terça-feira, abril 16, 2019

Eva Schneider em: Retorno às raízes



Bijuca era realmente uma ave diferente. Desde que retornaram de Bom Retiro eles deixaram de ser um trio e passaram a ser um quarteto, pois a ave os acompanhava o tempo inteiro. Até mesmo quando cavalgavam o pássaro seguia com eles, sobre a cabeça de Eva. Além disso ela era extremamente treinada, atendendo a comandos como: “fica”, “venha”, “voe”... entre outros.
Certo dia Eva disse para a ave ficar empoleirada na cerca do sítio e a noite quando sentiu falta de Bijuca no poleiro que ficava no seu quarto lembrou que não tinha dado o comando para a ave voltar a se mexer. O bicho permanecia lá, pousada sobre a cerca.
Além de alegres pela nova companheira, todos estavam animados pois tinha chegado o dia de finalmente irem até a Barra da Jararaca. Tio Albert estava muito empolgado, pois finalmente ele iria até a “Sociedade Colonisadora Catarinense” pagar a última parcela de suas terras, que ele havia comprado há dez anos. Quase todos os colonos que moravam no Barracão haviam comprado suas terras através da Sociedade Colonisadora e a sede era na Barra da Jararaca. A família do tio Albert aproveitaria para comparecer a uma festa na casa de Paulo, um grande amigo e compadre. Lá seriam carneados um boi e dois porcos. Sendo assim eles dormiriam duas noites na Barra da Jararaca e as crianças já estavam afoitas pelo passeio.
Foram todos de carroção e Bijuca percorreu todo o caminho voando, acompanhando a família.
As crianças não conheciam a localidade, mas acharam um vilarejo muito bonito, com suas casas todas construídas em madeira com muito capricho. A maioria das residências possuía belos jardins floridos com os mais diversos tipos de flores: amor-perfeito, cravo, margaridas brancas, camélia e copo de leite... as flores davam um ar de alegria ao vilarejo.
Destoando das outras casas da vila, estava o imponente casarão onde ficava a sociedade colonisadora. Entre árvores e flores, num belo recanto situava-se majestoso, o casarão. Era de madeira, construído com paredes duplas. Tudo na casa chamava a atenção. Ela possuía três pavimentos; Sabú e Ceci achavam que se tratava de um palacete.
Tio Albert ao perceber o interesse das crianças pela casa contou:
- Essa casa levou muitos meses para ficar pronta. Os últimos retoques aconteceram no ano de 1908. Por volta do ano de 1921 o casarão foi vendido para o doutor Ernesto Primo, natural de Porto Alegre, um dos diretores proprietários da Sociedade Colonisadora Catarinense. Ali, junto ao palacete, fica o escritório da Sociedade e é ali que trabalham Paulo Schlichting e Antonio Souza. Nos fundos do casarão tem uma piscina, com água corrente que vem da montanha.
- Uma piscina? O que é isso? – Perguntou Sabú.
- Áh, piscina é um buraco cheio de água onde as pessoas se refrescam, para não terem que ir até o rio – explicou Albert – no casarão também tem outra coisa que vocês não conhecem bem: Um banheiro completo, inclusive com banheira, chuveiro, vaso sanitário e lavatório com instalações hidráulicas em perfeito funcionamento; bem diferente da patente que todo mundo usa lá em casa.
- Na minha casa, de Heidelberg, tinha um banheiro tio e era bem mais fácil para tomar banho nele, principalmente no inverno – lembrou Eva.
- Pois é, um dia quem sabe a gente constrói um lá em casa – Disse Matilda, cutucando Albert.
- Banheiro é frescura Matilda, tem coisa mais importante – resmunga tio Albert, enrolando os bigodes.
