terça-feira, agosto 20, 2013

Jogos para colorir

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quinta-feira, agosto 15, 2013

Memórias de Cesário Alípio Netto - EM PROSA E VERSO

Izabela, a Vó Belinha, e os
14 filhos, 7 de setembro de 2005
Se estivesse vivo, Cesário Alípio Netto comemoraria 100 anos neste 15 de agosto de 2013. Membro da tradicional Família Netto, pioneira na colonização de Santa Catarina, Cesário nasceu na localidade de Santa Tereza, em Petrolândia, no Alto Vale do Itajaí, e faleceu em 19 de março de 1992, em Alfredo Wagner, meses antes de completar 79 anos – 54 dos quais ao lado de Izabela Paulino Netto, natural de Indaial, com quem casou em 2 de julho de 1938 e teve 14 filhos.
Filho de Apolonio Henrique Néto e Maria José Néto (conforme grafia da Certidão de Casamento), Cesário deixou um amplo legado às gerações seguintes, não só como patriarca deste ramo da tradicional Família Netto – através dos bons exemplos de homem honrado, solidário e trabalhador –, como também pela herança cultural, por meio de manuscritos, em prosa e verso, que resultaram na edição do livro póstumo “Rancho da Alegria e Solidão”.
Num dos textos, Cesário escreve sobre o nascimento e infância: 
“Em 1913, a 15 de agosto, dia santificado a ascensão de Nossa Senhora, minha certidão de batismo confirma que foi o dia do meu nascimento. Pelo horóscopo do santo dia, o meu nome deveria ser Alípio, mas pelo dever dos filhos e respeito de meus queridos pais, assinalaram por nome primeiro de Cesario por parte de meu avô paterno, e ficando Alipio Netto por assinatura. (...)
“Com idade de 4 a 15 meses, diziam minhas tias, 1º tia Marta, que eu mamei em vosso peito por falta de leite de minha mãe, e por 2º a minha tia Vicentina, ainda solteira que por ver meu sofrimento, que eu era uma criança doente e sem esperança de ver, a minha vida parecia muito curta. Levaram-me para casa de meus avós, para tentar me criar. (...) Com a idade de 5 anos, fiquei definitivo com meus avós (...)”.
Desde muito cedo dedicado ao trabalho, Cesário foi padeiro, seleiro, lavrador e, logo ao casar, necessitando compor o orçamento doméstico, caçou borboletas... A vida em comum com Izabela foi iniciada em Petrolândia e, sempre marcada com muito trabalho, registra passagens em diferentes comunidades e Municípios de Santa Catarina, onde nasceram seus 14 filhos.
O mais velho, Augustinho nasceu em Petrolândia, em 8 de abril de 1939. Casado com Tercília, tem 2 filhas e 4 netos, e mora em Palhoça.
Maria Luísa também nasceu em Petrolândia, em 13 de novembro de 1940, e é casada com José Carlos, com quem tem 2 filhos e 4 netos. Reside em São José.
Osmair nasceu em Piúrras, em 24 de fevereiro de 1942 e, casado com Marlene, tem 4 filhos, 8 netos e 3 bisnetos. Mora em Lomba Alta.
Marly nasceu no Pinguerito, em 6 de julho de 1943. Casada com Gentil, tem 5 filhos, 15 netos e 2 bisnetos. Mora em Bom Retiro.
Cesarinho nasceu em Petrolândia, em 1º de julho de 1944. Casado em segundas núpcias com Vânia, mora em São Paulo. Teve 5 filhos com a primeira esposa Iolanda, 10 netos e 3 bisnetos.
Marlene nasceu em Petrolândia, em 24 de junho de 1945. Casada com Sidney, tem 3 filhos e 3 netos, e mora em Alfredo Wagner.
Flora nasceu em Piúrras, em 26 de dezembro de 1952. Viúva de Jordão, tem 2 filhos e 1 neto. Em segunda núpcias com Adriano, mora na Praia do Sonho, em Palhoça.
