quinta-feira, agosto 30, 2018

Histórias de nossa gente - Entrevista com Dona Martinha




O Histórias de Nossa Gente dessa semana conta sobre a vida de Dona Martinha, uma das mais antigas moradoras do centro da cidade de Alfredo Wagner, pessoa que testemunhou todo o crescimento da região. Ela nos fala um pouco sobre sua vida, sobre a constituição de sua família, além de nos trazer lições de saúde e fraternidade.
Martinha, que tem hoje 85 anos, nasceu no Pinguirito, onde seus pais possuíam engenho de farinha, de açúcar, atafona, serraria e algumas plantações. Desde muito pequena ela e os seus oito irmãos contribuíam, juntamente com alguns empregados, no árduo trabalho que as atividades do sítio exigiam.
Ela relata um pouco sobre como acontecia este trabalho. Tinham que secar a massa de mandioca dento dos balaios, os tipitis, para fazer a farinha. Levantavam bem cedo - antes do nascer do sol - para lavar a mandioca dentro do arroio da propriedade. Martinha relembrou o quanto era difícil fazer isso no auge do inverno, com as águas quase congeladas. O trabalho que começava cedo, muitas vezes varava a noite e de sol a sol a família trabalhava, sempre unida.
Vale lembrar que naquele tempo ainda não existia luz elétrica, os equipamentos eram movidos por força animal, ou tocados a água. As pombocas e os lampiões iluminavam a vida das famílias, o que tornava comum acordar com o nariz preto, por causa da fumaça do querosene.
Apesar de ter estudado apenas por oito meses, Matinha ainda lembra-se de sua professora, Maria Moraes. “Aquele tempo era diferente, se ensinava mais”, se referindo ao fato de ter aprendido muito do básico, em tão pouco tempo. “Ler, escrever, fazer contas... Aprendi tudo muito bem!”. O pai era preocupado com a educação dos filhos, por isso contratou uma professora e a instalou dentro de sua propriedade para que os filhos que vieram depois de Martinha pudessem estudar. O nome da professora era Erondina.


A comunidade do Pinguirito era bem isolada, mas se engana quem pensa que por isso não se tinha nada para fazer. Eram constantes na comunidade as surpresas e os bailes de pichurum.
“O pichurum acontecia quando os homens se reuniam e derrubavam uma capoeira ou faziam uma grande roça. Como pagamento, a pessoa que recebia os serviços deveria oferecer um baile, com gaiteiro e tudo mais. Vinha gente de outras comunidades pra ajudar, trabalhavam felizes esperando anoitecer para se divertirem. Muitos namoros começavam em bailes de pichurum. Na “surpresa”, convidavam toda a vizinhança em sigilo. Quem iria receber a surpresa, como o próprio nome já sugere, não poderia saber. No sábado, por volta das nove horas, todos chegavam em frente à casa e dois homens batiam à porta. Vinham abrir, e eles entravam no quarto, pegavam o dono da casa e traziam para a sala; abriam a porta, a gaita já tocava e a festa começava. Um porco gordo – ou galinhas - já era apanhado no chiqueiro, carneado e sua carne comida com pão, trazido pelos organizadores da surpresa.”
Dona Martinha lembra que o gaiteiro que animava tais festas se chamava Anastacio e era um vizinho da família. Nessas ocasiões tinham sempre uma fartura e ela também lembra com saudades das roscas e broas que a mãe fazia.  
Aos domingos, a juventude da região costumava se reunir e foi em uma dessas reuniões que Martinha conheceu o então futuro marido, Ascendino da Cunha. A senhora recorda que ele chegou perto dela e falou: “Posso chegar do teu lado?” e então começaram a conversar a surgiu o namoro, que acabou se transformando em casamento.
A família Cunha sempre foi muito católica e vivia dentro dos preceitos da igreja. Ela se casou na casa de seu pai, no Pinguirito, e hoje ostenta em sua sala as fotos do casamento. A vida da família iniciou na Limeira, onde nasceram os primeiros filhos. Anos depois, buscando melhores possibilidades de vida, se mudaram para o centro, estabelecendo-se primeiramente nas Águas Frias, depois indo para o Barracão e em mais algumas casas, até se estabelecerem há mais de 30 anos em definitivo, no local onde Martinha vive até hoje.


