sexta-feira, junho 28, 2013

Personalidades: Alcebíades Frederico Andersen – Seu Pide

Por Izabel Cristina Andersen Kretzer

Data de Nascimento: 06 de agosto de 1928
Data de Falecimento: 21 de setembro de 2009

Alcebíades Frederico Andersen, neto de imigrantes por parte da mãe italiana Matilde Montibeller e por parte do pai Dinamarquês Benjamin Andersen residiam na “Barra da Jararaca”, mais tarde passando a se denominar Distrito de Arnópolis, não exerciam grande atividade como colonos, apenas plantavam para consumo da família e tinham algumas vacas de leite. Benjamin trabalhava como feitor na abertura da estrada, hoje SC 350 – Alfredo Wagner – Ituporanga, e uma das suas preocupações era encaminhar bem cedo os filhos para exercerem profissões diversas.

Alcebíades, o segundo dos 09 filhos, nasceu no dia 06 de agosto de 1928, e aos 12 anos já trabalhava como Galioteiro – motorista de uma espécie de Charrete com caixa para carregar aterro - na construção da estrada. Aos 14 anos foi morar em Bom Retiro para aprender a profissão de mecânico na Oficina do Sr. Mena Schlischting, pai do Sr, Iberê. Com seus 17/18 anos já meio mecânico e motorista, foi residir em Ituporanga, na casa do Seu Lico e Dona Nita Grah, onde recebeu o sugestivo apelido de “chocolate”, que lhe foi dado porque um rapaz levava chocolate para a namoradinha e ele é que se lambuzava.
Aos 19 anos, já motorista profissional, seu pai Benjamin arrumou-lhe serviço no DER para trabalhar em Sorocaba, um lugarejo próximo a Tijuquinha - SC, onde além do trabalho arrumou também uma noiva. Desistindo do noivado, desistiu também do serviço retornando para Alfredo Wagner para trabalhar como motorista de ônibus na 1ª linha de Ituporanga a Florianópolis, empresa de propriedade do Sr. Osvaldo Thiesen e Augusto Felber. Mais tarde, como feitor e pessoa de confiança do Diretor Geral do DER, Engenheiro Felix Schmiegelow, seu pai novamente arrumou-lhe serviço como motorista particular desse engenheiro em Florianópolis, para dirigir seu JEEP. Alcebíades, sempre muito faceiro, foi apresentar-se ao trabalho vestido de bombacha xadrez com faixas laterais cheias de botões, lenço vermelho grande, guaiaca e botas de fole de gaita, impressionando o engenheiro que lhe disse: “Aqui em Florianópolis-Capital, você tem que usar outro tipo de vestimenta”. Com o engenheiro trabalhou por quase 01 ano. Nesta época, desenvolvendo também seu lado esportivo, jogou no Marcílio Dias – Itajaí, como ponta esquerda, participando de apenas dois jogos. Aconteceu então um fato que mudaria seu destino: em cima da Ponte Hercílio Luz, bateu em outro veículo, sendo ele Alcebíades, considerado culpado. O encarregado do Departamento Pessoal do DER fez a seguinte proposta: ou pagava o conserto dos dois carros ou ia ser demitido. Ele optou pela segunda alternativa.
Retornando para Alfredo Wagner, foi trabalhar com Sr. Francisco Claudino Machado em Rio Engano. Neste trabalho passou a conhecer melhor a jovem Ondina, filha do patrão. Apaixonaram-se e após breve namoro e noivado - 08 meses - casaram-se no dia 16/06/1951 e desta feliz união tiveram 04 filhos: Ivan Dorneles, Sandra Terezinha, Antônio José e Izabel Cristina.
Na época em que casaram, fazia Feira no Mercado Público de Florianópolis com o caminhão do seu sogro Chico Machado. Levava milho, feijão, farinha de mandioca, fumo em corda - rolos chamados de tacá -, galinhas, patos, marrecos (vivos), banha de porco, carne salgada, toucinho salgado. Todo mês tinha como encomenda do Sr. Celso Ramos (tempos depois governador do Estado): uma caixa com 25 galinhas para sua Chácara, hoje nas proximidades do Av. Rio Branco- centro- Fpolis.
Em 1953, casado e com seu primeiro filho Ivan com 08 meses de idade, estabeleceu-se com comércio em Passo da Limeira, onde manteve a atividade, até que surgiu a desapropriação dos terrenos pelo DNOS, para construção da Barragem de Ituporanga.

Em 1962, Alcebíades constituiu sociedade com Francisco Ivo Machado, seu cunhado, adquirindo duas serrarias, dois caminhões F8 e um F6 e os pinhais em Barro Preto, Barrinha e Chapadão da Barra e Mosquito. Este foi o início de uma vindoura sociedade. Adquiriram terras em Pinguirito, Riozinho e mudaram uma de suas serrarias para Passo da Limeira. Ainda no ramo dos transportes, a sociedade com a denominação da Empresa Machado & Andersen, entre os anos de 1968 a 1980, chegaram a possuir 05 caminhões Mercedes Bens, 04 deles truck, todos boiadeiros, que transportavam gado para os frigoríficos Pamplona  e Zink – que ficavam respectivamente em Rio do Sul e Presidente Getúlio.  
A Empresa também iniciou atividades no ramo de comércio varejista na sede da cidade de Alfredo Wagner, construindo o 1º prédio do município e nele instalando o 1º supermercado do lugar. Em 1988 o comércio transformou-se em Supermercado “Seu Pide”, apelido que Alcebíades era chamado por seus amigos. Constituiu uma filial no município vizinho de Bom Retiro.
Atuou ainda com muita propriedade na área da pecuária, com criação de gado em Pinguirito, recebendo por diversas vezes premiações em feiras e Exposições, por usar touros melhorados. Adorava cuidar pessoalmente do seu plantel, cuidando especialmente das vacas com terneiros ao pé.
Seu Pide era um grande visionário em negócios. Sua simplicidade, simpatia e honestidade, faziam dele uma pessoa muito querida pelos familiares, amigos e pessoas que negociavam com ele.