            Interrompendo a conversa chegou Paulo, cumprimentando o compadre e a comadre. Ele convidou a família para entrar e tomar um refresco. As crianças estavam ansiosas, queriam mesmo era ver a piscina. E Albert percebendo isso disse ao amigo:
            - Paulo, será que minhas crianças podem ir ver a piscina? Eu tenho um gurizinho aqui que ta louco para saber o que é.
            - Claro, podem ir crianças.
            Elas pediram licença e foram olhar.
            Sabú achou tudo bonito e ficou louco de vontade de entrar, mas Eva disse que não poderiam entrar, a não ser que o senhor Paulo oferecesse. Quem não pediu permissão foi Bijuca, que não se fez de rogada e assim que viu a água aproveitou para se refrescar.
            As crianças ficaram admiradas com o tamanho da casa, mas não entraram, apenas observaram tudo pela janela.
            Tio Albert chamou as crianças para pegarem suas coisas dentro da carroça. Para o espanto delas, eles ficaram acomodados no andar inferior do casarão. Ceci e Sabú nunca tinha entrado em uma casa tão bonita e grande. Por dentro tudo era diferente da casa de Albert. Ceci observava tudo com muita atenção, tinham algumas louças lindas, cortinas de renda, móveis grandes e que brilhavam.
De repente um barulho estranho começou a ser ouvido. Ceci e Sabú se olharam assustados, pois não conheciam o bicho que emitia aquele som. O barulho parecia estar vindo de um aparelho na sala. Senhor Paulo foi até ele, pegou uma de suas partes colocou na orelha e começou a falar sozinho. Os indiozinhos acharam aquilo muito estranho e ficaram olhando admirados.
            Percebendo a admiração dos amigos Eva disse:
            - Isso é um telefone. O senhor Paulo não está falando sozinho, através daquela parte que ele coloca no ouvido ele escuta outra pessoa, que pode estar em qualquer lugar; Florianópolis, Lages, Bom Retiro... em qualquer lugar que tenha outro aparelho desses.
            - Meu Deus, isso é magia Eva? – Perguntou Ceci.
            - Claro que não, isso se chama ciência Ceci, foi um homem que inventou.
            Percebendo a conversa senhor Paulo faz um sinal com a mão, chamando as crianças para perto dele e afastando um pouco o telefone do ouvido, assim permitindo que elas ouvissem um pouco do que a outra pessoa falava.
            Ceci e Sabú ficaram boquiabertos. Aquilo era uma coisa que eles jamais imaginavam poder existir.
Depois de conhecerem essa tremenda novidade, as crianças saíram para brincar na rua. Os indiozinhos chamavam a atenção, mas na verdade Eva não saberia dizer se o que chamava mais a atenção do povo eram eles, ou Bijuca, voando e pousando em seu braço.
            De repente Bijuca voou e ficou parada em uma janela e começou a berrar: “gararah, gararah”. Eva a chamou, uma, duas vezes... mas ela permaneceu lá, imóvel e gritando; o que não era nada comum, pois jamais ela havia deixado de atender a um comando de Eva.
            A menina continuou chamando a ave, sem surtir efeito algum. Foi então que de dentro da casa uma senhora colocou a cabeça para fora, para ver o que estava acontecendo. Assim que a senhora apareceu a ave parou de gritar.
            Eva parecia confusa e demorou cerca de 5 segundos para reconhecer a pessoa.
            Era Heide! A senhora que segurou sua mão na noite de tempestade no navio e com quem a menina passou boa parte da viagem.
            - Heide?
            - Minha nossa senhora, é você Eva?
            Saíram correndo e se abraçaram. Eva e Heide choraram.
            - Eu nunca pensei te encontrar por aqui. Achei que nunca mais ia ver você Heide.
            - Eu pensei o mesmo. Pois você nunca me disse o nome do lugar para onde estava indo, nem eu disse para você. Nossa intenção era ir para uma cidade chamada Joinville, mas depois ficamos sabendo dessas terras, mais baratas e muito produtivas. Mudamos nossos planos.
