segunda-feira, agosto 15, 2016

Um pouco da Picadas - Entrevista Vanir Iung Weingartner

Dona Vanir Iung Weingartner nasceu em 17 de abril de 1935 e hoje, aos 81 anos, é uma das mais antigas moradoras da comunidade de Picadas, no interior de Alfredo Wagner/SC. Com uma lucidez de dar inveja a muitos, ela contou sobre como era a vida na antiga Picadas, sobre o dia-a-dia árduo do trabalho na roça e dos índios. Falou ainda sobre a culinária e festas tradicionais da comunidade.
           
Vanir, Arno e 7 dos seus 10 filhos Salete, Sérgio, Solani, Sadi,Sandra, Salma, Salésio


Filha de Osvaldo Iung com Júlia Martins Iung (descendente de imigrantes portugueses vinda de Biguaçu), Vanir nasceu ali mesmo, em Picadas.

Picada é o nome dado ao serviço de desmatamento para a abertura de novas estradas. A Picada aberta ali seguia até a Vila de Barracão. Curiosamente, Dona Vanir conta que as condições da estrada eram péssimas e o trajeto até o Barracão demorava horas para ser percorrido, a cavalo ou de bicicleta, e, por isso, quando alguém da comunidade ficava doente, recorria aos vizinhos. Iam até a casa de Dona Maria e seu Werdolino, que tinham experiência em tratar dos doentes, dar remédios e até aplicar injeções. Outras vezes, recorriam a Alfredo Iahn e este fazia algumas “garrafadas”, usando de conhecimentos de homeopatia e era procurado para combater, entre outras doenças, a tosse comprida, frequente naquela época.
Ela relembra da infância e de algumas vezes em que veio até o Barracão. Entre essas lembranças estão às tardes passadas na chácara do Tio Evaldo, que ficava perto do local onde hoje fica a pracinha da cidade de Alfredo Wagner.
Antigamente, cada comunidade tinha um delegado, figura que tinha a função de apaziguar e resolver os conflitos. O de Picadas era Osvaldo, o pai de Vanir. Dona Vanir comenta que ele até mesmo tinha arma e cassetete. Osvaldo era ainda agricultor, fazia alguns trabalhos como sapateiro e era proprietário de uma pequena ferraria, onde fabricava objetos como facão, foice, machado, enxadas, “todas de alta qualidade”, conforme relata ela. Por hobby, ele fabricava também anéis e brincos. Dona Vanir guarda até hoje um anel feito pelo pai, utilizando uma moeda de 1928. Ele fabricava tudo isso em uma pequena fornalha que era uma espécie de mesa de barro, com um fogo alimentado por um “fole” tocado com o pé, que fazia com que o carvão se aquecesse gerando o calor para que o ferro pudesse ser trabalhado.
Aos 18 anos, Vanir casou com Arno Weingartner, com 19 anos na época. Após o casamento, o jovem casal continuou morando na Picada e tiveram doze filhos. Dona Vanir ri enquanto conta:
- Existe um fato engraçado sobre isso. Quando eu tinha 30 anos eu tinha quatro filhos, com 32 eu já tinha 7!
O fato realmente chama a atenção. Naquele tempo não existia muito controle de natalidade e era comum que as famílias tivessem filhos com intervalos menores do que um ano. Apenas sua última filha não veio ao mundo pelas mãos de uma parteira. Todos os outros tiveram seus partos realizados em casa, vindos ao mundo com ajuda de Matilda Iahn ou Meta Schelemper, seguindo o ritual de antes do parto já matar uma galinha para preparar o caldo e fazer o pão de trigo - que era um produto de luxo naquele tempo, mas que as grávidas mereciam. Todos os filhos de Dona Vanir têm seu nome iniciado com a letra S: Salete, Sérgio, Solani, Sadi, Sandra, Salma, Salésio, Silvia, Sibeli e Simoni e ela fala todos sem pestanejar e em ordem de idade.
Vanir afirma que a vida não era fácil. Geralmente se levantava antes do dia clarear, na hora em que os passarinhos estavam começando a cantar. Logo que levantava, preparava o café, arrumava comida e os filhos para levar para a roça e seus dias eram preenchidos com muito trabalho, derrubando capoeirão, plantando milho, feijão, criando porcos, tirando leite e fazendo muita comida.
A culinária era um capítulo à parte. Fazia pão de batata doce, milho, cará, Inhame e assava em um forno de barro enorme onde cabia quatorze pães. Fazia roscas e assava-as em cima das folhas de algumas plantas como o perí. Eventualmente faziam o pão de trigo, mas este era reservado para datas especiais, como o natal e para as mulheres que tinham acabado de ganhar bebê.