Política:
Alcebíades era do PSD, ala da família Ramos, embora tenha herdado de seu pai, ser simpatizante do Presidente Getúlio Dorneles Vargas, do qual ostentava uma fotografia com a faixa presidencial na sala da casa. Tamanha era a admiração que seu primogênito Ivan leva em seu 2º nome “Dorneles”.
Foi vereador em Alfredo Wagner eleito com quase 500 votos quando Alfredo Wagner tinha menos de 2.000 eleitores e os vereadores não eram remunerados. Ocupou o cargo de Presidente da Câmara durante todo o seu mandato – 1967 a 1969.
Candidatou-se a prefeito em 1972 já pela Arena, formada pelos partidos PSD e UDN, mas renunciou por pressão de alguns líderes do ex-PSD. Seu antigo partido assumiu a candidatura e foi eleito o Sr. Norberto Wagner.
Participou ativamente e influentemente como líder da candidatura de seu irmão Ciro Seleste Andersen como vice-prefeito vitorioso na chapa de Rogério Pedro Kretzer.
Em 1982, também foi primordial sua participação na candidatura e eleição vitoriosa de seu filho Ivan Dorneles Andersen como prefeito. Nesta eleição ocorreu fato inédito na urna de Pinguirito, todos os votos a favor, mérito do seu trabalho.
Igualmente teve participação na eleição por duas vezes vitoriosas de sua filha Izabel Cristina como vereadora, sendo a 1ª mulher a ocupar uma cadeira no legislativo municipal.
Em sua Fazenda na comunidade de Pinguirito, tem até hoje a estatueta de Getulio Vargas tomando chimarrão, seu diploma de Vereador, orgulho que ele trazia consigo.
Nos últimos anos era simpatizante de Leonel de Moura Brizola.


Lazer:
Adorava caçar (quando ainda era permitido) e pescar. Participou de diversas excursões para pescar no Estado do Mato Grosso do Sul – nos rios Miranda, Bonito e Coxim e também no Estado do Rio Grande do Sul – nos rios Uruguai e Quaraí.
Fez grandes amizades através deste hobby, especialmente no município de Bombinhas, Praia de Bombas, onde adquiriu imóvel, realizando grandes pescas com linha de mão, arrastões com os pescadores profissionais daquela praia. Todos os anos quando ia veranear levava para os pescadores sebo pra passar nos barcos, além de mel, cebola e carne de gado e ovelha, o que proporcionava a eles um saboroso churrasco. Até hoje sua filha Izabel com seu marido Claudir, realizam este feito. Em Bombas seu Pide era conhecido por “Bide ou Fofão”.

Seu Pide sempre foi muito extrovertido, gostava de uma roda de prosa, sempre mais ouvinte. Quando se manifestava era para contar seus causos para os filhos e netos que tanto adorava, amigos mais íntimos, dos quais arrancava boas risadas de todos.
Destacamos seu carinho especial pelo povo da comunidade de Pinguirito a qual ele dedicou grande parte da sua vida. Era lá que ele realmente se sentia em casa e no meio dos seus. Como ele dizia: “Minha gente!”
Entre tantas das suas façanhas quando criança, conta-se que Alcebíades em uma das noites de natal, comeu quase todos os chocolates dos irmãos e colocou nos seus pratos de presentes, tudo o que eles iam ganhar, até mesmo a sombrinha de sua irmã Doralice.
Alcebíades durante seus 81 anos de vida deixou um legado muito importante para sua família e amigos. Foi exemplo de avô, Pai amoroso e dedicado, marido apaixonado por sua eterna esposa. Na memória de todos, especialmente da sua família, sempre haverá lugar para seu sorriso meigo, o abraço carinhoso, o olhar de quem não precisa falar tudo e a sabedoria expressa nas suas palavras e ações.

Informações transmitidas por:
Izabel Cristina Andersen Kretzer
Ivan Dorneles Andersen
Antônio José Andersen

Correções: Ana Paula Kretzer

quarta-feira, junho 26, 2013

Personalidades: José Sebastião da Cunha - Seu Juquinha

(Recomenda-se ler ouvindo Beijinho Doce)




O segredo do tempo é consumi-lo sem percebê-lo.
É fingir-se infinito para não o vermos passar
É fazer-se contar em anos em vez de momentos
(...)
Se esconde nas sombras que se movem
Nos objetos que não mais servem
Nas pessoas que nunca mais vimos
Na podridão das frutas que não foram colhidas
Nas lembranças já esquecidas
Revela-se nas fotos que se desbotam
Nas cartas que amarelam
Nas crianças que crescem
Nas rugas que aparecem
(Paulo Esdras)