Marízia nasceu em Petrolândia, em 4 de janeiro de 1947. Casada com Jaime, tem 4 filhos, 6 netos, e mora em Alfredo Wagner.
Joãozinho nasceu em 1º de janeiro de 1948, em Petrolândia, e é falecido.
Felícia nasceu em Piúrras, em 13 de maio de 1951. Viúva de Francisco, tem 3 filhas e 2 netos. Em um relacionamento com Antonio, Mora em Santos, São Paulo.
Elisabete nasceu em Ituporanga, em 4 de novembro de 1956. Casada com Aldonir, tem 1 filho e mora em Alfredo Wagner.
Juscelino nasceu em Bom Retiro, em 10 de junho de 1954. Casado com Berenice, tem 3 filhos e mora em Balneário Camboriú.
Vera nasceu em Ituporanga, em 5 de maio de 1959. Casada em segundas núpcias com Caxá, mora em São Paulo. Do primeiro casamento com Orestes, tem 2 filhos e 1 neto.
Sandra nasceu na Catuíra, em 10 de dezembro de 1961, e mora em Santos, São Paulo. É casada com Luiz Carlos.
Clarete nasceu na Catuíra, em 4 de dezembro de 1963. Casada com Marcos Antonio, tem 3 filhos, e mora em São José.
Depois que a maioria casou, Cesário e Izabela com as três filhas mais novas, Vera, Sandra e Clarete, foram morar em Itapevi, na Grande São Paulo. Mas Cesário não se adaptou e a família voltou para Santa Catarina, exatamente para Alfredo Wagner.
Após a morte de Cesário, Izabela, a Vó Belinha, permaneceu residindo no Município e, desde então, seu aniversário em 7 de setembro tornou-se o evento mais importante da família: um encontro fraterno durante 3, 4 dias, com muita festa ao lado dos filhos e familiares. Nos últimos anos, essa era a principal preocupação de Izabela: recepcionar os filhos com alegria e amor.
Vó Belinha faleceu aos 91 anos, em 30 março em 2012, deixando 14 filhos, 39 netos, 54 bisnetos e 7 tataranetos.
Hoje, a Família sente a imensa falta do amor incondicional de ambos, sempre lembrando e seguindo os bons exemplos, passando os ensinamentos às gerações que se sucedem.
Os manuscritos deixados por Cesário foram feitos em diferentes épocas, sobretudo no período em que se isolou no sítio em Santo Amaro da Imperatriz, apelidado por ele “Rancho da Alegria e Solidão”.
Izabela guardou e conservou os textos originais e revelou que ele tinha o desejo de escrever um livro para que os descendentes conhecessem um pouco seu modo de vida. Assim, confiou os originais à filha Sandra e, em setembro de 2007, o livro “Rancho da Alegria e Solidão” foi revelado e um exemplar entregue a cada filho, na festa de seu 87º aniversário.
No livro, Sandra registra agradecimentos:
“Obrigado Pai, pela oportunidade de resgatar sua prosa e verso e revelá-los ao mundo, especialmente a nossa Família.
Obrigado Mãe, por ter guardado este tesouro.
Obrigado Irmãs e Irmãos, leiam e transmitam os ensinamentos contidos nas páginas seguintes.
Obrigado aos demais membros da Família, pois a certeza de que continuamos a crescer é que me animou e ao Luiz a fazermos esforços para viabilizar esta publicação”.
Na abertura do livro, Sandra destacou a singela união dos pais:
“Cesário Alípio Netto e Izabela se casaram em 2 de julho de 1938. Ficaram casados por 54 anos. “Sou um homem rico de filhos”, dizia Cesário, com o orgulho de um pai de 14 filhos.
Seus valores eram baseados em honestidade, bondade e simplicidade. Via a importância das atitudes das pessoas em relação a tudo como “princípios”, termo que sempre esteve no contexto de suas observações.
Homem de pouca fala, costumava dizer: “Quem muito fala dá bom dia aos cavalos”. Quando era consultado a dar sua opinião, fazia-se entender.
