Entre tombos e montanhas - Mont-Tremblant



Aqui no Canadá existe o famoso March Break, uma semana no início de março em que as escolas entram em recesso. É uma espécie de férias de julho em versão inverno rigoroso — com neve por todos os lados, casacos que parecem edredons ambulantes e famílias inteiras tentando aproveitar o pouco sol que aparece entre uma tempestade e outra. Este ano, resolvemos usar alguns desses dias para esquiar. Ou, mais especificamente no meu caso, para tentar não morrer em cima de dois pedaços de madeira escorregadios.


Porque existe uma ilusão coletiva entre nós, brasileiros, de que esquiar é simples. A gente cresce vendo filmes americanos e acredita sinceramente que basta colocar os esquis nos pés e sair deslizando montanha abaixo, sorrindo elegantemente enquanto a neve voa ao redor. Na prática, esquiar exige músculos, equilíbrio, coordenação motora, coragem e, principalmente, uma infância em algum lugar gelado — coisas que uma menina criada no interior de Santa Catarina definitivamente não teve.

Minha primeira experiência com esqui aconteceu em 2022. E honestamente? Foi tão traumática que quase adiou o casamento.


Quem teve a brilhante ideia de me levar foi o Rory, meu então noivo, cheio de confiança e boa vontade. O problema é que naquele dia descobrimos duas verdades importantes sobre o nosso relacionamento: eu não sabia esquiar… e ele definitivamente não sabia ensinar.

Fomos para uma montanha pequena, a uns trinta minutos de casa. Parecia inofensiva. Romântica até. Mas a combinação de temperatura de -26 graus, nenhuma instrução adequada e um canadense desesperado gritando “pizza!” e “french fries!” enquanto eu descia em completo estado de pânico produziu um cenário digno de documentário de sobrevivência.

Foram incontáveis tombos. Um joelho torcido. Uma hora e meia para descer uma pista que uma criança canadense de cinco anos faz em menos de três minutos. Em alguns momentos eu simplesmente esquecia como parar e aceitava o destino. Em outros, sentava na neve e considerava seriamente morar ali mesmo até o verão chegar.

No fim daquele dia, exausta, congelada e humilhada por dezenas de crianças que passavam por mim com absoluta elegância, fiz uma promessa solene: nunca mais colocaria meus pés em um par de esquis.

Mas o inverno canadense é longo. Longo num nível em que, depois de alguns meses vendo a própria respiração dentro do carro e vestindo quinze camadas de roupa para jogar o lixo fora, a pessoa entende que precisa desenvolver hobbies de inverno por pura sobrevivência emocional.

Foi assim que, este ano, descobrimos o curling — aquele esporte no gelo em que as pessoas parecem limpar freneticamente o chão enquanto uma pedra gigante desliza lentamente. Confesso que, no início, achei tudo muito estranho. Hoje acho apenas levemente estranho e perigosamente viciante. Mas o curling, apesar de divertido, não entrega exatamente adrenalina. É um esporte elegante, estratégico, quase silencioso. E aparentemente meu espírito brasileiro ainda precisava de algum caos controlado.

Então decidi que não desistiria do esqui depois de apenas uma tentativa traumática.

E também decidi outra coisa importante: talvez o problema não fosse comigo. Talvez fosse com o meu professor. O que, convenhamos, é sempre uma conclusão emocionalmente mais confortável. Mas, para minha surpresa, descobri que eu estava certa.

Resolvi fazer uma aula com um instrutor de verdade. Uma pessoa treinada. Paciente. Que não gritava “pizza!” e “french fries!” enquanto eu despencava montanha abaixo em estado de desespero absoluto. Além disso, a tia do Rory — uma esquiadora experiente dessas que deslizam na neve como se tivessem nascido dentro de um comercial suíço — começou a me levar para algumas noites na montanha, praticamente segurando minha mão nas descidas.

E foi incrível.

Pela primeira vez entendi que existe uma linha muito tênue entre o pânico e a diversão. E que, quando você aprende minimamente a parar e a não cair a cada sete segundos, esquiar pode até parecer bonito.

Ainda estou longe de ser uma atleta profissional. O Comitê Olímpico Brasileiro certamente pode dormir tranquilo porque não representarei o país nas próximas Olimpíadas de Inverno. Mas hoje consigo descer montanhas sem causar acidentes diplomáticos, já não aterrorizo crianças canadenses nas pistas iniciantes e começo a acreditar que talvez exista, escondida dentro de mim, uma pequena atleta de inverno em desenvolvimento.

Bem pequena. Mas promissora.

Foi nesse clima — entre a falsa confiança recém-adquirida e a vontade de me sentir uma personagem de filme de inverno — que fomos para Mont Tremblant, uma cidade linda, cercada por montanhas, neve e pessoas absurdamente confortáveis deslizando em esquis como se aquilo fosse tão natural quanto caminhar.

O lugar parece cenário montado pela Disney para convencer adultos cansados de que o inverno pode, sim, ser charmoso.

E não era a minha primeira vez lá.

Em 2021, eu já tinha passado um Dia dos Namorados em Tremblant, daqueles bem cinematográficos: lareira acesa, vinho, neve caindo do lado de fora e comidinhas especiais preparadas pelo Rory, que na época ainda era meu namorado e estava claramente empenhado em me convencer de que viver no Canadá era uma boa ideia.





Outra vez estive lá no verão, com um grupo de amigos, numa versão completamente diferente da cidade. Sem neve, sem casacos gigantes, sem risco de fraturas. Passei horas dançando “Waka Waka” em um clube como se estivesse numa festa universitária improvisada no meio das montanhas. E talvez fosse exatamente isso.


Mas ir para Tremblant exclusivamente para esquiar muda completamente a experiência.

Dessa vez ficamos em um hotel praticamente ao pé da montanha, daqueles em que você coloca as botas, abre a porta e já sai quase dentro da fila dos lifts. Era acordar, vestir toneladas de roupa, pegar os esquis e passar o dia inteiro subindo e descendo montanhas em trilhas de diferentes níveis — algumas tranquilas, outras claramente projetadas para testar a humildade humana.

E existe algo viciante naquela rotina gelada: o silêncio da neve, o barulho dos esquis deslizando, o frio queimando o rosto e a pequena sensação de vitória toda vez que você termina uma descida sem cair dramaticamente em público.



A comida, aliás, merece um capítulo próprio.

Os preços são um pouco salgados — ou talvez congelados, considerando o contexto canadense —, mas isso já era esperado em um lugar turístico como aquele. E sinceramente? Vale cada centavo.

Foi lá que provei o melhor Poutine da minha vida. Daqueles capazes de fazer qualquer preocupação desaparecer por alguns minutos entre batatas fritas, queijo derretido e molho quente. Também tomamos um vinho maravilhoso e experimentamos um raclette espetacular em um restaurante aconchegante, com fogo aceso no centro da mesa e cobertorzinhos distribuídos para aquecer turistas congelados e emocionalmente frágeis depois de um dia inteiro tentando sobreviver às pistas de esqui.

E talvez seja exatamente isso que torna lugares assim inesquecíveis: não é apenas a neve, o esporte ou as paisagens bonitas. É perceber que a vida adulta, às vezes, também nos oferece primeiras vezes. Novos medos. Novas quedas. Novas versões de nós mesmos. E, no meio de um inverno que parecia interminável, eu descobri algo curioso sobre felicidade: ela pode morar num prato de poutine, numa montanha gelada ou no exato instante em que a gente percebe que já não tem mais tanto medo de cair.





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