terça-feira, setembro 06, 2016

Eva Schneider em: O amigo Katze



Eva acordou com um barulho de tiro. Saiu apressada da cama e encontrou, Tia Matilda, Ceci e Sabú ainda com suas roupas de dormir na cozinha. Sabú disse:
- O que aconteceu madrinha?
Matilda com um olhar de preocupação respondeu:
- Albert foi matar o Leão Baio que comeu um dos terneirinhos essa noite.
Todos se olharam assustados, pois a ramada onde os bezerros passavam a noite ficava a alguns metros da casa; um animal como aquele poderia atacar qualquer um.
Eva ainda tinha calafrios ao relembrar seu encontro com o Leão Baio, naquela noite fria que ela passou perdida no Chapadão das Demoras; ela tinha muito medo de reencontrar com um animal daqueles. Abraçou a tia e nisso tio Albert abriu a porta.
Ele contou que acertou o bicho. Seguiu os rastros de sangue que o animal deixou ao arrastar o bezerro para o meio da mata e enquanto o bicho comia ele atirou. Disse que estava de longe e o tiro não foi mortal mas que achava muito difícil que o bicho sobrevivesse.
- Daquele, eles estavam livres!
Nos últimos dias eram muitos os relatos de ataques do bicho pela região, contavam até que por pouco ele não comeu um bebê que estava deitado em um cobertor, enquanto os pais plantavam na roça. Certamente matar aquele bicho tinha sido um grande feito. Tio Albert ficou orgulhoso, apenas lamentava não ter encontrado o bicho para com seu couro fazer um tapete para colocar na sala, como um troféu.
Durante aquela manhã, como em outra qualquer eles ajudaram em todos os serviços, que iniciavam logo cedo com a ordenha das vacas. Depois do almoço como de costume, estudaram e depois foram brincar.
Sabú gostava de se meter no meio da mata, colher frutas, ouvir os pássaros e às vezes enquanto as meninas brincavam mais perto da casa ele se distanciava, distraído, pelo mato. Nesse dia Sabú veio com os olhos arregalados e em um tom de segredo contou que estava caminhando pelo meio da mata quando deu de cara com a ossada do bezerro, que estava quase toda devorada, Depois encontrou um outro rastro de sangue que só poderia ser o do Leão Baio, atingido pelo tiro. Então foi chamar as meninas para que juntos, eles seguissem o rastro para encontrar o bicho morto e trazer o couro para Albert fazer o sonhado tapete. As meninas toparam na hora.
Eva pegou seu chapéu e se preparou para mais um desafio.
Andar pelo meio da mata com Sabú e Ceci era sempre muito prazeroso, eles falavam em Tupi nessas ocasiões e tudo tinha um significado. Assim que encontraram o rastro de sangue começaram a segui-lo. Cada vez mais o rastro os levava para o interior da mata. Algum tempo depois chegaram a um local cheio de rochas, que Ceci disse que a algum tempo era utilizado por seu povo como abrigo.
De longe eles viram o animal caído e enquanto iam se aproximando viram que, ainda mamando em seu corpo já quase sem vida, existia um filhotinho. Os três ficaram surpresos e se aproximaram. Na verdade o Leão Baio era uma leoa com seu filhinho de mais ou menos uns dois meses. Ao ver que eles se aproximavam, a leoa tentou levantar, mas já não tinha forças, apenas gemia e ofegava. O filhotinho mamava, sem entender o que estava acontecendo. Naquele momento Eva, Ceci e Sabú, passaram a ver aquele animal de uma outra maneira. Ela não era um monstro que matava a sangue frio apenas por prazer, mas para se alimentar e alimentar seu filhote.
Ceci se ajoelhou ao lado dela e Eva e Sabú fizeram o mesmo. Os olhos da leoa pareciam pedir ajuda. O sofrimento era visível. O tiro pegou em sua barriga e ela perdeu muito sangue, além da bala ter feito um buraco enorme, que já começava a atrair moscas. Eles ficaram ali, ao lado dela por alguns minutos, quando finalmente ela parou de respirar e sofrer. Os três não conseguiram segurar o choro. Tinha sido muito triste ver aquele animal lindo, enorme sofrendo daquela maneira. Sabú disse:
- Eu não quero ver o couro dela na nossa sala.
As duas concordaram. Algum tempo depois eles lembraram do filhote e tentam pegá-lo. A princípio ele resistiu, era arisco, mas ao final como todo filhote ele queria brincar - O que eles fariam com aquele bicho?
Eva estava decidida, eles o criariam.
Levaram o animal com eles e em um local mais próximo de casa, resolveram acomodá-lo. Para que ele não fugisse decidiram que a princípio o amarrariam.
Todos os dias eles levavam comida para Katze, o nome dado a ele por Eva. Levavam leite e ele bebia litros. Quando estavam lá o soltavam e ele corria atrás deles, era amável, gostava de roçar nas pernas das crianças, de afagos, de simular ataques, mas toda vez que eles saíam o animal ficava triste e parecia chorar.