    Com ajuda da parteira, Dona Merenciana, meu pai nasceu em Major Gercino no dia 16 agosto de 1936, de parto normal. Primogênito de Benta Maria Loz e Sebastião José da Cunha, foi batizado José Sebastião da Cunha. Desde muito criança, o pequeno José Sebastião já mostrava pouca ou nenhuma inclinação à lida da roça. Por certo que havia puxado ao pai Sebastião José, segundo dizem os tios. Vale dizer que o sustento da família era garantido justamente pelo plantio de milho e fumo e pelos animais que meu avô criava e caçava.
O desapego àquela vida tipicamente agrária marcaria o destino do meu pai.
O vírus da modernidade que o mordeu e marcou indelevelmente seu segundo nascimento, o psicológico, manifestou-se quando da queda de um avião em Major Gercino, então distrito de Tijucas-SC. O ano era 1945 e, obviamente, eu ainda não havia nascido. Não fui testemunha ocular da história. E aqui, antes de  continuar, cabe fazer um mea-culpa: conto a história porque me confiaram a tarefa e porque a mesma me foi contada pelo próprio pai e pelos tios. Como os  fatos, todos, me chegaram fragmentados, conjugados com minha pouca memória, podem resultar em parágrafos com fumos de fantasia e em alguns nomes trocados.  Portanto, fico desde já eximido de qualquer acusação ou pensamentos maldosos dos leitores mais apegados ao real. Estes devem cobrar verdade única dos contemporâneos do meu pai.
Estavam no pátio da escola, entretidos em brincadeira de roda, a professora Edite e seus alunos quando ouviram e viram o estrondo e a fumaça quase bem preta  que se levantou lá pros lados do Tereré. A escola era como aqui e o Tereré como lá no Barracão, só que bem depois da igreja. Com medo daquela coisa que caíra  do céu, alguns alunos e a merendeira deixaram a cantoria de lado e seguiram para o morro do Rio do Alho, em sentido oposto; os mais destemidos e a Edite foram ao Tereré movidos pela curiosidade de ver no chão, expostos, os fragmentos de um mundo até então desconhecido - numa época em que não existia luz elétrica por aquelas bandas e que as pessoas eram assombradas pelas bruxas e demônios da cultura açoriana, aquele acontecimento era algo espetacular. O mundo girava como atualmente, sim, só que em branco e preto, como atestam os filmes e as fotografias antigas.
Quantos já viveram a experiência de receber Deus por uma fração de segundo? Muitos, acredito. O certo é que a quem já aconteceu é impossível deixar de seguir Sua trilha, ainda que inconscientemente. Judeus morriam na Alemanha no instante exato em que o aluno José sentiu Deus imenso ao olhar os destroços espalhados no chão. Seria possível consertar aquilo tudo? Ajeitar o desajeitado? Ajustar o desajustado? Não havia resposta, mas estava plantada a semente do futuro profissional.
Aos sábados, os colonos vindos do Tijipió e do Garcia chegavam em Major Gercino pra fazer as compras na venda do Augustinho Laurindo, meu futuro avô materno. O som das carroças e dos carros de boi compunham a música que embalava aquelas manhãs ensolaradas. Enquanto os pais compravam o querosene que abasteceria as pombocas, mais o sal, o trigo, o açúcar e o arroz, os miúdos de rosto vermelho e nariz escorrendo iam assistir ao meu pai, agora chamado Keca, saltar da ponte no Rio Tijucas. Ele foi exímio saltador. A ponte era coberta, igual a nossa Engº Emílio Kuntze, só que de vão e altura bem maiores. - "Era lindo à  beça de se ver", ainda dizem os que tiveram oportunidade de assistir.
Ana era a terceira filha de Bernardina, a Dica, e Augustinho Laurindo. Fazia o pão e a polenta, o feijão e o pirão preferidos dos pais. Daí ser ela a predileta da cozinha. Estudava e não fugia ao trabalho doméstico ou da roça, mas o que gostava mesmo era de remar pelo Rio Tijucas. Achava o Keca da Benta um  tanto quanto exibido, alguém que "vivia se aparecendo pros outros”, contava sorrindo.
Inaugurada em 1960, a construção da Usina Hidrelétrica Garcia movimentou muita mão-de-obra em Angelina e região. As noites brancas, clareadas pela  eletricidade, deixavam entrever o futuro e eram as mais sólidas representações de que o mundo moderno estava chegando. O pai arranjou o primeiro emprego. Me disse que trabalhou pesado por dentro de canos aonde "cabiam dois homens em pé, um em cima do outro, e ainda sobrava espaço pra uma cabeça. Das grandes, meu filho!". Sua mão-de-obra não era especializada, daí o salário exíguo a que tinha direito. Ainda assim, fato importante, aprendeu a profissão de soldador e conseguiu comprar uma bicicleta usada.
A bicicleta era vermelha. Tinha varão, sineta, farol, fitas que escorriam do guidão e uma capa de assento do Fluminense-FC rodeada por pequenas tranças alternadas, verdes e grenás.   
Naquele final de semana, já torcedor eterno do time carioca, o pai descambou pro Major Gercino, pedalando. No meio do caminho, altos do Morro do Garcia,  parou na figueira que faz vezes de gruta e fez promessa de casamento com a Ana. Rezou o Santo Anjo e desabalou morro abaixo na velocidade do amor e da felicidade que o aguardavam.
Os sábios que desculpem minha santa ignorância, mas quem é capaz de explicar o destino? Naquele sábado, na hora da Ave Maria, a Ana da Dica foi passear no Tereré, ver os restos já enferrujados do avião caído. Por seu turno, o pai foi visitar a tia Olga, também no Tereré. Ele de bicicleta, ela de canoa. Não sabiam um do outro, sério. Encontraram-se sobre a grama, sob o sol. Protegeram-se no sombrio refrescante das árvores. Ah, a beleza, a juventude, o desejo e o beijo no rosto - no rosto, sim, porque minha mãe não beijava na boca de jeito nenhum. - "Nananinanão", argumentava muito seriamente. Aos abraços, selaram a promessa  de viverem juntos pra sempre. Enquanto isso, ali perto, o rádio da tia Olga tocava o Beijinho Doce.
E foi assim que o pai jurou amores à figueira dos milagres e, por analogia, começou a também torcer por um certo time pequeno. 
Minha mãe era solteira quando engravidou do primeiro filho. Como a situação econômica do casal era de amargar, esconderam a notícia das respectivas famílias o quanto puderam, esperando por uma melhora financeira que nunca veio. Jurando voltar ao Major pra buscá-la, sem escolha o pai deixou a Ana com um problema familiar e um filho no ventre. O problema do pai, porém, não era menor: urgia conseguir os meios pra sustentar a família recém iniciada. Sem destino definido, partiu de carona num FNM que seguia levando mercadorias do litoral para a serra. Arranjou emprego em Urubici numa pequena oficina de automóveis, na Esquina, aonde se estabeleceu. O ano era 1958.
A Dica foi o tipo de avó modelo para todas as outras avós que já existiram, existem e ainda vão existir neste mundo. Sem educação escolar, inventou símbolos alfa-numéricos com os quais gerenciava as demandas da Venda do Augustinho. Quando andava parecia flutuar, como convém a todas as avós-bentas, pra dizer o mínimo. Era dona de um caráter que jamais abandonaria ao destino uma filha tão amada quanto a Ana e o filho recém-nascido.
“O Rio Tijucas era fundo, / agora ele é baixo./ Todo mundo tem os seus amores/ só eu procuro e não acho.”[1]
O pai, já apelidado Juquinha, voltou ao Major Gercino em 1960 cumprindo o que prometera. Quando encontrou-se pela primeira vez com o filho, o Cunha contava dois anos e estava naturalmente incorporado aos Laurindo - dizem que graças às intervenções da matriarca que soube curar com ternura o coração ferido da família.
Meus pais casaram-se às pressas, quase em segredo. Depois, contra a vontade dos Laurindo que a esta altura não mais queriam separar-se do pequeno Cunha, partiu a família para Urubici aonde uma casa bastante pobre os aguardava - a mãe levava uma mala, o pai um saco de linhagem com alguma comida. O Cunha, de beiço comprido e cara de choro, segurava com força a barra da saia da mãe – mais pareciam retirantes, personagens de Graciliano Ramos materializadas na poeira da estrada - “Por que existem uns felizes / E outros que sofrem tanto? / Nascemos do mesmo jeito / Vivemos no mesmo canto. / Quem foi temperar o choro / E acabou salgando o pranto?”[2]
 Nunca souberam que a origem do nome Urubici é Kaigang e que significa "mãe das águas frias". Para os meus pais significava aprendizado, bons vizinhos, pouco dinheiro, asma e águas muito, mas muito frias mesmo. Aliás, penso muito seriamente que foi em Urubici que a asma começou a desinventar o meu pai.