“Comemos o pão que o Diabo amassou primeiro, mas depois deu certo”, fala Martinha se referindo ao quanto a família teve que trabalhar para prosperar. Primeiro eles compraram um posto de gasolina, mas fortes chuvas derrubaram algumas pontes e o movimento caiu drasticamente, obrigando a família a se desfazer do posto. Com o dinheiro da venda do posto compraram um caminhão, mas o marido acabou se acidentando com ele, o que também gerou grandes prejuízos a família. Matinha sempre foi muito forte e também trabalhava para ajudar no sustento dos filhos. Nessa época lavava roupas para fora. Posteriormente, a família montou uma olaria e seguindo os exemplos que tinham de casa, os filhos sempre ajudaram a trabalhar.
Com muito trabalho a família prosperou e Martinha se orgulha em falar que todos os filhos estão muito bem. Ela relata que o que mais lhe traz orgulho são os laços de harmonia e união que os filhos e netos mantêm. “Minha família quando vem não cabe mais dentro da casa, são mais de 60 já”. Ela e seu Ascindino tiveram nove filhos, 28 netos e já tem 15 bisnetos.


Martinha ainda mantém alguns hábitos que herdou da mãe, um deles é o cultivo de chás. Ela e os irmãos foram criados tendo os chás e outras plantas como os únicos remédios quando estavam doentes e ela assegura a eficiência deles, sendo assim, sempre tem alguns tipos de chás em casa: Cavalinha, Salvia, loro, “lavo bem lavadinho, depois boto pra secar”.
Além das Plantas medicinais, Dona Martinha ressalta sua alimentação saudável como alguns dos motivos de sua longevidade e saúde. Ela ainda prepara seus alimentos, sempre pensando em uma alimentação saudável, natural e balanceada.  
“Madre Teresa de Calcutá”. Outras características de Martinha são a generosidade e hospitalidade. Ela já foi até mesmo chamada de Madre Tereza, e não é surpresa para quem a conhece. Ela nos conta com orgulho: “apareceu aqui eu recebo”. Nos falou que recentemente abrigou um grupo de quatro mochileiros argentinos, que estavam dormindo na praça. Lhes deu as refeições, roupas, ofereceu a casa para eles tomarem banho e disse que fazendo isso se sente muito bem, com o coração transbordando de amor e fraternidade.
Falando em acolhimento, ela relembrou a amiga Virginia. Quem não lembra da Virginia? A centenária morreu há dois anos, aos 104 anos e deixou saudade no coração dos amigos. Dona Martinha nos contou que todo dia olha para a foto dela e sente saudade da amiga que conheceu quando ainda era criança. Virginia também nasceu no Pinguirito e mesmo tendo problemas para falar, Dona Martinha entendia tudo o que a amiga dizia. Elas conviveram durante muito tempo, e Martinha afirma que apesar de todos os seus problemas, Virginia viveu uma vida feliz, pois ela sempre estava alegre, contando, dançando, adorava os desfiles de 7 de setembro e se vestia sempre com bastante enfeites.



Ascendino, seu esposo, morreu há 10 anos. Além da enorme saudade do companheiro de tantos anos, ela também sente saudade de alguns vizinhos que já não vivem mais.
O que sentimos ao conversar com dona Martinha foi algo muito bom, uma paz, um misto de alegria e satisfação. Foi sem dúvidas um encontro maravilhoso, encerrado com um chá, um bolo fitness e boas gargalhadas.




quarta-feira, agosto 29, 2018

Eva - Por onde andou no Barracão


O primeiro livro da Eva Schneider é ambientado no Barracão, hoje cidade de Alfredo Wagner. Quem não conhece a cidade fica imaginando como são, realmente, os lugares por onde a nossa Eva passou, então resolvi fazer uma postagem com imagens dos locais por onde a nossa pequena aventureira andou.

O conto um, chamado “O terrível Martinho Bugreiro” é todo ambientado no Caeté, local onde os tios de Eva vivem. Na imagem abaixo podemos ver o livro, junto com as flores de Caeté, que dão nome a localidade e também ao rio que a corta. É nessa localidade que Eva vive grande parte de suas aventuras, é lá que ela toma banho de rio, cavalga com Artigas, desvenda enigmas....