Tratava o dinheiro com respeito, mas não era apegado a bens materiais. Sempre gostou de fazer negócio com propriedades e agricultura.
Sabia da importância dos detalhes em casa com a comida, a limpeza, os trabalhos domésticos. Interagia na cozinha, gostava de comer nos horários certos e se recolhia na mesma hora para descansar.
Na lavoura era muito caprichoso e seus empregados faziam seu trabalho tranquilos e recebiam casa, comida e roupa lavada. Eram tratados pelo nome, sem distinção de cor, raça, religião. Era um homem sem preconceito e bom parceiro de viagem.
No Natal e no seu aniversário gostava de receber hóspedes em casa, principalmente, os parentes e os filhos, que iam morar fora depois de casados”.
O prefácio do livro foi escrito pelo genro Luiz Carlos e projeta a dimensão da obra de Cesário:
“Diz o ditado que o homem para tornar-se completo deverá em sua existência fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. O sr. Cesário Alípio Netto, carinhosamente Zalico, fez muito mais que um filho. Fez 14. Árvore também não foi apenas uma que plantou. Com certeza foram milhares, de várias espécies, nos diversos solos por onde andou. Livro, contudo, não chegou a vê-lo pronto em seus 79 anos de vida – muito embora, ao longo desses anos, sempre tenha escrito em verso e prosa.
Este livro, assim, apenas faz Justiça ao completar a obra de um homem que hoje continua sendo motivo de orgulho de uma grande família, das mais tradicionais de Santa Catarina – e da qual muito me orgulha integrar. Um homem que passou a vida semeando e plantou uma frondosa árvore, de cujos galhos brotam maravilhosos frutos.
Todos esses frutos, digo, todos os membros desta família de alguma forma fazem parte das histórias contadas nas páginas que se seguem. Conhecer o legado intelectual deste homem é conhecer um pouco mais sobre si mesmo. Louvar os antepassados, dizem os sábios, equivale a regar a árvore que gerou o nosso ser. Fortalecê-la, portanto, nos fortalece ainda mais”.
Ao preparar os textos originais, a neta Flávia deixou registrado no posfácio do livro:
“Foi com grande prazer que recebi o trabalho de digitar os manuscritos de Cesário Alípio Netto. Embora não o tenha conhecido pessoalmente, sua história está, de certa maneira, ligada a minha, e recuperá-la foi parte de um importante processo de aprendizado.
Cesário mostra nestas páginas um pequeno trecho de sua vida com uma sinceridade muitas vezes desconcertante, traduzindo seu universo, tão distante e ao mesmo tempo tão próximo de nós, em palavras e versos ora divertidos e zombeteiros, ora cortantes e angustiados, onde a alegria e a solidão, conceitos aparentemente excludentes, caminham juntos, necessários um ao outro.
No decorrer do trabalho, fui aos poucos me emocionando com a história de Cesário, suas dúvidas, suas certezas, seus momentos de alegria e de arrependimento. Cesário não se acostumou com a vida moderna, e esse conflito é um dos principais pontos de seus poemas, onde ele mostra através da escrita o desejo de voltar às raízes e de recuperar o passado, mencionando muitas vezes uma tradição, como se escrever fosse antes de tudo uma necessidade.
Além de qualquer mérito literário, a escrita de Cesário é um documento pessoal que por vezes emociona e por outras faz refletir, um recorte da vida de um homem que através de versos simples e despretensiosos tem, com certeza, muito a ensinar”.