Valdete, minha segunda irmã, nasceu em Urubici. A cidade era hospitaleira e o casal, agora com dois filhos, cultivou amizades que extrapolaram o tempo em que lá viveram. Porém, se o ambiente social os acolhia, o clima frio e a umidade, tão nocivos às doenças pulmonares do pai, os repelia. O patrão, dono da oficina, pediu: - “Fica!”, – “Me queira bem que não custa nada”, teria respondido o Juquinha quando resolveu partir.
“No pain, no gain”, pensou o pai, só que em português - era preciso arriscar, precisava ganhar mais dinheiro para o conforto da família e principalmente respirar ares mais amenos. Em 1962 desembarcaram em Alfredo Wagner com todos os pertences: uma mesa, algumas cadeiras, uma caixa com os utensílios de cozinha, uma bateria de pendurar panelas, o fogão à lenha e a mala de roupas. Ah, também tinha uma máquina fotográfica que fez história – meu pai era moderno,  como já disse, e gostava de registrar os momentos em família. A mudança foi feita de caminhão e segundo o Santo Luca, dono do caminhão, “não deu lá muito trabalho, pois se o Juca não tinha quase nada!!”.
Alugou uma pequena garagem nos fundos da Oficina Mecânica São Cristóvão, de propriedade do Lauro Cechetto, e ali estabeleceu sua própria oficina de lataria e pintura de automóveis. Começava assim a história do Juquinha e da nossa família em Alfredo Wagner.
Aqui nasceram os demais filhos. E, coincidência ou não, no mesmo dia em que nasci as mulheres saíam às ruas nos Estados Unidos lutando por mais dignidade e direitos sociais. Simbolicamente, queimaram os sutiãs. Não que eu queira me gabar.
Juquinha e Ana já partiram para o lado de lá, deixaram sete filhos e um só legado: a oportunidade de acesso ao conhecimento - motivo de orgulho para ambos até o final. Atualmente, quando nos encontramos em reuniões de pão e vinho (mais vinho do que pão), filhos, genros, noras, netos e bisnetos, no mais das vezes reverenciamos o José, reverenciamos a Ana. Mantemos viva a história e consolamos nossos corações na lembrança daqueles tempos de lares de mãe.
Meu pai não fez fortuna, e no entanto tornou-se muito popular desde Bom Retiro até Ituporanga por conta da sua oficina de chapeação. Única nestas redondezas por longos anos. Quando a oficina ficou pequena e os filhos ficaram grandes, ele arriscou-se em novos negócios. A família morava no Barracão, em frente ao Seu Nelinho, na casa que mais tarde pertenceria à Dona Petronilha. O  sonho era mudar-se para o Sombrio, e quando a oportunidade surgiu ele a agarrou com unhas, dentes e dívidas. Comprou um bar e um terreno na Rua do Comércio. O primeiro ladeava o perau do morro do ginásio, atualmente Bar do Anjinho, e os negócios eram tocados à força de pastel, café e cachaça feitos e servidos pela mãe e pelos irmãos mais velhos. O posto de gasolina Atlantic, logo à frente, era gerenciado pelo Seu Ascendino Cunha. Já o terreno, do outro lado da rua, se estendia até o rio e abrigava uma casa grande, com ares de sobrado, e uma oficina novinha em folha.
Aquela Empire talvez não tenha sido a primeira de Alfredo Wagner, mas com certeza foi a primeira televisão pública da região. No dia 21 de junho de 1970 o estádio Azteca recebeu cerca de 100.000 pessoas pra ver a grande final da copa do mundo do México. Simultâneamente, em Alfredo Wagner, mais de 100 pessoas se acotevalavam no Bar do Juquinha pra ver as jogadas geniais de Pelé, Tostão e Gérson.
Meu pai foi um homem à frente do seu tempo até nas doenças sob as quais convalesceu, exemplo disso foi a famosa crise nervosa de 1972. Fosse hoje e o pai teria sido diagnosticado com síndrome do pânico, na época passou por alguém excessivamente nervoso que precisava “repousar em casa especial”. O que queria dizer, em outras palavras, que ele estava beirando a loucura e precisava ser afastado da sociedade por uns tempos. Exageros da medicina da época, claro.
Em meados de 1972 nossa vida seguia dividida entre o sucesso do bar e os nervos escangalhados do pai. O dinheiro entrava graúdo e a dívida estava controlada, quase quitada. Minha mãe continuava fritando pastéis enquanto o pai, entre uma crise e outra, desamassava, lixava e pintava os automóveis e caminhões da época. O Seu Ascendino, por sua vez, tinha cheiro de óleo diesel e gasolina. Foi por esta época que o Bento Bandeira jurou que ia explodir o posto de gasolina, vingando um prato de comida que ganhara sem um “miche pedaço de carne. Será o Benedito?” - vocês que menosprezam o medo que tínhamos daquele andarilho barbudo vindo sei-lá-daonde, perguntem às pessoas com mais de 60 anos, àqueles que se disporem, quem era o tal Bento Bandeira. Pensem num homem irascível, tão brabo que até hoje ninguém gosta de tocar no assunto. Isto é muito sério.
Meu pai associou o mal dos nervos ao bar e às incomodações dele advindas. A despeito dos sucessivos aconselhamentos contrários, o pai vendeu o bar como quem compra uma aspirina pra curar a gripe. Em 1973, para o Sr. Ivo Schmitz. Foi aí que nos mudamos de vez pra casa do outro lado da rua, aquela com ares de sobrado.
Paradoxo: “a única verdade absoluta é que não existe verdade absoluta”. É preciso relativizar todos os valores, sociais e históricos, materiais e científicos. Por isso respeito a casa de todas as famílias, só que, com profunda humildade, ouso dizer que a nossa foi a melhor de todos os tempos e lugares. Era como casa de madrinha, grande, de dois andares. Tinha fogão à lenha, escadas, varandas e vários cantos secretos a serem explorados. O quintal era lindo pra dedéu, com pereiras e uma parreira de uvas grande assim! Pé de laranja não tinha, mas estas a gente pegava no pé alheio, da vizinha.
Falando nisso, acabei de lembrar que jamais paguei, nem agradeci, os quase 10 sacos de laranja açúcar e umbigo que peguei emprestado. Assim, aproveito este espaço de memórias pra registrar meu mais profundo agradecimento: Obrigado, Dona Cândida May, pelo carinho e pelas laranjas.
A relação de meu pai com os cachorros de Alfredo Wagner nunca foi das melhores, definitivamente. Os cachorros mais ilustres da cidade, conhecidos pela ferocidade, sem exceção morderam o pai. Assim foi com o Saldanha, o Conhaque, o Rintim e o Shark. E até o Chipel, meu saudoso vira-lata que morava um dia com a gente e dez no mundo, jamais deixou de rosnar sempre que o via.
Meu pai passava horas, dias e noites, inverno e verão, sob e sobre carros, trabalhando sem parar. Seu lazer resumia-se a pescarias com os amigos – ele adorava pescar -  e um que outro baile no interior embalado por algumas cervejas. É inegável que meu pai se apaixonou por Alfredo Wagner. O trabalho era árduo, sim, mas a comunidade dava em troca sustento, amizade e o estudo dos filhos que ele tanto soube valorizar. Contudo, seu ímpeto de modernidade às vezes contrastava com uma certa melancolia que o invadia sempre que seu querido Major Gercino vinha à mente. Daí ele rezava o Santo Anjo.
No final da década de 70, início dos 80, o pai construiu estufa e reativou as roças de fumo no terreno que pertencera ao Vô Bastião, seu pai, em Major Gercino. Porém, por mais esforço que meus tios agricultores fizessem, a tal roça não aguentou mais que três safras seguidas. Nesta época as viagens entre uma cidade e outra eram constantes, sempre que a saudade apertava ou os negócios exigiam. Pra terem uma idéia, em 45 anos de Alfredo Wagner meu pai visitou a Vó Benta 225 vezes, visitas contadinhas uma a uma nos dedos da mãe.
Os nervos foram controlados, a asma não. Meu pai tentou todos os meios e medicamentos, desde os ortodoxos oferecidos pela alopatia e pela homeopatia até bizarrices como gordura de tatu derretida, gemada de ovo de lagarto e garrafadas indígenas vindas do Mato Grosso e do Amazonas. A cura foi sempre paliativa, nunca integral e definitiva.
Entendo que Alfredo Wagner está situada nos limites da identidade. Neste sentido, as demandas trabalhistas são resolvidas em Rio do Sul, as educacionais em Florianópolis e as jurídicas em Bom Retiro. Convivemos com culturas tão díspares quanto a alemã, a italiana, a gauchesca e a açoriana. Alfredo Wagner não está inteiramente localizada na serra, nem no litoral ou no alto vale. A diversidade religiosa é flagrante. Nosso  ambiente natural não é purista, ainda bem, e nossa identidade caracteriza-se por um certo instinto de não-identidade, pela mistura. Pra isso, como muitos outros cidadãos da época, o pai colaborou um tantinho acrescentando ao caldeirão da gênese alfredense o que ele tinha de melhor: o olhar voltado pro futuro, o instinto de modernidade, a fala litorânea, uma faísca de cultura açoriana e sua bondade imensa.