Seguindo o livro, chegamos ao capitulo dois, chamado “Os guardados do Campo dos Padres”, é lá onde Eva encontra os guardados, aos pés dos Soldados, que particularmente é um dos lugares que mais amo no mundo inteiro. Além de maravilhoso, a energia do lugar é fantástica! Inclusive, como não iria demorar a acontecer, o local começou a ficar muito conhecido e apareceu nas imagens do Globo Repórter do dia 24/08! Lá até hoje existem pumas e bugios.


O terceiro capitulo se chama “O estranho encontro com o Soldadinho”. Nele Eva está na região das Demoras e do Soldadinho. No Conto estava nevando, às vezes as pessoas podem ficar se perguntando, mas em Alfredo Wagner neva? Neva! A imagem mostra a neve de 2013 cobrindo os campos das Demoras. Lindo e frio!



“O presente da Imperatriz” é o quarto capítulo do livro e se passa na comunidade de Santa Teresa, hoje conhecida como Catuíra. A igreja nova foi construída no local onde ficava a antiga, onde Eva ajudou a capturar o ladrão da santa doada pela Imperatriz. Na segunda foto podemos ver a igreja antiga. Nesse conto também lemos a divertida história de Sabu ouvindo o barulho do aeroplano. Na terceira imagem temos o morro do camelo, em que a “lenda” conta que um avião bateu, arrancando a vegetação”.




“O amigo Katze” é o quinto capítulo e nele Eva encontra Katze, o Leão Baio que passa a ser seu amigo. Na imagem, um autêntico leão baio alfredense. Rsrs. A fêmea foi fotografada pelas câmeras da RPPN Rio da Furnas, aqui de Alfredo Wagner.


O sexto capítulo é cheio de adrenalina e é onde Eva conhece o grande amigo de seu pai Dr. Henry. “Quebra Dentes e a lenda do tesouro Inca” é ambientado no Quebra Dentes, hoje conhecido como São Leonardo. Na foto Eva está em frente ao antigo hotel da comunidade, que abrigava os viajantes e onde – graças a licença poética – Eva teria ficado hospedada.


Uma parte do capítulo oito “A Cobra e a Bruxa” se ambienta na Lomba Alta. Nele eles conhecem a gruta do Poço Certo. Na foto, temos uma aluna com o chapéu da Eva, na gruta apresentada a nossa pequena aventureira por seus “irmãos” Ceci e Sabu.


O conto “A erva rejeitada por Deus” leva o leitor literalmente para as alturas. No nono capítulo Eva precisa ir até o alto da Pedra Branca para encontrar a erva que Deus rejeitaria, enviando novamente para cima do penhasco. Nas fotos, temos a visão da Pedra Branca e também a imagem que se vê de cima de dela. No vídeo, assistimos um acontecimento semelhante feito com pratos de papelão. Existe uma explicação científica, tanto para os pratos como para as ervas voltarem, mas ficaremos com a versão de que Deus selecionou aquela erva para salvar o nosso Sabu.




Mais um conto que mostra lugares emblemáticos de nossa cidade é o décimo primeiro “O enigma da Ponte. A ponte Emilio Kuntze está na memória e no coração de muitos Alfredenses, era ponto de encontro, era histórica, marcava a nossa identidade. Infelizmente foi desativada e derrubada na década de 80, para dar lugar a uma mais moderna, porém ela permanece intacta nas lembranças de todo mundo que viveu naquela época.


Tem foto do livro da Eva em algum lugar legal? Nos mande, pra uma postagem especial! =) 


terça-feira, agosto 28, 2018

Irlanda - Day 3 - Education System


              
O terceiro dia era cheio de compromissos e, como sempre, começava bem cedinho! Era dia de conhecer um pouco mais sobre o sistema educacional da Irlanda, assistir a algumas palestras na MIC e, à noite, um grande jantar em um hotel no centro de Limerick.
A agenda era de extrema importância, pois envolvia visitas a escolas públicas de Limerick, onde pudemos ver um pouco da estrutura e conhecemos mais sobre o trabalho dos professores de lá, além de interagir com as crianças. Nas escolas não eram permitidas fotos, então com a ajuda de um relato escrito pela professora Andréia Rodrigues de Oliveira, autora do projeto “Identidade, Arte e Literatura: uma parceria colorida”, vou contar um pouco mais sobre essa experiência para vocês.
Visitamos três escolas: Limerick School Project, Laurel Hill Coláiste e Catherine McAuley.