Certidão do casamento entre Cezario Alipio Néto (embora a grafia na carteira de identidade seja Cesario Alipio Netto) e Izabela Paulino, que passou a assinar Izabela Paulino Néto, conforme a grafia do documento registrado no Município de Petrolândia, em 2 de julho de 1938. Néto ou Netto, hoje todos os filhos e demais descendentes adotam Netto.
Nascido em 15 de agosto de 1913, em Santa Tereza, Petrolândia, o lavrador Zalico estava então com 25 anos. Filho de Apolonio Henrique Netto e Maria José Netto.
No documento, o nascimento de Belinha consta como sendo no dia 3 de setembro de 1920, em Indayal (iria completar 18 anos), embora seu aniversário seja sempre festejado no dia 7 de setembro. Filha de Domingos Paulino e de Cipriana Paulino.


Legendas das fotos:

Foto 02
Julho de 1963 - Festa das Bodas de Prata do casal Cesário e Izabela – Riozinho

Foto 03
2/07/88 – Cerimônia Bodas de Ouro do casal Cesário e Izabela

Foto 04
Folha escrita por Cesário: memórias em prosa e verso

Foto 05

Capa do livro “Rancho da Alegria e Solidão”

quarta-feira, agosto 14, 2013

quinta-feira, agosto 08, 2013

Personalidades: José Lino de Mello – Zé Gonga

Por Carol Pereira
Sandra Regina de Mello
Data de nascimento: 21 de Maio de 1932
Data de falecimento: 11 de julho de 1996