Quando matavam os porcos para consumir a carne e a banha do animal, sempre faziam uma grande festa, chamando os vizinhos e os presenteando com alguns pedaços da carne. Dona Vanir nos conta, com orgulho, sobre as iguarias feitas a partir da carne do porco, comidas tradicionais da Alemanha passadas de geração a geração até chegarem a ela. Uma delas era o Roll-Wurst, torresmo moído com carne, coração picado, rim, linguiça, bucho cozido na água da morcilha, prensado com banha, envolta na manta de couro existente embaixo da costela do porco e colocado no fumeiro. Outra comida é o Scharte-Magen, uma espécie de linguiça feita com a “manta” do porco, com alho, pimenta dedo de moça e enrolada na pele de cima da costela do animal e defumada no fumeiro.. Tanto o Roll-Wurst quanto o Scharte-Magen eram pendurados em cima do fumeiro, um fogão a lenha geralmente localizado em um paiol fechado. Dentro do fogão eram colocadas lenhas verdes, para gerar bastante fumaça e defumar essas iguarias.
Dona Vanir conta também que era comum encontrarem artefatos indígenas em seus terrenos. Encontravam pontas de flechas, machadinhos e outros objetos em pedra produzidos por eles. Em suas terras existiam também áreas onde ficavam os “ranchos de índios”, como eram chamados pelos colonos o lugar onde ficavam o centro de suas aldeias. Os locais, segundo Dona Vanir, eram reconhecidos pela cor preta da terra na qual eles ficavam.
Ela narra ainda as histórias sobre Matinho Bugreiro e sobre a índia Sofia, que foi tirada de sua tribo com cerca de três anos e depois disso viveu como “empregada” na casa de uma família em Taquaras. Lembra que existiam diversas histórias contando que a sua tribo fez várias investidas até a casa dessa família, que escondia a menina para que ela não fosse levada pelos outros índios. Todos comentavam sobre Sophia, a índia que falava alemão, e que muita gente que passava por Taquaras queria conhecer a menina. Dona Vanir ainda guarda na memória a imagem de Sophia, que já era mais velha quando a conheceu. Descreveu-a como uma índia baixa, corpulenta e recordou-se dela tratando as galinhas no quintal da casa.
Outras imagens que ainda permanecem vivas em sua memória são dos grandes bailes que aconteciam no clube de Picadas, o “Clube Recreativo 20 de Janeiro”. Anualmente existiam quatro bailes, atraindo sempre muita gente. Seu Osvaldo ficava responsável pela iluminação, feita a base de pedras de carbonete que, quando misturadas com água, geram uma chama, cuja iluminação era refletida para iluminar o salão. Todos os moços iam com terno e gravata e não eram raras as vezes que as moças compravam fazendas para costurarem lindos vestidos. A música ficava por conta da banda do senhor Edi Schaffer – o Jazz Familiar – e era sempre muito animado. Mais animado do que esses bailes apenas o Carnaval. As grades festas não cabendo mais dentro do salão do clube invadiam as ruas de Picadas e o povo cantava marchinhas e se divertia com os hoje proibidos “lança perfumes”. O ponto alto era quando o “cordão” vindo do Quebra Dente chegava. Sempre com duas moças em bicicletas enfeitadas e uma charrete, que puxava o bloco. Figura certa nesses carnavais era o professor Leonardo Harger, que lecionava no Quebra Dente e também já havia trabalhado em Picadas, era um homem adorado por todos e um grande folião nos carnavais.
            Papo vai, papo vem e nossa conversa se estende por horas. Dona Vanir é uma mulher cheia de fibra e cativante que me contou essas histórias e algumas outras com um sorriso no rosto. Rosto marcado pelo tempo, mas que ainda conserva um brilho nos olhos de menina, em especial quando relembra de um tempo muito bom que viveu em sua amada Picadas. 

Carol Pereira e Vanir Iung Weingartner - 10/08/2016


 Algumas fotos do arquivo pessoa de Dona Vanir:

Um dos times de futebol da Antiga Picadas

Família de Alfredo Sell

Arno em Curitibanos, conhecendo uma lavoura de Trigo

Almericio Martins famoso tio Mericio

Walter Zimmermam

Algumas das moças da comunidade de Picadas

Otávio Horst e também com sua bicicleta

Neri Weingartner,  Rosinele Scheidt Weingartner e Soni Iahn

Bertulina e seus alunos mais ou menos na década de 10

Um comentário:

  1. Querida Carol Pereira, lindas estórias e histórias, e que ao falar aqui no nome do meu querido vovô Evaldo,que tanto lembro da minha infância no Barracão, aqui falas de Arno ( seria o Arno filho mais velho do vovô Evaldo e da vovó Alvina?) Tio Arno?

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