Limerick School Project

A Limerick School Project é uma escola primária multiconfessional que atende crianças de 6 a 12 anos, num total de 218 crianças.
A organização da escola é muito parecida com as das nossas – pelo menos as de Santa Catarina. Uma sala de cada “série”, um professor por sala, mais professores de suporte de aprendizagem e professores assistentes para necessidades educacionais especiais.
Nessa escola encontramos muitos alunos imigrantes ou filhos de imigrantes há pouco tempo no país. O que pode ser encarado também como uma possibilidade muito grande de troca de cultura, que acho que na medida do possível é explorada pelos professores. Existiam até mesmo alunos brasileiros e foi a mãe de um desses alunos que foi nossa intérprete. Mas meu grupo tem que agradecer ao intérprete Arthur - professor de Belém, vencedor com o projeto "Festa solidária: leitura, escrita e intervenção na comunidade" - que foi o grande responsável por toda a tradução. 
As paredes da escola eram ornamentadas com muitos trabalhos de alunos. Trabalhos lindos! Um desses trabalhos retratava algumas pessoas inspiradoras do mundo, como Che Guevara, Mandela, Frida... bem massa!
                Para garantir uma vaga, assim que as crianças nascem elas já devem ir para a lista de espera, para garantirem uma vaga quando chegarem a idade escolar.  




Laurel Hill Coláiste FCJ

Laurel Hill Coláiste FCJ é uma Escola Secundária Voluntária Católica para meninas, onde o irlandês é o meio de instrução. Sua missão é proporcionar uma educação ampla e equilibrada, que promova o desenvolvimento acadêmico, espiritual, pessoal e criativo de cada indivíduo, em um ambiente respeitoso e solidário. Ela atende 409 meninas.
Sua visão para a escola é que seja um lugar onde:
- Os Valores cristãos são de suma importância;
- Um forte senso de comunidade prevalece;
- A autoestima de cada pessoa é realizada;
- Os estudantes são educados para uma cidadania responsável;
- Respeito pelo meio ambiente é uma preocupação primordial;
- A ética do trabalho duro é incentivada;
- A língua, o patrimônio e a cultura irlandeses são promovidos;
- O objetivo da escola é cooperar com os pais na promoção do desenvolvimento pleno e equilibrado de cada aluno.
A Laurel Hill Coláiste já foi classificada várias vezes como a melhor escola da Irlanda pelo Sunday Times Guide. Ela é conhecida por sua destreza acadêmica, com destaque nas tabelas nacionais de classificação do Certificado de Conclusão e entrada de terceiro nível, ficando no topo de todas as escolas públicas. Para entrar as alunas prestam uma prova.
 Como é de se esperar de uma escola católica e com uma tradição tão grande, ela é bastante tradicional, todas as meninas usavam uniforme – aquele com saia, camisa, gravata, blusão, meia e sapato.
No ciclo Sênior, há matérias obrigatórias - Educação Religiosa, Orientação Profissional, Educação Física, Irlandês, Inglês, Francês, Matemática e Tecnologia da Informação - e opcionais - Física, Química, Biologia, Economia, História, Geografia, Arte, Alemão, Espanhol, Música, Negócios, Sociologia e Ciência.
Foi nessa escola que Dolores O'Riordan, estudou! – Vocalista da banda The Cranberries - Dá para acreditar? Além de Dolores, a Holly – coordenadora da parte internacional da MIC – também estudou lá.
O campus era imenso e lindo! <3 o:p="">



Catherine McAuley School

 Escola pública confessional (católica) que atende 191 crianças de 8 a 18 anos com necessidades educacionais especiais, principalmente com Deficiência Leve de Aprendizado (Q.I. entre 50 e 70). 
O diretor, Sr. Greg, nos apresentou a escola dizendo que a missão da escola era: Que as crianças fossem felizes lá e preparadas para terem autonomia e independência dentro de suas especificidades, possibilitando uma inclusão na sociedade, tendo acesso ao ensino, explorando suas capacidades.
Podia-se notar muitos aquários na escola. Água, de acordo com pesquisas, acalma as crianças.
Além do currículo, as crianças têm atividades diferenciadas como Economia de Casa, Cabelo e Beleza e Marcenaria. Essas atividades visam ajudar as crianças no desenvolvimento de atividades de vida diárias, conforme Sr. Greg nos explicou.
As salas têm poucos alunos: 6 nas salas de autistas e cerca de 8/10 nas outras salas. Havia sempre dois professores em sala.


