domingo, janeiro 13, 2019

Histórias de nossa gente - Entrevista com Edolino Marian



No dia 28 de julho do ano passado, eu e a Manu fomos até o Rio Lessa, onde entrevistamos o senhor Edolino Marian. Ele estava nos esperando todo alinhado, com uma bela roupa e feliz por nos contar um pouco de sua história.
Infelizmente não conseguimos editar e escrever a entrevista antes de seu Edolino partir pois, no dia 3 de janeiro desse ano, ele nos deixou.
Fica então essa publicação como uma homenagem póstuma, a um homem que aprendemos a admirar  e que nessa entrevista nos encantou, contando um pouco da história de sua vida.
Segue a entrevista.



O quarto entrevistado do projeto “História de Nossa Gente” foi o senhor Edolino Marian, de 82 anos e morador do Rio Lessa, onde era conhecido por todos.
Seu Edolino, ou o Fata, como é carinhosamente chamado pelos netos, nasceu em Alfredo Wagner, antigo Barracão, na comunidade de Santo Anjo, bem aos pés da Serra que dá início do Campos dos Padres. Lugar alto e frio onde os pais escolheram para ser sua primeira morada e iniciar sua grande família. A casa da família ficava próxima a montanha conhecida como Soldados Sebold.
Hoje não tem mais muitos moradores naquela região, mas a quase 100 anos atrás, era o local escolhido por muitos descendentes de imigrantes alemães para iniciarem sua nova vida. Lá existia até mesmo uma escola, para que todas as crianças pudessem estudar. A propriedade da família era cercada por uma densa mata nativa e além de animais selvagem, ainda contava com a maciça presença dos índios, os antigos donos das terras que ainda viviam pela redondeza.
O pai e Edolino, Rainoldo Marian, nasceu em Águas Mornas, na Colônia de Santa Izabel, posteriormente vindo para Alfredo Wagner e a mãe Ema Hasse nasceu em Anitápolis, na localidade de Rio Novo. O casal Rainoldo e Ema, assim como vários outros casais daquela época teve um grande número de filhos, 12 no total.
Seu Edolino relembrava que naquela região era muito comum dar de cara com os nativos, dos quais os alemães tinham muito medo. Quando os brancos iam os observar, os índios subiam em cima das pedras e batiam na bunda, para provoca-los. Quando os homens saiam de casa eles se aproximavam e ficavam rodeando a casa, com todos dentro dela, amedrontados. Os bugres pegavam alguns pedaços de madeira e começava a passar pelas tábuas da casa, para assustar, até mesmo os cães se escondiam debaixo da casa, com medo dos estranhos visitantes. Aos poucos os índios foram desaparecendo pela ação dos bugreiros, ele não vivenciou nenhuma ação violenta por parte dos índios, mas eram muitos os relatos de índios que aproveitavam que os homens não estavam em casa para atacar, roubar, destruir as plantações.
Os alemães que moravam nessa parte do caeté, eram pouco amistosos com os brasileiros., preferiam viver longe e conviver apenas com os outros descendentes de alemães.
Logo a família saiu do Santo Anjo, indo morar em Braço Novo, na cidade de Braço do Trombudo, onde ficou até os 8 anos e retornou para a comunidade do Rio Lessa, em Alfredo Wagner.”
Edolino relembrava com ternura da mãe, que sempre foi uma pessoa muito amável e carinhosa. Ele lamentava que Ema tivesse deixado a família tão cedo. Ela morreu quando ele ainda era um jovenzinho, sofreu um aborto, do que seria seu 13º filho e foi descoberto um câncer, que acabou tirando sua vida. A mãe ficou alguns meses internada em Florianópolis e seu Edolino contava que para ir visita-la costumava pegar carona com os caminhoneiros que seguiam em direção a capital do estado, as vezes ele ia na cabine, mas geralmente ia em cima, com a carga. Da capital dessa época ele relembrava que para atravessar a Hercílio Luz era necessário retirar o chapéu da cabeça, caso o contrário o vento o arrancava.
