segunda-feira, dezembro 19, 2016

Eva Schneider em: a cobra e a bruxa


Finalmente o Tio Albert concordou em levar novamente Eva, Ceci e Sabú até a Lomba Alta. Desde o incidente com os saqueadores de tropeiros e Katze ele estava receoso de pegar novamente aquela estrada, mas as crianças estavam insistindo muito, pois, Ceci e Sabú queriam mostrar a Eva uma gruta maravilhosa.
Dessa vez não encontraram nenhum perigo no caminho, eles subiram o vale do rio Águas Frias, se encantaram com as paisagens e à medida que subiam se deparavam com uma serra e várias outras montanhas nos mais diversos formatos que deixavam o lugar esplendoroso.
A tal gruta ficava perto da serraria do seu Althoff. Lugar esse onde a serra funcionava com a ajuda de uma imensa roda d’água. A serraria era exatamente o local onde Albert iria para comprar algumas madeiras para realizar obras no sítio. As crianças pediram permissão e foram conhecer o local. Logo que chegou Eva ficou fascinada. Era um lugar maravilhoso, uma caverna aberta na lateral e com uma grande queda d’água ao fundo. Ceci e Sabú contaram que aquela gruta era usada como um refúgio por seus antepassados, contaram que ali existia uma concentração de energia especial para seu povo, mas que agora, como eles quase já não tinham mais povo, o lugar estava quase sempre vazio. Ficaram mais algum tempo desfrutando a paz do local. O silêncio, quebrado apenas pelo barulho da queda d’água.
Ao subirem conversaram com seu Althoff que contou que o lugar é conhecido como a Gruta do Poço Certo e que ele e outros moradores da região também gostavam de descer e refletir, é um local onde se pode ficar mais perto de Deus, disse o senhor.
Na volta eles pararam na casa de um amigo de seu tio Albert, o nome dele era Alfredo Henrique Wagner e ele tinha sido um dos fundadores daquela vila, junto com Jacob Schweitzer, seu concunhado, e Guilherme Althoff. Eles fundaram a vila em virtude da mudança do traçado da estrada Lages/Florianópolis em 1904. Antes a estrada passava por dentro da Colônia Militar Santa Tereza, mas agora passava pela Água Fria, enfraquecendo o comércio na Colônia Militar, ocasionando a mudança de muitos moradores.
Alfredo Wagner era um homem sábio e que gostava de conversar. Morava em uma casa muito bonita e com um jardim cuidado com todo o capricho, por dona Júlia, sua esposa. Alfredo Wagner conversou com Albert sobre como apostava na prosperidade daquele lugar e também de outras vilas como a Colônia Militar de Santa Tereza, o Barracão, Barra da Jararaca e o Quebra Dentes. Disse que achava que um dia todas essas vilas que ficavam mais para baixo na serra, deveriam se unir e formar uma grande cidade, que seria melhor para todo o povo, pois assim sendo uma cidade independente eles teriam recursos para crescer, mas que isso ainda era coisa para o futuro. Eva gostou dele, acreditava nas mesmas ideias que aquele homem e não conseguia parar de olhar para ele com admiração. Eles foram convidados para o almoço e Albert não teve como negar. Todos comentavam que Alfredo Wagner e sua esposa Júlia recebiam muito bem os convidados em sua casa, não importava se era rico, pobre, uma pessoa importante ou um andarilho, eram todos tratados da mesma forma. Júlia até aproveitou que Ceci estava em sua casa para dar umas dicas sobre bordado, e Ceci sempre estava disposta a aprender um ponto novo.
Albert trocou algumas sacas de farinha de mandioca por farinha de milho e se apressou, pois queria passar na Pedra Branca para comprar feijão, antes de retornar para casa. Todos subiram no carroção e seguiram.
Em uma certa altura eles ouvem um barulho e sentem um tranco, em seguida Albert para a carroça, desce e vai ver o que aconteceu. A roda tinha quebrado o eixo, devido a uma pedra. Albert tentou consertar, mas não tinha as ferramentas necessárias. Resolveu então pegar o cavalo e ir atrás de alguém para ajudar. Antes de sair faz mil recomendações as crianças, para que elas não saíssem dali, para que não se metessem em encrencas e que Ceci e Sabú não deveriam ir atrás das ideias de Eva.
As crianças ficaram sentadas no carroção até que Albert desapareceu em uma das curvas da estrada. Assim que ele desapareceu elas levantam e começam a brincar, primeira de pega-pega, depois de esconde-esconde, acharam uma canoa de folhas de coqueiro e a usam para descer o pasto e tempo foi passando e nada de Albert reaparecer. Sabú começou a dizer que estava com fome e Ceci e Eva concordam, eles também queriam comer algo. Ceci deu ideia de irem procurar algumas frutas no mato para comerem e todos acharam uma boa ideia e seguiram a indiazinha.