Saindo dessa escola, seguimos para o almoço. Nossa mesa estava muito animada e acabamos conversado mais intimamente sobre família, vida etc.
Depois do almoço fomos para uma rodada de palestras na Mary I.
Chegando na universidade, fomos conhecer mais alguns espaços e acabamos entrando em uma sala onde alguns professores estavam tendo aula de “automação” com o Lego. A proposta é bem semelhante a uma que tivemos aqui em Santa Catarina no ano de 2009, em que as escolas receberam o material e alguns professores a formação para trabalhar com isso em sala de aula. Infelizmente o projeto não deu muito certo por aqui, pois o estado acabou desistindo da ideia, retirando o coordenador do projeto das escolas e hoje o material está lá guardado. Seria de grande importância que nossos alunos ainda tivessem acesso a esse tipo de material. Essa foi mais uma das coisas maravilhosas que o Colombo fez pela educação do nosso estado.
        As palestras no MIC também foram muito legais. Conhecemos o Dr. Trevor O’ Brien -Palestra sobre Educação para crianças e jovens com necessidades educacionais especiais - , Dr. Finn Ó Murchú - Palestra sobre o Sistema Educacional Irlandês -, Dr. Ann Higgins e M.Ed. Ruth Bourke - Palestra sobre o projeto TED – Transforming Education through Dialogue, que é uma parceria da Mary Immaculate com escolas e outras instituições da região que procura melhorar e aumentar os resultados educacionais através do desbloqueio de potencial e inclusão social, ampliando oportunidades - e M.Ed. Des Carswell - Palestra sobre contexto sócio-político educacional atual.


                A noite foi o nosso jantar, que aconteceu no Strand Hotel, que é um dos mais prestigiados da cidade. Era um jantar formal, cheio de gente importante da Mary I, onde nós éramos os convidados principais. Do alto do hotel nós podíamos ter uma bela vista da cidade, suas construções, rios e pontes. O que contribuiu para a nossa visão foi o pôr-do-sol tardio, que chegou só depois das 22h.
                No jantar aconteceu a apresentação de um grupo de dança irlandesa, achamos bem interessante e acho que não houve quem, mesmo sentado, que não tentou fazer alguns passinhos. Rsrs


                Ao final do jantar, acabei fazendo amizade com o motorista do ônibus e como a gente queria conhecer alguns pubs do centro, contratamos ele para nos levar até lá. Então fomos ao dormitório, trocamos de roupa e seguimos para o centro, onde conhecemos o The Locke Bar, um pub super movimentado e lotado. Apesar de escurecer tarde a vida noturna dorme cedo em Limerick e as 2 horas o pub estava fechando as portas. O tempo no Pub foi divertido e as cervejas como sempre estavam quentes, porém boas! Rsrsrs
                Saindo dali, fomos andando – com o Matheus de guia – até uma outra área cheia de pubs, a ideia era entrar em um com música ao vivo, mas Lorena teve alguns tropeços pelo caminho e acabamos não entrando no pub. O jeito foi pegar um táxi e voltar para o alojamento, rindo muito de todas as histórias.





quinta-feira, agosto 16, 2018

Histórias de nossa gente - Entrevista com Seu Antônio Polícia e Dona Joana




Para dar início a mais esse projeto, escolhemos alguém que aos seus 85 anos certamente tem muita história para contar, Antônio Luiz Martins, ou como é mais conhecido, o seu “Antônio Polícia”. Como ao lado de um grande homem sempre existe uma grande mulher, quem o acompanha em seus relatos é sua esposa Joana – 78 anos.