       Naquele primeiro final de semana de outubro de 2007, peguei o pai na Rita Maria, vindo de Alfredo Wagner, e fomos visitar a Vó Benta e a Tia Olga. Seria a última vez. Durante a viagem, o pai me foi contando histórias daquelas casas antigas à beira da estrada, dos engenhos de farinha do Arataca, das oficinas de tamanco. Ríamos. Ele tossia muito por causa da asma que se anunciava forte. Senti orgulho de estar ao seu lado naquele momento em que a emoção mostrava-se à flor da pele, e não outro filho. Ao chegar no Major Gercino, rezamos o Santo Anjo no túmulo do Vô Sebastião - o Keca renascia naquela terra e ele já não era meu pai, era um menino amigo meu. A visita foi como de costume, o pai abraçou a Vó Benta e ela derramou uma lágrima secular, a lágrima de saudade tantas vezes repetida sempre que ele chegava - "passa pra dentro, vem comê!!". Passamos.... e comemos. A despedida foi marcada por uma fotografia significativa. Nela ficou registrado o adeus de meu pai à sua mãe, o instante de um aperto de mão e de um sorriso cúmplice. Assim como quem nunca mais vai voltar, assim como quem diz "até breve, minha mãe".


Uma semana depois, asmático, o pai entrou na ambulância parada em frente à nossa casa. Chamou minha irmã e chorou miúdo consciente de que a internação no Hospital Regional Alto Vale, em Rio do Sul, seria definitiva: - "Sempre soube que ia morrer antes da Ana. Cuida da tua mãe!". Faleceu em 27 de outubro de 2007.
Quem garante que na viagem não pensou no grandioso hotel que não teve tempo de construir na barranca do rio? No cultivo de flores que nunca aconteceu? Na viagem de avião que jamais realizou? A vida passa num segundo. O que se planta permanece por gerações.
valdir cunha, junho 2013.

ORAÇÃO[3]


Ele morreu, Senhor,
Seja José a criança, o mais pequeno.
Pega-o Tu ao colo
E leva-o para dentro da tua casa.
Despe o ser cansado e humano
E deita-o na tua cama.
E conta histórias, caso ele acorde,
Para o menino tornar a adormecer.
E dá-lhe sonhos teus para ele brincar
Até que nasça qualquer dia
Que Tu sabes qual é.







[1] Quadrinha da tradição oral, repassada pela Vó Dica à filha Ana
[2] Poema filosófico retirado da cultura popular
[3] Oração livremente adaptada a partir do poema O guardador de Rebanhos - VIII de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.

segunda-feira, junho 24, 2013

Personalidades: Evilásio Hermenegildo de Amorim - Papai Noel

Por Aline Machado de Andrade
Carol Pereira
Data de Nascimento: 20 de setembro de 1928
Data de Falecimento: 07 de junho de 1998

Filho de Hulda Hinckel de Amorim e Hermenegildo Francisco de Amorim, Evilásio Hermenegildo de Amorim nasceu no dia 20 de setembro de 1928, na localidade de Picadas, no município de Alfredo Wagner. Ainda criança foi morar em Florianópolis com a família que lá passou a possuir um armazém.
Anos mais tarde, com 26 anos ele retornou a cidade natal indo viver no Rio Engano. Lá conheceu Maria Machado – 16 anos - com quem casou-se. Juntos  tiveram 5 filhos: Evilásio, Valéria, Rosangela, Hermenegildo, Stela Mares e Artur.
Evilásio era um homem que sempre apreciou muito as festas, prova disso é que sempre fazia questão de que o casamento de todos os seus filhos fosse comemorado com uma grandiosa festa - convidava-se cerca 600 pessoas e todas elas eram servidas com fartura e boa música.