            Eva apresentou Sabú e Ceci para Heide. A senhora abraçou carinhosamente cada um deles e convida-os para entrar. Chama-os para irem até a chácara.
            Além do pomar com muitas árvores frutíferas ainda existiam muitas plantas nativas por ali e por toda a comunidade da Barra da Jararaca: inhame, taiá, anticum, peroba, imbuia, jerivá, samambaia, guabiroba. Além da flora, a fauna da região também era esplêndida. Sabú avistou muitos pássaros e foi apontando-os e falando os nomes:
            - Urubu, araponga, uru, tiriva, inhambu, chupim, jacu, Sabiá, quero-quero, joão de barro, massanico do banhado, papagaios, periquitos, araras, garças, gralhas azuis... Meu Deus são tantos!
            O menino fascinado, saiu pela margem do rio, acompanhado por Bijuca.
            Eva, Heide e Ceci ficaram sentadas à sombra de uma árvore. Não demorou muito Bijuca começou a gritar da margem oposta do rio: “gararah, gararah, gararah”. As três olharam e viram que alguém corria pela mata. Sabú chegou instantes depois, abraçou a irmã e disse:
            - Socorro, tem um bugre no mato.
            Eva se espantou e falou:
            - Você é um bugre Sabú, está com medo de que?
            - Eu não tô com medo, apenas me assustei.
            Ceci perguntou:
            - Você tem certeza? – Dirigindo a próxima pergunta a Heide falou:
 – Tem burges por aqui?
            A senhora respondeu:
            - Olha, ultimamente eles têm dado as caras. Estavam sumidos desde que um tal de Martinho Bugreiro andou por aí, mas agora aos poucos eles estão reaparecendo. Mas eles são tranquilos. Esses dias vi dois deles ali do outro lado do rio, acho que estavam pescando. Abanei a mão, mas eles saíram correndo. Deve ser medo, pois me contaram que o seu Francisco, que mora aqui por perto andou dando uns tiros em um desses pobres coitados esses dias.
            Ceci queria saber mais, porém ouviram Matilda chamando.
            Eva apresentou Heide para sua tia, que já sabia o quanto a senhora havia sido importante para Eva durante a viagem, então desde o momento que se viram, se tornaram grandes amigas.
            Enquanto Heide e Matilda conversavam, Ceci pegou Eva pelo braço e disse:
            - Vamos?
            - Vamos onde? – Disse Eva.
            - Vamos achar o bugre, oras!    
            - Claro que não! Tia Matilda não iria querer.
            - Poxa Eva, desde quando você dá bola para isso?
            - Ceci, não sei... tu achas uma boa ideia?
            - Eva, eles são o meu povo...
            Eva devia isso a amiga que a acompanhou em muitas aventuras mesmo sem ter muita vontade. Então, embora meio a contragosto aceitou. Chamaram Sabú que a princípio também não queria ir, mas posteriormente foi convencido pela irmã. Seguiram os três acompanhados por Bijuca.
            Atravessaram o Rio Itajaí do Sul com uma canoa e na margem oposta a chácara de dona Heide eles começaram a busca. Sabú mostrou o local onde ele tinha visto o índio, mas não tinha mais nem sinal dele por ali. Andaram mais para dentro da mata, tentando encontrá-lo, em certo momento Bijuca começou a gritar, todos olharam para o céu, tentando encontrar a ave e a avistaram em cima de uma árvore. Ao olhar para baixo perceberam que atrás do tronco da mesma, estava escondido, olhando meio ressabiado um índio.
            Ele aparentava ter uns 14 anos e parecia estar espantado ao ver índios como ele vestido igual a homens brancos.
            Ceci se aproximou e começou a falar com ele em Guarani.
            - Oi, meu nome é Ceci e esse é meu irmão Sabú e minha amiga Eva.      
            Ele com desconfiança se aproximou e falou:
            - Meu nome é Pequi. Porque vocês se vestem assim? Onde está sua tribo?