Antônio nasceu em Paulo Lopes, filho de Luiz Antonio Martis e Maria Idalina da Conceição Martins. Aos 12 anos perdeu o pai e mesmo sendo tão jovem assumiu o papel de homem da casa. Entrou para a Polícia Militar de Santa Catarina, no dia 05 de outubro de 1954 trabalhando na cidade de Florianópolis, logo se apaixonando pela profissão.
Avançando na carreira, foi transferido para a cidade de Urubici, chegando lá no dia 30 de julho de 1955 em meio a um inverno rigoroso. Ele recorda que quando estava chegando à cidade conheceu a neve, que havia caído aos montes e deixava branquinha toda a Serra do Panelão. Foi uma recepção e tanto! Ali ele teve uma prévia de como seria o inverno daquele ano, um dos mais severos que já viu. Foi na cidade serrana que ele conheceu Joana Rosa Martins, seu grande amor, companheira de toda a vida, mãe de seus filhos, testemunha e parceira de tudo o que viveu até aqui.
                Quando os novos policiais chegaram à cidade, a notícia logo se espalhou: “A notícia correu e as gurias ficaram todas assanhadas”, contou Antônio. Joana não estava na cidade quando eles chegaram, estava realizando um batizado na comunidade de Rio do Tigre, pois ela sempre foi muito envolvida com a religião e assuntos da comunidade, porém quando ela retornou as amigas Pedra, Sebastiana e Lurdes contaram a ela a novidade.

                Joana trabalhava no hotel dos pais e o encontro com Antônio não demorou a acontecer. Eles relembram como se fosse hoje o momento em que o olhar dos dois se cruzou pela primeira vez. Joana conta que o jovem policial estava encostado no balcão do bar do seu Nonoca quando ela passou em direção à cozinha e eles trocaram cumprimentos cordeais de “bom dia”. Na volta ele já estava mais afastado do balcão e como também havia ficado interessado na moça, se preparou para puxar assunto, mas a primeira impressão de Joana era de que ele era um “gurizote”, pois como ela nos falou “ele não tinha barba, bigode, nem nada”. Contudo, apesar de parecer muito jovem, o moço era bem-apessoado, sempre com sua farda muito bem alinhada. A conversa fluía bem, assim, logo um se encantou pelo outro e começaram um namoro, que era bem diferente dos namoros em tempos modernos; eles só podiam se ver se tivesse mais gente por perto, não podiam pegar na mão e muito menos se beijar. Como o amor só crescia, logo estavam preparando as coisas para o casório.

Eles casaram e foram morar em Águas Brancas, também na cidade de Urubici. Foi lá que tiveram seus dois primeiros filhos, Luiz Carlos Martins e Izete Terezinha Martins. Posteriormente, Antônio foi transferido para a comunidade de Canoas, na cidade de Bom Retiro. A vida por lá não era fácil, tinha um custo muito alto, então assim que soube da notícia de que estavam montando um regimento na Colônia Militar de Santa Tereza, hoje conhecida como Catuíra, o policial pediu transferência e no dia 03 de março de 1959 ele e a família foram morar na localidade que mais tarde faria parte da nossa Alfredo Wagner.


O casal relembra com saudade o tempo em que viveram em Santa Tereza, pois o local era tranquilo, com uma boa vizinhança, onde eles criaram seus filhos. Aliás, foi lá que após algum tempo mais filhos nasceram: Izolete Terezinha Martins e Antônio Carlos Martins.
       A vida de policial não era muito fácil naquele tempo, Antônio conta que existiam poucos recursos. As diligências eram feitas de bicicleta, com cavalo emprestado ou a pé. Muitas vezes ele carregou o preso na garupa da bicicleta para levá-lo até a delegacia do Barracão. Outras vezes ele pegou cavalo emprestado para ir até localidades mais distantes realizar prisões e quando precisava levar os acusados até a cidade de Bom Retiro, quase sempre precisava ir para a beira da estrada pegar carona com carros e caminhões que passavam subindo a serra. Nem mesmo algemas eles tinham naquela época, mesmo assim o ex-policial conta com orgulho que nunca precisou usar da violência para manter a ordem. Ele sempre foi respeitado, onde quer que estivesse, e esse respeito fazia com que as coisas se tornassem mais fáceis para ele, que apesar de não ter recursos, cumpria com êxito suas obrigações, que eram muitas.
No ano de 1960, houve 14 assassinatos no município, todos por briga. Antônio prendeu 13 assassinos em flagrante, entretanto ainda lamenta não ter prendido o 14º, que foi o único assassino que fugiu naquele ano. Tratava-se do acusado por um assassinato que aconteceu quando os dois homens desciam de um ônibus vindo de Rio do Sul; o homem disparou contra a vítima e correu para o mato, não sendo mais encontrado. Ele relembra que algumas comunidades como Barro Branco, Alto Limeira e Barrinha tinham um alto índice de violência e casos desse tipo eram comuns por lá, contudo não era comum os assassinos ficarem impunes.
                Após a emancipação político administrativa, o distrito do Barracão se separou de Bom Retiro e se transformou na cidade de Alfredo Wagner. Como não era mais permitido ter destacamento em distritos, no dia 20 de março de 1964, Antônio e a família se mudaram para o centro, indo viver no estreito, bairro em que moram até hoje e foi lá que tiveram mais uma filha, Eliete Terezinha Martins. Dona Joana recorda com saudade dos antigos vizinhos, lembrando o quanto tudo era tranquilo e o quanto o espírito de fraternidade pairava no ar.