Como já dizia o grande Amós Oz: “A gente vive até o dia em que morre a última pessoa que lembra de nós.” Sendo assim, meu avô permanece vivo dentro do coração de todos que o amaram. Pode ser um filho, um neto, um bisneto ou um admirador, mas viveremos através da lembrança dele. Só quando essa pessoa morrer, a última que ainda lembra de nós é que morreremos em definitivo, para sempre. Estaremos tão mortos como se nunca tivéssemos existido.
José Lino de Mello, o Zé Gonga ou simplesmente meu vô Zé, durante muitos anos foi meu primeiro pai, meu primeiro amigo, meu mestre, incentivador, inspirador, meu grande herói e a fonte de muitas de minhas alegrias.
Convivi com o vô Zé por apenas 9 anos, mas muito do que sou hoje devo à ele. Foi ele quem me ensinou matemática, quem me contou tudo sobre os bugres que habitavam nossa cidade, me fez dirigir a pick up amarela em seu colo até o sítio da Água Fria (Pedra Branca), deixou eu esconder minha cabeça dentro de sua jaqueta na hora da cobrança do Baggio na final da copa do mundo de 1994 e me deu um abraço apertado na hora da vitória, além de fazer eu me apaixonar por viagens. Contou-me tudo sobre as tradições do nordeste, as dificuldades de se dirigir por Minas Gerais e também sobre o quão surreal era a cidade do Rio de Janeiro e a vista tida de cima do Corcovado. Desde a mais tenra idade eu fui incentivada por ele a conhecer o mundo.
Na condição de neta preferida (sim, sou eu) contarei à vocês sobre esse homem, que foi um dos pioneiros nos transportes realizados com caminhões em nossa cidade. Farei uso para isso, de um texto escrito por minha mãe, que como todos sabem é metida a poeta, logo, não reparem na forma romantizada da qual ela faz uso em certos trechos.
“A história de vida de José Lino de Mello, como a história de todos, teve início bem antes dele nascer. Ele é descende dos primeiros moradores da Pedra Branca, comunidade próxima a Lomba Alta, lugar alto e frio, mas com uma paisagem esplendorosa.
Vó Lalica, sua mãe morava por lá em um terreno com casa e muita terra a ser cultivada. Ela com 30 anos de idade ficou viúva, com 4 filhos para criar. As condições financeiras da família não era das melhores, pior que isso, era preocupante... e o pai de Lauricia achou que ela deveria se casar novamente com um homem que recentemente também tinha enviuvado. E assim se fez! Ela casou-se e a família continuou a crescer.
Foi no mês de maio, exatamente aos vinte e um dias, ao entardecer de um dia de sol sem nuvens, com um clima bastante agradável que Dona Laricia Kalkmamm, mulher de Manoel de Mello – um descendente de açorianos - deitada  em roupas de cama simples, em um colchão de palha batida, começou a sentir as primeiras dores. Seu marido calçou as botas, deu uma volta ao redor da casa, pegou os arreios, encilhou o cavalo e aos galopes pegou o trilho que o levaria em busca da parteira, que morava na comunidade de Lomba Alta.
Lauricia escutava ainda a marcha rápida do cavalo em cima das touceiras de capim descendo o morro em busca de ajuda, quando as contrações começaram a ficar muito fortes e José veio ao mundo sozinho e com sua mãe. Quando Manoel retornou encontrou a mulher e o filho, já nascido, logo a parteira arregaçou as mangas para atender o bebe.
Um belo menino chegara: bochechas vermelhas, boquinha rosada e olhos bem azuis parecendo o céu. Assim chegou José Lino de Mello ao mundo de forma independente, o que mais tarde seria um ponto alto em sua personalidade, não esperava por ninguém, o que tinha que fazer era feito, sem ter que necessitar de ninguém.
Cresceu ali naquela mesma casa, com seus irmãos e desde menino já mostrava características de uma criança, forte, corajosa, que não pestanejava e fazia frente a todos os obstáculos que apareciam...
Para estudar tinha que andar uns 3 km no meio do mato por uma trilha. José tirava o calçado, colocava dentro de uma bolsa plástica, arregaçava suas calças bem até em cima para não molhar e pisava na geada branquinha que dava estalinhos com o solado de seus pés, andava, e dizia ele que repetia a tabuada até chegar na escola, pois a professora queria tudo na ponta da língua. No caminho tinha um córrego com o nome de Cocho d’água, ás vezes chegava ali e tinha que voltar pois estava cheio e não conseguia passar, outras vezes atravessava mas molhava as calças mesmo arregaçadas. Ia para escola assim mesmo.
José fez este trajeto todos os dias até o terceiro ano das séries iniciais, pois logo teve que parar de estudar para poder ajudar a família na lavoura, a mãe Lauricia tinha ficado viúva pela segunda vez. Ele dizia que foram 3 anos muito dedicados ao estudo, o que valeu por todos os outros que ele perdeu.
Muitas coisas aconteceram e o tempo foi passando; José trabalhou muito, cresceu, tornou-se homem forte e garboso, alto, olhos azuis, cabelos escuros, porte físico bastante interessante - contam as pessoas que o conheceram, principalmente as mulheres, que quando o viam montado em seu cavalo branco, de terno e gravata - que era como se vestiam os moços da época - pra ir ás missas, na igrejinha da Lomba Alta. As vezes passava a tarde por ali, ele e seus irmãos também moços, jogavam futebol ou iam às domingueiras no Barracão. Essas domingueiras eram os lugares onde os namorados se encontravam para conversar. Ele e seus irmãos não perdiam nenhuma e José namorou muitas moças de Lomba Alta e também do Barracão. (Neste tempo José e sua mãe já eram donos de terras no Barracão, na Rua Águas Frias)