            - Nos vestimos assim porque moramos na casa de Eva, nossa tribo não existe mais…
E o papo continuou. Eva e Sabú acompanharam a tudo sem participar muito da conversa; ouviram Pequi contar que a sua tribo ainda existia e que ficava próximo dali. Disse que Martinho Bugreiro também matou muita gente de sua tribo, mas que alguns conseguiram se esconder no mato e passado algum tempo voltaram para o local da aldeia. Agora restavam 20 índios, 5 deles mulheres e 15 homens. O pequeno índio disse que gostaria muito de levar Ceci para conhecer a aldeia.
            Ceci se animou com a ideia, porém Pequi disse que ela só poderia ir se fosse sozinha.
            - Não, sozinha você não vai. – Brandou Eva.
            - Eva, mas qual é o problema? Eles são o meu povo, não irão me fazer mau.
            - Eu acredito Ceci, mas você também não deixaria eu ir sozinha. Além do mais, eu não acho uma boa ideia, estou com um pressentimento estranho.
            - Ah deixe de bobeira Eva, você está é com ciúmes por eu ter um novo amigo.
            - Deixe de ser boba guria, eu jamais teria ciúmes por algo assim, só não acho boa ideia.
            - Pois eu vou, com ou sem você.
            Sabú apenas prestou a atenção na conversa e por fim disse:
            - Vocês até podem ir, mas não hoje... Já está escurecendo.
            Era verdade, já estava ficando tarde e Pequi disse que então iria pegá-los no dia seguinte. No retorno Eva e Sabú foram na frente e Ceci e Pequi vieram mais atrás, rindo e aparentemente se divertindo muito.
            A pedido de Ceci eles guardaram segredo sobre o novo amigo.
            No dia seguinte logo cedo o boi começou a ser carneado. Um gaiteiro da Santa Bárbara veio tocar na festa, que prometia ser das melhores já vistas na Barra da Jararaca. O frei e Heide também estavam por lá e se conheceram. Eva tinha muito carinho por aquela senhora. Sua nora estava grávida, ela era a mãe do garotinho que morreu durante a viagem. Parecia que o novo netinho iria completar a alegria da vida dela, que como ela mesmo falou para a Eva era muito boa aqui no Brasil.
            Ceci estava contando os minutos para chegar a hora de irem conhecer a tribo e assim que o momento chegou, sorrateiramente avisou os outros, que disseram a tia Matilda que iriam colher frutas pelo mato. Antes de sair Eva mandou que Bijuca ficasse no poleiro. Talvez fosse melhor a ave ficar por ali.
            Pequi já estava à espera e assim que viu Ceci lhe deu de presente duas enormes gabirobas.
Os olhos de Ceci brilhavam, ela estava encantada por Pequi e Eva estava achando tudo aquilo muito bobo...
            “Onde já se viu, esse Pequi é um chato” – Sim, Eva estava com ciúmes da amiga, que agora só tinha olhos para o tal.
            Subiram um barranco, andaram por uma encosta, passaram pela mata fechada, até que avistaram uma clareira.
            Quando estavam se aproximando, uma dezena de índios apareceu, com arcos e flechas, todas apontadas para Eva. Eles gritavam palavras que Eva não conseguia entender. Um deles a pegou pelos braços e a sacudiu. Sabú tentou defendê-la, mas foi pego também. Ceci gritava:
            - Deixem ela em paz! Deixem ela em paz! Enquanto Pequi a segurava, impedindo que ela lutasse com os outros índios.
            Eva tentava falar, mas o índio que a segurava tapava sua boca com uma das mãos.
            - Pequi, nos ajude... a Eva é como uma irmã, vocês não podem fazer mal a ela.
            - Não vamos fazer mal, mas o homem branco é traiçoeiro, tem que ficar amarrado.
            - Mas a Eva não é assim.
            - Não podemos confiar em nenhum homem branco.