                Quando vieram morar no centro não tinha a igreja matriz nem o hospital. Eles viram tudo isso ser construído, viram tudo de importante que aconteceu em nossa cidade desde sua emancipação.
                Foi morando na cidade que uma figura passou a ser bastante conhecida da família, o Sony, nego Sony como era conhecido. Eles conheceram o menino desde criança, sempre muito levado e quando começou a crescer, passou a roubar, basicamente para comer e passar bem. Antônio lembrou-se da vez em que ele roubou na venda do José de Campos, outra em que roubou um porco no chiqueiro do Nino Barth. Ele conta que Sony matou o porco e cortou em fatias bem fininhas, e como conta a história, de fato assou ele na vela - mas não o porco inteiro - como contam para impressionar.

Seu Antônio e Sony tiveram uma longa história juntos, pois o policial o capturou muitas vezes. Antônio Polícia conta que Sony tinha confiança nele, pois sabia que o amigo não iria maltratá-lo, apenas levá-lo para a cadeia. Certa vez quando ele estava em busca do fugitivo, o mesmo foi até a casa de Antônio e almoçou com Joana e os filhos. Quando chegou em casa, a esposa contou que tinha dado comida ao velho conhecido. Antônio também lembra que noutra vez trouxe o negro com as mãos amarradas com um cipó, pois naquela época a polícia de Alfredo Wagner ainda não possuía algemas, ele foi encontrado próximo à caverna que lhe servia de esconderijo, no morro do cemitério.
                Antônio trabalhou como Policial Militar até o ano de 1979 e depois foi trabalhar pela Polícia Civil. Quando faltava delegado era o quebra galho e como Policial Civil também contribuiu muito para a segurança da cidade.



                A religião é outro aspecto muito marcante na vida do casal, visto que a partir do ano de 1974 Antônio e Joana passaram a ser Ministros da Comunhão e posteriormente Ministros do Batismo. Trabalharam muito tempo na igreja e em obras sociais, ajudando as pessoas mais necessitadas da cidade, arrecadando roupas, alimentos, remédios, ajudando a construir casas ou até mesmo, levando uma palavra de acalento para quem precisava.
                Foi com esse espírito altruísta e de justiça que eles criaram a família da qual eles não escondem o orgulho. Os cinco filhos biológicos, juntamente com a filha Cida foram criados dentro desses conceitos e hoje enchem de felicidade o casal que nesse ano completou 61 anos de casamento e faz questão de dizer que “sem nenhum arrependimento de nenhuma das partes”. Uma vida juntos, sempre tendo a felicidade e a alegria como grandes companheiras. Foram anos de muito trabalho e economia, mas que a cada dia mostram a recompensa. Uma das maiores alegrias do casal é reunir a família toda, os filhos, os nove netos e os seis bisnetos. “Não tem uma coisa que deixe a gente mais feliz, a casa cheia, todo mundo conversando nas refeições, é muito lindo ver a alegria deles, pois eles também gostam muito de se reunir”. Joana também lembra: “Antigamente a gente ia para a praia, a gente tinha uma caravan e ia cheia, todo mundo ficava junto, era uma alegria só, aquele monte de crianças brincando, era muito bom”.


Tamanha é sua contribuição para a cidade que no ano de 1976 seu “Antônio Polícia” recebeu o título de Cidadão Alfredense, mesmo não sendo natural da cidade. Nem ele, nem Joana nasceram em Alfredo Wagner, mas dizem que “foi essa cidade que nos acolheu e é aqui que plantamos as nossas raízes e escrevemos a nossa história”.