Ao longo de sua vida exerceu a profissão de motorista de caminhões. A princípio carregava toras no interior de nosso município na caminhão de Chico Machado. Com o passar dos anos juntou suas economias e conseguiu o que tanto almejava;  seu próprio caminhão. Nessa época passou a trabalhar com cargas de fumo.
No ano de 1982 um fato trágico marcou sua vida, a morte de seu filho, Evilásio, que como o pai também seguia a profissão de caminhoneiro. O filho morreu no estado da Bahia, na cidade de Feira de Santana. A provável causa da morte teria sido o sono. Evilásio Filho teria cochilado
ao volante e tombou o caminhão. A demora para a chegada do corpo foi um momento de muita angustia para a família.
No ano de 1976 Evilásio passou a ser o Papai Noel de Alfredo Wagner. Com certeza não existe ninguém em nossa cidade que tenha nascido entre o final da década de 70 e início da década de 90 que não o tenha conhecido ou até mesmo tirado uma “daquelas” fotos no colo do bom velhinho; era tradição: em todo natal, por 22 anos, Evilásio se vestia de Papai Noel e dedicava-se a alegrar as crianças. Com a ajuda da prefeitura e do comércio local (onde ele mesmo passava pedindo as balas e doces) uma grande quantidade de doces e presentes era arrecada para que Evilásio os distribuísse ás vezes jogando pelas ruas do munícipio, outras em comemorações na AABB e também em festas para os funcionários da prefeitura, que acontecia até mesmo no Parque Municipal. Era um momento de grande alegria e ele era adorado por todos. Sua fama rompeu até mesmo os limites alfredenses, além de ser Papai Noel no município, foi também convidado para ser o personagem em Bom Retiro e até mesmo em uma cidade do Rio Grande do Sul. Nosso eterno papai noel gostava muito do que fazia e a cada natal que passava ele dizia: “Mais uma missão cumprida”. Preocupado com a magia a cada natal sempre pedia para que alguém de sua família não deixasse a tradição morrer e continuasse seu legado, levando o encanto desta data a todos. E assim foi feito; desde sua morte, seu genro Dilmo e sua filha Rosângela continuam alegrando os natais, sendo eles os papais noéis da cidade.
Outra paixão de seu Evilásio era o Lions Club, do qual foi presidente e também o primeiro inscrito, recebendo assim a homenagem de sócio número 1 no município de Laguna.
Sua comemoração de 60 anos de vida foi uma grande festa na Sociedade Recreativa União Clube, onde reuniu familiares e amigos e dançou uma linda valsa com sua esposa.
Em 1993, assim que retornou de uma viagem para o norte com seu caminhão ele recebeu a notícia de que sua casa tinha sido levada pela enchente que devastou a cidade. Mesmo muito abalado, contou com a ajuda da família, amigos e da prefeitura para recomeçar; construiu uma nova casa no Loteamento Valdir Mariotti.
Evilásio era diabético e por conta de um calo que se formou em seu pé e não cicatrizou também no ano de 1993 teve que ter parte do desse membro amputado. Depois, ainda em virtude da doença ele teve de passar por um transplante de olhos, ficando assim com um olho azul e outro castanho. Ele mesmo fazia piada sobre a diferença da cor dos olhos, se gabando por ter recebido um olho de alguém jovem.
Ainda em vida recebeu uma grande homenagem: a pré-escola do município que funcionava no centro da cidade recebeu seu nome, passando a se chamar pré-escolar Evilásio Hermenegildo de Amorim, que funcionava no centro.
Seu Evilásio se deixou abater pelos problemas da vida e uma forte depressão fez com que ele adoecesse. Então juntamente com uma forte gripe e a saúde debilitada devido ao quadro de diabetes avançado, fez com que aos 69 anos, esse prestigiado homem viesse a falecer!
Mesmo depois de sua morte ele continuou no coração dos Alfredenses. No ano de seu falecimento todas as crianças da creche da cidade fizeram um desfile em sua homenagem, onde todas estavam vestidas de Papai Noel. Em 2011, na comemoração do cinquentenário do município, recebeu a homenagem como personalidade de destaque, devido aos anos que passou sendo nosso Papai Noel e também por sua participação ativa no Lions Club e na comunidade em geral.

Informações Transmitidas por:
Rosângela Maria de Amorim Rabelo

Correções: Ana Paula Kretzer

Quadrilha Maluca Silva Jardim


quinta-feira, junho 20, 2013

Personalidades: Lauro Schweitzer

Por Maria de Fátima Schweitzer Wagner

Data de nascimento: 26 de outubro de 1926
Data de falecimento: 23 de fevereiro de 2000

É com muito prazer e emoção que aceitei um pedido para que escrevesse uma sucinta biografia de meu pai, Lauro Schweitzer. Como não poderia deixar de ser, seria impossível que minhas impressões de filha não ficassem impregnadas na narração desta trajetória; a história de vida daquele que um dia me ensinou o significado da vida.

Lauro Schweitzer nasceu no dia vinte e seis de outubro de 1926, em Lomba Alta na cidade de Alfredo Wagner, SC. Dentre os filhos de João Pedro Schweitzer – filho de Jacob Schweitzer e Maria Freiberg Schweitzer, que foram um dos primeiros colonizadores da Lomba Alta -  e Emília Althoff  Schweitzer – filha de  Germano Guilherme Althoff e Joaquina Heinz Althoff - foi um dos filhos criado como agricultor, sendo assim ciente de suas dificuldades e da realidade que o cercava. Casou-se com Adelina Augusta da Silva e teve nove filhos: cinco homens: Rogério, Reni Antônio, Roberto, Paulo Roberto e Luiz Pedro e quatro mulheres: Maria de Fátima, Maristela, Maria Eliza e Ivânia.
Morou em Bom Retiro, trabalhando como comerciante em sociedade com o irmão Lúcio por algum tempo. Quantos desafios e obstáculos tiveram que enfrentar...!
O tempo passou e após tantos anos retornou para Alfredo Wagner como comerciante, instalando-se no Bairro Barracão, que era o centro do comércio de Alfredo Wagner. Seus nove filhos foram criados todos ajudando na loja. Esta não tinha horário fixo para fechar, nem no horário de almoço ou outra refeição. Naquela época vendia-se de tudo e comprava-se além de tecidos em Florianópolis, produtos de agricultores. A loja era bem movimentada, e até um cafezinho era oferecido aos fregueses.  Assim criou seus filhos... era católico praticante, sendo que um dos filhos foi até coroinha da igreja.
Mais tarde mudou-se para onde hoje é o centro da cidade de Alfredo Wagner como os demais comerciantes. Seu comércio era forte com tecidos e armarinhos. Nesta época ia à São Paulo fazer compras para revender.
Seu Lauro, foi um mestre, exigente, mas paciente. Homem trabalhador e honesto que ensinou a seus filhos os princípios que moldaram suas personalidades e dignificaram suas existências.
Ele ajudava nos afazeres de casa, nos trabalhos escolares dos filhos ainda crianças; juntamente com sua esposa dona Adelina. Sempre incentivando e ensinando a importância de adquirir cultura e conhecimento.
Dentre as várias atividades de seu Lauro, à parte de seu comércio, foi a presidência da Associação de Pais e Professores (APP), muito atuante, da EEB. Silva Jardim, a presidência da Igreja Católica por muitos anos e a participação política, sendo presidente de partido e também candidato a vice-prefeito com o Sr. José de Campos em uma eleição e também com o Senhor Valdir Mariotti em outra.  Tinha muitos compadres, chegando a ter duzentos e cinquenta afilhados de batismo.
Era, na verdade, um homem de muito caráter. O seu maior orgulho era a honestidade, pois dizia que ser “honesto” era a herança que poderia deixar. Os seus nove filhos casaram-se e lhe deram vários netos, dos quais se orgulhava muito.
Infelizmente, foi no ano de 2000, que Deus o chamou de volta, deixando muitas saudades sentidas pela família, além de uma enorme ausência em seus corações.

