só encontrei o pessoal que tinha ido comigo lá em cima, e enquanto alguns desciam eu fui até a pedra, em uma das partes mais bonitas da trilha.
Nessa parte a trilha acontece em meio às árvores e já se nota a mudança de temperatura, logo nos primeiros metros ela se torna mais amena, um clima muito agradável. O lugar é lindo e de uma paz imensa. Algumas pessoas – não do nosso grupo – resolveram deixar seu nome gravado na pedra e essas inscrições vêm sendo deixadas lá há décadas. Conta-se que antes dessas inscrições nada rupestres, a pedra havia sido marcada em Latim, pelos Jesuítas que por ali passavam. A pedra é espetacular e lá de cima é possível se ter uma vista maravilhosa. Do alto do Morro do Frade é possível se ter uma vista exuberante de parte da serra, bem como do Alto Vale do Itajaí.
Como eu havia ficado para trás, tinha ficado sem água e sem comida, minha sorte foi encontrar Flávia, que me salvou me dando uma barrinha de cereal, água e também me emprestando um moletom, para a descida, pois resolvemos ir pela parte dos marimbondos. Seu Popola – proprietário da fazenda Serrinha – desceu conosco e foi testemunha de todos os nossos tombos. A descida com a ajuda das cordas certamente se tornou bem mais fácil e a julgar pelo tanto que caímos na trilha mais “branda”, provavelmente não teríamos sobrevivido na mais “hard” – pouco exagero. No final descemos sem encontrar com os marimbondos.
Eu estava bastante cansada na volta, resultado de quase dois meses sem atividades físicas. Ao chegarmos até o ônibus, aguardamos o grupo estar completo e retornamos ao centro de Bom Retiro. Antes de retornamos para casa, almoçamos na Santa Clara.

Voltei cansada, mas realizada por ter conhecido mais um lugar lindo e repleto de história que fica aqui, pertinho de mim!

5 comentários:

  1. Parabéns, adorei o relato.

    ResponderExcluir
  2. Belo Registro Carol. É lindo mesmo lá né? Pena aquela vez não ter dado certo...
    também fiz uma reportagem: https://www.youtube.com/watch?v=qHqc-madwuQ
    Bora pra proxima, só para os fortes!!!
    Bjs carol
    Manu

    ResponderExcluir
  3. Olá,
    Adorei o seu Blog e adoro correr. O seu post é muito bom.
    Beijos no coração.

    ResponderExcluir
  4. Caminhada sensacional!! Além das trilhas e do visual que já vale toda a caminhada o local tem história e lendas muito ricas, que merece ser compartilhada!
    Parabéns pelo relato!!

    ResponderExcluir
  5. Eu subi esse morro!!! Ele é muito íngreme e escorregadio, não sabíamos que tinha duas subidas, subimos pela pior... deslizamos várias vezes e quase fomos peral abaixo... na descida já era noite então dificultou. Mas fora isso é lindo, deslumbrante... pegamos o pôr do sol.

    ResponderExcluir