Ao chegar no meio do mato eles não encontram nada e resolvem se separar para serem mais rápidos e encontrarem algo para comer antes da chuva cair, pois o tempo estava fechando.
Assim que se dividiram a trovoada começou a roncar e o céu outrora azulzinho começou a ganhar um tom roxo e a luz do dia começou a sumir.
Eva encontrou um pé de araçá e colheu o máximo de frutinhas que conseguiu, colocando tudo dentro de sua blusa. Começaram a cair as primeiras gotas de chuva e como ela não avistava ninguém resolveu ir para carroção pois certamente eles deveriam estar por lá.
Ao chegar viu Ceci com as mãos cheias de cortiças e elas esperavam ansiosas para ver o que Sabú traria.
Sabú ainda estava no meio do mato e não havia encontrado nada, ele avistou algumas goiabas, mas para chegar até elas teria que passar por um terreno pedregoso e com mato, mas mesmo assim foi. Ele estava com pressa e não prestou muito atenção no caminho. Acabou pisando ao lado de uma pedra, porém naquela pedra dormia uma cascavel que, sem piedade, picou a perna de Sabú. Assim que sentiu a picada, Sabú caiu e deu um forte berro, que foi escutado da carroça.
A cobra fugiu e Sabú com muita dificuldade conseguiu ficar de pé novamente. A chuva começou a cair, ventava muito, o vento assoviava entre as árvores, era uma chuva grossa, gelada e que fazia com que Sabú não conseguisse enxergar muito a sua frente. Ele caminhava meio sem rumo, sabia o que uma picada daquela cobra fazia com os homens, em sua tribo era muito difícil que alguém sobrevivesse, por isso desde pequenos eles eram ensinados a ter cuidado com esse tipo de bicho, porém, hoje ele esqueceu desse ensinamento e acabou por descuido cometendo esse erro.
Sabú parecia estar caminhando em círculos, estava desorientado, não apenas pela baixa visibilidade, mas também pelo veneno, que já estava começando a fazer efeito. Ele começou a andar em um lugar com poucas árvores e achou que estava conseguindo avistar a carroça. Pensou em gritar, mas estava sem forças, foi quando sentiu seu corpo cair em um buraco imenso no meio do nada.
Após ouvir o grito que parecia ser de Sabú as meninas começaram a ficar preocupadas, não sabiam bem o que poderia ter acontecido e não conseguiam ver muito em meio a todo aquele aguaceiro. Depois de uns 15 minutos a chuva começou a diminuir e elas resolveram sair atrás de Sabú, gritando o nome dele. Foram por todos os lugares que tinham ido antes; aumentaram o percurso caminhado mas nada do menino aparecer. Foi quando olharam em direção a carroça e viram que já não estavam mais sozinhas. Existia uma mulher muito estranha, montada em um cavalo negro e também vestida toda de preto.
Eva meio receosa se aproximou da estranha figura e foi logo se apresentando:
- Olá, sou Eva Schneider, meu tio foi buscar ajuda para arrumar o eixo da roda da nossa carroça. Essa é Ceci e eu e ela estamos procurando Sabú, que se perdeu pelo mato antes dessa tempestade.
A mulher apenas deu de ombros e continuou olhando para o meio do mato. Eva indagou:
- Quem é a senhora? Você pode nos ajudar.
A misteriosa mulher respondeu:
- Bem se vê que você não me conhece, senão nem estaria falando comigo... sou uma curandeira aqui da região, o povo me chama de bruxa por causa de minhas garrafadas e minhas rezas, tem gente que tem medo de mim.
Eva a encarou e disse:
- Eu não tenho medo da senhora, tenho razão para isso?
A bruxa encarou Eva de volta e disse:
- Por enquanto não! Meu nome é Hanahira e o prazer é todo de vocês.
Eva e Ceci se olharam um pouco desconfiadas e pediram ajuda a senhora:
- Por favor, estamos desesperadas, Sabú sabe andar pelo mato, não costuma se perder. Hanahira disse que o lugar é cheio de esconderijos, impossíveis de ver com olhos destreinados.
As meninas disseram que já andaram por tudo e não existia nenhum sinal do menino.
Hanahira disse:
- Se ele não tá em cima da terra, só pode estar debaixo dela.
Eva ficou intrigada:
- Ele estaria morto a 7 palmos do chão?