Informações transmitidas por:
Maria Eliza Schweitzer
Rogério Schweitzer

Correções: Ana Paula Kretzer

quarta-feira, junho 19, 2013

Personalidades: Osvaldo Schweitzer – Vadinho

Por Carol Pereira
Alceu Schweitzer

Data de nascimento: 03 de maio de 1916
Data de falecimento 25 de outubro de 1982

Osvaldo nasceu no Barracão, local onde existiam a maior parte do comércio da vila. Filho de Alberto Schweitzer e Tercilia Schweitzer, tinha 4 irmãos.
Não largava do seu chapeuzinho típico e  trazia na cinta sempre um bom canivete para descascar uma laranja ou ajudar na hora do trabalho. Tinha como características de personalidade ser muito engraçado, brincalhão, dançador e contador de histórias e anedotas – piadas.
Aos 15 anos começou a namorar com Maria do Carmo Schelemper – conhecida como dona Mariazinha que foi a primeira servente da Escola de Educação Básica Silva jardim - com quem teve 9 filhos - Vilson Alberto Schweitzer, Ilza Schweitzer Almeida, Amélia Schweitzer(in memoriam), Dirceu Schweitzer, Olga Schweitzer da Silva, Braulio Schweitzer (in memoriam) 

Osvaldo Schweitzer filho, Edio Schweitzer e Raquel Schweitzer Peron.  A família do senhor Vadinho sempre muito alegre e unida passou por uma grande tragédia. Amelinha filha do casal, com apenas 4 anos, foi atropelada na frente da casa onde moravam e veio a falecer. Foi um perda muito dolorida e inesperada. As crianças brincavam de “pegar carona” atrás das carroças que passavam, Amelinha e o primo ao ouvirem o barulho de um caminhão se soltaram e não deu tempo para que a menina chegasse ao outro lado da rua. Os irmãos mais velhos assistiram à cena e a mãe que tinha ido levar um outro filho ao médico foi chamada às pressas. A dor de Vadinho ao perder a filha de forma tão triste foi algo que ele sempre lembrou ao longo da vida.

Tentou a vida em Lages, levando toda a sua família para
 essa aventura,  mas não tendo sucesso retornou a sua amada terra....
Sempre gostou de mexer com bichos – criava galinhas e tinha sempre um cavalo para o seu lazer e também para trabalhar. Ele não admitia maus tratos para com os animais, sempre que via algum cavalo magro e maltratado ele o comprava, engordava e quando ele estava saudável e bem tratado o vendia. Ficou conhecido como um pequeno mercador que comprava alguns alimentos como queijo e linguiça para vender nas cidades vizinhas em sua carroça. O fato de gostar de animais marcou toda a família, principalmente os homens, que até hoje cultivam esse
gosto criando cavalos e bois.  Mais tarde trabalhou como açougueiro com Quiliano Heiderscheidt , Paulo Bum e posteriormente com Luiz Carlos Onofre.
Vadinho tocava bateria em uma banda que se chamava Jazz Familiar. Junto com ele faziam parte da banda: Titi – Arcidio que tocava Saxofone , Nato – Renato que tocava gaita, Vito – Lazaro de Almeida que tocava gaita, Gordo – Valdenir que tocava trombeta, Ameixa –
Zelito que tocava pistão; além de Edilberto, mais conhecido como Eti, que tocava 23 instrumentos, entre eles: trombone, clarinete, bamdonia, gaita e saxofone. As festas no clube e no salão do Seu Talico eram animadas por essa orquestra.  
Seu Vadinho era figura certa nas festas do Antigo Barracão. Sua mãe insistia para que ele e os irmãos fossem aos carnavais fantasiados de mulher e ela ficava com as crianças para que as noras fantasiadas de
homem também fossem as festas. Era participante ativo dos “Intrudos” – festa comum nos carnavais que envolvia blocos de foliões que se divertiam jogando farinha e água uns nos outros. Além do carnaval uma festa que seu Vadinho e a família sempre frequentavam eram os antigos casamentos caipiras realizados no clube. Um comboio de carroças vinha desde o Barracão até o clube. Seguido por dezenas de pessoas que
seguiam cantando e dançando, enquanto os noivos iam na frente, soltando foguetes.
Vadinho sempre foi um apaixonado pela vida e ainda nos dias de hoje é lembrado pelo seu jeito sempre bem humorado. Era amigo de velhos e jovens e nas festas sempre estava cercado por pessoas que quase sempre estavam rindo de suas divertidas história.
No leito de morte ele disse a seu filho: “Meu filho, eu não quero morrer”. A paixão pela vida o fez viver intensamente e hoje ele permanece vivo na memória daqueles que o amaram.
Não era homem de muitas poses, mas deixou uma enorme herança a seus descendentes: O amor e a união. Mesmo hoje, passados mais de 30 anos de sua marte, filhos e netos ainda falam nele como se ele ainda estivesse vivo e não conseguem esconder a saudade eterna que sentem de Vadinho.