Após o falecimento de sua amada mãe, o pai, homem que era muito mais fechado e duro, se mudou para Anitápolis. Edolino resolveu ficar, já era tempo dele tocar sua vida com a força de seus próprios braços e construir o seu futuro, para isso começou a trabalhar de meia com alguns dos vizinhos.
                Olhando para o passado, Fata não sentia saudade da infância, exceto pela sua mãe. A vida era bem sofrida naquele tempo.
Não sentia falta de sua infância, pois passaram muito trabalho. A comida não era em abundancia como hoje, comiam quase sempre feijão, arroz, batatinha, batata doce e carne de porco, as vezes aos domingos tinha uma galinha.
Na páscoa tinha o osterhase que era o coelhinho da páscoa, os pais diziam que os coelhos vinham e colocavam os ovos e no outro dia, o dia de páscoa, eles levantavam e iam procurar os ovinhos, que os pais, com muito esmero, haviam furado, pintado com algumas erva e enchido de amendoim. Ele contava que mesmo sendo muito pouco, era imensa a felicidade dele e dos irmãos. Assim como ficavam felizes quando no natal comiam pão de trigo. Comiam puro mesmo, sem passar nenhuma “chimia”, para sentirem bem o gostinho, daquilo que naquela época, era uma iguaria.
O primeiro sapato que ele calçou foi com 13 anos, ele ganhou de presente da mulher do pastor da igreja luterana do Rio Adaga, que lhe pediu um favor e em troca lhe deu o sapato, que estava sem uso. O menino voltou para casa radiante, finalmente tendo algo para colocar nos pés.
                Os bisavós de Edolino vieram da Alemanha e quando ele nasceu as tradições vindas da Europa ainda eram fortemente seguidas e propagadas em sua casa. A religião seguida por todos era a Luterana e a fé era um dos pilares de toda a sociedade. O primeiro idioma que todos aprendiam era o alemão, que era praticamente o único falado nas comunidades. Sua mãe, Dona Ema, morreu sem saber falar corretamente o português, pois não tinha necessidade de aprende-lo.
                Edolino só foi aprender o português quando entrou na escola. Na Era Vargas, do Estado Novo, era proibido falar o alemão, então todos os professores contratados para lecionar tinham que falar apenas o português. O que foi um problema enfrentado por muitos alunos que como Edolino falavam apenas o idioma de seus antepassados.
“Na época nós morávamos em Trombudo Central, os alemães naquela época eram muito perseguidos, meu pai trabalhou 6 dias na picareta, fazendo estrada, cortando pedra, de castigo”, castigo por ter sido visto falando alemão em público. Ele relembra também uma vez que precisou ir na farmácia, mas não pode falar, pois não conseguia falar em português e tinha medo de falar em alemão e ser penalizado.
Ele contava que havia aprendido a falar o “brasileiro”, com os colegas da escola, que pacientemente o ensinaram. Edolino frequentou a escola durante pouco tempo, estudou apenas até a 3ª série, mas conta que nesse tempo foi um aluno exemplar e que aprendeu tudo o que pode.
                Ele recordava também de alguns invernos bem frios de seu passado, em um deles deu tanta neve que tapou o pico de todas as montanhas da região e que ela ficou acumulada durante dias, mesmo sendo dias de sol e quando finalmente derreteu, quase provocou uma enchente, devido ao volume de água em que se transformou.
                Depois de um tempo que estava morando separado do pai ele foi servir no exército, onde ficou 10 meses e 18 dias e relembrava com orgulho que ajudou a fazer o traçado da BR 116, que vai de Lages até o Rio Grande. Ele foi até Vacaria, realizando o trabalho.