Ela pediu explicação e Hanahira disse:
- Nessa região existem muitas tocas de índios, mas não índios como essa menina – apontando para Ceci – foram índios que viveram antes dessa tribo, tinham tradições diferentes, esses eram da Tradição Taquara e devido ao frio costumavam construir suas casas embaixo da terra, as cobrindo e deixando um pequeno espaço entre a cobertura e o chão para que a luz e o ar pudessem entrar. Esses abrigos eram grandes, cabiam vários índios. Ele pode ter caído dentro de um deles. A sorte de vocês é que sei onde ficam alguns.
As três saíram pelo mato.
A bruxa abaixou na primeira toca, pedindo para que as meninas ajudassem a retirar as folhagens que estavam cobrindo a entrada para que o interior pudesse se iluminar. Nada de Sabú nessa primeira tentativa. Andam mais um pouco e encontram uma segunda toca, essa com a boca já sem as folhagens, as chances de Sabú estar ali eram imensas.
Logo que Hanahira colocou a cabeça para ver melhor, já avistou Sabú, quase sem vida dentro do buraco. Eva saltou para dentro do buraco e tentou reanimar o menino.
Hanahira disse para Eva parar e ajudar ela a erguê-lo. Ao tirarem o menino do buraco Hanahina o examinou e não demorou a perceber que ele havia sido picado por uma cobra.
Ela disse:
- Valha-me Deus, o menino foi picado por uma Jararaca, a ferida está feia, preciso chupar o veneno dela.
Ela mal terminou de falar e aparentemente mordeu a perna de Sabú no exato lugar onde existia a ferida deixada pela cobra. As meninas olharam arregaladas, só mesmo uma bruxa para chupar o veneno de uma cobra.
Hanahira ao terminar cuspiu o veneno, mas disse:
- Precisamos ser rápidas, eu preciso dar a ele um dos meus remédios para tentarmos salvá-lo.
Ceci começou a chorar, mas Eva a pegou pela mão, enquanto a bruxa pegou Sabú no colo e correram para o carroção.
Ao chegar ao carroção Tio Albert já estava batendo o pé, procurando pelas crianças enquanto o ferreiro observava o que podia fazer pela roda da carroça.
Ao avistar a bruxa vindo junto com as crianças, carregando Sabú no colo, Albert pegou a espingarda e apontou para Hanahira, enquanto falava:
- Que diabos você fez com ele, sua bruxa dos infernos?
Eva se colocou na frente de Hanahira e começou a explicar:
- Tio, tio, por favor, ela só tá tentando ajudar, ele foi picado por uma cobra, ela ajudou a encontrá-lo e depois tentou sugar o veneno com a própria boca.
Albertt abaixou a arma e pegou Sabú no colo, ele começou a chorar.
 - Meu filhinho, o que aconteceu com você, minha nossa senhora, o que eu faço?
 Hanahira colocou a mão no braço de Albertt e disse:
- Se você quer ter alguma chance de salvar o menino precisamos correr, pois o veneno não demorará a chegar ao coração, minha cabana fica perto e podemos tentar salvá-lo.
Vendo a hesitação de Albert o ferreiro disse:
- Albert, vá com ela, o único homem que vi sobreviver depois de ser picado por uma jararaca foi tratado pela bruxa, se tem alguém que pode te ajudar é essa mulher.
O ferreiro se ofereceu para levar as meninas em sua aranha enquanto Albert com Sabú no colo e Hanahira seguiam na frente, em suas montarias, para ganhar tempo. 
Ceci chorava compulsivamente, dizendo que a culpa era sua, afinal foi ela quem deu a ideias de irem procurar as frutas no meio do mato. Eva tentou consolar a amiga, segurando em suas mãos. Eva também estava morrendo de medo de perder seu grande amigo, praticamente seu irmão mais novo.
O ferreiro levou as duas até a cabana, mas disse que iria voltar dali. Não tinha coragem de entrar na casa daquela bruxa.
Ao entrarem Sabú estava deitado, pelado em cima de uma mesa, enquanto Hanahira, passava em cima dele um galho molhado, que vez ou outra ela colocava dentro de um recipiente de onde saia uma fumaça com cheiro estranho.
As duas estavam muito assustadas, Albertt olhava tudo com atenção e não conseguia conter as lágrimas.
Hanahira disse:
A única forma de curar a criança é fazendo ele beber da erva que Deus rejeita.
Todos se olharam, enquanto Sabú dá um suspiro profundo e aparentemente derradeiro.







Nenhum comentário:

Postar um comentário