segunda-feira, março 30, 2020

33


Eu gosto tanto de fazer aniversário que eu mesma venho me desejar parabéns! =)
Três sempre foi o meu número da sorte, então o que posso esperar para esse novo ciclo que está chegando é sorte em dobro, afinal 33.
Esse é o primeiro ano que passo o meu aniversário longe de Alfredo. Sem comemorar com minha família, com meus amigos, sem receber inúmeros beijos e abraços e o carinho que eu amo tanto sentir nesse dia.
Quem me conhece sabe o quanto eu gosto de fazer aniversário e o quanto essas demonstrações de carinho e afeto são importantes para mim. Eu sei que será um dia difícil, mas sei que irei rir e me emocionar na frente do computador ou celular algumas vezes, sentindo o amor através das palavras de quem tá longe.
Quando eu fiz aniversário ano passado e me auto-desejei muita felicidade eu não sabia o que estava por vir e não posso reclamar de nada, esse foi um ciclo muito generoso para mim. Conheci muita gente inspiradora, lugares onde sempre sonhei estar, mudei de continente e acredito até que tenha reencontrado locais e pessoas de outras vidas. Certamente eu sou uma outra Carol, tudo o que vi e vivi enquanto tinha 32 anos me modificou completamente.
Foi um dos melhores anos da minha vida. Foi cheio de desafios, onde eu precisei ter muita coragem para deixar minha zona de conforto e tudo o que me era familiar para crescer, para viver algo completamente diferente e novo. O novo sempre assusta, mas é transformador.
Hoje, transformada, entro nos 33 anos. Me sinto velha, bem velha, mas foram esses anos vividos, todas essas experiências que fizeram de mim quem sou hoje. Acredito que eu ainda precise evoluir muito, aprender muita coisa, me tornar alguém melhor em muitos sentidos, mas estou no caminho e gosto de quem eu sou.
Bom, sempre que eu escrevo um recado de aniversário eu desejo um monte de coisas bem clichês no final, então, no meu recado de aniversário eu não poderia fugir desse padrão!
Não vou desejar muitas coisas, apenas que quem eu amo tenha saúde para que eu continue recebendo amor, que eu aprenda com meus erros e que essa minha nova idade seja repleta de sorrisos, de aprendizado e de muito amor, pois no final de tudo, só o que importa são os laços que criamos e os afetos que conquistamos durante nossa jornada.

domingo, março 29, 2020

Limerick e meu coração partido

Ilustração: Janaína Andrade 

“As cidades estão desertas como nunca estiveram
Todos tem medo do que está pelo ar
Os planos que nós tínhamos foram por água abaixo
Nossa vidas estão adiadas
Mas eu sei que no fim tudo ficará bem”

Duas semanas atrás tudo isso que estamos vivendo hoje parecia com o enredo de um filme, um filme que eu não nem teria vontade de assistir.
Estávamos cheios de planos, terminando as observações com nossos supervisores, íamos conhecer mais algumas escolas, as aulas estavam cada vez mais interessantes...
Os planos para a páscoa começavam a tomar forma, tínhamos tanto da Irlanda e da Europa que ainda precisávamos conhecer. E eu estava animada para escolher o que comeria para comemorar meu aniversário, pois foi me dado o direito de escolher o cardápio.
Em quinze dias todos os planos mudaram, tudo ficou diferente por aqui. Agora nosso maior companheiro é o silêncio do Courtbrack, o silêncio que grita o medo de nossos corações, corações que agora estão partidos.
Partidos como esse ano que foi interrompido;
Partidos pelo medo de pegar o vírus ou ver quem amamos doente;
Pelo eco dos corredores vazios;
Pela perspectiva de passar o meu aniversário sozinha;
Pela falta de abraços, beijos, risadas e leveza;
Partido pela falta de tudo que era familiar.
Da pra sentir falta até do tumulto da cozinha na hora da janta, de passar pela sala desviando dos nossos Irishs e do barulho deles chegando a noite, mas a falta que mais sinto, são dos meus colegas que voltaram para o Brasil e deixaram o bloco F vazio.
O vazio do F17 me deixou órfã, sem minha “mamis”, orientadora, maga dos signos, companheira de Guinness, a pessoa que mais me passava segurança e para quem eu enviava memes e vídeos e sabia se eram engraçados ou não quando ouvia a risada dela, sim as paredes aqui são finas.
O F20 me faz falta toda hora, perdi minha companheira de todos os jantares, de todas aulas, de muitas conversas, postergação, de receber conselhos e dos melhores almoços de domingo.
Não ouço mais os funks do F14, nem posso abrir a porta para a sua moradora entrar no F18, sentar no chão e ouvir as histórias que eu tenho para contar, ou contar as histórias dela, certamente a melhor companhia para qualquer pub da cidade.
Saudades de babar pelas comidas do F3 e do F19, de ouvir as longas e divertidas histórias do F2; deixar o F1 apavorado falando sobre as novelas que eu cresci assistindo; do som do violão tocado pelo F4 e que agora está mudo em meu quarto. Saudade de todos os Fs que se foram. Vocês fazem muita falta!
O Corona não levou apenas meus amigos e mudou meus planos, ele também interrompeu uma outra história linda, que estava começando e que desejo que tenha força para resistir a esse vírus.
Em mim, o principal sintoma do Corona é meu coração partido. Partido pela falta, pela saudade, pelo desespero e aflição de não saber como será o amanhã de quem eu amo.
Eu espero que quando isso tudo passar, a gente finalmente possa voltar a sorrir!