            Eles amordaçaram e amarram Eva e Sabú juntos a uma árvore próxima a aldeia. Ceci tentou argumentar que eles tinham que ser soltos.
            O cacique pediu para que Ceci fosse conversar com ele. Na conversa ele falou que a aldeia quase não tinha mais mulheres e que gostaria muito que Ceci ficasse ali com eles. Ela e o irmão poderiam viver junto com seu povo, comer as comidas com as quais sempre foram acostumados, praticar seus rituais, viver como eles viviam antes do maldito Martinho Bugreiro aparecer. Disse que ela e o irmão iriam aprender a caçar, pescar, colher, viveriam como seus pais tinham vivido. Além disso ele falou que Pequi havia gostado muito de Ceci e como na tribo não existiam mulheres jovens, no futuro eles poderiam casar.
            Ceci ficou muito feliz em ouvir aquilo tudo. Ela sempre sonhou em poder voltar a viver a vida que vivia antes daquele dia em que perdeu toda a sua família. Estar ali, no meio daquela aldeia lhe fazia lembrar de sua infância, da voz de seus pais cantando, até mesmo o cheiro do lugar fazia seu coração doer de saudade, mas era uma saudade gostosa de sentir, que lembrava um tempo muito bom. Ela queria tudo aquilo novamente! Além do mais, ela também tinha gostado muito de Pequi. Ceci só não ficou feliz quando lembrou da amiga amarrada na árvore. E então perguntou:
            - Mas e Eva?
            O cacique respondeu:
            - Ceci, aprenda uma coisa... Nenhum homem branco presta. Nenhum. Eles nos prendem, nos matam. Nos tratam pior do que bichos. Ela não deve gostar de você, homens brancos são falsos.
            - Não cacique, a família de Eva não é falsa. Ela me acolheu quando eu mais precisei.
            - Não! A menina fica. Não faremos mal a ela, mas ela não pode voltar, senão contará aos outros o que aconteceu e eles virão com suas bocas de fogo[1] para nos matar.
            - Mas e se eu não quiser ficar?
            - Você quer ficar Ceci. És uma filha da natureza e ela está te chamando para ficares junto dela. Você não tem escolha. Vai ficar.
            Pequi entrou e disse a Ceci:
            - Ceci, venha, tem uma coisa que quero lhe mostrar.
            Ele queria mostrar a Ceci como atirava bem usando seu arco e flecha. Ele acertou um pássaro em pleno voo e depois atingiu o tronco de uma árvore, exatamente no ponto onde havia dito que acertaria.
Eva ouviu as risadas de Ceci e não conseguia acreditar que a amiga estava se divertindo enquanto ela estava amarrada. Ela observava Pequi ensinando Ceci a atirar com seu arco e não se conformava. Vendo aquilo também Sabú, que estava quase conseguindo tirar a mordaça, meio atrapalhado disse:
            - Temos que conseguir fugir daqui. Eles só podem ter colocado algum encanto na minha irmã.
            Mais tarde Ceci veio disfarçadamente até Eva e disse:
            - Eu tenho um plano, assim que anoitecer eu vou soltar vocês.
            A tribo estava feliz e iam comemorar bebendo uma espécie de Cauim, que era uma bebida feita a partir da fermentação da mandioca ou do milho. Os índios mastigavam os ingredientes e deixavam fermentar por alguns dias. O resultado era uma bebida com certo teor alcoólico que era tomada por eles em dias de festa, como aquele que estavam vivendo com a chegada de Ceci.

            Enquanto isso na comunidade da Barra da Jararaca Matilda e Albert já procuravam pelas crianças, que estavam demorando muito a aparecer.
            Matilda vendo a Bijuca ali quietinha, resolveu tentar dar um comando a ave, mas não sabia se ela iria atender a ela como atendia a sua dona, mesmo assim disse:
            - Bijuca, encontre Eva!.