Alguns acontecimentos bastante tristes abalaram seu ritmo de vida. Numa destas tardes de domingo vinham ele em cima de um caminhão, voltando para casa juntamente com seu irmão Alfeu; Este discutiu com outro moço, que lhe deu um soco. Ele caiu do carroceria do caminhão e bateu a cabeça em uma das muitas pedras que haviam pelo caminho. José ficou desesperado; Seu irmão faleceu horas depois em casa, nos braços de sua mãe.
Como se isso não bastasse, seu outro irmão, também moço e companheiro de festas - que já não eram mais tantas, desde a morte de Alfeu – também morreu. O inesperado, quase impossível aconteceu... morreu caindo do degrau da porta de um caminhão em movimento e acabou sendo atropelado pelo mesmo. José sentia mais uma vez a dor de perder um ente querido e a tristeza tomou conta do sítio da Pedra Branca. Escureceram-se os dias de sol e uma nuvem escura se apossou de suas vidas.
Sem outra solução, a família se despediu do sítio e das terras onde tanto plantaram juntos; mudaram-se para o Barracão, deixando para trás um rastro de tristeza sem fim. Eles não conseguiram mais viver no sítio com a constante lembrança dos moços que os deixaram cedo demais.
Com a mudança, José não teve dúvidas, iria dirigir um caminhão. Comprou um FNM e virou caminhoneiro, deixando a agricultura e o cabo da enxada e da foice pela boleia de um caminhão, para percorrer pelas poeirentas estradas onde fazia fretes e entregava mercadorias de uma cidade para outra, levando em seu coração a saudade da terra onde nasceu.
Em um daqueles famosos carnavais que aconteciam no antigo cinema, conheceu Nely Walter, moça bonita, cheia de encantos e tida por muitos como uma das mais belas moças do antigo Barracão. - Diziam que o Zé Walter, pai de Nely, podia ser feio, mas sabia fazer filhas lindas. Ela era apenas uma menina, com 14 anos, mas ele se apaixonou perdidamente e iniciaram o namoro. Algum tempo depois ele a roubou da casa dos pais e se casaram.
Quando Nely tinha 17 anos o casal teve seu primeiro filho, que se chamou Alfeu em homenagem ao querido irmão que José perdera. José ficou muito faceiro e orgulhoso, quando chegou de uma viagem e o bebê tinha recém-nascido.
A vida ia bem e José agora já tinha um caminhão novinho em folha. Grande parte dos homens da família eram caminhoneiros - seu irmão Gentilino, os dois filhos dele, Albonir e José Farias (Zéquinha), Edgar Wagner e Hilmar Wagner, filhos de sua irmã Verginia. Todos moravam em Alfredo Wagner, todos eram casados e viajavam por meses corridos, deixando suas esposas e filhos. O tio Zé era o mais “safado”, diziam os amigos, e contavam muitos casos quando se reuniam para conversar.
Tio Zé voltou a ser feliz e festeiro esqueceu um pouco das fortes dores que a vida havia reservado a ele no passado.
Torcedor do Vasco – “preciso intervir nessa parte do texto de minha mãe... ela deve ter ficado maluca, pois foi ele quem me ensinou a torcer pelo melhor time do mundo, o Corinthians” – quando estava na cidade era só festa no Bar do seu Talico. Participava de todas as festa da igreja. Foi ele, juntamente com seu irmão Gentil,  que doou o São Cristovão padroeiro dos motoristas a igreja e sempre fazia a frente com o santo em cima de seu caminhão no dia da benção dos carros na Festa em honra ao santo.
José teve ainda mais quatro filhos – um menino chamado Aldenir, uma menina chamada Sandra e as gêmeas Adriana e Andréia (in memoriam). Quando os garotos terminaram os estudos em Alfredo Wagner, José fez com que eles fossem estudar fora, em Lages e em Florianópolis. Porém ambos foram fanfarrões e não corresponderam aos investimentos do pai.
Veio a doença e José se viu impossibilitado de continuar com a profissão de caminhoneiro. Passou então a se dedicar apenas ao Sítio da Pedra Branca. O padrão de vida caiu bastante, mas ele nunca pensava em se desfazer de suas terras, que não eram poucas. Sempre dizia que queria deixar alguma coisa aos netos.
A asma passou a ser sua mais frequente companheira e qualquer esforço físico desencadeava uma crise de tosse que parecia sem fim.
Mas ele revivia os dias de alegria e de viagens em seu caminhão contando as histórias aos filhos, amigos e mais tarde aos netos que passaram a amar  o vô Zé com todas a forças.
Em uma manhã fria de julho o seu Zé Gonga partiu, deixando uma saudade imensa nos corações de todos que o amaram.”
Jamais esquecerei daquela manhã, muito menos do último olhar que meu vô me lançou. A dor de perder meu melhor amigo, meu porto seguro, marcou fortemente minha vida.
Sempre que ouço o poema de Casimiro de Abreu – Meus Oito anos - me recordo de uma tarde em que o vô Zé estava me ajudando a fazer os deveres e me ajudou a decora-lo. Hoje sempre que o recito me vem a memória aquela cena, e ao mesmo tempo em que a saudade faz meus olhos se encherem d’agua meu coração fica acalentado, como se meu vô tivesse ao meu lado, segurando minha mão. Fico feliz, por ter tido a oportunidade de ter convivido com ele – mesmo que por pouco tempo – e por ter seus exemplos e ensinamentos sempre presentes em minha vida.