No exército ele encontrou alguns amigos de Alfredo Wagner, tais como: Welmut Iahn, Raul Schlemper, Paulo do Bebeto, entre outros.
Voltando do exército chegou o momento dele constituir a sua família.
Conheceu Wanda em um baile, na comunidade do Alto Rio Caeté, se olharam e se gostavam e não demorou muito para logo se casarem. “Naquele tempo as coisas eram muito diferentes de hoje em dia e se o casal se gostava, logo casava” nos contou o casal.
Ele morava no Rio Lessa e ia de bicicleta até a casa da moça, que ficava distante algumas dezenas de quilômetros. Podia ser qualquer hora do dia ou a noite ele não tinha preguiça de pedalar para ver amada e dançar em alguns bailes da região. “Antigamente cada um tinha uma casa grande, com uma sala grande, então muita gente fazia baile em casa, principalmente quando faziam o pichurum”. As festas que seu Edolino frequentava eram animadas pelo som que Daniel Knaul tirava de seu bandoneon. Dançavam a noite inteira, iluminados por pombocas e quando a dança acabava, ele levava a namorada em casa e voltava para o Lessa com sua bicicleta, atravessando rios e sendo perseguido por cachorros.
                O casal se casou no Caeté, na Igreja Luterana e após o casamento moraram no paiol do sogro “a regra lá era: até engordar um porco”, então em quatro meses eles tiveram que arrumar outro lugar para morar. Ele relembrava que começaram a vida muito pobres “só o que eu tinha eram duas novilhas e duas bicicletas e a mulher tinha uma vaca”, e foi com isso que eles começaram a vida.
Muito trabalho até conquistarem seu pedaço de chão. Seu Edolino conta com orgulho que mesmo sem ter nada, tinha seu nome, de homem honrado e trabalhador, então conseguiu pegar dinheiro emprestado, para comprar um pedaço de chão, primeiro no Caeté e depois novamente no Rio Lessa, há 53 anos atrás, onde acabou se fixando e onde a família Marian tem suas origens e sua grande base.
Trabalharam fortemente na agricultura e também na engorda de porcos, para vender não apenas a carne, mas também a banha dos animais, sempre ensinando aos filhos seus maiores princípios, honra, disposição e também a fé.
Seu Edolino posteriormente também abriu um bar, que durante anos foi um grande ponto de encontro para todos que moravam naquela religião. O Bar ainda está em funcionamento, hoje tocado por um dos filhos.  “Esse Lessa aqui, chegava a dar 40 pessoas nesse boteco, hoje não dá mais 4” ele atribui a afirmação por falta da renovação da comunidade, os jovens estudaram e saíram dali, foram fazer a vida em outro lugar.
Falando em filhos, os netos sempre foram motivo de muito orgulho e amor para o casal, contando com orgulho que sempre cuidaram muito deles, para que os pais – filhos, noras e genros – pudessem trabalhar na roça. O amor pode ser sentido, no olhar dos netos que com carinho assistiam a entrevista que estava sendo realizada com o patriarca da família. Ele não quis revelar quem era o neto preferido, provavelmente para não causar ciúme nos demais.
Nos contou também com grande alegria que o natal e o seu aniversário eram uma época muito especial, pois vinham todos, os filhos, netos e bisnetos. O domingo também era um dia de encontro da família.
Terminamos de contar essa história agradecidas, por termos tido a oportunidade de passar esses momentos com seu Edolino e sua família, que nos acolheu com muita alegria e amor. Temos certeza que tanto essas palavras, quando as imagens do vídeo, irão servir para manter ainda mais viva a imagem deste grande homem.