            E a ave saiu voando, até se perder de vista. Certa de que o pássaro não havia entendido o comando, Matilda continuou a busca pela redondeza.
            Quando a noite caiu, assim como o combinado Ceci foi até Eva. Aparentemente os índios já estavam meio bêbados. Ceci cortou as cordas que prendiam a amiga e o irmão e disse para Eva correr. Ouvindo aquilo Sabú disse:
            - Como assim só a Eva?
            - Nós vamos ficar Sabú. Aqui é o nosso lugar. Essa é a nossa gente.
            - Não, vocês não podem fazer isso – falou Eva, já quase chorando.
            - Eu não vou ficar coisa nenhuma. Você só pode estar louca!
            - Sabú, eu tenho que ficar. A natureza está me chamando.
            - Quem deve estar chamando a gente é a tia Matilda. Deixe de bobeira e vamos embora. - Falou Eva.
            - Eva, você ainda não me entendeu. Eu vou ficar. Aqui é o meu lugar.
            Sabú começou a chorar e dizer:
            - Eu não vou ficar aqui. Eu quero a minha madrinha. Eu quero o tio Albert e a Eva. Eu nem conheço essa gente que tu está chamando de tua Ceci.
            - O Sabú tá certo, vamos Ceci, eles estão olhando para cá.
            - Corram, eu vou ficar.
            Ceci abraçou Eva e Sabú, no mesmo instante que uma flecha passou raspando pelo chapéu de Eva.
            - CORRE! – disse Ceci.
            Eva deu a mão para Sabú e saiu em disparada pelo breu da mata. Eles corriam sem saber ao certo para onde estavam indo, com os índios gritando atrás deles. Era previsível o que iria acontecer e de fato aconteceu, os dois rolaram encosta abaixo.
           
            Eva estava tonta e ouviu um “Gararah, gararah” perto dela; era bijuca. Então, abriu os olhos e percebeu que estava coberta de lama e dor, pelo menos não existia sinal dos índios. O som de Bijuca foi ouvido novamente e guiada pelo barulho Eva a localizou, de pé gritando ao lado de Sabú, que estava caído. Eva levantou o mais rápido que pôde e foi ver como ele estava. Ao chegar perto, percebeu que ele também parecia meio tonto, mas aos poucos foi recuperando a razão. Sabú mal tinha conseguido ficar de pé, quando uma saraivada de flechas começou a cair perto deles. Eles tinham que correr novamente. Do alto da encosta os índios estavam atirando.
            Eva não fazia ideia de onde estavam, então ela olhou pra Bijuca e disse:
            - Nos tire daqui Bijuca.
            A ave olhou para os lados e começou a emitir seu som, guiando Eva e Sabú. Eles estavam machucados e não conseguiam correr muito rápido, porém Bijuca os fez sair da mira dos bugres e guiou-os até o rio, no ponto onde estava o barco, próximo à casa de Heide.
            Eva usou suas últimas forças para remar até o outro lado, com Bijuca berrando, para anunciar o retorno e quando eles estavam quase chegando ouviram Heide gritando:
            - Achei, eles estão aqui Matilda, corra!
            Matilda chegou e pegou Sabú no colo, enquanto Heide acudiu Eva.
            - O que aconteceu, cadê a Ceci? – Perguntou Matilda aos prantos.
            Sabú responde:
            - A Ceci quis viver com os bugres mother.













[1] Como o cacique se referia as armas de fogo

domingo, abril 14, 2019

NÃO VÁ PARA PORTUGAL



Não vá para Portugal, eles roubaram nosso ouro, nosso pau Brasil, mataram nossos índios, mandaram bandidos para cá e ainda nos obrigaram a falar a língua deles.
Porto, Aveiros, Coimbra, Batalha, Fátima, Nazaré, Óbido, Lisboa, Sintra, Cascaes, tudo isso vai te deixar muito desanimado....