sexta-feira, março 27, 2020

15º DIA DE QUARENTENA


Estou entrando em meu 15º dia de quarentena e acho que já estou bem afetada.
Eu morava em um lugar com outras 97 pessoas, uma acomodação estudantil da Mary Immaculate College, mas hoje estou vivendo aqui apenas com mais 6 pessoas, e estamos tentando nos manter isoladas uma das outras. Me mudei provisoriamente para um novo quarto, em um corredor só para mim. - Sim, eu tenho medo de ir ao banheiro à noite, é óbvio.
Divido boa parte dos meus dias entre ler os artigos da pós-graduação e passar raiva na frente do computador lendo os absurdos e asneiras ditos por um certo político e propagado por outras tantas pessoas, que ainda não entenderam que se voltarmos para a rua agora, em duas semanas seremos obrigados a ficar em casa e ainda estaremos chorando pelos nossos entes queridos mortos. 
Nesse período de quarentena fico também tentando não começar a escrever um novo livro, pois seria um caminho sem volta e eu preciso estudar.
Como tenho muito tempo livre fico também fazendo uma profunda análise para entender qual é a de São Pedro ou a de Saint Patrick que resolveram que não vai mais chover na Irlanda. Sério, a única certeza que eu tinha aqui era a de que iria chover, em algum momento do dia iria chover… mas hoje… até essa certeza me foi tirada e eu que estava tão saudosa do sol, agora que ele está aqui comigo, posso vê-lo apenas pela janela. Fico fazendo tudo isso tomando chá, já que estou há 8 dias sem beber coca-cola. 
A primavera chegou no hemisfério norte, mas com ela não vieram apenas flores, veio também o vírus… vírus que levou para outros continentes boa parte das pessoas que eu amava aqui. Vírus que está começando a me deixar apavorada. Apavorada por pensar que nós brasileiros estamos entrando nessa terrível tempestade com alguém tão despreparado guiando nosso barco. 
Essa constatação me faz lembrar que na última semana o presidente aqui da Irlanda fez um pronunciamento, que mais parecia uma luz, parecia um abraço para quem estava desesperado, ele afirmou que o estado - como todo estado tem a obrigação de fazer - fará sua função, a de ajudar seu povo perante a crise e finalizou o discurso com a frase: “Vamos ficar juntos como uma nação, mas separados uns dos outros” e era esse o discurso que todo líder responsável deveria estar adotando.
Como eu já disse, a primavera chegou... mas parece que estamos no outono, com tudo morrendo e uma tristeza misturada com melancolia pairando no ar. 