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!

quarta-feira, agosto 07, 2013

Personalidades: Raulino Zilli

Por: Paulo Zilli Jr.
Data de nascimento: 22 de agosto de 1931
Data de falecimento: 28 de novembro de 2012


    Primeiramente fiquei muito feliz de prestar esta homenagem a um grande homem, Raulino Zilli meu avô paterno, e contribuir com algumas palavras para que muitos venham a conhecer a passagem desta figura notável que nasceu em Alfredo Wagner e nos deixou a menos de um ano em Campinas – São José .
    Raulino Zilli nasceu no dia 22 de agosto de 1931, era filho de João Zilli (Giovanni) e Antônia Martignago, filhos de  italianos.  Teve 4 irmãos, José Zilli (1912),  Assivio Zilli ( 1921 – 1923) Adelina Zilli ( 1926) e Olíbio Zilli (1933).
     Quando novo, trabalhou na roça como qualquer criança daquela época, ajudando na subsistência da família . Estudou pouco, fez até a quarta série do primário. Na década de 30, Raulino conheceu sua futura esposa, a Sra. Zulma Freitas, filha de José João Freitas e Hortência Aniceta da Cunha, no colégio que frequentavam em Alfredo Wagner.
    Com o passar dos tempos, a brincadeira dos tempos de escola se transforma em realidade; Raulino Zilli, com dezoito(18) anos  e Zulma Freitas, com quinze (15) anos, casaram no dia 12/11/1949.  Deste casamento nasceram oito filhos,  seis homens e duas mulheres. São eles:  Antônio Valsonir Zilli (1950), José Valdecir Zilli (1951), João Adelecir Zilli (1953), Pedro Joceli Zilli (1955), Paulo Valdemar Zilli ( 1957), Suely Terezinha Zilli (1960),  Luiz Alberto Zilli (1963 – 2004) e Antônia Zilli (1967).
     Após o casamento ocorre um dos momento mais difíceis da vida do casal. Raulino alista-se no exército indo fazer teste em Joinville, dizia ele” Levamos quatro (4) dias de Alfredo Wagner até Joinville, a estrada era de barro e o caminho foi muito longo em cima de uma caminhão de pau de arara”. No mesmo ano foi chamado para servir a pátria no Rio de janeiro em meados de 1950. No Rio de janeiro vivenciou a construção do estádio do Maracanã; sempre comentava em nossas conversas” Aquilo lá parecia um formigueiro, nunca vi tantas pessoas trabalhando em um local só”. Raulino ficou um ano e um mês no exército, perdendo até o nascimento do seu primeiro filho Antônio Valsonir Zilli. Nesta época, sua esposo Zulma morou com João Zilli e Antônia Martignago, seus sogros. Conta ela que foram momentos difíceis, desde a compreensão da língua italiana, até os afazeres domésticos, que a obrigavam a fazer mesmo grávida.
         Raulino não gostava de trabalhar na roça. Tentou seguir a profissão do seu pai que era feitor de ruas. Mais não deu muito certo, pois, o negócio dele era o ramo da construção civil. Então foi trabalhar com o irmão José Zilli que na época havia aberto uma firma de construção civil.
     Nas décadas seguintes, ajudou na construção da ponte do Rio Caeté, o hospital de Alfredo Wagner, o clube, a Igreja de Alfredo Wagner, Igreja da Lomba Alta, Igreja em Urubici, além de várias e várias casas nas redondezas de A.W. Sempre relatava que eram momentos difíceis, pois naquela época o frio era intenso. Falava sempre da região da serra e o frio que chegava a doer nos ossos, desde Alfredo Wagner até  Urubici. Relatou que chegou a trabalhar com neve caindo na década de 50 e 60. Um fato curioso que sempre contava, é que para amolecer a massa de cimento era obrigado a jogar água quente, pois a mesma estava congelada. Por causa desse frio, tinha lesões nos pulmões que o acompanharam até o final de sua vida.
    Na década de 70, mudou-se com a família para a região de São José, mais precisamente para o bairro Campinas. Nesta época, Raulino já tinha uma firma de construção civil onde todos os filhos trabalhavam com ele.  Fizeram muitas casas aos arredores de Campinas, Roçado, Kobrasol , centro da cidade etc.
    Na década de 80 alguns filhos saíram da firma e foram trabalhar por conta própria, ficando Raulino somente com seu filho João Adelecir Zilli.  Atuou na profissão até início da década de 1990, quando sofreu um infarto que o  inutilizou para o trabalho também perdeu 75 % da capacidade do  seu coração.
     Gostava muito de pássaros, por isso possuía um viveiro imenso local ao qual dedicava maior parte de seu tempo após a aposentadoria. Também gostava muito de cachorros, sempre tinha um para alegrar o ambiente.      
     Sempre foi muito participativo da igreja católica, em Alfredo Wagner  frequentavam missa todos os domingos  junto com sua família. O padre Cristóvão, que foi pároco da Igreja na década de 60 era frequentador de sua casa, podendo ser visto em várias fotos de família.  Esse costume ele trouxe para Campinas, sendo frequentador assíduo da igreja  . Quando podia, ajudava a paróquia. Alguns filhos seguiram seu caminho frequentando e participando ativamente de celebrar religiosas.
     Raulino era uma pessoa alegre e gostava de ajudar o próximo. Estava sempre sorrindo e dificilmente ficava irritado com alguma coisa. Todos os filhos tiveram uma educação muito boa e tornaram -se pessoas de bem.  Hoje, sete filhos continuam vivos. No ano de 2002, Luiz Alberto Zilli, filho homem mais novo, morreu em um acidente de moto, fato que deixou seus pais inconformados.
    Nos últimos anos, Raulino estava muito doente; devido ao problema de coração não podia se incomodar, e já não possuía mais a vitalidade que sempre teve. Sua maior ocupação era cuidar de sua esposa Zulma, que é diabética. Sempre foi zeloso, dedicado, amoroso,  preocupado, pontual.. e era assim sua relação com ela.  Um tombo no ano de 2012, afetou sua cabeça e ele começou a ficar esquecido, misturar as informações por isso passou a ter cuidados especiais de uma enfermeira. Engraçado é que sempre era alegre, mesmo quando resmungava, era hilário. Faleceu na manhã do dia 28 de novembro de 2012, em casa nos braços de um de seus filhos.  A família continua lembrando da pessoa que ele era, e todos, sem exceção, sentem muito a sua falta.


  
 Correções: Ana Paula Kretzer

quinta-feira, agosto 01, 2013

A bela Alfredo Wagner