Eva pensava no dia em que levaria ele para sua casa. Ele era inofensivo, não fazia mal a ninguém e ela faria o maior sucesso na vila, tendo um Leão Baio como animal de estimação. Eles criavam Katze em segredo, nem tia Matilda, nem tio Albert desconfiavam de nada.
Certo dia foram encontrar Katze, mas a corda com a qual eles amarravam o bicho estava roída. Ele tinha crescido nos últimos meses, estava mais forte e com dentes afiados. Mesmo não estando amarrado, quando viu os amigos ele veio até eles. Brincaram e deram comida, mas dessa vez Katze não tinha dado muita atenção ao leite.
Assim se passou o tempo. Eles indo visitar Katze e ele aparecendo. Só que um dia, o contrário também aconteceu. Era ainda de manhã quando Katze apareceu no terreiro da casa, quase matando Tia Matilda do coração. Ela estava alimentando as galinhas quando o animal apareceu, andando tranquilamente. Sabú que estava por perto tentou acalmá-la, mas ela sem querer saber de conversa pegou o indiozinho no colo e saiu correndo cozinha adentro em busca da espingarda. Ceci e Eva chegaram a tempo de evitar que a tia atirasse nele.
Eles começaram a explicar que conheciam Katze, que tinham o criado e que ele jamais faria mal a alguém. Tio Albert entrou nervoso por uma das janelas da casa, branco como uma folha de papel, dizendo que tinha um Leão Baio deitado na frente da porta. Eva não conseguiu segurar o riso, mas foi repreendida por tia Matilda.
Matilda e Albert resistiram muito mas por fim, resolveram que iam tentar ver se o animal era mesmo tão dócil quanto as crianças falavam e os cinco saíram. Primeiro Eva... chamando o bicho como se ele fosse um gatinho “Katze, Katze, Katze, Katze, Katze” e ele atendeu ao chamado, vindo até a menina e lambendo sua mão. Albert ficou boquiaberto. Enrolava os bigodes e dizia que aquilo não era possível. Depois foram Ceci e Sabú, que rolaram pelo terreiro com o bicho. Matilda meio a contragosto e praticamente obrigada por Sabú passou a mão no animal. Albert apenas observou e soube naquele momento que aquilo ainda lhe traria problemas.
Albert mandou que as crianças levassem o bicho para o meio do mato. Elas o levaram, mas no dia seguinte ele aparece novamente e matou uma das galinhas de Tia Matilda. As crianças disseram que ele foi apenas brincar, mas Tio Albert disse que não tinha como ele fugir de suas origens. Ele era um animal selvagem e o instinto dele o faria matar, não por maldade, mas para conseguir alimento.
No dia seguinte as crianças foram acordadas por uma discussão entre os tios, Levantaram assustadas pois aquilo não era comum. Ao chegarem à cozinha encontraram tio Albert com a espingarda em punho e tia Matilda tentando impedir que ele saísse. Eva disse:
- O que houve? O que houve?”
Tio Albert respondeu:
-  O que houve? O seu gatinho matou um bezerro e agora eu vou dar cabo nele.
 Sabú e Ceci se jogaram aos pés de Albert implorando para ele não fizesse nada com Katze. Matilda disse que precisavam conversar, antes de qualquer coisa. Foi nesse momento que ouviram muitos barulhos vindos da ramada. Correram para ver e Katze estava atacando uma vaca, que por ser bem grande tentava se defender. Tio Albert deu um tiro para cima para espantar o bicho, fazendo ele ficar longe da vaca para facilitar a mira. Quando tinha o bicho na mira de sua arma, Eva se colocou na frente do animal e o abraçou, assim impedindo que o tio o matasse. Ceci e Sabú também foram para perto de Katze e pediram para que Albert não atirasse. Matilda abaixou a arma de Albert que enrolou os bigodes e falou:
- Tirem esse bicho daqui, senão vou matá-lo.
Os três pegaram Katze e o levaram para o meio do mato, o mais longe possível. Andaram por horas e disseram para o bicho ficar lá, mas não adiantou, eles o deixavam e ele os seguia. Eva foi conversar com o bicho, chorando, pedindo para que ele não os seguisse, pois seria morto por Tio Albert. Todos choravam e tentavam explicar a Katze o que estava acontecendo. Se despediram, mas não adiantava, Katze os seguia. Uma, duas, três vezes, até que Ceci pegou uma pedra e jogou no animal. Eva ficou brava com a amiga mas Ceci disse:
- É o único jeito.
Andaram mais um pouco e quando ele insistiu novamente em segui-los, Ceci jogou outra pedra que o acertou bem na cabeça, Ceci chorava e gritava:
- Vá embora, a gente não te quer mais.
Sabú e Eva entre lágrimas também gritavam para ele ir embora e jogavam pedras, para o assustá-lo. Deu para perceber no seu olhar que ele não estava entendendo nada, mas o fato é que não voltou mais atrás deles.
Quando chegaram em casa estavam muito tristes, mas entendendo os motivos de Albert, não ficaram bravos com o tio. Os tios conversaram explicando que era o instinto dele, mas apesar de entenderem estavam muito tristes por ter perdido o amigo.