FIQUE EM CASA


Eu estou começando a ficar DESESPERADA aqui.
Aqui na EUROPA a ordem é ficar em casa para tentar diminuir a velocidade do avanço do vírus. O que se vê são os GOVERNOS incentivando e auxiliando para que isso aconteça, pois é a única coisa a se fazer, INFELIZMENTE.
Enquanto isso no BRAZIL algumas pessoas simplesmente não acreditam nisso e dessa forma colocam ainda mais gente em risco. Isso é muita IRRESPONSABILIDADE.
Essa gripezinha não é um problema, pois só morrem idosos, né?
Eu não quero que meus IDOSOS morram. Eu não quero banalizar a VIDA deles como se não tivessem nenhum VALOR. Eu não quero que a gente chore a morte de nossos AVÓS como se fosse algo normal, quando a gente pode sim fazer algo para defende-los. Não só eles, pois acreditem JOVEM também morrem. Mesmo os que tem histórico de ATLETA. Mais de 20 MIL VIDAS já foram perdidas e esse é apenas o COMEÇO!
Me desculpem se não estou pensando em dinheiro, na economia ou no RAIO que o parta, eu estou pensando em vidas. E são vidas que devem importar, se você não pensa assim, volte 3 casas nesse jogo, pois você está fazendo isso errado. ERRADO. Vidas importam mais do que dinheiro.
O mundo inteiro irá sofrer essa crise, INEVITAVELMENTE.   
Não desejo isso, mas como será quando essa gente que se apegou a ideia de “defender a economia” estiver chorando no velório de seus entes queridos? Desculpe, vocês não terão direito de se ARREPENDER.
A situação é muito séria e infelizmente irá piorar rápido no Brasil. Faça o que todo o mundo está fazendo FIQUE EM CASA!
FIQUE EM CASA POR FAVOR.

quarta-feira, março 18, 2020

Uma pandemia chegou junto com meus sete meses na Irlanda



Eu estar na Europa nesse momento certamente deixa muita gente preocupada.
Na última sexta-feira todas as escolas e universidades da Irlanda fecharam as portas e não se sabe quando irão reabrir. Nesse mesmo dia as pessoas foram aos mercados e esvaziaram as prateleiras. Estima-se que mais de 60% da população da Irlanda contraia o vírus! 
O vírus veio para marcar profundamente minha estadia por aqui. 
Ver como os Irlandeses estão lidando com a pandemia é inspirador. O senso de responsabilidade coletiva é muito mais presente aqui do que no Brasil. Várias ações estão sendo desenvolvidas para tentar conter o avanço da doença. 
Os PUBs estão fechando - dizem que até então, apenas Deus teria esse poder - os irlandeses estão fechando pubs, cafés, restaurantes... Os comerciantes estão perdendo dinheiro, mas eles estão fazendo isso para que o corona não ceife ainda mais vidas. Isso é pensar nos outros e eu estou tendo uma aula sobre isso estando aqui durante esse período.
É egoísmo meu falar que o Corona ta fazendo um estrago na minha vida, quando sei que ele ta afetando de maneira muito pior a vida de tantos outros, mas à partir de amanhã o vírus dará uma nova cara a minha estadia aqui na Irlanda.
Eu pensei que o cancelamento das comemorações de San Patrick’s day, que contei os dias e sonhei muito em ver, seria a pior coisa que aconteceria, mas estava redondamente enganada. 
Muitos de meus colegas, a minha família Irlandesa, eles estão voltando para o Brasil. SIM, VOLTANDO PARA O BRASIL! O curso irá continuar online pelo menos pelo resto do semestre... tenho certeza de que ainda voltarei a ver alguns, mas tudo o que vivemos aqui no Courtbrack começa a ficar no passado. Não to sabendo lidar com essa nostalgia que já se tornou minha maior companheira, mas isso será assunto para outro texto.
A previsão é que os aeroportos fechem em breve e existem rumores de que os mercados e lojas também irão fechar nos próximos dias. A quarentena por aqui está sendo levada a sério e me irrita muito quando vejo alguns brasileiros postando que “é só uma gripe”, “não faz mal, não to no grupo de risco”, “isso é invenção da mídia”, “vou aproveitar as férias/quarentena para viajar” isso tudo é uma mistura de falta de informação, com egoísmo e a inexistência de bom senso. Essa pandemia é real e ainda vai matar muito mais gente e isso é terrível, precisa ser encarado como tal. O que estou vivendo aqui é completamente inédito para mim, parece coisa que acontecem nos filmes, estou ansiosa e um pouco assustada, mas me sinto segura.
 Certamente não era assim que eu esperava escrever meu texto de sete meses na Irlanda, um mês em que tantas coisas lindas aconteceram em minha vida, um mês tão especial, que infelizmente se transformou em um período em que tenho que me despedir de muitos de meus amigos e infelizmente ter a certeza de que nada será como antes. 

Estando sete meses aqui não acho precipitado dizer que nunca mais conseguirei tirar a Irlanda da minha vida. Eu amo a Irlanda, mas definitivamente odeio o Corona virus!