Se você for para Porto, pode vir a suspirar pelas construções da Ribeira e ser obrigado a tomar um vinho do porto por lá, com vista para o Rio Douro. Chaaato. Ou podem te fazer comer uma Francesinha, além de ouvir de todos que Porto é muito melhor que Lisboa. Se tiver muito azar mesmo, pode estar sentado em um barzinho da Rua Santa Catarina e passar um terno de reis, cantando músicas tradicionais portuguesas. Nada cultural, desanimador.
Se você insistir nessa viagem, vai estar sujeito a se encantar pelas águas de Averos. Lá eles dizem que a cidade é a Veneza portuguesa. Um pouco de exagero, né? Ela nem cheira como Veneza. Uma cidade linda, limpa, colorida, com as cores refletindo no reflexo da água, aqueles barquinhos circulando pelos canais, aves exuberantes pousadas nos cais. Coisas totalmente sem graça.
Sua teimosia pode te levar até Coimbra e lá é capaz de te bater uma leve vontade de estudar naquela universidade, viver toda aquela energia da vida universitária, que só a cidade que possui uma das mais universidades mais tradicionais do mundo pode te oferecer. Uma bobeira.
Em Batalha você corre o risco de tirar a mandíbula do lugar, de tanto ficar de boca aberta com a arquitetura do mosteiro. Não vale o risco.  
Outra dica muito importante, se você for católico não vá para Fátima, pois aquele local te leva a reflexões profundas. Capaz de te dar vontade de acender uma vela e agradecer pela vida, tamanha a paz que aquele lugar te transmite. O som do sino repicando pode te provocar uma emoção difícil de transcrever em palavras.  
E Nazaré então? Essa sim, não vale a pena! Se você tiver o azar de ir em um dia sem ondas, pode se ver obrigado a ficar do alto de um mirante, sendo obrigado a ficar admirando suas falésias e um pôr do sol sobre o atlântico, que depois será difícil de apagar de sua memória. Deus nos livre.
Em Óbidos, credo! Você vai sentir a sensação de estar andando em uma cidadezinha medieval, quem quer isso? Suas ruas apertadinhas, calçadas com pedras milenares, construções seculares, tudo muito antigo. Ui! Andar em uma cidade cheia de histórias, cercada por uma muralha de proteção que a defendeu de ataques durante séculos? Não quero, obrigada.
E Sintra com aquele monte de castelos? Muita ostentação! Berço de reis e rainhas, pedras que estão lá, amontoadas umas em cima da outras, testemunhando descobertas, mudanças da sociedade, da política, guardando uma história tão rica. Quero é distancia disso.
Cascaes então, aff. Imagina você ter que caminhar por aquela orla? Com aquele monte de  pequenos castelos, pontilhões de pedra, rodas gigantes e um mar de um azul sem igual. Não, não vá. E a Boca do Diabo, como pode uma construção natural daquelas? Certamente aquilo é plágio, não deve ser natural. E lá ainda corre o risco de você ter que ver um pôr-do-sol em Estoril, enquanto um violinista toca no alto de uma construção medieval. Absolutamente dispensável.
E a cereja do bolo para você não ir para Portugal é Lisboa! Ela tem tudo o que a gente não busca em um destino. Cultura, arte, história, arquitetura milenar, sistema de transporte público de qualidade. Quem vai querer ir para um lugar desses? Cheio de ruas históricas, castelos, bibliotecas, sebos, teatros? E aqueles restaurantes? E as cervejarias? Sério, não vá!
Não vá para Portugal, eles vão te obrigar a comer ovos moles, muitos doces e a conhecer um país que é do tamanho do estado do Pernambuco, mas consegue te fazer ficar louco por cada cidade que conhecer. Sério, não vá para Portugal, pois corre o risco de acontecer com você o mesmo que aconteceu comigo. Embarquei para lá sem nenhuma expectativa e voltei completamente apaixonada pela terrinha!
Portugal é demais!!!