Apesar de o tempo estar passando eles sempre olhavam para a mata e se pegavam pensando: “O que será que Katze está fazendo agora”, “Será que ele está bem?”...
As crianças andavam tristes e Albert resolveu fazer algo para alegrá-las. Convidou-as para irem com ele até a Lomba Alta. Ele levaria uma carga de mandioca e traria farinha de milho. Elas adoraram a ideia e subiram no carroção faceiras. Iam seguindo a viagem quando viram um homem caído, muito machucado, na beira da estrada. Tio Albert parou a carroça e pediu para as crianças aguardarem, enquanto ele ia ver o que tinha acontecido.
O homem havia sido espancado e mal conseguia falar. Ele disse que o assaltaram, levaram sua carga de sal, seu dinheiro e além disso bateram para matá-lo, só pararam quando ouviram o barulho do carroção de Albert se aproximando. O homem começou a tossir sangue e Albert percebeu que precisava fazer alguma coisa. Desatrelou um dos cavalos da carroça e avisou que teria que levar o homem até o Barracão. Pediu para que as crianças se escondessem no mato e esperassem ele voltar. Antes de sair olhou para Eva e disse:
- Minha filha, sem nenhum ato heroico, por favor.
Tio Albert colocou o homem desacordado no cavalo, montou e o mais rápido que o cavalo aguentava com dois em cima, fez o bicho andar.
Eva, Ceci e Sabú se esconderam no mato. Alguns minutos depois, ouviram vozes do outro lado da estrada, também saindo do mato.
 - Vamos Frederico, eles já se foram, apure!
E então eles tiraram uma carroça cheia de sal do meio do mato, mas antes de seguir seu destino Frederico falou:
- Meu irmão, hoje é mesmo nosso dia de sorte, olhe bem, uma carga prontinha de mandioca, vamos levar também.
Ao ouvir isso Eva se alvoroçou, mas antes de partir em direção dos bandidos, Ceci a segurou pelo braço e disse:
- Sem atos heróicos, por favor.
Eva se conteve, mas o barulho no mato chamou a atenção dos bandidos. E eles falaram:
- Acho que tem alguém aí, alguém que quer morrer!
Os homens foram em direção do esconderijo de Sabú. Percebendo isso, Ceci levantou e acertou uma pedrada na cabeça de um dos bandidos, que caiu. O outro gritou:
- Ahh sua bugrinha infeliz, agora eu vou te furar de bala.
Ele atirou contra Ceci que saiu correndo em direção ao mato, seguida por Eva e Sabú. Nesse meio tempo o bandido atingido pela pedrada também se levantou e partiu atrás das crianças.
Eles correram, com os bandidos em seu encalço. Correram o mais rápido que puderam, mas os bandidos também eram rápidos. Eva gritou para que se separem e Ceci mudou de direção, levando consigo o bandido que a perseguia, enquanto Eva e Sabú acabam encurralados. Eles estavam cercados por um paredão de pedras e uma folhagem fechada que impedia que eles corressem, então se viraram para o bandido que disse, arrumando a munição em sua arma:
- Façam seus últimos pedidos, pestinhas, porque agora vocês vão morrer.
O homem apontou a arma para as crianças. Eva não conseguia pensar em nada, abraçou Sabú e quando ele mirou nos dois, Katze pulou de cima de uma árvore no bandido. Com suas garras, deu uma patada no pescoço do bandido que começou a sangrar. Katze olhou para Eva e Sabú, enquanto eles surpresos pensavam que não poderiam ter encontrado o grande amigo em melhor hora. Ouviram um grito de Ceci e Katze saiu em disparada pelo meio da mata. Pouco tempo depois se ouviu disparos e gritos desesperados.
Eva estava tentando estancar o sangue do bandido quando Albert começou a gritar seu nome. Sabú que tinha saído em busca da irmã encontrou também Albert e os levou até Eva. O homem estava esvaindo em sangue e Albert trocou de lugar com a sobrinha. Eva perguntou a Ceci por Katze e ela contou que o homem tentou atirar contra ele, mas errou os disparos saindo correndo pela mata, desesperado com Katze o perseguindo. Tio Albert falou que não tinha jeito, o homem havia morrido e ele o carregou até a carroça. Na estrada, já havia parado outro carroceiro, que havia ouvido os tiros e resolveu parar para ajudar. Enquanto Albert contava a história para o carroceiro, Katze apareceu no meio da estrada. O carroceiro rapidamente pegou a sua espingarda, mas Albert com a mão mandou que ele a guardasse.
Eva, Ceci e Sabú, foram até o amigo que estava sujo de sangue. Katze os lambeu, e eles brincaram com ele. O carroceiro não acreditava no que estava vendo.
As crianças abraçaram Katze e ele dando uma última lambida em cada amigo, se enfiou novamente na mata.
As crianças não sabiam, se um dia voltariam a vê-lo, mas certamente todos tinham uma grande dívida de gratidão com ele.







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