quarta-feira, janeiro 09, 2019

M A R R O C O S



Visitar o Marrocos foi sem dúvidas uma experiência incomparável!
Nenhum dos lugares que eu já visitei conseguiu ser tão excêntrico. A cultura, religião, comida, língua, a forma como as pessoas se vestem e se comportam, tudo muito distante da realidade que vivo.
Para quem conheceu o Marrocos através da família da Jade na novela “O Clone” de 2001, estar lá só poderia ser algo mágico!

Quando os Muezzins, chamam para a reza através dos autofalantes no alto das mesquitas você percebe que está muito distante de casa. “Allahu Akbar; Ash-hadu al-la ilaha illa llah; Ash-hadu anna MuħammaduRasulullah...”, as palavras ditas em árabe podem não fazer o menor sentido, mas quando se ouve centenas de vozes falando ao mesmo tempo, conseguimos sentir a força da fé deles.
No Marrocos, 99% das pessoas são muçulmanas e eles rezam cinco vezes por dia; Antes do sol nascer, ao meio-dia, durante a tarde, depois do pôr-do-sol e à noite.
Se você estiver perto de uma mesquita quando o momento de oração acabar, provavelmente irá ficar de boca aberta, quando vir o tanto de gente que sai de dentro delas, todos colocando seus sapatos, que em sinal de respeito, são deixados do lado de fora. São muitas mesquitas na cidade de Marrakech, onde ficamos a maior parte do tempo.
            Você se engana se pensa que a religião é a única coisa diferente por lá, ela dita a forma como as pessoas se vestem e se comportam, mas tem muito mais peculiaridades nesse país africano, que fica a menos de 15km da Europa. Podemos começar pelo festival de cores dos souks, que são grandes mercados de rua, famosos não só pelas cores, mas também pelos seus cheiros e sabores. Em comparação ao Brasil, os souks são como uma feira e as medinas, uma barraca da feira. Ficam em ruas apertadas e cheias de pessoas, onde tudo é transportado com a ajuda de burros, carrinhos de mão, bicicletas ou motos. Imagine a loucura que é andar por eles... 
A hora mais concorrida nos souks é ao anoitecer, hora em que uma grande parte da população sai de casa e os vendedores ambulantes diminuem o preço dos seus produtos - fruta, peixe, pão, louça, de tudo um pouco. É a hora ideal para observar o dia-a-dia local e sentir o pulsar da cultura marroquina. Lá vale a lei da pechincha, se souber negociar você pode economizar muito!
A comida também é um capitulo a parte em uma viagem para lá. Muitas especiarias, ou seja, muito tempero! Legumes, verduras e grãos são a base da alimentação. Seksou – cuscuz - é o prato mais tradicional, mas certamente você também irá cruzar com a Tajine. A grande quantidade de tempero pode não ser a maior aliada de algumas pessoas, então no nosso caso não demorou para enjoarmos, mas existem outras, digamos assim, mais ocientais. 
A população do Marrocos é apaixonada por chá. O mais popular é o chá-verde com menta, em que as folhas são quebradas e ficam em repouso por alguns minutos e é servido com grande quantidade de açúcar. O modo de servir também é bem característico, com um movimento de sobe e desce com o bule.
Apesar do consumo de bebidas alcoólicas ser proibido para os muçulmanos, os marroquinos são grandes produtores de vinhos e cervejas e como bons exploradores que somos, provamos da produção local e aprovamos alguns vinhos e cervejas, apesar de toda a dificuldade para comprá-los. Na noite da virada comprar uma garrafa de vinho parecia uma profanação das graves, tipo de “arder no mármore do inferno” e quase ficamos sem ter com o que brindar. A venda sem restrição só é permitida a turistas, e, ainda assim, é proibido andar com bebidas na rua mostrando a embalagem. Além disso, os estabelecimentos autorizados param de vender após as 20 horas.
A visita ao Marrocos não se limita apenas a comer, passear pela Medina, conhecer a arquitetura e palácios, a cereja do bolo ainda foi um passeio pelo deserto do Saara, o maior e mais quente do mundo. Andar de camelo e dormir em uma tenda no meio do nada deram um “Q” de aventura a essa parte da nossa viagem.
No caminho até a cidade de Zagora, de onde partimos para o deserto, passamos pela Atlas Montain, uma cadeia de montanhas com os picos nevados e até mesmo por Quarzazate, cidade patrimônio da humanidade pela UNESCO que já foi cenário de muitos filmes e séries, incluindo Lawrence da Arábia, A Múmia, Gladiador, Alexandre e Príncipe da Pérsia, entre muitos outros; além de uma de minhas séries favoritas Game Of Thrones. Quem sabe Eva Schneider não vive uma aventura por lá? Já pensaram?
Para completar a aventura, que tal uma cobra enrolada no pescoço? Se não estiver disposto é melhor não ficar de bobeira observando os encantadores de cobras que ficam na Jemaa el-Fna, pois se ficar, eles vão colocar a cobra em você e cobrar alguns dihans pela foto. Ainda na praça aproveitamos para ver algumas meninas dançando a dança do ventre. – Apesar de eu achar que a Jade dançava muito melhor.
Volto para casa com o coração encantado diante de tudo que vi e vivi no Marrocos. O mundo é mesmo muito grande e só saindo da nossa zona de conforto temos a oportunidade de observar o quão pequenos somos nós.