Causos e histórias contados por Vadinho
Casa mal assombrada da Boa Vista
Na época que se transportava mantimentos do Barracão até a Palhoça de carreta puxada a cavalos, existia na Boa Vista uma casa abandonada onde os carreteiros e tropeiros sesteavam. A casa tinha fama de ser mal assombrada, diziam que apareciam fantasmas, almas penadas debaixo do assoalho, que erguia e abaixava, fazendo as tábuas rangerem. Não tinha quem parasse mais naquela casa, todos tinham medo daquelas almas.
Vadinho não tinha medo de fantasmas nem de assombrações e certa vez, voltando de Palhoça resolveu que naquele dia pegaria o tal fantasma.
Se preparou, bebendo umas canas e resolveu que passaria a noite na casa e encararia a tal alma penada.
Lá pelas tantas da madrugada o barulho começou, o assoalho erguia e abaixava, as tábuas se mexiam, mas vadinho não correu. Resolveu que ergueria as tábuas para ver o que tinha lá embaixo. Assim que as levantou percebeu que não era fantasma coisa alguma e sim uma porcada que vinha dormir embaixo da casa.
Vadinho contava a história e ria dos homens que ficaram com medo da porcada.


O defunto jogador de torrões

Na época em que o cemitério antigo de Alfredo Wagner ficava no Barracão, no terreno onde hoje fica a igreja matiz, a estrada bem mais estreita do que é hoje passava bem em frente ao cemitério. Certo dia foi enterrado no cemitério um vivente e ninguém mais tinha coragem de passar pela frente do cemitério, somente os mais corajosos se atreviam.
Como Vadinho adorava pregar uma peça nos amigos, revolveu que a noite assustaria o João Bugiu – um de seus amigos.
Assim que a noite caiu Vadinho se escondeu dentro do cemitério, esperando o amigo passar. Como naquela época só existia luz de lampiões a querosene, o vivente vinha cambaleando – de bêbado – e Vadinho pega um torrão de terra e joga na estrada, bem em frente a João Bugiu. O susto foi grande, João suando frio gritou: “Oooooh defunto, se tu és macho joga outra”. Vadinho não esperou nem João Bugiu terminar de falar e jogou o segundo torrão, este mirando bem no peito do amigo.
Quando viu que o defunto era macho e tinha jogado outro torrão o porretaço chegou a passar e João Bugiu, deu meia volta e saiu em disparada.
Vadinho foi esperto e correu por trás do cemitério, queria chegar antes de João ao destino, que sabia bem qual era; Joao iria direto até a casa do delegado, que era o pai de Vadinho, Alberto Schweitzer, que também não tinha medo de nada, mas conhecendo bem o filho que tinha, já sabia que o tal defunto jogador de torrões era obra de seu filho, mas manteve segredo.
Foi até o cemitério averiguar o tal defunto, mas não encontraram nada, o fato é que João Bugiu passou muito tempo temendo o tal defunto jogador de torrões.

O feitiço virou contra o feiticeiro

Cavaleiro que só ele, caprichoso, com suas encilhas e com seu animais, nos finais de semana era quem podia mais. Sempre queria andar garboso pela praça e o grande “point” do Barracão era o boteco do Talico. Era lá que todos se encontravam para beber umas canas e contar causos.
Vadinho sempre gostava de fazer sacanagens, em frente ao boteco tinha o estacionamento para os animais, na qual todos amarravam seus pingos, porém Vadinho amarrava seu cavalo na área em frente a casa de Talico, com o passar das horas o cavalo sujava a entrada da casa, o que deixava do Talico – seu irmão - muito bravo. Todo final de semana ele fazia o mesmo, não adiantava pedir.
Até que em um final de semana Talico disse a sua esposa: “Hoje o Vadinho me paga Julita”.
Assim que Vadinho chegou e amarrou o animal na área da casa, como de costume, Talico saiu escondido, retirou o pelego do cavalo – um manto sagrado para Vadinho – e colocou em baixo do animal. Com o passar das horas o pelego ficou imundo, com toda a sujeira feita pelo cavalo. Vadinho que gostava tanto de fazer sacanagens aos amigos desta vez tinha sido sacaneado pelo próprio irmão, mas aprendeu a lição, deste dia em diante ele nunca mais amarrou o animal na área do irmão.

Baile do “preto” e baile do “branco”

Antigamente existia muito racismo e os bailes eram divididos: Baile dos “pretos”- negros – e de outro lado o baile dos “brancos”.
Vadinho era amigo de todos, de pretos e de brancos e tinha entrada livre nos dois bailes.
Certo dia colocaram na cabeça dele para que ele fizesse uma sacanagem no baile dos pretos, como sacanagem era com ele mesmo ele aceitou: entrou no Baile com seus amigos pretos e lá pela meia noite, tirou do bolso pimenta e jogou no salão sem ninguém ver. O baile acabou, mas em seguida descobriram que tinha sido ele e o pau comeu! Bateram tanto em Vadinho que ele só apareceu em casa uns quatro dias depois.
O tempo foi passando e ele foi acertando as contas com seus amigos na sua maneira.

Informações transmitidas por:
Olga Schweitzer da Silva
Alceu Schweitzer
Elizete Schweitzer Coelho
Elâine Aparecida Almeida Rossini
Aluna: Illana Bondavalle

Correções: Ana Paula Kretzer

Comentário de seu neto Alceu.
Parabéns a você Carol Pereira que vem resgatando a História de Alfredo Wagner, falando de pessoas que marcaram esta terra, com trabalho, com lutas, com festas, e obrigado por falar de meu avô, que todos conheciam como seu Vadinho, Meu avô, meu Pai, meu Irmão, meu amigo, eu era o neto mais velho, e afilhado, nossa amizade era tão grande, e aprendi com ele a coisa mais importante e muita gente não se da conta, aprendi a viver a vida. Muita gente poderia pensar escrever sobre a vida de seu vadinho seria fácil, para escrever estas 6 ou 7 linhas deste depoimento já ri, já chorei, um exemplo recente de amizade entre neto e avô, em nosso município foi o Ramon e seu Rogério, o recado é para os jovens vivam intensamente seus entes queridos seus bisavós,seus avós, seus pais, sejam amigos deles, ai um dia você vai ter orgulho de falar dele, este legado foi deixado por meu avô VADINHO. No natal vai achar teu presente, vamos limpar uma galinha, vai buscar água para o vô, vai pegar o cavalo vamos buscar tia zilma no caeté, vai cortar trato para égua, vamos buscar lenha nas demoras, domingo tu vai jogar no maracujá já esta marcado, vamos comprar tua aliança é meu presente, nasceu minha bi............, a se tivesse celular ou fac no céu queria saber qual a minha próxima missão.
Alceu Schweitzer